Boulders: a colônia de pinguins mais próxima de Cape Town

Colônia de pinguins-africanos em Foxy Beach, parte da colônia de Boulders, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 7 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

Em 1982 dois casais de pinguinfs-africanos chegaram em Boulders buscando um lugar para reprodução. A praia fica em False Bay, entre Simon’s Town e Cape Point, onde grandes rochas de granito fornecem sombra e protegem a enseada de correntes, ventos fortes e ondas grandes. Nos anos seguintes, casais que costumavam se reproduzir em ilhas próximas começaram a se estabelecer no local. Em 2005 a população era de 3 900 aves.

[Veja a introdução da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

[Veja o capítulo 6 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

Pinguins-africanos (Spheniscus demersus) na colônia de Boulders, África do Sul. Devido ao rápido declínio da população, a ave entrou para a Lista Vermelha da IUCN na categoria em perigo em 2010 – Foto: Fábio Paschoal

Porém, segundo o SANParks (South African National Parks), a destruição do habitat, derramamentos de petróleo e outros tipos de poluição marinha, impactos das mudanças climáticas nas populações e nas rotas usadas por peixes, pesca comercial predatória, atividades turísticas irresponsáveis e predação por animais domésticos fizeram com que a população chegasse a 2 200 em apenas 6 anos. O mais triste é que esse número segue caindo.

Apesar disso, Boulders, que faz parte do Parque Nacional da Table Montain (TMNP, na sigla em inglês), é um dos poucos lugares onde é possível ver pinguins-africanos de perto e é a colônia mais próxima à Cidade do Cabo (47 quilômetros aproximadamente).

Pinguim-africano na colônia de Boulders, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Pinguins-africanos na colônia de Boulders, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Pinguim-africano com a muda de penas atrasada – Foto: Fábio Paschoal

Assim como em Stony Point, pagamos a taxa ambiental, que é investida na conservação da espécie, e entramos na reserva (veja o preço no site do TMNP). Passarelas de madeira conduzem até a praia de Foxy Beach onde existe uma grande concentração de pinguins-africanos.

Ao contrário de muitas espécies de aves, os pinguins-africanos têm uma época de reprodução extensa. Na maioria das colônias, aves em algum estágio de reprodução podem ser encontradas durante o ano inteiro. Nós vimos um casal levando material para forrar o ninho, outros chocando os ovos e até pais com filhotes. Também havia um pinguim que não tinha sofrido a muda anual. Suas penas desgastadas estavam quase todas brancas. Ficamos ali por horas.

Pinguim-africano levando material para construir o ninho na colônia de Boulders, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Pinguim-africano com filhote na colônia de Boulders, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Seguimos para praia de Boulders, onde é possível colocar o pé na areia e entrar na água. Aqui é onde vimos problemas. Os turistas têm contato direto com os pinguins. Para voltar para a colônia, as aves precisam passar pela praia repleta de gente.

A maioria quer tirar selfie (o que já pode ser muito estressante para os bichos), mas nós vimos uma menina tacando areia e tentando pegar um pinguim. Renata saiu correndo e deu uma bronca no pai da criança, que deveria controlar e educar a filha. Notificamos os rangers, mas eles não pareciam interessados em fazer nada a respeito. O ideal seria proteger os pinguins nessa parte da praia também.

Praia de Boulders, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Por conta de todos esses motivos, preferimos a visita à colônia de Stony Point, mas se você não tiver tempo suficiente para ir até lá, Boulders vale a visita.

Era hora de ir pra casa, descansar e seguir para o Kirstenbosch National Botanical Garden no dia seguinte

Veja o capítulo 8 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

Veja o Roteiro: 20 dias na África do Sul de carro

DICAS

  • Não alimente os pinguins-africanos ou qualquer outro animal. Eles são selvagens e conseguem arranjar seu próprio alimento.
  • Se estiver em Cape Town, pegue a Chapman’s Peak Drive para chegar ou voltar de Boulders. É uma das estradas mais bonitas da África do Sul.
  • Boulders é mais perto de Cape Town do que Stony Point, mas atrai bem mais turistas.
  • Ao contrário de muitas espécies de aves, os pinguins-africanos têm uma época de reprodução extensa. Na maioria das colônias, aves em algum estágio de reprodução podem ser encontradas durante o ano inteiro.
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Stony Point: a maior colônia de pinguins-africanos de Western Cape

Colônia de pinguins-africanos (Spheniscus demersus) em Stony Point, África do Sul. A parte branca é o guano que começa a se acumular, mas ainda está muito longe de ter o suficiente para as aves escavarem e fazerem ninhos – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 4 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

Localizada na cidade costeira de Betty’s Bay, a cerca de 91 quilômetros da Cidade do Cabo (Cape Town), a Reserva Natural de Stony Point é a maior das cinco principais colônias de pinguins-africanos de Western Cape e a única que mostra um aumento significativo no número de indivíduos, segundo o site da reserva. Atualmente a população de pinguins por aqui (aproximadamente 2 000 casais reprodutores) é maior do que a das três ilhas costeiras mais próximas combinadas. Esses locais eram colônias de reprodução tradicionais que comportavam muitos casais. Assim, Stony Point é muito importante para a conservação da espécie na África do Sul.

[Veja a introdução da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

[Veja o capítulo 3 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

Stony Point Nature Reserve, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Quando um macho de southern rock agama (Agama atra) na coloração azul intensa de reprodução sente uma ameaça, ele deita contra uma rocha e sua pele se torna um pouco mais camuflada – Foto: Fábio Paschoal

Logo que chegamos na reserva vimos uma placa que dizia que os paus de selfie eram proibidos (Ralph disse que as pessoas tentam tirar fotos com os pinguins-africanos e isso estressa muito as aves). Pagamos a taxa ambiental que é investida para a conservação da espécie e entramos na reserva (veja o preço no site de Stony Point) .

Passamos a catraca e começamos a caminhada em uma passarela de madeira elevada que delimita a área para turistas e serve como proteção para os animais.

