Stony Point: a maior colônia de pinguins-africanos de Western Cape

Colônia de pinguins-africanos (Spheniscus demersus) em Stony Point, África do Sul. A parte branca é o guano que começa a se acumular, mas ainda está muito longe de ter o suficiente para as aves escavarem e fazerem ninhos – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 4 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

Localizada na cidade costeira de Betty’s Bay, a cerca de 91 quilômetros da Cidade do Cabo, a Reserva Natural de Stony Point é a maior das cinco principais colônias de pinguins-africanos de Western Cape e a única que mostra um aumento significativo no número de indivíduos, segundo o site da reserva. Atualmente a população de pinguins por aqui (aproximadamente 2 000 casais reprodutores) é maior do que a das três ilhas costeiras mais próximas combinadas. Esses locais eram colônias de reprodução tradicionais que comportavam muitos casais. Assim, Stony Point é muito importante para a conservação da espécie na África do Sul.

[Veja a introdução da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

[Veja o capítulo 3 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

Stony Point Nature Reserve, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Quando um macho de southern rock agama (Agama atra) na coloração azul intensa de reprodução sente uma ameaça, ele deita contra uma rocha e sua pele se torna um pouco mais camuflada – Foto: Fábio Paschoal

Logo que chegamos na reserva vimos uma placa que dizia que os paus de selfie eram proibidos (Ralph disse que as pessoas tentam tirar fotos com os pinguins-africanos e isso estressa muito as aves). Pagamos a taxa ambiental que é investida para a conservação da espécie e entramos na reserva (veja o preço no site de Stony Point) .

Passamos a catraca e começamos a caminhada em uma passarela de madeira elevada que delimita a área para turistas e serve como proteção para os animais. Quando alguém se aproxima dos ninhos, os adultos saem e deixam ovos e filhotes desprotegidos.

Pinguins-africanos no primeiro plano e biguás ao fundo em Stony Point, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Casal de bank cormorants (à esquerda, inteiramente pretos), cape cormorants (com corpo preto e base do bico amarelo) e white breasted cormorant (com pescoço e peito brancos). As duas espécies estão na categoria “Em Perigo” da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Fábio Paschoal

Cape cormorant (Phalacrocorax capensis) – Foto: Fábio Paschoal

O bank cormorant (Phalacrocorax neglectus) é uma espécie de biguá encontrada no local que é muito sensível à perturbação humana. Ele abandona o ninho quando alguém se aproxima e deixa ovos e filhotes sozinhos. Os pequenos não têm nenhuma chance. Viram presa fácil para as cape gulls (gaivotas do cabo na tradução literal) e qualquer outro predador que esteja por perto.

O distúrbio causado por nós resultou na perda de quatro colônias e em reduções populacionais em seis outras, entre 1978 e 1997 e colocou a espécie na categoria “Em Perigo” na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês).

O Bank Cormorant Project – uma iniciativa da SANCCOB, Living Coasts e Whitely Wildlife Foundation – foi criada para a garantir o futuro da espécie (a população da região Sul da África é de 2600 casais reprodutores) através da melhoria das taxas de reabilitação, construção de plataformas de reprodução e vigilância de doenças. Enquanto isso, o projeto desenvolve técnicas para reintroduzir as aves criadas em cativeiro em seu habitat natural.

O white brested cormorant (Phalacrocorax lucidus) também nidifica em Stony Point – Foto: Fábio Paschoal

Cape gulls (Larus dominicanus) sobrevoam colônia à espera de pais inexperientes que deixam ovos e filhotes sozinhos – Foto: Fábio Paschoal

Levamos nossos binóculos e, além do bank, vimos crested, white-breasted e cape cormorants. Cape e hartlaub’s gulls, ganso-do-egito e dassies são comuns na área. Assim como lagartos Durante a visita ocorreu um ataque de lobo-marinho-do-cabo a um pinguim africano. Além de todas as ameaças que a ave enfrenta, essa é outro problema que a espécie enfrenta. Como lobos e pinguins se alimentam das mesmas coisas, os lobos matam as aves para eliminar a competição.

De qualquer maneira, foi ótimo visitar o local. Stony Point é um dos motivos que faz com que ainda seja possível ver pinguins-africanos na natureza. A luta para salvar a espécie da extinção continua.

Pinguins-africanos. Como não amar? – Foto: Fábio Paschoal

Estava ficando tarde e era hora de sair. O destino: Harold Porter National Botanical Garden

Não perca o próximo capítulo da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

DICAS

  • Não alimente os pinguins-africanos ou qualquer outro animal. Eles são selvagens e conseguem arranjar seu próprio alimento.
  • Stony Point é mais longe de Cape Town do que Boulders, mas atrai bem menos turistase e você tem a possibilidade de ver espécies de biguá que não são encontradas em Boulders.
  • Ao contrário de muitas espécies de aves, os pinguins-africanos têm uma época de reprodução extensa. Na maioria das colônias, aves em algum estágio de reprodução podem ser encontradas durante o ano inteiro.
  • Leve binóculos. Os bank cormorants e os lobos-marinhos-do-cabo estavam na colônia, mas estavam longe. Sem os binóculos não conseguiríamos achá-los.
  •  Aproveite para fazer Stony Point e Harold Porter no mesmo dia. Eles ficam longe de Cape Town, mas próximos entre si.
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BIG 7: os sete animais mais desejados nos safáris do Kruger

De densas florestas até os desertos mais secos, de montanhas elevadas até as areias das praias. O elefante-africano (Loxodonta africana) é encontrado em 37 países diferentes na África. Porém, isso não significa que se encontra em boas condições. A perda e a fragmentação do habitat e os caçadores, que procuram o marfim para vender no mercado negro, são ameaças constantes ao maior animal terrestre do planeta. No entanto, as reservas e os parques nacionais oferecem refúgios para esses animais, e a população segue aumentando.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): espécie vulnerável – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 18 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Leopardo, elefante, rinoceronte, leão e búfalo. Eles são conhecidos como os cinco grandes (Big 5) e eram considerados os animais mais difíceis de serem caçados na África. Hoje, se transformaram nas estrelas mais desejadas e fotografadas pelos turistas nos safáris africanos e muitos dos passeios são direcionados para a observação dessas espécies (ainda é possível encontrar reservas de caça no país, mas isso é assunto para outro post). No Kruger National Park, na África do Sul, como o guepardo e o cachorro-selvagem também são muito desejados pelos turistas (e não são tão difíceis de encontrar), eles criaram os sete grandes (Big 7)

[Veja a introdução e o sumário da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

[Veja o capítulo 17 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

As operadoras de turismo se apropriaram do termo, usado somente por caçadores anteriormente, para campanhas de marketing. E o negócio deu certo. As pessoas ficam tão obcecadas pelos Big 7 que esquecem que o Kruger tem muito mais a oferecer.

