Anta: o maior mamífero terrestre da América do Sul

Anta-sul-americana (Tapirus terrestris) - Foto: Fábio Paschoal

Anta-sul-americana (Tapirus terrestris) – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 6 da série Pantanal: Terra das águas

Existem 5 espécies de antas conhecidas pela ciência: a anta-da-montanha (Andes), a anta-centro-americana (América Central) e a anta-malaia (Indonésia) – que estão ameaçadas de extinção segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês). Em território brasileiro encontramos a anta-sul-americana, que é considera vulnerável, e a anta-pretinha, descoberta recentemente.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 5 da série Pantanal: Terra das Águas]

“A anta [Tapirus terrestris] é o maior mamífero terrestre da América do Sul. Além disso, é a jardineira de nossas florestas por ser uma excelente dispersora de sementes, contribuindo desta forma para a formação e manutenção da biodiversidade dos biomas brasileiros onde vive (Amazônia, Pantanal , Cerrado e Mata Atlântica). E tem mais: estudos recentes mostraram que a espécie tem uma quantidade imensa de neurônios, confirmando que ela é um animal extremamente inteligente. Portanto, a cultura brasileira de usar anta como xingamento, com conotação pejorativa, é completamente injusta e absolutamente infundada. Ser chamado de anta é um elogio!”. As palavras são de Patrícia Médici, Ph.D. em manejo de biodiversidade e coordenadora da Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira. O objetivo do projeto é estabelecer um programa de pesquisa e conservação da anta-sul-americana na região do Pantanal e depois expandir as ações para a Amazônia e o Cerrado.

Anta-centro-americana (Tapirus bairdii) – Foto: Santhosh Kumar/iStock/Thinkstock

Anta-centro-americana (Tapirus bairdii) – Foto: Santhosh Kumar/iStock/Thinkstock

Em agosto de 2013, a pesquisadora, em parceria com a jornalista ambiental Liana John, lançou a campanha Minha Amiga é uma Anta, desenvolvida para o público infanto-juvenil (veja o vídeo da campanha no final do post). A intenção era chamar a atenção sobre a importância da conservação da anta brasileira, despertar o orgulho pela ocorrência da espécie no Brasil e desmistificar o conceito de que “anta” é um ser desprovido de inteligência .

É possível baixar a cartilha educativa da anta brasileira, escrita por Liana John e Patrícia Medici e ilustrada pelo cartunista Luccas Longo, com informações sobre a espécie, materiais para estudo e trabalhos de escola, fotografias e ilustrações.

Tapirus kabomani é a primeira espécie de anta descoberta após Tapirus bairdii, descrita em 1865 - Foto: Divulgação

A anta-pretinha (Tapirus kabomani) é a primeira espécie de anta descoberta após Tapirus bairdii, descrita em 1865 – Foto: Divulgação

O trabalho de Patrícia é reconhecido internacionalmente. Ela foi escolhida em 2014 para o TED Fellows Program, que seleciona jovens inovadores, engajados e inspiradores e os treina para que façam palestras no TED Talks (Veja a palestra de Patrícia no final do post). O programa é uma iniciativa do movimento global TED (Technology, Entertainment and Design) – organização sem fins lucrativos dedicada ao conceito baseado em Ideas Worth Spreading (ideias que merecem ser espalhadas, na tradução literal do inglês).

Anta-da-montanha (Tapirus pinchaque) – Foto: Diego Lizcano/Creative Commons

Anta-da-montanha (Tapirus pinchaque) – Foto: Diego Lizcano/Creative Commons

Para chamar a atenção para a importância desses animais foi criado o Dia Mundial da Anta (27 de abril). Apesar de dar margem para inúmeros trocadilhos, a data tem um propósito sério: a conservação das cinco espécies de antas encontradas no planeta.

O desmatamento, a fragmentação do habitat, a competição com animais domésticos, a caça ilegal e os atropelamentos em rodovias fazem com que a população das antas continue diminuindo. Nada mais justo do que um dia para lembrar a importância de cuidar bem desses simpáticos animais (Veja o capítulo 7 da série Pantanal: Terra das Águas).

Anta-malaia (Tapirus indicus) – Foto: wathanyu/iStock/Thinkstock

Anta-malaia (Tapirus indicus) – Foto: wathanyu/iStock/Thinkstock

Veja abaixo o vídeo da campanha Minha Amiga é uma Anta

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Expondo as selfies com tigres: relatório revela crueldade com os felinos usados na indústria do entretenimento

Encontrados em grande parte da Ásia, os tigres são os maiores felinos do mundo. Habitavam lugares tão diversificados (florestas tropicais, pântanos e savanas) que acabaram evoluindo em populações regionais com padrões e tamanhos distintos, a ponto de serem classificadas em subespécies diferentes. Hoje, a maioria está extinta. A perda de habitat, a caça de suas presas e o mercado negro chinês – que vende partes do corpo do felino para fazer remédios – estão dizimando um dos predadores mais formidáveis - Foto: iStock/Thinkstock

Encontrados em grande parte da Ásia, os tigres são os maiores felinos do mundo. Habitavam lugares tão diversificados (florestas tropicais, pântanos e savanas) que acabaram evoluindo em populações regionais com padrões e tamanhos distintos, a ponto de serem classificadas em subespécies diferentes. Hoje, a maioria está extinta. A perda de habitat, a caça de suas presas e o mercado negro chinês – que vende partes do corpo do felino para fazer remédios – estão dizimando um dos predadores mais formidáveis – Foto: iStock/Thinkstock

Tigres mantidos em cativeiro são vítimas de um turismo irresponsável. Esses felinos ameaçados de extinção são criados e usados para entreter viajantes e alavancar os lucros de estabelecimentos que oferecem atrações com a vida silvestre, agências de viagens, e até o tráfico de animais. É o que revela o relatório Expondo as selfies com tigres: um retrato da indústria do entretenimento com tigres na Tailândia, elaborado pela World Animal Protection (WAP).