Pinguins-africanos (em preimeiro plano) e biguás (ao fundo) em Stony Point, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Casal de bank cormorants (à esquerda, inteiramente pretos), cape cormorants (com corpo preto e base do bico amarelo). As duas espécies estão na categoria “Em Perigo” da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês). A terceira espécie da foto é o white breasted cormorant (com pescoço e peito brancos) – Foto: Fábio Paschoal

Cape cormorant (Phalacrocorax capensis) – Foto: Fábio Paschoal

O bank cormorant (Phalacrocorax neglectus), por exemplo, é uma espécie de biguá encontrada no local que é muito sensível à perturbação humana. Ele abandona o ninho quando alguém se aproxima e deixa ovos e filhotes sozinhos. Os pequenos não têm nenhuma chance. Viram presa fácil para as cape gulls (gaivotas do cabo na tradução literal) e qualquer outro predador que esteja por perto.

Entre 1978 e 1997, o distúrbio causado por seres-humanos resultou na perda de quatro colônias, em reduções populacionais em outras seis e colocou a espécie na categoria “Em Perigo” na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês).

O Bank Cormorant Project – uma iniciativa da SANCCOB, Living Coasts e Whitely Wildlife Foundation – foi criada para garantir o futuro da espécie (a população da região Sul da África é de 2 600 casais reprodutores) através da melhoria das taxas de reabilitação, construção de plataformas de reprodução e vigilância de doenças. Enquanto isso, o projeto desenvolve técnicas para reintroduzir as aves criadas em cativeiro em seu habitat natural.

O white brested cormorant (Phalacrocorax lucidus) também nidifica em Stony Point – Foto: Fábio Paschoal

Cape gulls (Larus dominicanus) sobrevoam colônia à espera de pais inexperientes que deixam ovos e filhotes sozinhos – Foto: Fábio Paschoal

Levamos nossos binóculos e, além do bank, vimos crested, white-breasted e cape cormorants. Cape e hartlaub’s gulls, ganso-do-egito e dassies são comuns na área. Assim como lagartos que se esquentam nas rochas. Durante a visita ocorreu um ataque de lobo-marinho-do-cabo a um pinguim-africano. Como lobos e pinguins se alimentam das mesmas coisas, os lobos matam as aves para eliminar a competição.

De qualquer maneira, foi ótimo visitar o local. Stony Point é um dos motivos que fazem a observação de pinguins-africanos na natureza continuar existindo na África. A colônia é um exemplo para ser seguido na luta para salvar a espécie da extinção.

Pinguins-africanos. Como não amar? - Foto: Fábio Paschoal

Pinguins-africanos. Como não amar? – Foto: Fábio Paschoal

Passamos horas observando as aves, mas era hora de se despedir e seguir para nosso próximo destino: o jardim botânico Harold Porter

Veja o capítulo 5 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

Veja o Roteiro: 20 dias na África do Sul de carro

DICAS

  • Não alimente os pinguins-africanos ou qualquer outro animal. Eles são selvagens e conseguem arranjar seu próprio alimento.
  • Stony Point é mais longe de Cape Town do que Boulders, mas atrai bem menos turistase e você tem a possibilidade de ver espécies de biguás que não são encontradas em Boulders.
  • Ao contrário de muitas espécies de aves, os pinguins-africanos têm uma época de reprodução extensa. Na maioria das colônias, aves em algum estágio de reprodução podem ser encontradas durante o ano inteiro.
  • Leve binóculos. Os bank cormorants e os lobos-marinhos-do-cabo estavam na colônia, mas estavam longe. Sem os binóculos não conseguiríamos achá-los.
  •  Aproveite para fazer Stony Point e Harold Porter no mesmo dia. Eles ficam longe de Cape Town, mas próximos entre si.

SANCCOB: a luta para salvar o pinguim-africano da extinção

Pinguim-africano/ African penguin (Spheniscus demersus). Devido ao rápido declínio da população, a ave entrou para a Lista Vermelha da IUCN na categoria em perigo em 2010 – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 3 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

Com sua plumagem preta e branca e seu jeito desengonçado de andar em terra firme, não há como não se apaixonar pelos pinguins. Mas não se engane. Assim que entram no mar eles se transformam completamente. Parecem voar embaixo d’água, perseguindo peixes com uma velocidade impressionante.

[Veja a introdução da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

[Veja o capítulo 2 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

Os pinguis-africanos não são diferentes. Pescam quase que exclusivamente nas águas frias da Corrente de Benguela, podem se juntar em grupos de até 150 indivíduos e cooperam na pescaria. É a única espécie de pinguim que se reproduz no litoral da África, onde são encontrados da Namíbia até a África do Sul, em 28 colônias. Os adultos são residentes, mas alguns movimentos podem ocorrer em resposta a concentração de presas.

O pinguim-africano é a única espécie de pinguim que se reproduz na África. Esses daqui estão na colônia de Boulders Beach, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

No início do século 20 existiam mais de 1 milhão de casais reprodutores na África e a espécie ia bem. Como o número de aves defecando era gigantesco, havia uma grande quantidade de guano (nome dado às fezes das aves que começam a acumular) nas ilhas e no litoral e os pinguins-africanos construiam seus ninhos escavando seus próprios excrementos.

O guano contém altas concentrações de nitrogênio e é um excelente fertilizante. Por isso, começou a ser coletado e usado como adubo em plantações. Com a remoção desse substrato tão importante, os pinguins-africanos passaram a colocar seus ovos em áreas abertas onde eles são mais vulneráveis ​​ao estresse térmico, chuvas e predação. Nessa época a coleta de ovos também não era controlada e a população começou a cair rapidamente.

Sem o guano, muitos pinguins passaram a se reproduzir em local aberto – Foto: Fábio Paschoal

Em 1969 a coleta de ovos foi banida e a raspagem do guano parou em 1991 na África do Sul. Porém, os pinguins-africanos já enfrentavam (e enfrentam até hoje) outros problemas: competição por alimento com as indústria de pesca e derramamento de óleo continuam a causar o declínio da espécie.

Em 2010 a ave entrou para a categoria “Em Perigo” da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas de Extinção da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês). Hoje restam menos de 23.000 casais reprodutores e a população continua a diminuir.

Rocky, um rockhopper penguin que foi resgatado pela SANCCOB e não pôde ser reintroduzido em seu habitat natural. Hoje ele é uma das aves embaixadoras da Ong e ajuda no projeto de educação ambiental – Foto: Fábio Paschoal

SANCCOB

Nossos amigos que moram na Cidade do Cabo (Cape Town), Renata e Ralph, são muito ligados em conservação, especialmente de aves marinhas. Atualmente, Renata trabalha na Fundação Sul Africana para a Conservação de Aves Costeiras (Southern African Foundation for the Conservation of Coastal Birds – SANCCOB) e ela me convidou para conhecer o trabalho da Ong.