O leão (Phantera leo) é o mais social de todos os felinos. Fêmeas da mesma família formam bandos, enquanto os machos se unem em coalizações para tentar conquistar um bando. Caçam de forma cooperativa e podem derrubar presas grandes, como girafas, búfalos, hipopótamos e até elefantes. Mas também se alimentam de animais de pequeno porte e, em situações de desespero, podem comer carniça. São caçados em retaliação pela morte de pessoas e do gado na África. Seus ossos também podem ser vendidos para a fabricação de medicamentos. Eles entram como substitutos dos ossos de tigre que se tornam cada vez mais raros.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): vulnerável – Foto: Fábio Paschoal

O rinoceronte-branco (Ceratotherium simum) vive nas savanas africanas, onde se alimenta de quase que exclusivamente de grama. Os chifres dos animais – feitos de queratina (mesma substância encontrada em nossas unhas) – são utilizados na medicina chinesa para o tratamento de doenças, incluindo o câncer. A caça ilegal para abastecer esse mercado, mesmo sem estudos que comprovem a eficácia do tratamento, é a principal ameaça enfrentada pela espécie.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): espécie quase ameaçada- Foto: Fábio Paschoal

Um dos animais mais furtivos da África, o leopardo (Panthera pardus) anda em seu habitat como um fantasma. Sua população é maior que o dobro das populações de leões e guepardos juntas. No entanto, é muito mais difícil ver um leopardo em um safári do que qualquer outro grande felino. A conversão de seu habitat em plantações e pasto, a retaliação de fazendeiros que querem proteger seus rebanhos e a competição com humanos por presas fazem com que a população da espécie siga diminuindo. Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): espécie quase ameaçada - Foto: Fábio Paschoal

Um dos animais mais furtivos da África, o leopardo (Panthera pardus) anda em seu habitat como um fantasma. Sua população é maior que o dobro das populações de leões e guepardos juntas. No entanto, é muito mais difícil ver um leopardo em um safári do que qualquer outro grande felino. A conversão de seu habitat em plantações e pasto, a retaliação de fazendeiros que querem proteger seus rebanhos e a competição com humanos por presas fazem com que a população da espécie siga diminuindo.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): espécie quase ameaçada – Foto: Fábio Paschoal

Os búfalos-africanos (Syncerus caffer) machos (foto) podem pesar duas vezes mais do que as fêmeas, possuem chifres mais robustos e pescoços mais grossos. Quando há abundância de comida os animais formam grupos de até 2 mil indivíduos, mas quando chega a temporada de seca a manada se dispersa. Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): pouco preocupante - Foto: Fábio Paschoal

Os búfalos-africanos (Syncerus caffer) machos (foto) podem pesar duas vezes mais do que as fêmeas, possuem chifres mais robustos e pescoços mais grossos. Quando há abundância de comida os animais formam grupos de até 2 mil indivíduos, mas quando chega a temporada de seca a manada se dispersa.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): pouco preocupante – Foto: Fábio Paschoal

Durante a evolução o guepardo (Acinonyx jubatus), se tornou o mamífero terrestre mais rápido do planeta. Essa especialização trouxe desvantagens na hora de proteger o alimento e os filhotes. Frequentemente as presas caçadas por guepardos são roubadas por predadores maiores e, em algumas áreas da África, a mortalidade de filhotes chega a 95%. A maioria das perdas é causada por leões.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): vulnerável – Foto: Fábio Paschoal

Também conhecido como mabeco ou cão-selvagem-africano, o cachorro-selvagem (Lycaon pictus) é o predador mais eficiente entre os mamíferos da África. Em algumas regiões a taxa de sucesso em caçadas é de 90%. Nenhum outro grande predador africano é tão bem sucedido quanto os cachorros-selvagens. A fragmentação do habitat e conflitos com humanos são as principais ameaças enfrentadas pela espécie.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): espécie ameaçada- Foto: Fábio Paschoal

Apesar de não gostar do termo, os sete grandes são fantásticos, e observá-los na natureza é uma experiência inesquecível. Não foi difícil completar a lista. Mas lembre-se, o Kruger é muito mais do que os Big 7.

Não perca o capítulo 19 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

DICAS

  • Não gaste todo o seu tempo procurando os Big 7. Quando você foca em apenas sete espécies acaba perdendo tempo para rastreá-las. Animais, que podem ser muito mais interessantes do que as estrelas dos safáris africanos, acabam sendo deixados de lado. Não se esqueça: a África tem muito mais a oferecer.

PARA QUEM GOSTA DE COMPLETAR LISTAS

  • Menos explorados pelas operadoras de turismo, os cinco pequenos (Little 5) são animais com nomes em inglês que correspondem aos Big 5: Rhinoceros Beetle (besouro rinoceronte, na tradução literal), Buffalo Weaver (Búfalo tecelão, na tradução literal), Elephant Shrew (musaranho elefante, na tradução literal), Leopard Tortoise (jabuti leopardo, na tradução literal) e Ant Lion (formiga leão, na tradução literal).
  • Em minha primeira viagem à África, fui apresentado aos cinco feios: marabu, abutre, javali, hiena e gnu (Veja o post Ugly 5, os animais mais feios da África)
  • No Brasil, algumas operadoras de turismo criaram os Big 5 brasileiros para tentar promover o ecoturismo no país. Não existe consenso, mas os integrantes mais comuns são: onça-pintada, tamanduá-bandeira, anta, lobo-guará e ariranha.

