Ararinha-azul é avistada na natureza, após 16 anos desaparecida

A ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) está possivelmente extinta na natureza, segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês)

Uma ararinha-azul foi avistada na natureza pela primeira vez após 16 anos. O fato ocorreu no último sábado (18) e foi divulgado no blog de Herton Escobar, do Estadão. A espécie, considerada criticamente ameaçada e possivelmente extinta na natureza, é endêmica da Caatinga e foi encontrada por moradores locais de Curaçá, na Bahia, que participam dos esforços de conservação na região e alertaram as autoridades. Eles conseguiram registrar um vídeo da ave voando. Segundo a nota, as imagens não deixam dúvidas sobre a identidade da espécie, que tem um grito característico, que pode ser ouvido claramente.

Em entrevista para o blog de Escobar, Pedro Develey, diretor da Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil), disse que provavelmente a ararinha seja uma ave de cativeiro, não registrada, que foi solta pelo dono — talvez para evitar ser flagrado com ela, o que configuraria crime ambiental. Recentemente, o Ibama fez uma ação contra o tráfico de animais na região; e seria muito difícil uma ararinha-azul voando passar desapercebida.

Develey, que visitou Curaçá após a descoberta, relatou que as pessoas da comunidade estavam muito felizes, dizendo que a ararinha tinha voltado. Ele também ressaltou a importância da parceria com as comunidades locais para os esforços de conservação da biodiversidade.

A ave foi observada pela última vez no domingo (19) e seu paradeiro permanece desconhecido até o momento. Um grupo para vasculhar a região, localizar a ave e garantir a segurança do animal está sendo organizado pelo ICMBio e a SAVE Brasil.

Hoje, o centro de conservação e reprodução de espécies ameaçadas Al Wabra, no Catar, que possui a maior coleção de ararinhas-azuis em cativeiro do mundo, trabalha em parceria com o governo brasileiro para reintroduzir a espécie na natureza. Fica a torcida para que a ararinha-azul seja retirada da lista de animais possivelmente extintos na natureza e volte a voar pela Caatinga.

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Ave brasileira considerada extinta é redescoberta no Cerrado após 75 anos

A rolinha-do-planalto (Columbina cyanopis), é encontrada somente no Brasil e está criticamente ameaçada de extinção. A destruição do seu habitat, o Cerrado, é o principal problema enfrentado pela espécie - Foto: Rafael Bessa/ SAVE Brasil

A rolinha-do-planalto (Columbina cyanopis), uma das aves mais raras do mundo, é encontrada somente no Brasil e está criticamente ameaçada de extinção. A destruição do seu habitat, o Cerrado, é o principal problema enfrentado pela espécie – Foto: Rafael Bessa/ SAVE Brasil

A rolinha-do-planalto (Columbina cyanopis) tinha sido observada pela última vez em 1941, há 75 anos, e já era considerada extinta por muitos especialistas. Porém, no último sábado (21), pesquisadores do Observatório de Aves – Instituto Butantan e da Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil) anunciaram a redescoberta da espécie, que foi classificada como criticamente ameaçada de extinção.

Para os cientistas, a espécie, considerada uma das aves mais raras do mundo, mostra a importância do licenciamento ambiental, processo que analisa os impactos socioambientais de um empreendimento para avaliar se a obra é viável ou não e que pode deixar de ser obrigatório com a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição 65/2012 em tramitação no Senado.

Nos últimos meses, os pesquisadores têm trabalhado no registro científico da redescoberta e na elaboração de um plano de conservação que assegure a sobrevivência da rolinha-do-planalto. A principal ameaça é a destruição do Cerrado, único bioma onde a ave é encontrada.

“Nossa preocupação agora é a conservação da ave. Estamos estudando diversas linhas de atuação no desenho deste plano. A principal delas é garantir que a região onde a espécie foi detectada seja transformada em uma área de conservação, o que beneficiaria não apenas a rolinha-do-planalto, mas também outras espécies ameaçadas que ocorrem na área”, explica o ornitólogo Rafael Bessa, que redescobriu a espécie.

Segundo Luciano Lima, do Observatório de Aves – Instituto Butantan, redescobrir uma espécie exclusiva do Brasil, praticamente desconhecida e tão emblemática, é um feito científico extraordinário. “É um acontecimento que está sendo muito celebrado, já que alguns especialistas cogitavam que a espécie poderia estar extinta. Conhecer melhor a biodiversidade brasileira é o primeiro passo para garantirmos sua conservação. E, ao fazer isso, estamos contribuindo com o aumento da qualidade de vida e a saúde de todas as espécies, incluindo a nossa.”

Por enquanto, os ornitólogos encontraram apenas 12 indivíduos. O local exato de ocorrência das aves não será divulgado até que o plano de conservação seja concluído e as ações propostas possam ser viabilizadas.

“Até o momento visitamos diversas áreas em três estados, mas a espécie só foi localizada em dois locais muito próximos, ambos no estado de Minas Gerais, o que reforça a necessidade de medidas urgentes para garantir a sua sobrevivência”, alerta o ornitólogo Wagner Nogueira. A equipe de cinco pesquisadores apoiada pelo Intitututo Butantan e financiada pela SAVE Brasil, representante da BirdLife International, segue procurando lugares com geografia e características similares às do primeiro ponto de incidência em busca de outras rolinhas-do-planalto.

Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira completa 20 anos

 A anta-brasileira (Tapirus terrestris) é o maior mamífero terrestre da América do Sul. Considerada a "jardineira da floresta" por ser uma excelente dispersora de sementes, contribuiu para a formação e manutenção da biodiversidade das matas onde vive. A espécie é considerada vulnerável pela Lista Vermelha da UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) - Foto: INCAB/IPÊ


A anta-brasileira (Tapirus terrestris) é o maior mamífero terrestre da América do Sul. Considerada a jardineira da floresta por ser uma excelente dispersora de sementes e contribuir para a formação e manutenção da biodiversidade das matas onde vive. O animal da foto está com um rádio-colar que ajuda na obtenção de dados sobre a área de vida e ajuda a localizar cada indivíduo. A espécie é considerada vulnerável pela Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: INCAB/IPÊ

A Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB), do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), celebra 20 anos em 2016. O projeto, coordenado pela pesquisadora Patrícia Medici, preparou diversos eventos comemorativos para celebrar esse marco para a conservação da espécie.

As duas décadas de estudos resultaram no mais completo e detalhado banco de dados do mundo sobre a anta-brasileira, também conhecida como anta-sul-americana. As informações geradas são fundamentais para planejar ações efetivas para a conservação da espécie nos âmbitos regional e nacional.

Equipe da INCAB coleta dados de uma anta que serão utilizados para ajudar na conservação da espécie (o animal foi liberado após o procedimento) - Foto: INCAB/IPÊ

Equipe da INCAB coleta dados de uma anta que serão utilizados para ajudar na conservação da espécie (o animal foi liberado após o procedimento) – Foto: INCAB/IPÊ

O status de conservação da anta-brasileira é acompanhado de perto por Patrícia Medici desde 1996. A engenheira florestal iniciou os estudos na região do Pontal do Paranapanema, extremo oeste do estado de São Paulo, com o Programa Anta Mata Atlântica. O projeto foi realizado até 2007 e levantou dados sobre o impacto da fragmentação florestal e da paisagem fragmentada na sobrevivência dos indivíduos e sobre sua ecologia espacial, genética e saúde.

Em 2008 o projeto foi ampliado, mudou o nome para Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira e ganhou um novo objetivo: mapear as principais ameaças e o status de conservação das antas em todos os biomas em que a espécie ocorre no Brasil. Atualmente o projeto se encontra no Pantanal e no Cerrado. Futuramente, a Amazônia também fará parte dos estudos da INCAB.

Pesquisadores da INCAB rastreiam uma anta que recebeu um rádio-colar - Foto: INCAB/IPÊ

Pesquisadores da INCAB rastreiam uma anta que recebeu um rádio-colar – Foto: INCAB/IPÊ

“O nosso grande diferencial é a pesquisa científica de longa duração, que é de extrema importância no processo de gerar informações para alimentar e subsidiar o desenvolvimento de ações de conservação realistas e efetivas. Grande parte das informações que utilizávamos anteriormente para avaliar o risco de extinção das antas na natureza provinha de estudos em cativeiro. Atualmente, depois de trabalhos de pesquisa rigorosos na Mata Atlântica, Pantanal e Cerrado, contamos com um banco de dados consolidado com informações de antas em vida selvagem. Podemos, por exemplo, calcular alguns parâmetros reprodutivos da espécie tais como índices de mortalidade de filhotes, intervalos entre nascimentos, com base em nossos resultados de pesquisa”, diz Patrícia, coordenadora da INCAB.

Patricia Medici, coordenadora da INCAB, checa uma armadilha fotográfica. o equipamento é utilizado para registrar quais espécies são encontradas em um local - Foto: NCAB/IPÊ

Patricia Medici, coordenadora da INCAB, checa uma armadilha fotográfica. O equipamento registra as espécies encontradas em um local – Foto: INCAB/IPÊ

O suporte financeiro e institucional para a realização das atividades da INCAB vem de diversas organizações, incluindo fundos de conservação de zoológicos nos Estados Unidos e Europa, fundações e ONGs conservacionistas internacionais, zoológicos e universidades brasileiros. A INCAB conta também com o suporte de doadores privados no Brasil, Estados Unidos e Europa.

Atualmente, a INCAB conta com uma equipe de sete pessoas incluindo cinco profissionais em tempo integral – Patrícia Medici (Coordenadora), Renata Carolina Fernandes Santos (Veterinária), Caroline Testa José (Veterinária), Gabriel Denipoti (Biólogo) e José Maria de Aragão (Assistente de Campo) – e dois profissionais que atuam através de consultorias – Rafael Ruas Martins (Sistemas de Informações Geográficas) e Gabriela Pinho (Geneticista). A base da INCAB fica em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul.

Anta liberada pela equipe do INCAB após receber o rádio-colar - Foto: INCAB/IPÊ

Anta liberada pela equipe do INCAB após receber o rádio-colar – Foto: INCAB/IPÊ

Projeto Iauaretê: a luta para salvar as onças-pintadas das árvores da Amazônia

 Onça-pintada (Panthera onca) A onça-pintada é o maior felino das Américas. A perda e fragmentação de habitat associadas principalmente à expansão agrícola, mineração, implantação de hidrelétricas, ampliação da malha viária e a eliminação de indivíduos por caça ou retaliação por predação de animais domésticos são as principais ameaças enfrentadas pelo felino Status na Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção: espécie vulnerável

A onça-pintada (Panthera onca) é o maior felino das Américas. A perda e fragmentação do habitat associadas à expansão agrícola, mineração, implantação de hidrelétricas, ampliação da malha viária e a eliminação de indivíduos por caça ou retaliação por predação de animais domésticos são as principais ameaças enfrentadas pelo felino.
Status na Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção: espécie vulnerável – Foto: Emiliano Ramalho

