Projeto Onçafari: no rastro da onça-pintada

Fantasma é o macho dominante no Refúgio Ecológico Caiman, pousada no Pantanal onde o Projeto Onçafari está realizando o processo de habituação das onças-pintadas (Panthera onca) aos carros de passeio - Foto: Lawrence Weitz

Fantasma é o macho dominante no Refúgio Ecológico Caiman, pousada no Pantanal onde o Projeto Onçafari está realizando o processo de habituação das onças-pintadas (Panthera onca) aos carros de passeio – Foto: Lawrence Weitz

O carro segue em alta velocidade. Nosso guia, Nego, vai no capô, olhando os rastros do animal enquanto indica o caminho que o motorista deve seguir. Os galhos passam rapidamente, próximos à nossas cabeças, e é preciso ser rápido para desviar de todos eles. O objetivo do safári é encontrar o maior felino das Américas. O veículo para em frente a uma lagoa. Nego faz sinal para todos permanecerem em silêncio. “Ela está aqui”. Uma movimentação nos arbustos anuncia a entrada de uma onça-pintada na clareira. Ela para em frente ao nosso carro, olha no olho de cada um e entra na água para matar a sede. Fica conosco por alguns minutos antes de desaparecer entre as árvores novamente.

Essa é uma das experiências mais marcantes da minha carreira de guia no Pantanal. É um desses momentos mágicos, que ficam guardados na memória e voltam à nossa mente de tempos em tempos para nos fazer sorrir. No entanto, fazendeiros abatem os felinos para proteger seus rebanhos e, após décadas de perseguição e caça, a onça se tornou um dos animais mais difíceis de avistar na natureza.

Esperança, uma das onças-pintadas selecionadas pelo Projeto Onçafari para o processo de habituação – Foto: Diogo Lucatelli

Esperança, uma das onças-pintadas selecionadas pelo Projeto Onçafari para o processo de habituação – Foto: Diogo Lucatelli

Para mudar essa história Mario Haberfeld fundou o Projeto Onçafari em 2011.  A ideia é fazer a habituação das onças aos carros de passeio para que elas se comportem da mesma maneira que os felinos da África. O objetivo é atrair mais turistas, aumentar o interesse dos fazendeiros no turismo de observação de animais, gerar novas oportunidades de emprego para as pessoas da região, ajudar na conservação do felino, consequentemente, de seu habitat. “É necessário agregar valor à onça para que ela valha mais viva do que morta.” Afirma.

Uma técnica utilizada com leopardos e leões na África do Sul há 30 anos está sendo adaptada para a onça-pintada no Pantanal. Um animal selecionado é seguido por um rastreador, dia após dia, até que ele pare de considerar o carro como uma ameaça. O ideal é escolher uma fêmea. Quando ela tiver filhotes vai ensinar tudo para os pequenos. Assim, a habituação aos veículos será passada para a próxima geração. O processo não envolve métodos de domesticação (como o oferecimento de comida) e os felinos selecionados permanecem selvagens.

Carro do Projeto Onçafari usado para o processo de habituação das onças-pintadas – Foto: Adam Bannister

Haberfeld trouxe rastreadores da Tracker Academy da África do Sul com a missão de treinar a equipe do projeto na arte de rastrear animais selvagens para facilitar o encontro com o felino. Para Diogo Lucatelli, biólogo e rastreador do Projeto Onçafari, “Conhecer e perceber o ambiente – e o comportamento e as características dos vestígios do animal que será seu alvo – é fundamental”. As onças se movimentam em campos de gramíneas e matas densas com solo coberto por folhas secas, terrenos que dificultam a formação de pegadas. O rastreador pode perder o rastro. Para reencontrá-lo é preciso analisar o local, interpretar os sinais e se colocar na posição do animal que se está rastreando.

Disney Sousa (mais conhecido como Nego), rastreador do Projeto Onçafari (centro) em treinamento com os rastreadores da Tracker Academy da África do Sul – Foto: Projeto Onçafari

Diogo Lucatelli (direita) ensinando a rastrear onças - Foto: Disney Souza

Diogo Lucatelli (direita) ensinando a rastrear onças – Foto: Disney Souza

Todo o processo está sendo realizado no Refúgio Ecológico Caiman (REC), do empresário Roberto Klabin (fundador e presidente da SOS Mata Atlântica e da SOS Pantanal). Câmeras foram instaladas nas árvores para identificar as onças que habitam a fazenda e algumas fêmeas foram capturadas para a instalação de um colar com GPS, para a determinação do território de cada indivíduo. Os animais selecionados para a habituação têm o território dentro do REC. Essa é uma condição essencial, já que a caça – apesar de ilegal – ainda acontece no Pantanal. Fazer a habituação de um felino que pode entrar em outras fazendas seria um risco para o animal. Ele poderia se aproximar dos caçadores e seria um alvo fácil. Tudo está sendo acompanhado pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e pelo Cenap (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos e Carnívoros).

Mario Haberfeld colocando o colar com GPS em uma das onças do Projeto Onçafari- Foto: Divulgação

Segundo Lucatelli o número de encontros com a onça-pintada aumentou após o começo do projeto. Isso pode alavancar o ecoturismo no Pantanal, gerar novos empregos para os moradores locais,  criar mais áreas de proteção para os animais e tornar a observação de fauna em uma atividade rentável que pode ser conciliada com a pecuária extensiva. “Quando se tem uma equipe em campo, que estuda continuamente a vida das onças, particularmente dos indivíduos que residem aqui [no REC], e constrói um relacionamento com elas – dando-lhes nomes e especializando-se cada vez mais em encontrá-las – as possibilidades são enormes”.