Kruger: como se comportar em encontros com leões

Leões caçam de forma cooperativa e podem derrubar presas grandes, como girafas, búfalos, hipopótamos e até elefantes. Infelizmente, são caçados em retaliação pela morte de pessoas e do gado na África. Seus ossos também podem ser vendidos para a fabricação de medicamentos. Eles entram como substitutos dos ossos de tigre que se tornam cada vez mais raros.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): vulnerável – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 17 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Leão! Leão! Leão!” Walter, nosso guia, parou o caminhão e apontou para o leito do rio Sabi, que estava quase seco. Dois leões adultos descansavam na areia! O barulho dos cliques das câmeras fotográficas era contínuo e os celulares filmavam cada movimento dos felinos. Mas a verdade é que eles estavam muito longe para sair alguma coisa boa. De repente, o caminhão começou a se mover e os turistas começaram a gritar: “Para! Para! Para!” Walter respondeu: “Calma. vocês vão ver esses bichos de novo. Eles vão sair na estrada” (Veja o vídeo no final do post).

[Veja a introdução e o sumário da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

[Veja o capítulo 16 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

Leões descansam em praia areia no leito do rio Sabi, no Kruger, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

O guia posicionou o veículo em um local em que nossa visão ficou bloqueada e não era possível ver os animais. “Preparem as câmeras. Eles vão chegar por ali”, e apontou para o lado direito do caminhão. Os turistas estavam meio irritados. Preferiam ter ficado tirando fotos do local em que estávamos anteriormente. Mas as expressões mudaram quando os leões apareceram onde Walter previu que eles iriam aparecer, passaram do lado do caminhão e começaram a andar na estrada.

Estávamos próximos à Lower Sabi, e a hora do fechamento dos portões estava chegando. Nesse momento a estrada é tomada de carros voltando para o acampamento. Todos começaram a seguir os felinos. Os motoristas passavam os bichos, paravam logo em frente para tirar fotos, e não davam espaço para os leões.

Leão ao lado do caminhão de safári, no Kruger, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Leões na H4-1, estrada próxima à entrada de Lower Sabi camp, Kruger National Park, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Walter não teve dúvida, saiu da estrada, passou todos que estavam se aproximando demais dos leões, fechou todos os carros, deixou os animais andando na estrada tranquilamente e disse: “Vocês precisam respeitar os leões! Estão chegando muito perto e não estão dando passagem para eles. Assim eles vão se estressar e sair da estrada. Se querem tirar fotos, deixem uma abertura para eles passarem. Vocês precisam respeitá-los.”

Então, nosso guia saiu da estrada, deixou os carros passarem e voltou para o lugar em que estávamos na fila. Os leões ganharam espaço e continuaram na estrada. O relógio estava quase batendo 18h30 quando os carros de turistas começaram a sair para entrar em Lower Sabi antes do fechamento dos portões. Ficamos com os leões só para nós!

Leões demarcam o território com urina para avisar visitantes indesejados que essa parte da savana já tem dono – Foto: Fábio Paschoal

Leões saem da estrada no Kruger, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Walter posicionou o caminhão à frente e esperamos enquanto os felinos vinham em nossa direção. Nessa hora, o coração bate mais forte, os olhos se enchem de lágrimas e você entende que algo mágico está acontecendo. É como se a savana parasse, só para vê-los passar. Que sensação fantástica!

Vimos quando eles urinaram nas árvores para demarcar território, quando abriram a boca para bocejar, quando passaram tão próximo ao caminhão que tive que puxar a Vanessa para ficarmos escondidos atrás da caçamba e vimos quando eles saíram da estrada para seguir outro caminho. Foi um desses momentos inexplicáveis, que ficam guardados na memória e voltam à nossa mente de tempos em tempos para nos fazer sorrir.

Veja o capítulo 18 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

DICAS

  • A vida selvagem sempre tem prioridade: Procure não fazer nada que estresse os animais. Se eles se sentirem confortáveis com o carro de passeio, vão fazer suas atividades normalmente. Podem até passar a centímetros de você.
  • Nunca levante quando os leões se aproximarem do carro de safári: Os animais vêm o carro e as pessoas como uma única coisa. Quando você se levanta eles enxergam a forma humana e podem atacar. O mesmo vale para leopardos.

Ararinha-azul é avistada na natureza, após 16 anos desaparecida

A ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) está possivelmente extinta na natureza, segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês)

Uma ararinha-azul foi avistada na natureza pela primeira vez após 16 anos. O fato ocorreu no último sábado (18) e foi divulgado no blog de Herton Escobar, do Estadão. A espécie, considerada criticamente ameaçada e possivelmente extinta na natureza, é endêmica da Caatinga e foi encontrada por moradores locais de Curaçá, na Bahia, que participam dos esforços de conservação na região e alertaram as autoridades. Eles conseguiram registrar um vídeo da ave voando. Segundo a nota, as imagens não deixam dúvidas sobre a identidade da espécie, que tem um grito característico, que pode ser ouvido claramente.

Em entrevista para o blog de Escobar, Pedro Develey, diretor da Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil), disse que provavelmente a ararinha seja uma ave de cativeiro, não registrada, que foi solta pelo dono — talvez para evitar ser flagrado com ela, o que configuraria crime ambiental. Recentemente, o Ibama fez uma ação contra o tráfico de animais na região; e seria muito difícil uma ararinha-azul voando passar desapercebida.

Develey, que visitou Curaçá após a descoberta, relatou que as pessoas da comunidade estavam muito felizes, dizendo que a ararinha tinha voltado. Ele também ressaltou a importância da parceria com as comunidades locais para os esforços de conservação da biodiversidade.

A ave foi observada pela última vez no domingo (19) e seu paradeiro permanece desconhecido até o momento. Um grupo para vasculhar a região, localizar a ave e garantir a segurança do animal está sendo organizado pelo ICMBio e a SAVE Brasil.

Hoje, o centro de conservação e reprodução de espécies ameaçadas Al Wabra, no Catar, que possui a maior coleção de ararinhas-azuis em cativeiro do mundo, trabalha em parceria com o governo brasileiro para reintroduzir a espécie na natureza. Fica a torcida para que a ararinha-azul seja retirada da lista de animais possivelmente extintos na natureza e volte a voar pela Caatinga.