Na Amazônia, durante o período da cheia, a onça-pintada deixa o solo e passa a viver na copa das árvores. Com incrível flexibilidade ecológica, o felino muda o comportamento para continuar em seu território, mesmo quando a água inunda a várzea da maior floresta tropical do mundo. Essa é uma das conclusões de uma pesquisa realizada pelo Projeto Iauaretê, do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

O estudo é realizado desde 2008 na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, a primeira reserva de desenvolvimento sustentável do Brasil, criada em 1996 a partir do sonho do primatólogo José Márcio Ayres de preservar o macaco uacari-branco. A área com mais de 1 milhão de hectares tem a função de proteger o ambiente de várzea amazônico, produzir ciência de qualidade e envolver as comunidades ribeirinhas locais na conservação do meio ambiente. “O que a gente tem observado é que temos, na Reserva Mamirauá, uma das mais altas densidades de onças encontrada no mundo. A gente estima mais de dez onças a cada 100 km².  E o que isso mostra é o potencial que as várzeas têm”, comentou o pesquisador Emiliano Ramalho, líder do GP Felinos, do Instituto Mamirauá.

Para Emiliano, a explicação para essa grande concentração de onças-pintadas se deve a grande quantidade de alimento disponível. Apesar de animais terrestres que são presas comuns do felino não serem encontrados com frequência, a densidade de preguiças e jacarés é altíssima. Esses duas espécies constituem a base da alimentação das onças-pintadas em Mamirauá. Segundo o pesquisador, existem cerca de 1000 onças-pintadas dentro da reserva.

A concentração de onças-pintadas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na Amazônia, é uma das maiores do mundo - Foto: Emiliano Ramalho

A concentração de onças-pintadas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na Amazônia, é uma das maiores do mundo – Foto: Emiliano Ramalho

A onça-preta e a onça-pintada são animais da mesma espécie. Indivíduos melânicos são mais comuns em florestas densas, como a Amazônia. Eles têm uma alta quantidade de melanina na pele e nos pelos - Foto: Projeto Iauaretê/Instituto Mamirauá

A onça-preta e a onça-pintada são animais da mesma espécie (Panthera onca). Indivíduos melânicos são mais comuns em florestas densas, como a Amazônia. Eles têm uma alta quantidade de melanina na pele e nos pelos – Foto: Projeto Iauaretê/Instituto Mamirauá

Como se movimentam as onças-pintadas da várzea Amazônica? Como a variação do nível da água, ao longo do ano, interfere na movimentação desses animais? Para responder a essas perguntas, os felinos recebem colares de GPS que armazenam e enviam informações da localização de cada animal para os pesquisadores via satélite. O colar também tem um sistema transmissor VHF, que emite uma frequência de rádio que é utilizada quando os pesquisadores querem encontrar o animal na floresta.

Durante os meses de janeiro e março a equipe do projeto capturou e instalou colares em duas onças: Django, uma onça-preta e Fofa, que está grávida. Para Louise Maranhão, veterinária no Instituto Mamirauá, a gestação é um indicativo de que o ambiente é viável para a sobrevivência e para a reprodução da espécie. “O animal está bem, possui alimentação no ambiente e está se reproduzido bem. Demonstra que esse é um ambiente que está favorável para sua manutenção.” Com esses dois animais, o projeto monitora atualmente cinco onças-pintadas na região.

As onças-pintadas são anestesiadas e têm os sinais vitais monitorados durante todo o processo de captura. Os animais são pesados, medidos e fotografados. Amostras biológicas são coletadas para análise genética e de parasitas em laboratório. Tudo é por acompanhado por um médico veterinário - Foto: Amanda Lelis

As onças-pintadas são anestesiadas e têm os sinais vitais monitorados durante todo o processo de captura. Os animais são pesados, medidos e fotografados. Amostras biológicas são coletadas para análise genética e de parasitas em laboratório. Tudo é por acompanhado por um médico veterinário – Foto: Amanda Lelis

As onças são liberadas com os colares GPS, que possuem um sistema que permite que se desarmem sozinhos quando a bateria acaba, possibilitando que sejam encontrados e reutilizados posteriormente. A acompanhamento pode durar até dois anos - Foto: Amanda Lelis

As onças são liberadas com os colares GPS, que possuem um sistema que permite que se desarmem sozinhos quando a bateria acaba, possibilitando que sejam encontrados e reutilizados posteriormente. O acompanhamento pode durar até dois anos – Foto: Amanda Lelis

A pesquisa também analisa as fezes das onças para determinar as principais presas dos felinos dentro de Mamirauá. “A preguiça sempre é o prato principal das onças ao longo do ano todo. O que muda no período da cheia é que as onças não têm acesso aos jacarés, que estão dispersos na água, na floresta. Então ela complementa isso com outros animais que vivem em cima da árvore: macacos guariba, outros macacos e o tamanduá-mirim”, diz Emiliano.

As informações coletadas pelo Projeto Iauaretê servem de base para a manutenção do programa de turismo de observação de onças-pintadas, realizado somente durante o período da cheia (final de abril até meados de junho) e mantido em parceria com a Pousada Uacari. Parte da renda arrecada vai para as comunidades locais e permite a continuidade da pesquisa científica. Segundo Emiliano, é importante provar que a onça pode trazer benefícios financeiros para as pessoas que trabalham na região. “As onças, hoje, têm um valor negativo por parte das comunidades. Porque as pessoas se sentem ameaçadas por causa da onça. Perdem cachorro, criação, porco, gado. A ideia é que mais gente venha fazer a observação de onças e que o recurso extra vá para as comunidades e para manter essa atividade de pesquisa. As pessoas ficam mais interessadas com o bicho. E o mais importante é dar tempo para as pessoas se conscientizarem.”