A SANCCOB foi criada em 1968 com o objetivo de reverter o declínio das populações de aves marinhas através do resgate, reabilitação e reintrodução de indivíduos doentes, feridos, abandonados e com complicações causadas por derramamento de óleo. O foco principal são espécies ameaçadas de extinção, como o pinguim-africano.

Algumas aves resgatas pelo SANCCOB não podem ser reintroduzidas na natureza. Esse pinguim-africano perdeu um pé e vive em um ninho artificial na Ong. Ninhos como esse foram instalados em algumas colônias para tentar suprir a falta do guano – Foto: Fábio Paschoal

O trabalho da Ong está fundamentado em seis pilares:

  • Resgate: o serviço funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana. Aves marinhas doentes e feridas, e filhotes abandonados são o principal foco. O SANCCOB também responde prontamente a derramamentos de óleo ao longo do litoral sul-africano.
  • Reabilitação e reintrodução: mais de 2400 aves marinhas feridas, doentes e com problemas relacionados a derramamento de óleo são tratadas por ano. Quando estão saldáveis, se tiverem condições, voltam para a natureza.
  • Criação de filhotes abandonados: existe uma unidade especializada que cuida do resgate e criação de ovos e filhotes de pinguins-africanos que foram abandonados pelos pais. Quando as aves estão saudáveis e prontas, são devolvidas para as colônias. Os estudos mostram que a sobrevivência dos filhotes criados pelo SANCCOB após a reintrodução é similar a dos filhotes criados em natureza.
  • Educação ambiental: aulas para crianças e adultos, incluindo visitas às instalações, apresentações e encontros com as aves embaixadoras da Ong podem ser agendados pelo site da SANCCOB
  • Treinamento: a Ong oferece estágios de 3 a 6 meses para adultos. Também há um programa de intercâmbio de tratores de zoológicos e aquários e cursos de veterinária.
  • Pesquisa: Estudos em andamento aumentam a compreensão dos pesquisadores sobre o comportamento, doenças e outros fatores que afetam a sobrevivência das espécies de aves marinhas a longo prazo.

A organização trabalha em estreita colaboração com os administradores das colônias. Quando uma ave precisa de cuidados, é levada para um dos três centros do SANCCOB na África do Sul: Cape Town, Cape St. Francis ou Port Elizabeth.

Num ano normal em que não ocorrem derrames de petróleo, a SANCCOB trata até 2 500 aves marinhas, das quais aproximadamente 1 500 são pinguins-africanos. O restante são diferentes espécies de biguás (incluindo os ameaçados bank cormorant e cape cormorant); várias espécies de trinta-réis; aves pelágicas, como albatrozes, atobás e petréis; piru-pirus, gaivotas, pelicanos e outras aves costeiras encontradas na região. Em média, 24 espécies diferentes de aves marinhas são reabilitadas todos os anos.

Desde sua criação, o SANCCOB já recebeu 95 000 aves marinhas de 54 espécies diferentes. Fica a torcida para que eles continuem com o excelente trabalho para melhorar a situação do simpático pinguim-africano.

Veja o capítulo 4 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

Veja o Roteiro: 20 dias na África do Sul de carro

DICAS

  • Quer ajudar um pinguim-africano? Entre no site da SANCCOB
  • Quer ajudar um pinguim-de-magalhães (muito parecido com o pinguim-africano) no Brasil? veja o vídeo abaixo e entre no site do IPRAM (Instituto de Pesquisa e Reabilitação de Animais Marinhos)

Carta de amor ao Pantanal

Nascer do sol no Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 15 da série Pantanal: Terra das Águas

Essa parte da minha vida se chama Pantanal, e envolve abrir mão de coisas importantes como família e amigos. Mas também inclui sair da minha zona de conforto e experimentar o desconhecido, estar em contato com a natureza e aprender coisas novas a todo o momento, acordar sem saber como vai ser o dia, mas saber que o dia será fantástico e, de quebra, conhecer um dos lugares mais extraordinários do planeta.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 14 da série Pantanal: Terra das Águas]

Temporada de cheia no Pantanal – Fábio Paschoal

A grama alta dificulta a observação de animais na temporada de cheia. Alguns mamíferos procuram terras mais elevadas e deixam o Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

Viver no Pantanal é uma experiência única. É enfrentar o Sol forte da temporada de seca e os campos alagados da temporada de cheia. É andar a cavalo nos finais de tarde e ver o pôr do sol mais incrível da sua vida. É conviver com os pantaneiros, esse povo maravilhoso, e participar de muitas rodas de tereré. É comer chipa, sopa paraguaia, arroz carreteiro, macarrão tropeiro e churrasco feito com angico-vermelho.

É admirar a floração das piúvas e sentir-se em um conto de fadas. É olhar o reflexo das nuvens nas baías e pensar que existe céu aqui na Terra. É nadar no rio e, de vez em quando, fugir das ariranhas. É encontrar uma infinidade de olhos de jacarés brilhando em uma focagem noturna e comparar com as estrelas. É contemplar a Via Láctea e enxergar claramente as constelações.

A floração das piúvas é um dos eventos mais bonitos da temporada de seca – Foto: Fábio Paschoal

Passeio a cavalo com a equipe de guias da Caiman em 2009. Foi uma honra fazer parte desse time – Foto: Fábio Paschoal

É ouvir o grito dos bugios de manhã e dar risada com o canto do sapinho-fórmula-um à noite. É avistar um tuiuiú voando e se espantar com seu tamanho. É observar a arara-azul e se encantar com suas cores. É ficar contra o vento e chegar pertinho do tamanduá-bandeira. É olhar no olho da onça-pintada e ter a certeza de que algo mágico está acontecendo.

Mas acima de tudo, viver no Pantanal é perceber que nós, seres humanos, podemos conviver em harmonia com a natureza.

A maior arara do mundo (Anodorhynchus hyacinthinus) era extremamente rara. Em 1990 a população era de 1500 indivíduos, mas o Projeto Arara Azul mudou esse cenário. Hoje existem mais de 5000 araras colorindo o céu do Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

Onça-pintada, o terciro maior felino do mundo, avistada em um safári no Pantanal - Foto: Fábio Paschoal

Infelizmente, fazendeiros abatem a onça-pintada para proteger seus rebanhos. No Pantanal, o Projeto Onçafari tenta salvar a espécie através do ecoturismo, mostrando que o felino tem mais valor se permanecer vivo – Foto: Fábio Paschoal

Foi aqui que descobri meu amor pela vida selvagem e minha paixão pelo trabalho de guia. Também conheci pessoas incríveis, dispostas a sacrificar a vida pela conservação. Gente que me faz acreditar que ainda há esperança para a Terra. Mas sinto que está na hora de procurar novos caminhos.