Ave brasileira considerada extinta é redescoberta no Cerrado após 75 anos

A rolinha-do-planalto (Columbina cyanopis), é encontrada somente no Brasil e está criticamente ameaçada de extinção. A destruição do seu habitat, o Cerrado, é o principal problema enfrentado pela espécie - Foto: Rafael Bessa/ SAVE Brasil

A rolinha-do-planalto (Columbina cyanopis), uma das aves mais raras do mundo, é encontrada somente no Brasil e está criticamente ameaçada de extinção. A destruição do seu habitat, o Cerrado, é o principal problema enfrentado pela espécie – Foto: Rafael Bessa/ SAVE Brasil

A rolinha-do-planalto (Columbina cyanopis) tinha sido observada pela última vez em 1941, há 75 anos, e já era considerada extinta por muitos especialistas. Porém, no último sábado (21), pesquisadores do Observatório de Aves – Instituto Butantan e da Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil) anunciaram a redescoberta da espécie, que foi classificada como criticamente ameaçada de extinção.

Para os cientistas, a espécie, considerada uma das aves mais raras do mundo, mostra a importância do licenciamento ambiental, processo que analisa os impactos socioambientais de um empreendimento para avaliar se a obra é viável ou não e que pode deixar de ser obrigatório com a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição 65/2012 em tramitação no Senado.

Nos últimos meses, os pesquisadores têm trabalhado no registro científico da redescoberta e na elaboração de um plano de conservação que assegure a sobrevivência da rolinha-do-planalto. A principal ameaça é a destruição do Cerrado, único bioma onde a ave é encontrada.

“Nossa preocupação agora é a conservação da ave. Estamos estudando diversas linhas de atuação no desenho deste plano. A principal delas é garantir que a região onde a espécie foi detectada seja transformada em uma área de conservação, o que beneficiaria não apenas a rolinha-do-planalto, mas também outras espécies ameaçadas que ocorrem na área”, explica o ornitólogo Rafael Bessa, que redescobriu a espécie.

Segundo Luciano Lima, do Observatório de Aves – Instituto Butantan, redescobrir uma espécie exclusiva do Brasil, praticamente desconhecida e tão emblemática, é um feito científico extraordinário. “É um acontecimento que está sendo muito celebrado, já que alguns especialistas cogitavam que a espécie poderia estar extinta. Conhecer melhor a biodiversidade brasileira é o primeiro passo para garantirmos sua conservação. E, ao fazer isso, estamos contribuindo com o aumento da qualidade de vida e a saúde de todas as espécies, incluindo a nossa.”

Por enquanto, os ornitólogos encontraram apenas 12 indivíduos. O local exato de ocorrência das aves não será divulgado até que o plano de conservação seja concluído e as ações propostas possam ser viabilizadas.

“Até o momento visitamos diversas áreas em três estados, mas a espécie só foi localizada em dois locais muito próximos, ambos no estado de Minas Gerais, o que reforça a necessidade de medidas urgentes para garantir a sua sobrevivência”, alerta o ornitólogo Wagner Nogueira. A equipe de cinco pesquisadores apoiada pelo Intitututo Butantan e financiada pela SAVE Brasil, representante da BirdLife International, segue procurando lugares com geografia e características similares às do primeiro ponto de incidência em busca de outras rolinhas-do-planalto.

Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira completa 20 anos

 A anta-brasileira (Tapirus terrestris) é o maior mamífero terrestre da América do Sul. Considerada a "jardineira da floresta" por ser uma excelente dispersora de sementes, contribuiu para a formação e manutenção da biodiversidade das matas onde vive. A espécie é considerada vulnerável pela Lista Vermelha da UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) - Foto: INCAB/IPÊ


A anta-brasileira (Tapirus terrestris) é o maior mamífero terrestre da América do Sul. Considerada a jardineira da floresta por ser uma excelente dispersora de sementes e contribuir para a formação e manutenção da biodiversidade das matas onde vive. O animal da foto está com um rádio-colar que ajuda na obtenção de dados sobre a área de vida e ajuda a localizar cada indivíduo. A espécie é considerada vulnerável pela Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: INCAB/IPÊ

A Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB), do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), celebra 20 anos em 2016. O projeto, coordenado pela pesquisadora Patrícia Medici, preparou diversos eventos comemorativos para celebrar esse marco para a conservação da espécie.

As duas décadas de estudos resultaram no mais completo e detalhado banco de dados do mundo sobre a anta-brasileira, também conhecida como anta-sul-americana. As informações geradas são fundamentais para planejar ações efetivas para a conservação da espécie nos âmbitos regional e nacional.

Equipe da INCAB coleta dados de uma anta que serão utilizados para ajudar na conservação da espécie (o animal foi liberado após o procedimento) - Foto: INCAB/IPÊ

Equipe da INCAB coleta dados de uma anta que serão utilizados para ajudar na conservação da espécie (o animal foi liberado após o procedimento) – Foto: INCAB/IPÊ

O status de conservação da anta-brasileira é acompanhado de perto por Patrícia Medici desde 1996. A engenheira florestal iniciou os estudos na região do Pontal do Paranapanema, extremo oeste do estado de São Paulo, com o Programa Anta Mata Atlântica. O projeto foi realizado até 2007 e levantou dados sobre o impacto da fragmentação florestal e da paisagem fragmentada na sobrevivência dos indivíduos e sobre sua ecologia espacial, genética e saúde.

Em 2008 o projeto foi ampliado, mudou o nome para Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira e ganhou um novo objetivo: mapear as principais ameaças e o status de conservação das antas em todos os biomas em que a espécie ocorre no Brasil. Atualmente o projeto se encontra no Pantanal e no Cerrado. Futuramente, a Amazônia também fará parte dos estudos da INCAB.

Pesquisadores da INCAB rastreiam uma anta que recebeu um rádio-colar - Foto: INCAB/IPÊ

Pesquisadores da INCAB rastreiam uma anta que recebeu um rádio-colar – Foto: INCAB/IPÊ

“O nosso grande diferencial é a pesquisa científica de longa duração, que é de extrema importância no processo de gerar informações para alimentar e subsidiar o desenvolvimento de ações de conservação realistas e efetivas. Grande parte das informações que utilizávamos anteriormente para avaliar o risco de extinção das antas na natureza provinha de estudos em cativeiro. Atualmente, depois de trabalhos de pesquisa rigorosos na Mata Atlântica, Pantanal e Cerrado, contamos com um banco de dados consolidado com informações de antas em vida selvagem. Podemos, por exemplo, calcular alguns parâmetros reprodutivos da espécie tais como índices de mortalidade de filhotes, intervalos entre nascimentos, com base em nossos resultados de pesquisa”, diz Patrícia, coordenadora da INCAB.