Entre março de 2015 e junho de 2016, pesquisadores da ONG visitaram anonimamente 17 das maiores atrações com tigres na Tailândia. Eles descobriram que, dos 1500 tigres em cativeiro, 830 são utilizados na indústria do entretenimento (um aumento de 33% nos últimos cinco anos) e que 88% desses felinos vivem em condições miseráveis.

[Veja o post: A morte do leão Cecil inicia o debate: a caça esportiva pode ajudar na conservação?]

[Veja o post: Lóris: o único primata venenoso do mundo está ameaçado. Pelo tráfico de animais e por vídeos no YouTube]

Filhote de tigre em cativeiro no Sri Racha Tiger Zoo, Tailândia – Foto: World Animal Protection

Segundo o relatório, 13 dos estabelecimentos permitiam que turistas se aproximassem para tirar selfies, 12 estabelecimentos incentivavam os visitantes a tirar selfies com filhotes de tigres separados de suas mães no início de suas vidas, 3 atrações permitiam a alimentação de tigres adultos, 2 zoológicos ofereciam apresentações do tipo circense e todos os 17 pontos turísticos visitados ofereciam atividades que exigiam que os tigres agissem contra o instinto natural (saltando aros em chamas, por exemplo), causando angústia e estresse nos animais.

Os principais problemas encontrados nos estabelecimentos visitados foram:

  • Separação dos filhotes de suas mães, duas a três semanas após o nascimento. Os pequenos passam a ser alimentados por mamadeiras oferecidas por turistas. É provável que a separação prematura sirva a um segundo propósito: permitir que os estabelecimentos obtenham ninhadas com maior frequência;
  • Apresentação de filhotes, vistos e manuseados de forma incorreta centenas de vezes ao dia por turistas e funcionários, o que pode levar ao estresse e lesões;
  • Punição por meio da dor e do medo, para impedir comportamentos indesejados ou agressivos. A fome também é usada com a mesma finalidade;
  • Recintos impróprios, como jaulas de concreto pequenas ou locais áridos, com acesso limitado à água potável. 50% dos tigres observados estavam em gaiolas com menos de 20m² por animal, metragem muito distante dos 16 a 32 quilômetros que eles costumam caminhar em uma única noite na natureza;
  • 12% dos tigres observados mostraram problemas de comportamento, tais como andar de um lado para o outro repetitivamente ou morder a própria cauda. Estes comportamentos ocorrem frequentemente quando os animais estão em ambientes ou situações estressantes e nunca foram registrados em animais vivendo na natureza.

Tigres mantidos em cativeiro são acorrentados para que turistas possam posar em fotos com eles no Phuket Zoo, Tailândia – Foto: World Animal Protection

Turistas posam para fotos com tigres criados em cativeiro em Million Stone Park, na Tailândia – Foto: World Animal Protection

Outro grave problema é a possível associação da indústrias de entretenimento com o tráfico de animais. Oficiais do governo da Tailândia encontraram peles, amuletos feitos com os ossos e dentes de tigres, além de 70 filhotes mortos em potes e congeladores no Tiger Temple, um dos estabelecimentos visitados pela WAP. O estabelecimento também fracassou em prestar contas sobre o desaparecimento de três tigres registrados pelo governo. Em junho de 2016, todos os 147 tigres do Tiger Temple foram apreendidos pelas autoridades tailandesas e o estabelecimento está sendo acusado de ter ligações com o tráfico de partes do corpo de tigres.

Por enquanto, não há provas de que os outros estabelecimentos citados no relatório estejam envolvidos com o comércio ilegal de tigres ou de suas partes. Mas a pesquisa mostra que há discrepâncias significativas entre o número de tigres declarados por alguns estabelecimentos e os observados no local. O que levanta sérias preocupações, especialmente sobre a criação acelerada de tigres em cativeiro, uma prática aparentemente comum e sem benefício à preservação da espécie.

Turistas visitam tigres mantidos em cativeiro no Tiger Temple, Tailândia – Foto: World Animal Protection

“O crescimento do número tigres em cativeiro na Tailândia é muito preocupante. É preciso que os turistas saibam que se podem tirar foto ou estar perto de animais como esses, há algo errado”, afirma Roberto Vieto, Gerente de Vida Silvestre da WAP.