Saio daqui com as esperanças renovadas e com a certeza de que voltarei. O Pantanal vai deixar saudades, mas estará sempre vivo na minha memória e no meu coração.

Pantanal, eu temo! Até a próxima.

Equipe de guias da Caiman em 2013. Foi uma honra fazer parte desse time – Foto: Fábio Paschoal

Projeto Onçafari: no rastro da onça-pintada

Fantasma é o macho dominante no Refúgio Ecológico Caiman, pousada no Pantanal onde o Projeto Onçafari está realizando o processo de habituação das onças-pintadas (Panthera onca) aos carros de passeio - Foto: Lawrence Weitz

Onça-pintada no Refúgio Ecológico Caiman, Pantanal, onde o Projeto Onçafari faz a habituação dos felinos aos carros de passeio – Foto: Lawrence Weitz

Capítulo 14 da série Pantanal: Terra das Águas

O carro segue em alta velocidade. Nosso guia, Nego, vai no capô, olhando os rastros do animal enquanto indica o caminho que o motorista deve seguir. Os galhos passam rapidamente, próximos à nossas cabeças, e é preciso ser rápido para desviar de todos eles. O objetivo do safári é encontrar o maior felino das Américas. O veículo para em frente a uma lagoa. Nego faz sinal para todos permanecerem em silêncio. “Ela está aqui”. Uma movimentação nos arbustos anuncia a entrada de uma onça-pintada na clareira. Ela para em frente ao nosso carro, olha no olho de cada um e entra na água para matar a sede. Fica conosco por alguns minutos antes de desaparecer entre as árvores novamente.

Essa é uma das experiências mais marcantes da minha carreira de guia no Pantanal. É um desses momentos mágicos, que ficam guardados na memória e voltam à nossa mente de tempos em tempos para nos fazer sorrir. No entanto, fazendeiros abatem os felinos para proteger seus rebanhos e, após décadas de perseguição e caça, a onça se tornou um dos animais mais difíceis de avistar na natureza.

Esperança, uma das onças-pintadas selecionadas pelo Projeto Onçafari para o processo de habituação – Foto: Diogo Lucatelli

Esperança, uma das onças-pintadas selecionadas pelo Projeto Onçafari para o processo de habituação – Foto: Diogo Lucatelli

Para mudar essa história Mario Haberfeld fundou o Projeto Onçafari em 2011. A ideia é fazer a habituação das onças aos carros de passeio para que elas se comportem da mesma maneira que os felinos da África. O objetivo é atrair mais turistas, aumentar o interesse dos fazendeiros no turismo de observação de animais, gerar novas oportunidades de emprego para as pessoas da região, ajudar na conservação do felino, consequentemente, de seu habitat. “É necessário agregar valor à onça para que ela valha mais viva do que morta.” Afirma.

Uma técnica utilizada com leopardos e leões na África do Sul há 30 anos está sendo adaptada para a onça-pintada no Pantanal. Um animal selecionado é seguido por um rastreador, dia após dia, até que ele pare de considerar o carro como uma ameaça. O ideal é escolher uma fêmea. Quando ela tiver filhotes vai ensinar tudo para os pequenos. Assim, a habituação aos veículos será passada para a próxima geração. O processo não envolve métodos de domesticação (como o oferecimento de comida) e os felinos selecionados permanecem selvagens.

Carro do Projeto Onçafari usado para o processo de habituação das onças-pintadas – Foto: Adam Bannister

Haberfeld trouxe rastreadores da Tracker Academy da África do Sul com a missão de treinar a equipe do projeto na arte de rastrear animais selvagens para facilitar o encontro com o felino. Para Diogo Lucatelli, biólogo e rastreador do Projeto Onçafari, “Conhecer e perceber o ambiente – e o comportamento e as características dos vestígios do animal que será seu alvo – é fundamental”. As onças se movimentam em campos de gramíneas e matas densas com solo coberto por folhas secas, terrenos que dificultam a formação de pegadas. O rastreador pode perder o rastro. Para reencontrá-lo é preciso analisar o local, interpretar os sinais e se colocar na posição do animal que se está rastreando.

Disney Sousa (mais conhecido como Nego), rastreador do Projeto Onçafari (centro) em treinamento com os rastreadores da Tracker Academy da África do Sul – Foto: Projeto Onçafari

Diogo Lucatelli (direita) ensinando a rastrear onças - Foto: Disney Souza

Diogo Lucatelli (direita) ensinando a rastrear onças – Foto: Disney Souza

Todo o processo está sendo realizado no Refúgio Ecológico Caiman (REC), do empresário Roberto Klabin (fundador e presidente da SOS Mata Atlântica e da SOS Pantanal). Câmeras foram instaladas nas árvores para identificar as onças que habitam a fazenda e algumas fêmeas foram capturadas para a instalação de um colar com GPS, para a determinação do território de cada indivíduo. Os animais selecionados para a habituação têm o território dentro do REC. Essa é uma condição essencial, já que a caça – apesar de ilegal – ainda acontece no Pantanal. Fazer a habituação de um felino que pode entrar em outras fazendas seria um risco para o animal. Ele poderia se aproximar dos caçadores e seria um alvo fácil. Tudo está sendo acompanhado pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e pelo Cenap (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos e Carnívoros).

Mario Haberfeld colocando o colar com GPS em uma das onças do Projeto Onçafari- Foto: Divulgação

O objetivo do Projeto Onçafari é fazer com que as onças-pintadas fiquem tranquilas ao encontrar com um carro cheio de turistas – Foto: Projeto Onçafari

Segundo Lucatelli o número de encontros com a onça-pintada aumentou após o começo do projeto. Isso pode alavancar o ecoturismo no Pantanal, gerar novos empregos para os moradores locais, criar mais áreas de proteção para os animais e tornar a observação de fauna em uma atividade rentável que pode ser conciliada com a pecuária extensiva. “Quando se tem uma equipe em campo, que estuda continuamente a vida das onças, particularmente dos indivíduos que residem aqui [no REC], e constrói um relacionamento com elas – dando-lhes nomes e especializando-se cada vez mais em encontrá-las – as possibilidades são enormes”.