Patricia Medici, coordenadora da INCAB, checa uma armadilha fotográfica. o equipamento é utilizado para registrar quais espécies são encontradas em um local - Foto: NCAB/IPÊ

Patricia Medici, coordenadora da INCAB, checa uma armadilha fotográfica. O equipamento registra as espécies encontradas em um local – Foto: INCAB/IPÊ

O suporte financeiro e institucional para a realização das atividades da INCAB vem de diversas organizações, incluindo fundos de conservação de zoológicos nos Estados Unidos e Europa, fundações e ONGs conservacionistas internacionais, zoológicos e universidades brasileiros. A INCAB conta também com o suporte de doadores privados no Brasil, Estados Unidos e Europa.

Atualmente, a INCAB conta com uma equipe de sete pessoas incluindo cinco profissionais em tempo integral – Patrícia Medici (Coordenadora), Renata Carolina Fernandes Santos (Veterinária), Caroline Testa José (Veterinária), Gabriel Denipoti (Biólogo) e José Maria de Aragão (Assistente de Campo) – e dois profissionais que atuam através de consultorias – Rafael Ruas Martins (Sistemas de Informações Geográficas) e Gabriela Pinho (Geneticista). A base da INCAB fica em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul.

Anta liberada pela equipe do INCAB após receber o rádio-colar - Foto: INCAB/IPÊ

Anta liberada pela equipe do INCAB após receber o rádio-colar – Foto: INCAB/IPÊ

Projeto Iauaretê: a luta para salvar as onças-pintadas das árvores da Amazônia

 Onça-pintada (Panthera onca) A onça-pintada é o maior felino das Américas. A perda e fragmentação de habitat associadas principalmente à expansão agrícola, mineração, implantação de hidrelétricas, ampliação da malha viária e a eliminação de indivíduos por caça ou retaliação por predação de animais domésticos são as principais ameaças enfrentadas pelo felino Status na Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção: espécie vulnerável

A onça-pintada (Panthera onca) é o maior felino das Américas. A perda e fragmentação do habitat associadas à expansão agrícola, mineração, implantação de hidrelétricas, ampliação da malha viária e a eliminação de indivíduos por caça ou retaliação por predação de animais domésticos são as principais ameaças enfrentadas pelo felino.
Status na Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção: espécie vulnerável – Foto: Emiliano Ramalho

Na Amazônia, durante o período da cheia, a onça-pintada deixa o solo e passa a viver na copa das árvores. Com incrível flexibilidade ecológica, o felino muda o comportamento para continuar em seu território, mesmo quando a água inunda a várzea da maior floresta tropical do mundo. Essa é uma das conclusões de uma pesquisa realizada pelo Projeto Iauaretê, do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

O estudo é realizado desde 2008 na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, a primeira reserva de desenvolvimento sustentável do Brasil, criada em 1996 a partir do sonho do primatólogo José Márcio Ayres de preservar o macaco uacari-branco. A área com mais de 1 milhão de hectares tem a função de proteger o ambiente de várzea amazônico, produzir ciência de qualidade e envolver as comunidades ribeirinhas locais na conservação do meio ambiente. “O que a gente tem observado é que temos, na Reserva Mamirauá, uma das mais altas densidades de onças encontrada no mundo. A gente estima mais de dez onças a cada 100 km².  E o que isso mostra é o potencial que as várzeas têm”, comentou o pesquisador Emiliano Ramalho, líder do GP Felinos, do Instituto Mamirauá.

Para Emiliano, a explicação para essa grande concentração de onças-pintadas se deve a grande quantidade de alimento disponível. Apesar de animais terrestres que são presas comuns do felino não serem encontrados com frequência, a densidade de preguiças e jacarés é altíssima. Esses duas espécies constituem a base da alimentação das onças-pintadas em Mamirauá. Segundo o pesquisador, existem cerca de 1000 onças-pintadas dentro da reserva.

A concentração de onças-pintadas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na Amazônia, é uma das maiores do mundo - Foto: Emiliano Ramalho

A concentração de onças-pintadas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na Amazônia, é uma das maiores do mundo – Foto: Emiliano Ramalho

A onça-preta e a onça-pintada são animais da mesma espécie. Indivíduos melânicos são mais comuns em florestas densas, como a Amazônia. Eles têm uma alta quantidade de melanina na pele e nos pelos - Foto: Projeto Iauaretê/Instituto Mamirauá

A onça-preta e a onça-pintada são animais da mesma espécie (Panthera onca). Indivíduos melânicos são mais comuns em florestas densas, como a Amazônia. Eles têm uma alta quantidade de melanina na pele e nos pelos – Foto: Projeto Iauaretê/Instituto Mamirauá

Como se movimentam as onças-pintadas da várzea Amazônica? Como a variação do nível da água, ao longo do ano, interfere na movimentação desses animais? Para responder a essas perguntas, os felinos recebem colares de GPS que armazenam e enviam informações da localização de cada animal para os pesquisadores via satélite. O colar também tem um sistema transmissor VHF, que emite uma frequência de rádio que é utilizada quando os pesquisadores querem encontrar o animal na floresta.

Durante os meses de janeiro e março a equipe do projeto capturou e instalou colares em duas onças: Django, uma onça-preta e Fofa, que está grávida. Para Louise Maranhão, veterinária no Instituto Mamirauá, a gestação é um indicativo de que o ambiente é viável para a sobrevivência e para a reprodução da espécie. “O animal está bem, possui alimentação no ambiente e está se reproduzido bem. Demonstra que esse é um ambiente que está favorável para sua manutenção.” Com esses dois animais, o projeto monitora atualmente cinco onças-pintadas na região.