Para cessar a demanda e, consequentemente, a oferta de atividades irresponsáveis de turismo com animais, a WAP criou a campanha internacional Silvestres. Não entretenimento. Os objetivos são:

  • Estimular os governos em todo o mundo a investigarem locais de entretenimento com tigres e fechar aqueles que mostram evidência de comércio ilegal, crueldade ou negligência;
  • Parar a venda e a promoção de locais de entretenimento que maltratam animais selvagens por agências de viagens (principalmente a Trip Advisor) ;
  • Alertar viajantes para que deixem de frequentar locais de entretenimento turístico que permitam a interação direta entre pessoas e animais, como abraços e selfies com tigres.

Consigo sentir a tristeza nos olhos de animais enjaulados. Já visitei o Pantanal, a Amazônia, a África e Galápagos, e posso afirmar que a experiência de ver animais selvagens em seu habitat natural é muito mais enriquecedora do que tirar uma foto abraçada com um bicho em cativeiro. Muito mais triste é saber que essa prática pode servir para alimentar o tráfico de animais. Por isso, fico com as esperanças renovadas ao ver que mais de 400 mil pessoas assinaram a petição da WAP e mais de 100 agências de viagens se comprometeram a parar de vender e promover atrações que utilizem animais silvestres.

Para saber mais acesse o site da campanha: http://www.worldanimalprotection.org.br/silvestres-nao-entretenimento

– Foto: World Animal Protection

– Foto: World Animal Protection

– Foto: World Animal Protection

– Foto: World Animal Protection

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Biólogo brasileiro recebe prêmio Guerreiro da Vida Selvagem do Houston Zoo

Gabriel Massocato atua desde 2012 na equipe do Projeto Tatu Canastra - Foto: Divulgação

Gabriel Massocato atua desde 2012 na equipe do Projeto Tatu Canastra – Foto: Divulgação

O biólogo Gabriel Massocato foi um dos vencedores do Wildlife Warriors (Guerreiros da Vida Selvagem), promovido pelo Jardim Zoológico de Houston (Houston Zoo, EUA). O prêmio reconhece os pesquisadores de destaque dos projetos apoiados pelo zoo ao redor do mundo. O pesquisador atua desde 2012 no Projeto Tatu-Canastra, do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), realizado no Pantanal e Cerrado.

Gabriel Massocato um dos vencedores do prêmio Wildlife Warriors (Guerreiros da Vida Selvagem), promovido pelo Jardim Zoológico de Houston - Foto: Divulgação

Gabriel Massocato um dos vencedores do prêmio Wildlife Warriors (Guerreiros da Vida Selvagem), promovido pelo Jardim Zoológico de Houston – Foto: Divulgação

Gabriel é formado pela Universidade Federal da Grande Dourados (MS) e iniciou sua atuação em campo com um projeto de pesquisa sobre atropelamentos de vertebrados no Mato Grosso do Sul, em 2010. No projeto do Tatu Canastra, participa de ações de pesquisa no Pantanal e mais recentemente no Cerrado. O pesquisador é um dos responsáveis pelo trabalho de Ciência Cidadã, que levanta informações sobre a espécie com ajuda das comunidades locais. Como o tatu é uma espécie rara e difícil de ser encontrada, o apoio da população de pequenas cidades do estado é indispensável.

No Cerrado, um bioma amplamente fragmentado, com menos de 20% da vegetação nativa, os tatus-canastra correm reais riscos de extinção. Assim, o projeto vem mapeando a distribuição das últimas populações da espécie para criar áreas protegidas e corredores de conservação. Além disso, busca parcerias com órgãos governamentais e instituições para o desenvolvimento de atividades de educação ambiental a alunos de escolas estaduais.

“Esse é um prêmio em equipe, inspirado em todas as pessoas com quem eu trabalho e compartilho minha vida na cidade e no campo, a todas as pessoas que ficam encantadas em conhecer o raro e surpreendente Priodontes Maximus, o tatu-canastra. Hoje eu posso dizer que o tatu-canastra se tornou o meu projeto de vida, esse é o trabalho na qual eu escolhi e sou realizado profissionalmente. O prêmio, certamente, me dá ainda mais força e inspiração na luta diária por essa causa”, afirma Gabriel.

Com o prêmio, o pesquisador irá se especializar e passar uma temporada no zoológico, atuando no departamento de Educação e Conservação, e participar de um curso intensivo em inglês.

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Cuíca-de-colete é redescoberta na Amazônia brasileira após 50 anos

A cuíca-de-colete (Caluromysiops irrupta) está na categoria Criticamente Ameaçada da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, elaborada pelo ICMBio - Foto: Marcio Martins

A cuíca-de-colete (Caluromysiops irrupta) está na categoria Criticamente Ameaçada da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, elaborada pelo ICMBio – Foto: Marcio Martins

A cuíca-de-colete (Caluromysiops irrupta) é o único marsupial (grupo dos gambás, cangurus e coalas) classificado como criticamente ameaçado no Brasil. O único registro que existia da espécie no país era de uma pele depositada no Museu de Zoologia da USP datada de 1964. Porém, em dezembro de 2013, a bióloga da USP Júlia Laterza Barbosa encontrou um exemplar durante um resgate de fauna em Paranaíta, município localizado dentro da Amazônia Legal, no estado de Mato Grosso. A redescoberta foi publicada por Barbosa e outros dois pesquisadores no periódico científico De Gruyter no mês passado (maio de 2016).