Para mim, que comecei a guiar na Caiman antes da existência do Onçafari, a diferença do antes e depois é gritante (no vídeo abaixo falo mais sobre isso). Não só o número de avistamento aumentou, mas a qualidade também cresceu muito. Antes nós comemorávamos quando uma onça passava na frente do caminhão. Hoje nós estamos descobrindo novos comportamentos, conhecendo a personalidade de cada felino e escolhendo nossas onças preferidas. É fantástico!

O documentário Onça-pintada: mais perto do que se pode imaginar (veja o trailer abaixo) registrou todo o processo de habituação e foi lançado em 2014. A ideia é replicar o processo em outras partes do país. “Quanto mais pessoas usarem a ideia mais áreas estarão sendo preservadas” diz Haberfeld.

Veja o capítulo 15 da série Pantanal: Terra das Águas

O Onçafari é um projeto sem fins lucrativos. Para fazer uma doação e ajudar a preservar o Pantanal e a onça-pintada acesse http://projetooncafari.com.br/pt-BR/envolva-se/ajude

Blog: https://projetooncafari.wordpress.com/

Canal no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=s9KZlj_JjMc

Facebook: https://www.facebook.com/Projetooncafari

Sites: http://projetooncafari.com.br/pt-BR/ ou http://www.wconservation.com/Salvar

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BIG 7: os sete animais mais desejados nos safáris do Kruger

De densas florestas até os desertos mais secos, de montanhas elevadas até as areias das praias. O elefante-africano (Loxodonta africana) é encontrado em 37 países diferentes na África. Porém, isso não significa que se encontra em boas condições. A perda e a fragmentação do habitat e os caçadores, que procuram o marfim para vender no mercado negro, são ameaças constantes ao maior animal terrestre do planeta. No entanto, as reservas e os parques nacionais oferecem refúgios para esses animais, e a população segue aumentando.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): espécie vulnerável – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 18 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Leopardo, elefante, rinoceronte, leão e búfalo. Eles são conhecidos como os cinco grandes (Big 5) e eram considerados os animais mais difíceis de serem caçados na África. Hoje, se transformaram nas estrelas mais desejadas e fotografadas pelos turistas nos safáris africanos e muitos dos passeios são direcionados para a observação dessas espécies (ainda é possível encontrar reservas de caça no país, mas isso é assunto para outro post). No Kruger National Park, na África do Sul, como o guepardo e o cachorro-selvagem também são muito desejados pelos turistas (e não são tão difíceis de encontrar), eles criaram os sete grandes (Big 7)

[Veja a introdução e o sumário da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

[Veja o capítulo 17 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

As operadoras de turismo se apropriaram do termo, usado somente por caçadores anteriormente, para campanhas de marketing. E o negócio deu certo. As pessoas ficam tão obcecadas pelos Big 7 que esquecem que o Kruger tem muito mais a oferecer.

O leão (Phantera leo) é o mais social de todos os felinos. Fêmeas da mesma família formam bandos, enquanto os machos se unem em coalizações para tentar conquistar um bando. Caçam de forma cooperativa e podem derrubar presas grandes, como girafas, búfalos, hipopótamos e até elefantes. Mas também se alimentam de animais de pequeno porte e, em situações de desespero, podem comer carniça. São caçados em retaliação pela morte de pessoas e do gado na África. Seus ossos também podem ser vendidos para a fabricação de medicamentos. Eles entram como substitutos dos ossos de tigre que se tornam cada vez mais raros.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): vulnerável – Foto: Fábio Paschoal

O rinoceronte-branco (Ceratotherium simum) vive nas savanas africanas, onde se alimenta de quase que exclusivamente de grama. Os chifres dos animais – feitos de queratina (mesma substância encontrada em nossas unhas) – são utilizados na medicina chinesa para o tratamento de doenças, incluindo o câncer. A caça ilegal para abastecer esse mercado, mesmo sem estudos que comprovem a eficácia do tratamento, é a principal ameaça enfrentada pela espécie.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): espécie quase ameaçada- Foto: Fábio Paschoal

Um dos animais mais furtivos da África, o leopardo (Panthera pardus) anda em seu habitat como um fantasma. Sua população é maior que o dobro das populações de leões e guepardos juntas. No entanto, é muito mais difícil ver um leopardo em um safári do que qualquer outro grande felino. A conversão de seu habitat em plantações e pasto, a retaliação de fazendeiros que querem proteger seus rebanhos e a competição com humanos por presas fazem com que a população da espécie siga diminuindo. Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): espécie quase ameaçada - Foto: Fábio Paschoal

Um dos animais mais furtivos da África, o leopardo (Panthera pardus) anda em seu habitat como um fantasma. Sua população é maior que o dobro das populações de leões e guepardos juntas. No entanto, é muito mais difícil ver um leopardo em um safári do que qualquer outro grande felino. A conversão de seu habitat em plantações e pasto, a retaliação de fazendeiros que querem proteger seus rebanhos e a competição com humanos por presas fazem com que a população da espécie siga diminuindo.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): espécie quase ameaçada – Foto: Fábio Paschoal

Os búfalos-africanos (Syncerus caffer) machos (foto) podem pesar duas vezes mais do que as fêmeas, possuem chifres mais robustos e pescoços mais grossos. Quando há abundância de comida os animais formam grupos de até 2 mil indivíduos, mas quando chega a temporada de seca a manada se dispersa. Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): pouco preocupante - Foto: Fábio Paschoal

Os búfalos-africanos (Syncerus caffer) machos (foto) podem pesar duas vezes mais do que as fêmeas, possuem chifres mais robustos e pescoços mais grossos. Quando há abundância de comida os animais formam grupos de até 2 mil indivíduos, mas quando chega a temporada de seca a manada se dispersa.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): pouco preocupante – Foto: Fábio Paschoal

Durante a evolução o guepardo (Acinonyx jubatus), se tornou o mamífero terrestre mais rápido do planeta. Essa especialização trouxe desvantagens na hora de proteger o alimento e os filhotes. Frequentemente as presas caçadas por guepardos são roubadas por predadores maiores e, em algumas áreas da África, a mortalidade de filhotes chega a 95%. A maioria das perdas é causada por leões.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): vulnerável – Foto: Fábio Paschoal

Também conhecido como mabeco ou cão-selvagem-africano, o cachorro-selvagem (Lycaon pictus) é o predador mais eficiente entre os mamíferos da África. Em algumas regiões a taxa de sucesso em caçadas é de 90%. Nenhum outro grande predador africano é tão bem sucedido quanto os cachorros-selvagens. A fragmentação do habitat e conflitos com humanos são as principais ameaças enfrentadas pela espécie.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): espécie ameaçada- Foto: Fábio Paschoal

Apesar de não gostar do termo, os sete grandes são fantásticos, e observá-los na natureza é uma experiência inesquecível. Não foi difícil completar a lista. Mas lembre-se, o Kruger é muito mais do que os Big 7.