As onças-pintadas são anestesiadas e têm os sinais vitais monitorados durante todo o processo de captura. Os animais são pesados, medidos e fotografados. Amostras biológicas são coletadas para análise genética e de parasitas em laboratório. Tudo é por acompanhado por um médico veterinário - Foto: Amanda Lelis

As onças-pintadas são anestesiadas e têm os sinais vitais monitorados durante todo o processo de captura. Os animais são pesados, medidos e fotografados. Amostras biológicas são coletadas para análise genética e de parasitas em laboratório. Tudo é por acompanhado por um médico veterinário – Foto: Amanda Lelis

As onças são liberadas com os colares GPS, que possuem um sistema que permite que se desarmem sozinhos quando a bateria acaba, possibilitando que sejam encontrados e reutilizados posteriormente. A acompanhamento pode durar até dois anos - Foto: Amanda Lelis

As onças são liberadas com os colares GPS, que possuem um sistema que permite que se desarmem sozinhos quando a bateria acaba, possibilitando que sejam encontrados e reutilizados posteriormente. O acompanhamento pode durar até dois anos – Foto: Amanda Lelis

A pesquisa também analisa as fezes das onças para determinar as principais presas dos felinos dentro de Mamirauá. “A preguiça sempre é o prato principal das onças ao longo do ano todo. O que muda no período da cheia é que as onças não têm acesso aos jacarés, que estão dispersos na água, na floresta. Então ela complementa isso com outros animais que vivem em cima da árvore: macacos guariba, outros macacos e o tamanduá-mirim”, diz Emiliano.

As informações coletadas pelo Projeto Iauaretê servem de base para a manutenção do programa de turismo de observação de onças-pintadas, realizado somente durante o período da cheia (final de abril até meados de junho) e mantido em parceria com a Pousada Uacari. Parte da renda arrecada vai para as comunidades locais e permite a continuidade da pesquisa científica. Segundo Emiliano, é importante provar que a onça pode trazer benefícios financeiros para as pessoas que trabalham na região. “As onças, hoje, têm um valor negativo por parte das comunidades. Porque as pessoas se sentem ameaçadas por causa da onça. Perdem cachorro, criação, porco, gado. A ideia é que mais gente venha fazer a observação de onças e que o recurso extra vá para as comunidades e para manter essa atividade de pesquisa. As pessoas ficam mais interessadas com o bicho. E o mais importante é dar tempo para as pessoas se conscientizarem.”

Os filhotes também se adaptam à vida nas copas das árvores - Foto: Emiliano Ramalho

Os filhotes também se adaptam à vida nas copas das árvores – Foto: Emiliano Ramalho

Para Emiliano, é possível replicar o modelo de turismo de observação de onças em outros lugares da Amazônia, principalmente em áreas de várzea. Ele já está programando outras iniciativas para verificar a possibilidade de fazer algo semelhante em áreas de terra firme.

A pesquisa do Projeto Iauaretê mostra que é necessário aumentar as áreas protegidas de florestas de várzea para ajudar na conservação da onça-pintada na Amazônia. Iniciativas como essa são necessárias para retirar o felino da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção.

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Muriqui, o maior primata das Américas, pode ganhar Unidades de Conservação no Paraná

O muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) está na categoria em perigo da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção – Foto: Robson Hack

O muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) só é encontrado na Mata Atlântica e está na categoria em perigo da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção – Foto: Robson Hack

Técnicos da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e do Instituto Lactec se reuniram no dia 11 de março com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e o Instituto Ambiental do Paraná  para apresentar resultados de um projeto de conservação do muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides). O objetivo é criar Unidades de Conservação (UCs) para proteger a espécie, que está na categoria em perigo da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, na região do Vale do Ribeira, no Paraná.

O projeto pretende ampliar o conhecimento sobre o muriqui-do-sul, e colocar em prática ações previstas no Plano de Ação Nacional (PAN) para conservação da espécie. Uma das prioridades é a criação de áreas protegidas no Paraná.

Ricardo Soavinski, secretário estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Sema), afirmou que é possível viabilizar a criação de uma ou mais UCs na região do estudo do projeto. A área tem cerca de 5.000 hectares e abriga uma população de 32 muriquis-do-sul.

Para Soavinski, existem alternativas que permitem a proteção da espécie sem impedir o uso econômico da área. As Reservas Particulares do Patrimônio Natural e Refúgios de Vida Silvestre são alguns exemplos. “Ainda precisa de avaliação mais aprofundada, mas essas são categorias que preservam as áreas de matas nativas já usadas por esses animais sem a dependência de desapropriações de todas as áreas, evitando impactos econômicos negativos”, disse. Essas UCs também permitem turismo, pesquisa e atividades de educação ambiental.

Um grupo de trabalho – com a participação de técnicos do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), Instituto Lactec, Secretaria de Meio Ambiente do Estado e da Fundação Grupo Boticário – foi criado para elaborar um plano estratégico que alie a conservação da espécie e, ao mesmo tempo, evite prejuízos à comunidade local.

“A possibilidade da efetivação concreta de ações para proteção do muriqui fortalece nosso trabalho de articulação que busca promover um diálogo entre governo e pesquisadores, buscando impactos positivos para a conservação de nossos ecossistemas naturais”, destaca o coordenador de Ciência e Informação da Fundação Grupo Boticário, Emerson Oliveira.

Os índios chamam os muriquis de “povo manso da floresta” devido aos hábitos pacatos do primata – Foto: Robson Hack

Os índios chamam os muriquis de “povo manso da floresta” devido aos hábitos pacatos do primata – Foto: Robson Hack

Muriqui

Encontrado somente na Mata Atlântica, o muriqui, também conhecido como mono-carvoeiro é o maior primata das Américas. Eles não  são agressivos e demonstrações de afeto são comuns entre indivíduos de qualquer sexo ou idade. Uma das características marcantes desses macacos são os demorados abraços grupais. Os adultos sempre cuidam dos mais jovens e fazem pontes com o próprio corpo para facilitar a passagem de filhotes de uma árvore para outra. Por conta de toda essa passividade, os muriquis são chamados pelos índios de “povo manso da floresta“.

Gente que bamboleia, que vai e vem. Esse é o significado do nome muriqui em tupi-guarani. O primata possui braços longos e uma cauda preênsil – capaz de segurar galhos como se fosse um quinto membro – que conferem muita agilidade ao macaco enquanto se movimenta em sua jornada em busca de alimento (frutos, flores e folhas). Ele atua como dispersor de sementes de diferentes espécies de plantas e é essencial para manter a diversidade da floresta.