Para Marcus Vinicius Brandão, biólogo graduado pela USP, com mestrado em mastofauna pela UFSCar e um dos autores do artigo, a redescoberta da espécie mostra a importância do licenciamento ambiental, processo que analisa os impactos socioambientais de um empreendimento para avaliar se a obra é viável ou não e que pode deixar de ser obrigatório com a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição 65/2012 em tramitação no Senado.

A cuíca-de-colete (Caluromysiops irrupta) foi redescoberta no Brasil após 50 anos. A espécie está na categoria Criticamente Ameaçada da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, elaborada pelo ICMBio. (O animal foi capturado durante um resgate de fauna e foi solto em um lugar seguro) - Foto: Júlia Laterza Barbosa

A cuíca-de-colete que foi redescoberta no Brasil após 50 anos. (O animal foi capturado durante um resgate de fauna e foi solto em um lugar seguro) – Foto: Júlia Laterza Barbosa

“Durante o processo de licenciamento ambiental busca-se avaliar o impacto ambiental e também social que grandes obras como rodovias, hidrelétricas, mineradoras, etc podem causar. Dessa forma, avaliamos se os benefícios que serão obtidos por esses empreendimentos compensam os impactos que serão gerados. Assim, através de estudos do meio social e ambiental, pode-se ter dimensão da realidade local e elaborar relatórios que poderão direcionar a minimização dos impactos. Além disso, é uma oportunidade de aumentarmos o conhecimento sobre a biodiversidade local. O registro da cuíca-de-colete é um exemplo disso”, diz Brandão. E completa: “Nós sabemos das atuais tragédias ambientais ocorridas no país. Agora imagine: se essas tragédias já aconteceram com a atual legislação, o que aconteceria se a PEC65 fosse aprovada? Imagine os desastres ambientais que poderiam ocorrer. Grande parte da nossa biodiversidade, que pouco conhecemos, estaria destinada a desaparecer sem termos ciência de sua existência.”

A cuíca-de-colete possui uma característica única entre os marsupiais sul-americanos: a faixa escura que se estende das mãos, passa pelos braços, ombros e chega até as costas - Foto: Júlia Laterza Barbosa

A cuíca-de-colete possui uma característica única entre os marsupiais sul-americanos: a faixa escura que se estende das mãos, passa pelos braços, ombros e chega até as costas – Foto: Júlia Laterza Barbosa

No início deste mês (junho), outro artigo científico, publicado no Check List, informou outro registro da espécie no Parque Estadual Guajará Mirim, em Rondônia. “Embora este novo registro refira-se ao avistamento da cuíca-de-colete em 1995, ou seja, mais de 20 anos atrás, é um registro bastante importante, pois foi feito em uma Unidade de Conservação, o que representa um grande passo na ajuda para a conservação de populações desta espécie no Brasil”, comenta Brandão.

Os registros publicados recentemente são importantes para provar que a espécie ainda vive na Amazônia brasileira. Porém, sua área de ocorrência sofre com o desmatamento para a agricultura e a pecuária. Para Brandão é preciso avaliar o atual estado das populações da cuíca-de-colete, obter mais amostras para estudos genéticos e estudar os dados ecológicos do animal para determinar se a espécie é rara e ameaçada realmente ou se é comum, mas com hábitos que dificultam a percepção de sua presença (como vida restrita à copa das árvores e hábito noturno, por exemplo). “Conhecendo melhor os dados biológicos de Caluromysiops irrupta, a comunidade científica pode direcionar melhor os esforços de conservação e quem sabe no futuro poderemos retirar esta espécie da lista de espécies ameaçadas.

Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira completa 20 anos

 A anta-brasileira (Tapirus terrestris) é o maior mamífero terrestre da América do Sul. Considerada a "jardineira da floresta" por ser uma excelente dispersora de sementes, contribuiu para a formação e manutenção da biodiversidade das matas onde vive. A espécie é considerada vulnerável pela Lista Vermelha da UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) - Foto: INCAB/IPÊ


A anta-brasileira (Tapirus terrestris) é o maior mamífero terrestre da América do Sul. Considerada a jardineira da floresta por ser uma excelente dispersora de sementes e contribuir para a formação e manutenção da biodiversidade das matas onde vive. O animal da foto está com um rádio-colar que ajuda na obtenção de dados sobre a área de vida e ajuda a localizar cada indivíduo. A espécie é considerada vulnerável pela Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: INCAB/IPÊ

A Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB), do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), celebra 20 anos em 2016. O projeto, coordenado pela pesquisadora Patrícia Medici, preparou diversos eventos comemorativos para celebrar esse marco para a conservação da espécie.

As duas décadas de estudos resultaram no mais completo e detalhado banco de dados do mundo sobre a anta-brasileira, também conhecida como anta-sul-americana. As informações geradas são fundamentais para planejar ações efetivas para a conservação da espécie nos âmbitos regional e nacional.

Equipe da INCAB coleta dados de uma anta que serão utilizados para ajudar na conservação da espécie (o animal foi liberado após o procedimento) - Foto: INCAB/IPÊ

Equipe da INCAB coleta dados de uma anta que serão utilizados para ajudar na conservação da espécie (o animal foi liberado após o procedimento) – Foto: INCAB/IPÊ

O status de conservação da anta-brasileira é acompanhado de perto por Patrícia Medici desde 1996. A engenheira florestal iniciou os estudos na região do Pontal do Paranapanema, extremo oeste do estado de São Paulo, com o Programa Anta Mata Atlântica. O projeto foi realizado até 2007 e levantou dados sobre o impacto da fragmentação florestal e da paisagem fragmentada na sobrevivência dos indivíduos e sobre sua ecologia espacial, genética e saúde.