Não perca o capítulo 19 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Veja o Roteiro: 20 dias na África do Sul de carro

DICAS

  • Não gaste todo o seu tempo procurando os Big 7. Quando você foca em apenas sete espécies acaba perdendo tempo para rastreá-las. Animais, que podem ser muito mais interessantes do que as estrelas dos safáris africanos, acabam sendo deixados de lado. Não se esqueça: a África tem muito mais a oferecer.

PARA QUEM GOSTA DE COMPLETAR LISTAS

  • Menos explorados pelas operadoras de turismo, os cinco pequenos (Little 5) são animais com nomes em inglês que correspondem aos Big 5: Rhinoceros Beetle (besouro rinoceronte, na tradução literal), Buffalo Weaver (Búfalo tecelão, na tradução literal), Elephant Shrew (musaranho elefante, na tradução literal), Leopard Tortoise (jabuti leopardo, na tradução literal) e Ant Lion (formiga leão, na tradução literal).
  • Em minha primeira viagem à África, fui apresentado aos cinco feios: marabu, abutre, javali, hiena e gnu (Veja o post Ugly 5, os animais mais feios da África)
  • No Brasil, algumas operadoras de turismo criaram os Big 5 brasileiros para tentar promover o ecoturismo no país. Não existe consenso, mas os integrantes mais comuns são: onça-pintada, tamanduá-bandeira, anta, lobo-guará e ariranha.

H1-2/H4-1: a rota com maior concentração de leopardos do Kruger

Leopardo/ Leopard (Panthera pardus )  Um dos animais mais furtivos da África, o leopardo anda em seu habitat como um fantasma. Sua população é maior que o dobro das populações de leões e guepardos juntas. No entanto, é muito mais difícil ver um leopardo em um safári do que qualquer outro grande felino – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 8 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Camuflado, com garras afiadas e reflexos apurados. Move-se com cautela. Calcula cada passo. Mesmo no chão repleto de folhas secas nenhum barulho é perceptível. Ele está lá, mas é praticamente impossível avistá-lo. Anda pelo ambiente como se fosse um fantasma e, quando menos se espera, parte para o ataque. O leopardo é um especialista na arte da caça e fará qualquer coisa para matar sua presa.

[Veja a introdução e o sumário da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

[Veja o capítulo 7 da série Kruger: guia prático para organizar eu primeiro safári na África do Sul]

Um dos bichos que a Vanessa mais queria ver era o leopardo. Sabíamos que nossa melhor chance de encontrar o felino era no começo da manhã. Por isso, saímos assim que os portões do acampamento se abriram, às 4h30. O objetivo era fazer o triângulo formado pelas estradas H1-2, H12 e H4-1: a rota com maior concentração de leopardos do Kruger, segundo o guia Kruger Park – Map & Guide.

Não havia nem sinal do sol no horizonte quando comecei a dirigir. Fomos bem devagar olhando em cada arbusto, atento para qualquer movimento fora do comum. Como tudo estava tranquilo, paramos para ver algumas aves.

Abelharuco-carmim/ Carmine bee eater (Merops nubicoides). Persegue insetos e os apanha em pleno voo. As abelhas estão entre as principais presas. A ave agarra os insetos com o bico, pousa em um galho e começa a bater até que o ferrão se desprenda. Após se certificar que o veneno não entrará em sua corrente sanguínea, ele faz o seu almoço – Foto: Fábio Paschoal

Foi quando um carro passou por nós e parou mais à frente. No Kruger, a maioria dos turistas está em busca dos Big 7 e não se interessa por observação de aves. Olhei para Vanessa e não foi preciso dizer nada. Engatei a primeira e acelerei! Eles estavam vendo alguma coisa e nós não queríamos perder a oportunidade.

Antes mesmo de parar, vi a silhueta de um felino andando atrás da grama alta: “Leopardo! Leopardo! Leopardo!” posicionei o carro para ficar de frente para uma abertura no mato, pegamos os binóculos e esperamos. A adrenalina correndo nas veias, o coração batendo mais forte. Era uma emoção muito grande! Será que ele iria pro aberto?

Rota H1-2/ H4-1 em azul. A seta verde indica o local onde vimos o leopardo (clique no mapa para ampliar)

E ele apareceu, exibindo suas rosetas pretas e a pelagem amarela. Andou  pela abertura e desapareceu sem deixar rastro. Foi um momento tão breve, mas uma sensação tão intensa. É inexplicável. Você só consegue entender esse sentimento quando observa um animal selvagem na natureza. Que experiência fantástica!

Nessa rota ainda vimos cachorros-selvagens-africanos tentando caçar impalas, hiena, elefantes e muitos abelharucos (carmim, europeu e de testa branca).

Abelharuco-de-testa-branca/White fronted bee eater (Merops bullockoides), no Kruger, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Ainda era cedo quando terminamos a rota. Decidimos pegar outra estrada e continuar o safári da manhã.

Veja o capítulo 9 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Veja o Roteiro: 20 dias na África do Sul de carro

Para saber mais sobre leopardos acesse os posts:

DICAS

  • Faça a rota H1-2/H4-1: Como é um caminho curto pode ser feita tanto de manhã quanto à à tarde
  • Ande devagar para procurar bichos: Não se apresse, dirija com calma olhando para os dois lados. A chance de ver um leopardo é grande por aqui
  • Desconfie de carros parados: a maioria dos turistas só quer saber dos Big 7 do Kruger (leopardo, leão, rinoceronte, elefante, búfalo, guepardo e cachorro-selvagem) e de outros grandes mamíferos. Se estiver observando algum bicho que não é tão difícil de encontrar, não pense duas vezes: chegue próximo do carro para checar o que o pessoal está vendo.