Os filhotes também se adaptam à vida nas copas das árvores - Foto: Emiliano Ramalho

Os filhotes também se adaptam à vida nas copas das árvores – Foto: Emiliano Ramalho

Para Emiliano, é possível replicar o modelo de turismo de observação de onças em outros lugares da Amazônia, principalmente em áreas de várzea. Ele já está programando outras iniciativas para verificar a possibilidade de fazer algo semelhante em áreas de terra firme.

A pesquisa do Projeto Iauaretê mostra que é necessário aumentar as áreas protegidas de florestas de várzea para ajudar na conservação da onça-pintada na Amazônia. Iniciativas como essa são necessárias para retirar o felino da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção.

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Muriqui, o maior primata das Américas, pode ganhar Unidades de Conservação no Paraná

O muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) está na categoria em perigo da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção – Foto: Robson Hack

O muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) só é encontrado na Mata Atlântica e está na categoria em perigo da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção – Foto: Robson Hack

Técnicos da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e do Instituto Lactec se reuniram no dia 11 de março com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e o Instituto Ambiental do Paraná  para apresentar resultados de um projeto de conservação do muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides). O objetivo é criar Unidades de Conservação (UCs) para proteger a espécie, que está na categoria em perigo da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, na região do Vale do Ribeira, no Paraná.

O projeto pretende ampliar o conhecimento sobre o muriqui-do-sul, e colocar em prática ações previstas no Plano de Ação Nacional (PAN) para conservação da espécie. Uma das prioridades é a criação de áreas protegidas no Paraná.

Ricardo Soavinski, secretário estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Sema), afirmou que é possível viabilizar a criação de uma ou mais UCs na região do estudo do projeto. A área tem cerca de 5.000 hectares e abriga uma população de 32 muriquis-do-sul.

Para Soavinski, existem alternativas que permitem a proteção da espécie sem impedir o uso econômico da área. As Reservas Particulares do Patrimônio Natural e Refúgios de Vida Silvestre são alguns exemplos. “Ainda precisa de avaliação mais aprofundada, mas essas são categorias que preservam as áreas de matas nativas já usadas por esses animais sem a dependência de desapropriações de todas as áreas, evitando impactos econômicos negativos”, disse. Essas UCs também permitem turismo, pesquisa e atividades de educação ambiental.

Um grupo de trabalho – com a participação de técnicos do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), Instituto Lactec, Secretaria de Meio Ambiente do Estado e da Fundação Grupo Boticário – foi criado para elaborar um plano estratégico que alie a conservação da espécie e, ao mesmo tempo, evite prejuízos à comunidade local.

“A possibilidade da efetivação concreta de ações para proteção do muriqui fortalece nosso trabalho de articulação que busca promover um diálogo entre governo e pesquisadores, buscando impactos positivos para a conservação de nossos ecossistemas naturais”, destaca o coordenador de Ciência e Informação da Fundação Grupo Boticário, Emerson Oliveira.

Os índios chamam os muriquis de “povo manso da floresta” devido aos hábitos pacatos do primata – Foto: Robson Hack

Os índios chamam os muriquis de “povo manso da floresta” devido aos hábitos pacatos do primata – Foto: Robson Hack

Muriqui

Encontrado somente na Mata Atlântica, o muriqui, também conhecido como mono-carvoeiro é o maior primata das Américas. Eles não  são agressivos e demonstrações de afeto são comuns entre indivíduos de qualquer sexo ou idade. Uma das características marcantes desses macacos são os demorados abraços grupais. Os adultos sempre cuidam dos mais jovens e fazem pontes com o próprio corpo para facilitar a passagem de filhotes de uma árvore para outra. Por conta de toda essa passividade, os muriquis são chamados pelos índios de “povo manso da floresta“.

Gente que bamboleia, que vai e vem. Esse é o significado do nome muriqui em tupi-guarani. O primata possui braços longos e uma cauda preênsil – capaz de segurar galhos como se fosse um quinto membro – que conferem muita agilidade ao macaco enquanto se movimenta em sua jornada em busca de alimento (frutos, flores e folhas). Ele atua como dispersor de sementes de diferentes espécies de plantas e é essencial para manter a diversidade da floresta.

Segundo Robson Hack, responsável pelo estudo com a população do primata registrada em Castro, Paraná, o muriqui contribui para que serviços ambientais prestados pela floresta – como produção de água, alimento e fertilização do solo – sejam mantidos com qualidade. Além disso, o pesquisador destaca que atrair a atenção e investimentos para a região é um bom negócio. “Os proprietários do Vale do Ribeira podem se beneficiar com o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) e com iniciativas de turismo e pesquisa que beneficiem toda a comunidade”, destaca.

Região do vale do Ribeira onde acontece o projeto de conservação, intitulado "O muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) como espécie-chave para a conservação da biodiversidade do vale do rio Ribeira do Iguape, no estado do Paraná", da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e do Instituto Lactec - Foto: Robson Hack

Região do Vale do Ribeira onde acontece o projeto de conservação, intitulado “O muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) como espécie-chave para a conservação da biodiversidade do vale do rio Ribeira do Iguape, no estado do Paraná”, da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e do Instituto Lactec – Foto: Robson Hack

O PSA premia financeiramente proprietários particulares por conservarem suas áreas naturais e protegerem mananciais, nascentes e a biodiversidade. Oliveira lembra ainda que ao criar uma Unidade de Conservação, a região irá se beneficiar de incentivos oriundos do ICMS Ecológico, mecanismo que possibilita aos municípios que possuem UCs acesso a parcelas maiores que àquelas que já têm direito. É um critério diferenciado para valorizar as áreas naturais brasileiras (o Paraná foi o primeiro estado a instituir o ICMS Ecológico, em 1989).

Segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês), a população de mono-carvoeiros sofreu uma queda de 80% nos últimos 60 anos. Eles foram dizimados pela caça e pela destruição da floresta.  Estima-se que a população atual seja de menos de 3 mil animais, divididos em duas espécies diferentes: o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) que ocorre nos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e sul da Bahia; e o muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) que é encontrado nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e parte do Paraná.

O muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) , possui manchas esbranquiçadas na face negra. A espécie é considerada criticamente ameaçada de extinção segundo a lista vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Bart vanDorp/Creative Commons

O muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) , possui manchas esbranquiçadas na face negra. A espécie é considerada criticamente ameaçada de extinção segundo a lista vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Bart vanDorp/Creative Commons

Morre onça-pintada símbolo do Refúgio Biológico de Itaipu. Descanse em paz, Juma

Juma bebendo água, em 2007 - Foto: Daniel De Granville

Juma bebendo água, em 2007  – Foto: Daniel De Granville

Juma, a onça-pintada símbolo do Refúgio Biológico Bela Vista (RBV) de Itaipu, morreu no último domingo (17) às 14h30 no zoológico Roberto Ribas Lange, onde estava desde 2002. O felino foi fundamental para o trabalho de educação ambiental, incentivou o turismo local e contribuiu para pesquisas científicas da Panthera onca, que está na categoria vulnerável da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção.

“Foi a perda de um ícone, de um animal emblemático para todo o trabalho que fizemos aqui em termos de fauna. Ela é o símbolo dessa nossa luta pela conservação”, comenta Wanderlei de Moraes, veterinário da Divisão de Áreas Protegidas de Itaipu, que acompanhou toda a vida da onça no RBV e foi o responsável pela necropsia.

A morte foi causada por insuficiência renal severa, provocada por infecção nos rins. O problema é comum em felinos idosos como a Juma, que tinha a idade estimada em 24 anos.

Juma chegou no RBV quando tinha 10 anos, desnutrida e debilitada. Ela vivia na região do Parque Nacional do Iguaçu, mas estava sendo avistada fora dos limites da reserva, o que colocava sua vida em risco. Wanderlei acredita que ela estava perdendo uma disputa por território.

Se continuasse na natureza, Juma não teria sobrevivido muito tempo porque estava desnutrida, com dentes quebrados e havia começado a capturar animais em propriedades particulares. Devido a esses problemas, a equipe do RBV decidiu colocá-la em cativeiro.

Juma foi a primeira onça-pintada do RBV e também a primeira a ser exposta para os turistas no local. Ela era o animal mais fotografado e a maior celebridade do zoológico. Toda esta visibilidade foi importante para o trabalho de educação ambiental e a conservação da onça-pintada.

“Ela nos forneceu informação que era difícil se obter de onças como, por exemplo, amostras de sangue, e virou um ícone da relação entre o Parque Nacional do Iguaçu e a Itaipu”, afirmou Marina Xavier da Silva, coordenadora de campo do Projeto Carnívoros do Iguaçu. “Juma sempre foi muito comentada no nosso universo e teve grande contribuição para a consciência das pessoas”, completou.

Descanse em paz, Juma.

Segundo o último censo realizado pelo Projeto Carnívoros do Iguaçu, de 2014, a população de onças-pintadas é de 18 animais, no lado brasileiro do Parque Nacional do Iguaçu. Em todo o corredor verde, que abrange áreas na Argentina e no Brasil, até o Parque Estadual do Turvo, no Rio Grande do Sul, são estimados 80 animais.

A morte do leão Cecil inicia o debate: a caça esportiva pode ajudar na conservação?

Cecil, o leão mais amado do Zimbábue foi morto por caçadores esportivos - Foto: Reprodução do YouTube

Cecil, o leão mais amado do Zimbábue foi morto por caçadores esportivos – Foto: Reprodução do YouTube

(Atualizado em 7 de agosto) A morte de Cecil, o mais querido e mais fotografado leão do Zimbábue, na África, chocou pessoas em várias partes do mundo. Uma carcaça foi utilizada para atrair o animal para fora do Parque Nacional Hwange, onde a caça esportiva é proibida. Logo depois ele foi alvejado com uma flecha. Cecil conseguiu escapar, resistiu por dois dias, mas foi rastreado pelos caçadores e morto com um tiro na concessão de caça Gwaai. A cabeça e a pele foram levadas como troféus.

Cecil tinha 13 anos e era pai de pelo menos 12 filhotes, que devem morrer quando um novo macho tomar seu lugar. O leão que assume um bando mata os filhotes de seu antecessor para fazer as fêmeas entrarem no cio e iniciar sua família.

Uma fonte que está familiarizada com o problema (e pediu para não ser identificada) entrevistada por Adam Lure, em seu artigo “A morte do leão mais amado do Zimbábue inicia um debate sobre a caça esportiva” (Death of Zimbabwe’s Best-Loved Lion Ignites Debate on Sport Hunting, no título original em inglês), publicado no site de National Geographic, diz que grandes felinos podem ser atraídos para fora de reservas protegidas com iscas colocadas em áreas onde a caça é permitida. Segundo a fonte, não há grandes leões nas áreas de concessão de caça, apesar das alegações da prática de caça sustentável.