Em 2008 o projeto foi ampliado, mudou o nome para Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira e ganhou um novo objetivo: mapear as principais ameaças e o status de conservação das antas em todos os biomas em que a espécie ocorre no Brasil. Atualmente o projeto se encontra no Pantanal e no Cerrado. Futuramente, a Amazônia também fará parte dos estudos da INCAB.

Pesquisadores da INCAB rastreiam uma anta que recebeu um rádio-colar - Foto: INCAB/IPÊ

Pesquisadores da INCAB rastreiam uma anta que recebeu um rádio-colar – Foto: INCAB/IPÊ

“O nosso grande diferencial é a pesquisa científica de longa duração, que é de extrema importância no processo de gerar informações para alimentar e subsidiar o desenvolvimento de ações de conservação realistas e efetivas. Grande parte das informações que utilizávamos anteriormente para avaliar o risco de extinção das antas na natureza provinha de estudos em cativeiro. Atualmente, depois de trabalhos de pesquisa rigorosos na Mata Atlântica, Pantanal e Cerrado, contamos com um banco de dados consolidado com informações de antas em vida selvagem. Podemos, por exemplo, calcular alguns parâmetros reprodutivos da espécie tais como índices de mortalidade de filhotes, intervalos entre nascimentos, com base em nossos resultados de pesquisa”, diz Patrícia, coordenadora da INCAB.

Patricia Medici, coordenadora da INCAB, checa uma armadilha fotográfica. o equipamento é utilizado para registrar quais espécies são encontradas em um local - Foto: NCAB/IPÊ

Patricia Medici, coordenadora da INCAB, checa uma armadilha fotográfica. O equipamento registra as espécies encontradas em um local – Foto: INCAB/IPÊ

O suporte financeiro e institucional para a realização das atividades da INCAB vem de diversas organizações, incluindo fundos de conservação de zoológicos nos Estados Unidos e Europa, fundações e ONGs conservacionistas internacionais, zoológicos e universidades brasileiros. A INCAB conta também com o suporte de doadores privados no Brasil, Estados Unidos e Europa.

Atualmente, a INCAB conta com uma equipe de sete pessoas incluindo cinco profissionais em tempo integral – Patrícia Medici (Coordenadora), Renata Carolina Fernandes Santos (Veterinária), Caroline Testa José (Veterinária), Gabriel Denipoti (Biólogo) e José Maria de Aragão (Assistente de Campo) – e dois profissionais que atuam através de consultorias – Rafael Ruas Martins (Sistemas de Informações Geográficas) e Gabriela Pinho (Geneticista). A base da INCAB fica em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul.

Anta liberada pela equipe do INCAB após receber o rádio-colar - Foto: INCAB/IPÊ

Anta liberada pela equipe do INCAB após receber o rádio-colar – Foto: INCAB/IPÊ

Projeto Iauaretê: a luta para salvar as onças-pintadas das árvores da Amazônia

 Onça-pintada (Panthera onca) A onça-pintada é o maior felino das Américas. A perda e fragmentação de habitat associadas principalmente à expansão agrícola, mineração, implantação de hidrelétricas, ampliação da malha viária e a eliminação de indivíduos por caça ou retaliação por predação de animais domésticos são as principais ameaças enfrentadas pelo felino Status na Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção: espécie vulnerável

A onça-pintada (Panthera onca) é o maior felino das Américas. A perda e fragmentação do habitat associadas à expansão agrícola, mineração, implantação de hidrelétricas, ampliação da malha viária e a eliminação de indivíduos por caça ou retaliação por predação de animais domésticos são as principais ameaças enfrentadas pelo felino.
Status na Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção: espécie vulnerável – Foto: Emiliano Ramalho

Na Amazônia, durante o período da cheia, a onça-pintada deixa o solo e passa a viver na copa das árvores. Com incrível flexibilidade ecológica, o felino muda o comportamento para continuar em seu território, mesmo quando a água inunda a várzea da maior floresta tropical do mundo. Essa é uma das conclusões de uma pesquisa realizada pelo Projeto Iauaretê, do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

O estudo é realizado desde 2008 na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, a primeira reserva de desenvolvimento sustentável do Brasil, criada em 1996 a partir do sonho do primatólogo José Márcio Ayres de preservar o macaco uacari-branco. A área com mais de 1 milhão de hectares tem a função de proteger o ambiente de várzea amazônico, produzir ciência de qualidade e envolver as comunidades ribeirinhas locais na conservação do meio ambiente. “O que a gente tem observado é que temos, na Reserva Mamirauá, uma das mais altas densidades de onças encontrada no mundo. A gente estima mais de dez onças a cada 100 km².  E o que isso mostra é o potencial que as várzeas têm”, comentou o pesquisador Emiliano Ramalho, líder do GP Felinos, do Instituto Mamirauá.