Segundo Robson Hack, responsável pelo estudo com a população do primata registrada em Castro, Paraná, o muriqui contribui para que serviços ambientais prestados pela floresta – como produção de água, alimento e fertilização do solo – sejam mantidos com qualidade. Além disso, o pesquisador destaca que atrair a atenção e investimentos para a região é um bom negócio. “Os proprietários do Vale do Ribeira podem se beneficiar com o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) e com iniciativas de turismo e pesquisa que beneficiem toda a comunidade”, destaca.

Região do vale do Ribeira onde acontece o projeto de conservação, intitulado "O muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) como espécie-chave para a conservação da biodiversidade do vale do rio Ribeira do Iguape, no estado do Paraná", da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e do Instituto Lactec - Foto: Robson Hack

Região do Vale do Ribeira onde acontece o projeto de conservação, intitulado “O muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) como espécie-chave para a conservação da biodiversidade do vale do rio Ribeira do Iguape, no estado do Paraná”, da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e do Instituto Lactec – Foto: Robson Hack

O PSA premia financeiramente proprietários particulares por conservarem suas áreas naturais e protegerem mananciais, nascentes e a biodiversidade. Oliveira lembra ainda que ao criar uma Unidade de Conservação, a região irá se beneficiar de incentivos oriundos do ICMS Ecológico, mecanismo que possibilita aos municípios que possuem UCs acesso a parcelas maiores que àquelas que já têm direito. É um critério diferenciado para valorizar as áreas naturais brasileiras (o Paraná foi o primeiro estado a instituir o ICMS Ecológico, em 1989).

Segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês), a população de mono-carvoeiros sofreu uma queda de 80% nos últimos 60 anos. Eles foram dizimados pela caça e pela destruição da floresta.  Estima-se que a população atual seja de menos de 3 mil animais, divididos em duas espécies diferentes: o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) que ocorre nos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e sul da Bahia; e o muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) que é encontrado nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e parte do Paraná.

O muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) , possui manchas esbranquiçadas na face negra. A espécie é considerada criticamente ameaçada de extinção segundo a lista vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Bart vanDorp/Creative Commons

O muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) , possui manchas esbranquiçadas na face negra. A espécie é considerada criticamente ameaçada de extinção segundo a lista vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Bart vanDorp/Creative Commons

Morre onça-pintada símbolo do Refúgio Biológico de Itaipu. Descanse em paz, Juma

Juma bebendo água, em 2007 - Foto: Daniel De Granville

Juma bebendo água, em 2007  – Foto: Daniel De Granville

Juma, a onça-pintada símbolo do Refúgio Biológico Bela Vista (RBV) de Itaipu, morreu no último domingo (17) às 14h30 no zoológico Roberto Ribas Lange, onde estava desde 2002. O felino foi fundamental para o trabalho de educação ambiental, incentivou o turismo local e contribuiu para pesquisas científicas da Panthera onca, que está na categoria vulnerável da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção.

“Foi a perda de um ícone, de um animal emblemático para todo o trabalho que fizemos aqui em termos de fauna. Ela é o símbolo dessa nossa luta pela conservação”, comenta Wanderlei de Moraes, veterinário da Divisão de Áreas Protegidas de Itaipu, que acompanhou toda a vida da onça no RBV e foi o responsável pela necropsia.

A morte foi causada por insuficiência renal severa, provocada por infecção nos rins. O problema é comum em felinos idosos como a Juma, que tinha a idade estimada em 24 anos.

Juma chegou no RBV quando tinha 10 anos, desnutrida e debilitada. Ela vivia na região do Parque Nacional do Iguaçu, mas estava sendo avistada fora dos limites da reserva, o que colocava sua vida em risco. Wanderlei acredita que ela estava perdendo uma disputa por território.

Se continuasse na natureza, Juma não teria sobrevivido muito tempo porque estava desnutrida, com dentes quebrados e havia começado a capturar animais em propriedades particulares. Devido a esses problemas, a equipe do RBV decidiu colocá-la em cativeiro.

Juma foi a primeira onça-pintada do RBV e também a primeira a ser exposta para os turistas no local. Ela era o animal mais fotografado e a maior celebridade do zoológico. Toda esta visibilidade foi importante para o trabalho de educação ambiental e a conservação da onça-pintada.

“Ela nos forneceu informação que era difícil se obter de onças como, por exemplo, amostras de sangue, e virou um ícone da relação entre o Parque Nacional do Iguaçu e a Itaipu”, afirmou Marina Xavier da Silva, coordenadora de campo do Projeto Carnívoros do Iguaçu. “Juma sempre foi muito comentada no nosso universo e teve grande contribuição para a consciência das pessoas”, completou.

Descanse em paz, Juma.

Segundo o último censo realizado pelo Projeto Carnívoros do Iguaçu, de 2014, a população de onças-pintadas é de 18 animais, no lado brasileiro do Parque Nacional do Iguaçu. Em todo o corredor verde, que abrange áreas na Argentina e no Brasil, até o Parque Estadual do Turvo, no Rio Grande do Sul, são estimados 80 animais.

A morte do leão Cecil inicia o debate: a caça esportiva pode ajudar na conservação?

Cecil, o leão mais amado do Zimbábue foi morto por caçadores esportivos - Foto: Reprodução do YouTube

Cecil, o leão mais amado do Zimbábue foi morto por caçadores esportivos – Foto: Reprodução do YouTube

(Atualizado em 7 de agosto) A morte de Cecil, o mais querido e mais fotografado leão do Zimbábue, na África, chocou pessoas em várias partes do mundo. Uma carcaça foi utilizada para atrair o animal para fora do Parque Nacional Hwange, onde a caça esportiva é proibida. Logo depois ele foi alvejado com uma flecha. Cecil conseguiu escapar, resistiu por dois dias, mas foi rastreado pelos caçadores e morto com um tiro na concessão de caça Gwaai. A cabeça e a pele foram levadas como troféus.

Cecil tinha 13 anos e era pai de pelo menos 12 filhotes, que devem morrer quando um novo macho tomar seu lugar. O leão que assume um bando mata os filhotes de seu antecessor para fazer as fêmeas entrarem no cio e iniciar sua família.