Jane Goodall, primatóloga e autora de um dos mais belos estudos científicos já realizados no mundo, expressou seu repúdio em seu site: “Fiquei chocada e indignada ao ouvir a história de Cecil, o leão mais amado do Zimbábue. Para mim, é incompreensível que alguém tenha vontade de matar um animal ameaçado de extinção (hoje, existem menos de 20.000 leões selvagens na África). Mas atrair Cecil para fora da área de segurança de um parque nacional e, em seguida, matá-lo com uma flechada…? Não tenho palavras para expressar minha repugnância,” e concluiu: “E esse comportamento é descrito como esporte.”

O impacto da caça esportiva nos bandos de leões

Entre 1999 e 2004, um estudo da Wildlife Conservation Research Unit at Oxford University, liderado pelo Dr. Andrew Loveridge, analisou o impacto da caça esportiva na dinâmica de uma população de leões do Parque Nacional Hwange (Para saber mais acesse: The impact of sport-hunting on the population dynamics of an African lion population in a protected area)

62 leões receberam colares com GPS. 34 leões morreram durante o estudo. 24 foram baleados em áreas próximas ao parque por caçadores esportivos (13 machos adultos, 5 fêmeas adultas, 6 machos sub-adultos). A caça esportiva foi responsável pela morte de 72% dos machos adultos estudados. A proporção entre machos e fêmeas que era de 1:3 passou para 1:6 em favor das fêmeas. Os territórios deixados pelos leões que morreram foram ocupados por leões que migraram de áreas próximas e infanticídio foi observado.

Um outro estudo (Socio-spatial behaviour of an African lion population following perturbation by sport hunting) realizado no Hwange, analisou o comportamento da população de leões antes e após a legalização da caça esportiva nos arredores do parque. As evidências sugerem que bandos de leões que são perturbados pela caça esportiva apresentam movimentos erráticos, tem uma probabilidade maior de deixar o parque e, consequentemente, estão mais propensos a entrar em conflito com humanos que moram nas fronteiras da reserva.

A caça esportiva regulamentada

Mesmo assim, ainda existem argumentos a favor da caça esportiva. Reservas de caça estabelecem cotas e apenas alguns animais podem ser abatidos por ano. Segundo o artigo “A caça esportiva de leões pode ajudar na conservação?” (Can Lion Trophy Hunting Support Conservation?, no título original em inglês), publicado no site de National Geographic, alguns cientistas, o Serviço Americano de Peixes e Vida Selvagem (USFWS), e alguns grupos de conservação (incluindo o WWF) apoiam a caça esportiva regulamentada. Os defensores dizem que a atividade levanta muito dinheiro, necessário para a conservação das espécies, e pode ajudar no gerenciamento das populações se as autoridades exigirem que os caçadores escolham animais que perderam a capacidade de se reproduzir ou que possam inibir a reprodução de outros ao seu redor.

Autorizações para a caça esportiva são permitidas por tratados internacionais, desde que uma parte significativa dos recursos seja destinada à conservação das espécies na natureza e que seja comprovado por estudos científicos que a morte dos indivíduos selecionados não irá colocar a espécie em risco. Porém, os críticos dizem que a prática está sujeita à corrupção, alimenta a procura de produtos de animais selvagens no mercado negro e as medidas regulatórias são muito difíceis de serem aplicadas na prática (a morte de Cecil é um exemplo disso.

O vídeo abaixo, filmado por Bryan Orford, mostra Cecil no Parque Nacional Hwange

Para mim, é difícil acreditar na ideia de matar animais para ajudar na conservação. Mais difícil ainda é derrubar o argumento de Bryan Orford, guia de ecoturismo que trabalhou em Hwange, filmou Cecil várias vezes e deu seu depoimento para a reportagem de Adam Lure. Segundo Orford, Cecil era a principal atração do parque nacional e atraía turistas do mundo inteiro. O guia calcula que as pessoas hospedadas em apenas um dos hotéis nas proximidades do parque pagam coletivamente 9.800 dólares por dia. Em apenas cinco dias de fotografias com Cecil, o Zimbábue ultrapassaria os lucros obtidos com a taxa de 45.000 dólares para a caça esportiva. Estive na África para fazer safáris fotográficos e concordo plenamente com Orford.

O único lado bom disso tudo foi levantado por Jane Goodall: “Pessoas leram a história e também ficaram chocadas. Seus olhos se abriram para o lado negro da natureza humana. Certamente eles estarão mais preparados para lutar pela proteção dos animais selvagens e os lugares selvagens onde vivem. É aí que reside a esperança.”

Crescimento no interesse pela conservação

Jane estava certa. Após a tragédia, três companhias aéreas dos Estados Unidos (American Airlines, Delta Airlines e United Airlines) proibiram o transporte de troféus de caça em seus voos. A morte de Cecil também desencadeou uma onde de doações para grupos que lutam pela conservação da natureza.

De acordo com a reportagem “Morte do leão Cecil estimula doações para grupos de conservação da vida selvagem… e agora?” (Cecil the Lion’s Death Spurred Donations to Wildlife Groups … Now What?, no título original em inglês), publicado no site de National Geographic, a Unidade de pesquisa para a conservação de vida selvagem de Oxford (WildCRU, na sigla em inglês), que estava rastreando Cecil, considerava parar ações contra a caça esportiva há três semanas atrás, porque estava ficando sem dinheiro. Após a morte de Cecil, a WildCRU recebeu mais de 300 mil libras esterlinas (468,660 dólares) em doações. A campanha  High Five, Give $5, Save Big Cats do programa Big Cats Initiative de National Geographic, também recebeu um impulso com participação de famosos, como Arnold Schwarzenegger.