Para Emiliano, a explicação para essa grande concentração de onças-pintadas se deve a grande quantidade de alimento disponível. Apesar de animais terrestres que são presas comuns do felino não serem encontrados com frequência, a densidade de preguiças e jacarés é altíssima. Esses duas espécies constituem a base da alimentação das onças-pintadas em Mamirauá. Segundo o pesquisador, existem cerca de 1000 onças-pintadas dentro da reserva.

A concentração de onças-pintadas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na Amazônia, é uma das maiores do mundo - Foto: Emiliano Ramalho

A concentração de onças-pintadas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na Amazônia, é uma das maiores do mundo – Foto: Emiliano Ramalho

A onça-preta e a onça-pintada são animais da mesma espécie. Indivíduos melânicos são mais comuns em florestas densas, como a Amazônia. Eles têm uma alta quantidade de melanina na pele e nos pelos - Foto: Projeto Iauaretê/Instituto Mamirauá

A onça-preta e a onça-pintada são animais da mesma espécie (Panthera onca). Indivíduos melânicos são mais comuns em florestas densas, como a Amazônia. Eles têm uma alta quantidade de melanina na pele e nos pelos – Foto: Projeto Iauaretê/Instituto Mamirauá

Como se movimentam as onças-pintadas da várzea Amazônica? Como a variação do nível da água, ao longo do ano, interfere na movimentação desses animais? Para responder a essas perguntas, os felinos recebem colares de GPS que armazenam e enviam informações da localização de cada animal para os pesquisadores via satélite. O colar também tem um sistema transmissor VHF, que emite uma frequência de rádio que é utilizada quando os pesquisadores querem encontrar o animal na floresta.

Durante os meses de janeiro e março a equipe do projeto capturou e instalou colares em duas onças: Django, uma onça-preta e Fofa, que está grávida. Para Louise Maranhão, veterinária no Instituto Mamirauá, a gestação é um indicativo de que o ambiente é viável para a sobrevivência e para a reprodução da espécie. “O animal está bem, possui alimentação no ambiente e está se reproduzido bem. Demonstra que esse é um ambiente que está favorável para sua manutenção.” Com esses dois animais, o projeto monitora atualmente cinco onças-pintadas na região.

As onças-pintadas são anestesiadas e têm os sinais vitais monitorados durante todo o processo de captura. Os animais são pesados, medidos e fotografados. Amostras biológicas são coletadas para análise genética e de parasitas em laboratório. Tudo é por acompanhado por um médico veterinário - Foto: Amanda Lelis

As onças-pintadas são anestesiadas e têm os sinais vitais monitorados durante todo o processo de captura. Os animais são pesados, medidos e fotografados. Amostras biológicas são coletadas para análise genética e de parasitas em laboratório. Tudo é por acompanhado por um médico veterinário – Foto: Amanda Lelis

As onças são liberadas com os colares GPS, que possuem um sistema que permite que se desarmem sozinhos quando a bateria acaba, possibilitando que sejam encontrados e reutilizados posteriormente. A acompanhamento pode durar até dois anos - Foto: Amanda Lelis

As onças são liberadas com os colares GPS, que possuem um sistema que permite que se desarmem sozinhos quando a bateria acaba, possibilitando que sejam encontrados e reutilizados posteriormente. O acompanhamento pode durar até dois anos – Foto: Amanda Lelis

A pesquisa também analisa as fezes das onças para determinar as principais presas dos felinos dentro de Mamirauá. “A preguiça sempre é o prato principal das onças ao longo do ano todo. O que muda no período da cheia é que as onças não têm acesso aos jacarés, que estão dispersos na água, na floresta. Então ela complementa isso com outros animais que vivem em cima da árvore: macacos guariba, outros macacos e o tamanduá-mirim”, diz Emiliano.

As informações coletadas pelo Projeto Iauaretê servem de base para a manutenção do programa de turismo de observação de onças-pintadas, realizado somente durante o período da cheia (final de abril até meados de junho) e mantido em parceria com a Pousada Uacari. Parte da renda arrecada vai para as comunidades locais e permite a continuidade da pesquisa científica. Segundo Emiliano, é importante provar que a onça pode trazer benefícios financeiros para as pessoas que trabalham na região. “As onças, hoje, têm um valor negativo por parte das comunidades. Porque as pessoas se sentem ameaçadas por causa da onça. Perdem cachorro, criação, porco, gado. A ideia é que mais gente venha fazer a observação de onças e que o recurso extra vá para as comunidades e para manter essa atividade de pesquisa. As pessoas ficam mais interessadas com o bicho. E o mais importante é dar tempo para as pessoas se conscientizarem.”

Os filhotes também se adaptam à vida nas copas das árvores - Foto: Emiliano Ramalho

Os filhotes também se adaptam à vida nas copas das árvores – Foto: Emiliano Ramalho

Para Emiliano, é possível replicar o modelo de turismo de observação de onças em outros lugares da Amazônia, principalmente em áreas de várzea. Ele já está programando outras iniciativas para verificar a possibilidade de fazer algo semelhante em áreas de terra firme.

A pesquisa do Projeto Iauaretê mostra que é necessário aumentar as áreas protegidas de florestas de várzea para ajudar na conservação da onça-pintada na Amazônia. Iniciativas como essa são necessárias para retirar o felino da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção.