Uma fonte que está familiarizada com o problema (e pediu para não ser identificada) entrevistada por Adam Lure, em seu artigo “A morte do leão mais amado do Zimbábue inicia um debate sobre a caça esportiva” (Death of Zimbabwe’s Best-Loved Lion Ignites Debate on Sport Hunting, no título original em inglês), publicado no site de National Geographic, diz que grandes felinos podem ser atraídos para fora de reservas protegidas com iscas colocadas em áreas onde a caça é permitida. Segundo a fonte, não há grandes leões nas áreas de concessão de caça, apesar das alegações da prática de caça sustentável.

Jane Goodall, primatóloga e autora de um dos mais belos estudos científicos já realizados no mundo, expressou seu repúdio em seu site: “Fiquei chocada e indignada ao ouvir a história de Cecil, o leão mais amado do Zimbábue. Para mim, é incompreensível que alguém tenha vontade de matar um animal ameaçado de extinção (hoje, existem menos de 20.000 leões selvagens na África). Mas atrair Cecil para fora da área de segurança de um parque nacional e, em seguida, matá-lo com uma flechada…? Não tenho palavras para expressar minha repugnância,” e concluiu: “E esse comportamento é descrito como esporte.”

O impacto da caça esportiva nos bandos de leões

Entre 1999 e 2004, um estudo da Wildlife Conservation Research Unit at Oxford University, liderado pelo Dr. Andrew Loveridge, analisou o impacto da caça esportiva na dinâmica de uma população de leões do Parque Nacional Hwange (Para saber mais acesse: The impact of sport-hunting on the population dynamics of an African lion population in a protected area)

62 leões receberam colares com GPS. 34 leões morreram durante o estudo. 24 foram baleados em áreas próximas ao parque por caçadores esportivos (13 machos adultos, 5 fêmeas adultas, 6 machos sub-adultos). A caça esportiva foi responsável pela morte de 72% dos machos adultos estudados. A proporção entre machos e fêmeas que era de 1:3 passou para 1:6 em favor das fêmeas. Os territórios deixados pelos leões que morreram foram ocupados por leões que migraram de áreas próximas e infanticídio foi observado.

Um outro estudo (Socio-spatial behaviour of an African lion population following perturbation by sport hunting) realizado no Hwange, analisou o comportamento da população de leões antes e após a legalização da caça esportiva nos arredores do parque. As evidências sugerem que bandos de leões que são perturbados pela caça esportiva apresentam movimentos erráticos, tem uma probabilidade maior de deixar o parque e, consequentemente, estão mais propensos a entrar em conflito com humanos que moram nas fronteiras da reserva.

A caça esportiva regulamentada

Mesmo assim, ainda existem argumentos a favor da caça esportiva. Reservas de caça estabelecem cotas e apenas alguns animais podem ser abatidos por ano. Segundo o artigo “A caça esportiva de leões pode ajudar na conservação?” (Can Lion Trophy Hunting Support Conservation?, no título original em inglês), publicado no site de National Geographic, alguns cientistas, o Serviço Americano de Peixes e Vida Selvagem (USFWS), e alguns grupos de conservação (incluindo o WWF) apoiam a caça esportiva regulamentada. Os defensores dizem que a atividade levanta muito dinheiro, necessário para a conservação das espécies, e pode ajudar no gerenciamento das populações se as autoridades exigirem que os caçadores escolham animais que perderam a capacidade de se reproduzir ou que possam inibir a reprodução de outros ao seu redor.

Autorizações para a caça esportiva são permitidas por tratados internacionais, desde que uma parte significativa dos recursos seja destinada à conservação das espécies na natureza e que seja comprovado por estudos científicos que a morte dos indivíduos selecionados não irá colocar a espécie em risco. Porém, os críticos dizem que a prática está sujeita à corrupção, alimenta a procura de produtos de animais selvagens no mercado negro e as medidas regulatórias são muito difíceis de serem aplicadas na prática (a morte de Cecil é um exemplo disso.

O vídeo abaixo, filmado por Bryan Orford, mostra Cecil no Parque Nacional Hwange

Para mim, é difícil acreditar na ideia de matar animais para ajudar na conservação. Mais difícil ainda é derrubar o argumento de Bryan Orford, guia de ecoturismo que trabalhou em Hwange, filmou Cecil várias vezes e deu seu depoimento para a reportagem de Adam Lure. Segundo Orford, Cecil era a principal atração do parque nacional e atraía turistas do mundo inteiro. O guia calcula que as pessoas hospedadas em apenas um dos hotéis nas proximidades do parque pagam coletivamente 9.800 dólares por dia. Em apenas cinco dias de fotografias com Cecil, o Zimbábue ultrapassaria os lucros obtidos com a taxa de 45.000 dólares para a caça esportiva. Estive na África para fazer safáris fotográficos e concordo plenamente com Orford.

O único lado bom disso tudo foi levantado por Jane Goodall: “Pessoas leram a história e também ficaram chocadas. Seus olhos se abriram para o lado negro da natureza humana. Certamente eles estarão mais preparados para lutar pela proteção dos animais selvagens e os lugares selvagens onde vivem. É aí que reside a esperança.”

Crescimento no interesse pela conservação

Jane estava certa. Após a tragédia, três companhias aéreas dos Estados Unidos (American Airlines, Delta Airlines e United Airlines) proibiram o transporte de troféus de caça em seus voos. A morte de Cecil também desencadeou uma onde de doações para grupos que lutam pela conservação da natureza.

De acordo com a reportagem “Morte do leão Cecil estimula doações para grupos de conservação da vida selvagem… e agora?” (Cecil the Lion’s Death Spurred Donations to Wildlife Groups … Now What?, no título original em inglês), publicado no site de National Geographic, a Unidade de pesquisa para a conservação de vida selvagem de Oxford (WildCRU, na sigla em inglês), que estava rastreando Cecil, considerava parar ações contra a caça esportiva há três semanas atrás, porque estava ficando sem dinheiro. Após a morte de Cecil, a WildCRU recebeu mais de 300 mil libras esterlinas (468,660 dólares) em doações. A campanha  High Five, Give $5, Save Big Cats do programa Big Cats Initiative de National Geographic, também recebeu um impulso com participação de famosos, como Arnold Schwarzenegger.

A morte do leão mais amado do Zimbábue não foi em vão, e pode ser um marco na luta pela conservação de animais selvagens em todo o mundo. Descanse em paz, Cecil.