Projeto Arara Azul: da beira da extinção aos céus do Pantanal

Arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus), a maior arara do mundo – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 7 da série Pantanal: Terra das águas

Pantanal, 1989. A bióloga Neiva Guedes acompanhava um curso de conservação da natureza quando se deparou com uma árvore repleta de aves. O bando era majestoso, composto por cerca de trinta indivíduos que coloriam a paisagem com um azul vibrante. Os olhos, negros, eram destacados por um anel amarelo de cor intensa e o bico era extremamente forte, capaz de quebrar a casca das mais duras sementes. Pela primeira vez na vida, Neiva se deparava com a maior arara do mundo, a arara-azul.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 6 da série Pantanal: Terra das Águas]

Mas aquela era uma cena rara. O desmatamento derrubava acuris e bocaiuvas, as palmeiras responsáveis pela produção das sementes que servem de alimento para arara-azul. O manduvi, árvore de cerne macio que abriga mais de 90% dos ninhos da espécie, dava lugar a pastos e plantações.

Traficantes de animais escalavam as árvores que permaneciam de pé para pegar os filhotes e vendê-los, principalmente no exterior. Os animais eram transportados em caixas pequenas e superlotadas, sem água e sem comida. O estresse era grande e, na briga por espaço, as ararinhas acabavam mutiladas ou mortas. Algumas aves eram forçadas a consumir bebidas alcoólicas para se acalmar, enquanto outras recebiam um soco, para quebrar osso esterno e impossibilitá-las de cantar. A arara-azul estava à beira da extinção.

Traficantes colocam os filhotes de arara-azul em caixas superlotadas. O estresse é muito grande e muitos acabam morrendo. Segundo o 1º Relatório Nacional Sobre o Tráfico da Fauna Silvestre elaborado pela RENCTAS (Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais) de cada 10 animais capturado pelo tráfico 9 acabam morrendo – Foto Neiva Guedes

Em 1990 Neiva iniciou o Projeto Arara Azul. Com o objetivo de manter populações viáveis da espécie em vida livre no seu habitat natural e promover a conservação da biodiversidade do Pantanal, a bióloga começou a mudar a história da espécie.

A arara-azul passou a ser minuciosamente estudada. Dados sobre a biologia e reprodução eram coletados diariamente, a saúde dos filhotes era monitorada, ninhos artificiais foram instalados para aumentar a quantidade de locais disponíveis para a postura de ovos, tábuas foram colocadas em ninhos naturais que apresentavam uma abertura muito grande, deixando os filhotes mais protegidos contra predadores e as intempéries do tempo.

Em paralelo um trabalho de educação ambiental era desenvolvido nas escolas, informando às crianças das ameaças do desmatamento e do tráfico de animais. As pessoas passaram a ter orgulho das aves e informavam o projeto da localização de novos ninhos. O tráfico passou a ser quase inexistente.

Em 22 anos a população, que era de 1.500 indivíduos, chegou a mais de 5000, a arara-azul saiu da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção e voltou a pintar os céus do Pantanal.

Neiva Guedes, bióloga fundadora do Projeto Arara Azul e pesquisadora da Uniderp, mostrando ovo e filhote de arara-azul com 10 dias – Foto: Eveline Guedes

Hoje, o monitoramento continua durante o ano inteiro. Na época de reprodução (julho a março) o trabalho é intensificado. O desenvolvimento dos filhotes é acompanhado por biólogos e veterinários que verificam os aspectos sanitários, anilham, colocam microchip e coletam amostras de material biológico e sangue para análise de DNA. O manejo dos ninhos, naturais e artificiais, é feito entre abril e junho. Todo o processo pode ser acompanhado pelos turistas que se hospedam no Refúgio Ecológico Caiman, onde está localizada a base do Projeto Arara Azul.

A bióloga Daphne Nardi checa as condições de saúde de um filhote de arara-azul – Foto: Fábio Paschoal

Kefany Ramalho, bióloga do Projeto Arara Azul, verifica as condições de um filhote que nasceu em um ninho artificial – Foto: Fábio Paschoal

Mas há muito trabalho pela frente. Neiva diz que é necessário que as populações da Amazônia (aproximadamente 500 indivíduos) e do Nordeste (aproximadamente 1000 indivíduos) sejam estudadas e que haja um monitoramento de longo prazo em todas as regiões do país onde a ave ocorre, para verificar se o crescimento da espécie é sustentável ou se está acontecendo somente pelas ações realizadas pelo projeto.

Segundo Neiva, a espécie ainda é classificada vulnerável pela lista vermelha da IUCN (União Internacional pela Conservação da Natureza na sigla em inglês). Assim, os esforços do Projeto Arara Azul continuam para tentar mudar esse status.

A bióloga acha que é preciso uma fiscalização mais efetiva para controlar o tráfico no norte e nordeste do Brasil. Ela acredita que as regiões onde as araras-azuis se encontram podem ser beneficiadas pelo ecoturismo, que traz novas oportunidades de emprego para as pessoas da região, gera renda e ativa a economia local. “Creio que um dia a arara-azul sai da lista.”

Veja o capítulo 8 da série Pantanal: Terra das Águas

Os filhotes de arara-azul que estavam amontoados na caixa foram encaminhados para o Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS), onde receberam os devidos cuidados. Segundo Neiva Guedes essa foi a última apreensão de araras-azuis no Mato Grosso do Sul e ocorreu em 2004 – Foto: Neiva Guedes

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Anta: o maior mamífero terrestre da América do Sul

Anta-sul-americana (Tapirus terrestris) – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 6 da série Pantanal: Terra das águas

Existem 5 espécies de antas conhecidas pela ciência: a anta-da-montanha (Andes), a anta-centro-americana (América Central) e a anta-malaia (Indonésia) – que estão ameaçadas de extinção segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês). Em território brasileiro encontramos a anta-sul-americana, que é considera vulnerável, e a anta-pretinha, descoberta recentemente.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 5 da série Pantanal: Terra das Águas]

“A anta [Tapirus terrestris] é o maior mamífero terrestre da América do Sul. Além disso, é a jardineira de nossas florestas por ser uma excelente dispersora de sementes, contribuindo desta forma para a formação e manutenção da biodiversidade dos biomas brasileiros onde vive (Amazônia, Pantanal , Cerrado e Mata Atlântica). E tem mais: estudos recentes mostraram que a espécie tem uma quantidade imensa de neurônios, confirmando que ela é um animal extremamente inteligente. Portanto, a cultura brasileira de usar anta como xingamento, com conotação pejorativa, é completamente injusta e absolutamente infundada. Ser chamado de anta é um elogio!”. As palavras são de Patrícia Médici, Ph.D. em manejo de biodiversidade e coordenadora da Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira. O objetivo do projeto é estabelecer um programa de pesquisa e conservação da anta-sul-americana na região do Pantanal e depois expandir as ações para a Amazônia e o Cerrado.