O objetivo do Projeto Onçafari é fazer com que as onças-pintadas fiquem tranquilas ao encontrar com um carro cheio de turistas - Foto: Projeto Onçafari

O objetivo do Projeto Onçafari é fazer com que as onças-pintadas fiquem tranquilas ao encontrar com um carro cheio de turistas – Foto: Projeto Onçafari

O documentário Onça-pintada: mais perto do que se pode imaginar (veja o trailer abaixo) registrou todo o processo de habituação e foi lançado em 2014. A ideia é replicar o processo em outras partes do país. “Quanto mais pessoas usarem a ideia mais áreas estarão sendo preservadas” diz Haberfeld.

O Onçafari é um projeto sem fins lucrativos. Para fazer uma doação e ajudar a preservar o Pantanal e a onça-pintada acesse http://projetooncafari.com.br/pt-BR/envolva-se/ajude

Blog: https://projetooncafari.wordpress.com/

Canal no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=s9KZlj_JjMc

Facebook: https://www.facebook.com/Projetooncafari

Sites: http://projetooncafari.com.br/pt-BR/ ou http://www.wconservation.com/

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17 thoughts on “Projeto Onçafari: no rastro da onça-pintada

  1. Botar colar em onças para possibilitar os hóspedes de um hotel 5 estrelas avistarem-nas me parece uma burla à lei. As onças não podem ser perseguidas. Essa colocação de colares é uma agressão. O Ministério Público tem que verificar a legalidade dessa prática, pois nada justifica isso, especialmente porque está atrelada a uma atividade voltada para a exploração econômica que se vale de um ativo público, as onças. A preservação das onças já é objeto de matéria prescrita em lei, não necessita desse tipo de empreendimento. Por que não transformar essa área em uma reserva ou parque aberto ao público? Afinal, o ativo explorado, a onça e os animais selvagens, é público.
    Ou, então, mude-se a lei!

    • Nelson,

      Os colares são usados em estudos científicos para determinar o território de uma espécie e não são ilegais. Projetos de conservação no mundo inteiro usam essa técnica. O objetivo do Onçafari é expandir o projeto para outras fazendas, transformar o ecoturismo em uma atividade rentável para os fazendeiros e, com isso, preservar as onças-pintadas e o Pantanal. Tudo está sendo acompanhado pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e pelo Cenap (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos e Carnívoros).

      • Fábio,
        Os colares são utilizados para localizar os animais para os clientes verem, essa é a verdade. As onças são bens públicos. Não pertencem aos fazendeiros. Estão protegidas por lei. Procurei pelas “pesquisas” na ocasião, liguei para o Cenap, e não encontrei nada para ler a respeito dos resultados e descrições desses “trabalhos científicos” (e se trata de órgão público envolvido…). E, como você reconhece, a atividade do “ecoturismo” é rentável para os fazendeiros, mas o cidadão comum não dispõe de parques ou reservas públicas em que possa ir e ver esses animais. Então, vai ter que pagar para os “fazendeiros” para ver o que é dele… Os “fins” alegados não justificam os meios empregados. Que bom ser rentável para os fazendeiros então, mas qual o benefício para o resto da população do país…? Como ela pode ter acesso ao resultado dessas pesquisas e da aludida “preservação” sem ter que pagar aos fazendeiros…? Deveria existir concessão de exploração e um imposto específico para isso, que permitisse reverter para a preservação e manutenção de parques ecológicos para a população ter acesso, como existem em países desenvolvidos. Hoje, é um privilégio dos fazendeiros.

  2. Gostei muito da reportagem,acho que devemos proteger nossos animais em extinção!
    Parabéns a Fundação onça safari.
    Atenciosamente, Nadia

  3. É isso aí pessoal, parabéns por este trabalho tão maravilhoso. Admiro todos os que de alguma forma auxiliam na preservação desses animais tão ameaçados pelo ‘homem’. Moro em Sinop, Mato Grosso e, fico chocada em ver a dimensão que o desmatamento vem tomando, aqui existem caçadores dos mais diversos tipos, e o incrível é que nenhuma providência é tomada para frear esses assassinos.Abraços.

  4. Que lindo trabalho fico muito feliz quando vejo trabalhos assim tem que preserva pra não ser extinta de vez amei

  5. Parabéns à todos que conceberam e que mantém este projeto!
    É um alento saber da existência do Onçafari , num país onde tudo é devastado, nada é respeitado. Parabéns!!!

  6. Eu apoio essa ideia e dou muito valor pra essa gente que preza a vida estão de parabéns que Deus abençoe cada um de vcs e todos os seus também

  7. Gente vcs arrasam nao deixem esta maravilhosa especie ficar em perigo , amo muito, muito felinos estudo sobre eles e n quero q esta especie fique em perigo , por isso conto com vcs , vcs fazem um lindo trabalho . vcs estao escutando isso de uma garota q so tem 12 anos ! n ligo se meus pais virem o q eu escrevi , no importa a bronca q eu irei levar , eu presisava muito dizer isso , continuem assim .

  8. Juntamente com sua ignorância pseudo-ecológica, o sr. Nelson Borges Neto (que se manifestou aqui) deveria ir plantar batatas.

    • E voce botar um colar “ecológico” para ser monitorado e conduzido de volta para a escola (se é que já foi um dia…) para tentar se educar, e apreender a ler e compreender o que está escrito.

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