A morte do leão mais amado do Zimbábue não foi em vão, e pode ser um marco na luta pela conservação de animais selvagens em todo o mundo. Descanse em paz, Cecil.

Leões africanos em perigo: população dos felinos caiu 42% nos últimos 21 anos

Leão (Panthera leo). São caçados em retaliação pela morte de pessoas e do gado na África. Seus ossos também podem ser vendidos para a fabricação de medicamentos. Eles entram como substitutos dos ossos de tigre que se tornam cada vez mais raros. Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): vulnerável - Foto: Fábio Paschoal

Leão (Panthera leo). São caçados em retaliação pela morte de pessoas e do gado na África. Seus ossos também podem ser vendidos para a fabricação de medicamentos. Eles entram como substitutos dos ossos de tigre que se tornam cada vez mais raros.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): vulnerável – Foto: Fábio Paschoal

O rei das savanas africanas está em apuros. A população de leões caiu 42% nos últimos 21 anos, segundo a última atualização da Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês).

A espécie continua na categoria vulnerável, principalmente porque esforços de conservação em Botsuana, Namíbia, África do Sul e Zimbábue resultaram em um aumento de 11% nas populações desses países. Porém, a maioria desses indivíduos vive em reservas fechadas que chegaram ao limite, e não conseguem abrigar mais leões.

O problema é maior em outras partes da África. Na maioria dos países a população de leões caiu 60%, em média. A pior situação é no oeste do continente, onde aproximadamente 400 leões restam em 17 nações, segundo estudo publicado no ano passado no periódico científico Plos One. Os felinos são classificados como criticamente ameaçados na região.

Os principais perigos são a perda de habitat, que faz as populações de leões e de suas presas diminuírem; e o crescimento da agricultura, responsável pelo aumento no número de conflitos entre felinos e humanos.

Os leões são os mais sociais de todos os felinos. Fêmeas da mesma família formam bandos, enquanto os machos se unem em coalizações para tentar conquistar um bando. Caçam de forma cooperativa e podem derrubar presas grandes, como girafas, búfalos, hipopótamos e até elefantes. Mas também se alimentam de animais de pequeno porte e, em situações de desespero, podem comer carniça. São caçados em retaliação pela morte de pessoas e do gado na África. Seus ossos também podem ser vendidos para a fabricação de medicamentos. Eles entram como substitutos dos ossos de tigre que se tornam cada vez mais raros - Foto: Fábio Paschoal

Os leões são os mais sociais de todos os felinos. Fêmeas da mesma família formam bandos, enquanto os machos se unem em coalizações para tentar conquistar um bando. Caçam de forma cooperativa e podem derrubar presas grandes, como girafas, búfalos, hipopótamos e até elefantes. Mas também se alimentam de animais de pequeno porte e, em situações de desespero, podem comer carniça – Foto: Fábio Paschoal

O tráfico internacional de ossos de leões também começa a crescer.  Eles começam a ser usados na medicina tradicional na Ásia (sem nenhuma comprovação científica) como substitutos para ossos de tigres que se tornam cada vez mais raros. Um dos problemas é que a Convenção sobre o Comércio de Espécies Ameaçadas (CITES) permite a exportação de leões e partes do felino, assim como o comércio sob determinadas autorizações.

Para a IUCN, as populações de leões que se encontram em áreas protegidas e vivem em importantes regiões de ecoturismo na África não devem sofrer alterações, pelo menos em um futuro próximo. No entanto, as populações que carecem de proteção devem continuar a diminuir e talvez desapareçam nos próximos anos.

Segundo a IUCN, muitas estratégias regionais de conservação foram estabelecidas e estão dando resultado. Porém, mais vontade política e financiamento são necessários para salvar leões em toda a África.

Guepardo: o felino especialista em velocidade

Guepardo (Acinonyx jubatus), o mamífero terrestre mais rápido do planeta - Foto: Fábio Paschoal

Guepardo (Acinonyx jubatus), o mamífero terrestre mais rápido do planeta – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 9 da série África Selvagem: Em Busca da Grande Migração

Havíamos chegado ao sul do Serengeti após a passagem das chuvas. A grama estava alta e seca. Durante esse período fica mais difícil de encontrar predadores, que conseguem se esconder das presas e, consequentemente, dos turistas.

[Veja a introdução e o sumário da série África Selvagem: Em Busca da Grande Migração]

[Veja o capítulo 8 da série África Selvagem: Em Busca da Grande Migração]

O guepardo é um felino que caça durante o dia, o que evita competição com outros felinos. Ele sobe em terrenos mais elevados e montes de cupins para localizar presas em potencial - Foto: Fábio Paschoal

O guepardo caça durante o dia, o que evita competição com outros felinos. Ele sobe em terrenos mais elevados e montes de cupins para localizar presas em potencial – Foto: Fábio Paschoal

Nosso guia George dirigia rapidamente. Precisávamos chegar ao acampamento antes do anoitecer e não era possível ficar parando muito porque o sol baixava cada vez mais rápido. De vez em quando parávamos para checar montes de cupins e afloramentos rochosos (lugares onde predadores sobem para acharem possíveis presas). Em uma dessas paradas George avistou um carro e decidiu investigar. As pessoas estavam animadas e tentavam ver algo no topo de uma pequena elevação do terreno.

De repente, um guepardo surge do meio da vegetação e começa a correr morro abaixo. Quando chegou à base ele parou e começou a miar. Então, uma pequena bola de pelo começou a descer a ladeira e parou ao lado do felino. Mãe e filhote estavam reunidos novamente. Eles tentavam achar um lugar para passar a noite.