Anta-centro-americana (Tapirus bairdii) – Foto: Santhosh Kumar/iStock/Thinkstock

Anta-centro-americana (Tapirus bairdii) – Foto: Santhosh Kumar/iStock/Thinkstock

Em agosto de 2013, a pesquisadora, em parceria com a jornalista ambiental Liana John, lançou a campanha Minha Amiga é uma Anta, desenvolvida para o público infanto-juvenil (veja o vídeo da campanha no final do post). A intenção era chamar a atenção sobre a importância da conservação da anta brasileira, despertar o orgulho pela ocorrência da espécie no Brasil e desmistificar o conceito de que “anta” é um ser desprovido de inteligência .

É possível baixar a cartilha educativa da anta brasileira, escrita por Liana John e Patrícia Medici e ilustrada pelo cartunista Luccas Longo, com informações sobre a espécie, materiais para estudo e trabalhos de escola, fotografias e ilustrações.

Tapirus kabomani é a primeira espécie de anta descoberta após Tapirus bairdii, descrita em 1865 - Foto: Divulgação

A anta-pretinha (Tapirus kabomani) é a primeira espécie de anta descoberta após Tapirus bairdii, descrita em 1865 – Foto: Divulgação

O trabalho de Patrícia é reconhecido internacionalmente. Ela foi escolhida em 2014 para o TED Fellows Program, que seleciona jovens inovadores, engajados e inspiradores e os treina para que façam palestras no TED Talks (Veja a palestra de Patrícia no final do post). O programa é uma iniciativa do movimento global TED (Technology, Entertainment and Design) – organização sem fins lucrativos dedicada ao conceito baseado em Ideas Worth Spreading (ideias que merecem ser espalhadas, na tradução literal do inglês).

Anta-da-montanha (Tapirus pinchaque) – Foto: Diego Lizcano/Creative Commons

Anta-da-montanha (Tapirus pinchaque) – Foto: Diego Lizcano/Creative Commons

Para chamar a atenção para a importância desses animais foi criado o Dia Mundial da Anta (27 de abril). Apesar de dar margem para inúmeros trocadilhos, a data tem um propósito sério: a conservação das cinco espécies de antas encontradas no planeta.

O desmatamento, a fragmentação do habitat, a competição com animais domésticos, a caça ilegal e os atropelamentos em rodovias fazem com que a população das antas continue diminuindo. Nada mais justo do que um dia para lembrar a importância de cuidar bem desses simpáticos animais

Veja o capítulo 7 da série Pantanal: Terra das Águas

Anta-malaia (Tapirus indicus) – Foto: wathanyu/iStock/Thinkstock

Anta-malaia (Tapirus indicus) – Foto: wathanyu/iStock/Thinkstock

Veja abaixo o vídeo da campanha Minha Amiga é uma Anta

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TripAdvisor para de vender ingressos de atrações turísticas que envolvem crueldade com animais

Elefantes usados para levar turistas em Ayutthaya, Tailândia - Foto: Diego Delso, Wikimedia Commons, License CC-BY-SA 3.0

Elefantes usados para levar turistas em Ayutthaya, Tailândia – Foto: Diego Delso, Wikimedia Commons, License CC-BY-SA 3.0

O TripAdvisor, um dos maiores portais de turismo do mundo, anunciou nesta semana que irá parar de vender ingressos para atrações turísticas que envolvem contato com animais selvagens ou espécies ameaçadas de extinção.

Ingressos para excursões montadas em elefantes, selfies com tigres e natação com golfinhos – atividades em que, na maioria das vezes, os animais sofrem maus tratos quando não estão sendo observados pelos turistas – irão desaparecer do site completamente em 2017.

Filhote de tigre em cativeiro no Sri Racha Tiger Zoo, Tailândia - Foto: World Animal Protection

Filhote de tigre em cativeiro no Sri Racha Tiger Zoo, Tailândia – Foto: World Animal Protection

[Veja o post Expondo as selfies com tigres: relatório revela crueldade com os felinos usados na indústria do entretenimento]

“Parabenizamos a TripAdvisor por dar esse importante passo pelo fim da indústria de entretenimento cruel com animais silvestres”, afirmou  Steve McIvor, CEO da Proteção Animal Mundial em nota da Ong responsável pela campanha Silvestres. Não entretenimento, que tem como objetivo parar a venda e a promoção de locais de entretenimento que maltratam animais selvagens por agências de viagens (principalmente a TripAdvisor).

Vamos parar de vender atrações que envolvam contacto com animais selvagens em cativeiro ou com espécies ameaçadas de extinção. Mais informações: https://t.co/rE2CyYbUaq (Twiiter da TripAdvisor@TripAdvisor)

“O TripAdvisor também se compromete a desenvolver e lançar um portal de educação ligado a cada atração animal listado no TripAdvisor. O portal irá fornecer links e informações sobre práticas de bem-estar animal, ajudando os viajantes a escrever comentários mais embasados sobre a experiência, além de fornecer opiniões  [de especialistas em animais selvagens] sobre as implicações  e benefícios de conservação de algumas atrações turísticas. Por sua vez, o TripAdvisor acredita que melhores comentários permitirão que os turistas tomem decisões mais embasadas na hora de reservar uma atração e irão melhorar os padrões de cuidados com animais no setor do turismo em todo o mundo”, diz o comunicado da TripAdvisor.

A iniciativa da TripAdvisor não resolve o problema. Para que ocorra uma mudança significativa é necessário que as empresas parem de fornecer atrações que envolvam maus tratos com animais, que o governo fiscalize e multe as atrações turísticas que desrespeitam as normas e, sobretudo, depende de nós. Para viajar de forma responsável é preciso pesquisar e fazer sua reserva com operadoras que se importam com a conservação da natureza e o bem estar animal.