Durante o primeiro ano de vida o filhote aprende técnicas de caça em brincadeiras com a mãe - Foto: Fábio Paschoal

Durante o primeiro ano de vida o filhote aprende técnicas de caça em brincadeiras com a mãe – Foto: Fábio Paschoal

O guepardo é o mamífero terrestre mais veloz do planeta. Pode atingir até 110 quilômetros por hora e consegue perseguir e capturar gazelas como nenhum outro predador. Durante a evolução, o felino sofreu modificações para ficar cada vez mais rápido e se tornou um especialista em velocidade. Possui uma grande caixa torácica, coluna extremamente flexível e pernas longas. As garras não são retráteis e ajudam na tração enquanto a longa cauda serve para dar estabilidade nas curvas.

O filhote de guepardo permanece com a mãe por até 2 anos - Foto: Fábio Paschoal

O filhote de guepardo permanece com a mãe por até 2 anos – Foto: Fábio Paschoal

No entanto, essa especialização traz desvantagens na hora de proteger o alimento e os filhotes. Frequentemente as presas caçadas por guepardos são roubadas por predadores maiores e, em algumas áreas da África, a mortalidade de filhotes chega a 95%. A maioria das perdas é causada por leões.

O futuro dos guepardos depende de mães dedicadas como a que encontramos no Serengeti. Se ela conseguir criar seu filhote até ele se tornar independente será uma vitória para a espécie.

A mãe guepardo deve ficar sempre atenta. Outros felinos podem matar o filhote - Foto: Fábio Paschoal

A mãe guepardo deve ficar sempre atenta. Outros felinos podem matar o filhote. A espécie é considerada vulnerável pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Fábio Paschoal

Ficamos com os dois até o último momento. Mas estava escurecendo e precisávamos chegar ao acampamento. (Veja o capítulo 10 da série África Selvagem: Em Busca da Grande Migração)

Dia Mundial do Elefante (12 de agosto)

Elefante-africano (Loxodonta africana), espécie vulnerável segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Fábio Paschoal

Elefante-africano (Loxodonta africana), espécie vulnerável segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Fábio Paschoal

Hoje (12 de agosto) é o Dia Mundial do Elefante (World Elephant Day). A data foi criada com objetivo de proteger todas as espécies de elefantes e obter apoio para a conservação dos maiores mamíferos terrestres do planeta.

De densas florestas até os desertos mais secos, de montanhas elevadas até as areias das praias. O elefante-africano (Loxodonta africana) é encontrado em 37 países diferentes na África.  São encontrados em grupos liderados por uma matriarca, a fêmea mais experiente da manada. Machos podem ser encontrados sozinhos ou em pequenos grupos de solteiros.

A característica mais marcante desse extraordinário animal é sua tromba, utilizada para uma variedade incontável de funções. Ela é forte o bastante para levantar galhos de árvores, mas é delicada o suficiente para pegar uma única folha de grama do chão. Além disso, é utilizada para beber: O elefante suga uma enorme quantidade de água com a tromba e a leva até a boca  para matar a sede.

Chega a pesar até 7 toneladas. Mas um grande tamanho e um habitat tropical é uma combinação perigosa. A área de superfície do animal é pequena em relação a sua massa, o que dificulta a perda de calor. O risco de superaquecer é alto. Para compensar esse fato ele possui grandes orelhas que funcionam como radiadores. O elefante as abana constantemente, criando uma brisa que faz com que o sangue, que passa pelas orelhas, resfrie. Assim, evita que a temperatura chegue a níveis alarmantes.

Mãe e filhote - Foto: Fábio Paschoal

Mãe e filhote – Foto: Fábio Paschoal

Infelizmente, a perda e a fragmentação do habitat e os caçadores, que procuram o marfim para vender no mercado negro, são ameaças constantes aos maiores mamíferos terrestres do planeta. As estimativas, segundo o WWF, indicam que a população de elefantes-africanos está entre 490.000 e 690.000 e a do elefante-asiático (Elephas maximus) gira em torno de 25.600 e 32.750. Nada mais justo do que um dia para lembrar da importância desses gigantes para o planeta.

National Geographic investe em pesquisas e trabalha para diminuir as ameaças enfrentadas pelos elefantes desde 1922. Financiado por NG, George Owoyesigire usa apicultura para salvar os maiores mamíferos do planeta.

Elefantes têm medo de abelhas. Owoyesigire coloca colmeias ao longo da borda de reservas. Elas agem como barreiras que mantém os gigantes em áreas mais protegidas dos caçadores e longe de plantações, além gerar renda extra para famílias de agricultores, que podem vender o mel.

Raja Sengupta usa os recursos de National Goegraphic em outro projeto. Ele está desenvolvendo um serviço especial de mensagens de celular para que fazendeiros informem guardas florestais, em tempo real, no momento em que os elefantes se aproximam das plantações. Quando os guardas chegam, movem os elefantes para longe das plantações, reduzem o medo e diminuem as chances dos agricultores resolverem tudo com as próprias mãos.

Os dados recolhidos a partir deste processo serão utilizados para a construção de planos de conservação de longo prazo. Trincheiras serão cavadas em lugares estratégicos para impedir que elefantes e outros animais selvagens invadam as plantações.

Esses são exemplos de projetos de baixo custo, benéficos para os elefantes, para as pessoas, e para o planeta Terra. Saiba como ajudar no link: https://donate.nationalgeographic.org/sslpage.aspx?pid=1895&utm_source=NatGeocom&utm_medium=Email&utm_content=development_20150725&utm_campaign=Content