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Muriqui, o maior primata das Américas, pode ganhar Unidades de Conservação no Paraná

O muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) está na categoria em perigo da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção – Foto: Robson Hack

O muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) só é encontrado na Mata Atlântica e está na categoria em perigo da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção – Foto: Robson Hack

Técnicos da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e do Instituto Lactec se reuniram no dia 11 de março com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e o Instituto Ambiental do Paraná  para apresentar resultados de um projeto de conservação do muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides). O objetivo é criar Unidades de Conservação (UCs) para proteger a espécie, que está na categoria em perigo da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, na região do Vale do Ribeira, no Paraná.

O projeto pretende ampliar o conhecimento sobre o muriqui-do-sul, e colocar em prática ações previstas no Plano de Ação Nacional (PAN) para conservação da espécie. Uma das prioridades é a criação de áreas protegidas no Paraná.

Ricardo Soavinski, secretário estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Sema), afirmou que é possível viabilizar a criação de uma ou mais UCs na região do estudo do projeto. A área tem cerca de 5.000 hectares e abriga uma população de 32 muriquis-do-sul.

Para Soavinski, existem alternativas que permitem a proteção da espécie sem impedir o uso econômico da área. As Reservas Particulares do Patrimônio Natural e Refúgios de Vida Silvestre são alguns exemplos. “Ainda precisa de avaliação mais aprofundada, mas essas são categorias que preservam as áreas de matas nativas já usadas por esses animais sem a dependência de desapropriações de todas as áreas, evitando impactos econômicos negativos”, disse. Essas UCs também permitem turismo, pesquisa e atividades de educação ambiental.

Um grupo de trabalho – com a participação de técnicos do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), Instituto Lactec, Secretaria de Meio Ambiente do Estado e da Fundação Grupo Boticário – foi criado para elaborar um plano estratégico que alie a conservação da espécie e, ao mesmo tempo, evite prejuízos à comunidade local.

“A possibilidade da efetivação concreta de ações para proteção do muriqui fortalece nosso trabalho de articulação que busca promover um diálogo entre governo e pesquisadores, buscando impactos positivos para a conservação de nossos ecossistemas naturais”, destaca o coordenador de Ciência e Informação da Fundação Grupo Boticário, Emerson Oliveira.

Os índios chamam os muriquis de “povo manso da floresta” devido aos hábitos pacatos do primata – Foto: Robson Hack

Os índios chamam os muriquis de “povo manso da floresta” devido aos hábitos pacatos do primata – Foto: Robson Hack

Muriqui

Encontrado somente na Mata Atlântica, o muriqui, também conhecido como mono-carvoeiro é o maior primata das Américas. Eles não  são agressivos e demonstrações de afeto são comuns entre indivíduos de qualquer sexo ou idade. Uma das características marcantes desses macacos são os demorados abraços grupais. Os adultos sempre cuidam dos mais jovens e fazem pontes com o próprio corpo para facilitar a passagem de filhotes de uma árvore para outra. Por conta de toda essa passividade, os muriquis são chamados pelos índios de “povo manso da floresta“.

Gente que bamboleia, que vai e vem. Esse é o significado do nome muriqui em tupi-guarani. O primata possui braços longos e uma cauda preênsil – capaz de segurar galhos como se fosse um quinto membro – que conferem muita agilidade ao macaco enquanto se movimenta em sua jornada em busca de alimento (frutos, flores e folhas). Ele atua como dispersor de sementes de diferentes espécies de plantas e é essencial para manter a diversidade da floresta.

Segundo Robson Hack, responsável pelo estudo com a população do primata registrada em Castro, Paraná, o muriqui contribui para que serviços ambientais prestados pela floresta – como produção de água, alimento e fertilização do solo – sejam mantidos com qualidade. Além disso, o pesquisador destaca que atrair a atenção e investimentos para a região é um bom negócio. “Os proprietários do Vale do Ribeira podem se beneficiar com o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) e com iniciativas de turismo e pesquisa que beneficiem toda a comunidade”, destaca.

Região do vale do Ribeira onde acontece o projeto de conservação, intitulado "O muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) como espécie-chave para a conservação da biodiversidade do vale do rio Ribeira do Iguape, no estado do Paraná", da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e do Instituto Lactec - Foto: Robson Hack

Região do Vale do Ribeira onde acontece o projeto de conservação, intitulado “O muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) como espécie-chave para a conservação da biodiversidade do vale do rio Ribeira do Iguape, no estado do Paraná”, da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e do Instituto Lactec – Foto: Robson Hack

O PSA premia financeiramente proprietários particulares por conservarem suas áreas naturais e protegerem mananciais, nascentes e a biodiversidade. Oliveira lembra ainda que ao criar uma Unidade de Conservação, a região irá se beneficiar de incentivos oriundos do ICMS Ecológico, mecanismo que possibilita aos municípios que possuem UCs acesso a parcelas maiores que àquelas que já têm direito. É um critério diferenciado para valorizar as áreas naturais brasileiras (o Paraná foi o primeiro estado a instituir o ICMS Ecológico, em 1989).

Segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês), a população de mono-carvoeiros sofreu uma queda de 80% nos últimos 60 anos. Eles foram dizimados pela caça e pela destruição da floresta.  Estima-se que a população atual seja de menos de 3 mil animais, divididos em duas espécies diferentes: o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) que ocorre nos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e sul da Bahia; e o muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) que é encontrado nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e parte do Paraná.

O muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) , possui manchas esbranquiçadas na face negra. A espécie é considerada criticamente ameaçada de extinção segundo a lista vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Bart vanDorp/Creative Commons

O muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) , possui manchas esbranquiçadas na face negra. A espécie é considerada criticamente ameaçada de extinção segundo a lista vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Bart vanDorp/Creative Commons

Onça-pintada: a mordida mais poderosa entre os felinos

A onça-pintada possui a mordida mais poderosa entre os felinos. Nem o tigre ou o leão superam a força da Panthera onca - Foto: João Sergio Barros Freitas De Souza/Sua Foto

A onça-pintada possui a mordida mais poderosa entre os felinos. Nem o tigre ou o leão superam a força da Panthera onca – Foto: João Sergio Barros Freitas De Souza/Sua Foto

Ver uma onça-pintada (Panthera onca) na natureza é algo difícil de explicar. Ela encara, olho no olho, até ter a certeza de que você a viu. Seu tamanho é impressionante, ela domina o local e parece que tudo gira em torno dela. É como se a floresta parasse, naquele momento, só para vê-la passar. Antes de sair, uma pausa, a onça olha para trás, e verifica se você ainda está ali. Seus músculos estão tensos, sua respiração está presa e seu coração acelerado. É nesse momento que vem a certeza de que algo mágico está acontecendo. É uma energia muito intensa, que ficará impressa na sua memória para sempre.

Segundo a Ong Pró-Carnívoros, a  onça-pintada, também conhecida como jaguar, possui a mordida mais poderosa entre os felinos e uma maneira única de caçar. Enquanto os outros gatos usam uma técnica de caça com mordida no pescoço seguida de sufocamento, a onça-pintada crava os caninos na cabeça da presa e quebra a espinha dorsal ou perfura o crânio da vítima até chegar ao cérebro. A força exercida é tão grande que chega a quebrar cascos de jabutis.

Seu padrão amarelo com rosetas pretas é a perfeita camuflagem para andar na floresta, onde os fachos de luz em meio à sombra das árvores tornam o felino praticamente invisível. Ela se aproxima da presa silenciosamente, utilizando áreas de vegetação densa para se esconder.  Almofadas na sola das patas ajudam a abafar o som e permitem que o predador ande sem fazer barulho. Quando está perto de seu alvo parte para o ataque.

É um animal oportunista e se alimenta de qualquer presa que esteja disponível. No Pantanal prefere  jacarés, queixadas e capivaras, que são maiores e mais abundantes. Na Amazônia come principalmente animais pequenos, como cotias, pacas e tatus. Ela seleciona indivíduos inexperientes, machucados, doentes ou mais velhos o que resulta em benefício para a própria população de presas e mantém o equilíbrio do ecossistema.

Segundo o Projeto Onçafari, estudos mostram que a predação de gado é menor em áreas com grande quantidade de presas naturais e maior onde há caça de animais selvagens. Infelizmente, a destruição do habitat, e a consequente redução no número de presas naturais, faz com que as onças-pintadas comecem a caçar animais domésticos e acabam sendo mortas por fazendeiros que querem proteger seus rebanhos. Após décadas de perseguição, o felino se tornou um dos animais mais difíceis de avistar na natureza e está na categoria vulnerável da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção.

Para tentar mudar essa história o Onçafari quer fazer a habituação das onças-pintadas a carros de passeio para que elas se comportem da mesma maneira que os felinos da África se comportam em safáris fotográficos. O objetivo é atrair mais turistas, aumentar o interesse dos fazendeiros no turismo de observação de animais, gerar novas oportunidades de emprego para as pessoas da região, ajudar na conservação da onça-pintada e, consequentemente, de seu habitat.

Para saber mais sobre o Onçafari veja o post: Projeto Onçafari: no rastro da onça-pintada

Onça-pintada (Panthera onca), o maior felino das américas sofre com a perseguição de fazendeiros que querem proteger o gado. O Projeto Onçafari tenta salvar o felino através do ecoturismo – Foto: Fábio Paschoal

Peixe-boi-da-amazônia reabilitado pelo Instituto Mamirauá é devolvido ao ambiente natural

Quando chegou ao Centrinho, Cassi, um peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis), tinha 45 quilos e media 1,25 metros de comprimento. A espécie é considerada vulnerável pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) - Foto: Amanda Lelis

Quando chegou ao Centrinho, Cassi, um peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis), tinha 45 quilos e media 1,25 metros de comprimento. A espécie é considerada vulnerável pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Amanda Lelis

Cassi, um peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis) que há dois anos estava sob os cuidados do Centro de Reabilitação de Peixe-Boi Amazônico de Base Comunitária (conhecido como Centrinho), do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, foi devolvido a natureza na última semana. O evento aconteceu em um lago na Reserva Amanã, município de Maraã, Amazonas.

Cassi foi resgatada por moradores locais que fizeram contato com o Instituto. De acordo com os relatos dos moradores, ela foi capturada acidentalmente em uma rede de pesca. Chegou ao Centrinho com aproximadamente oito meses, 45 quilos e 1,25 metros de comprimento. Quando foi liberada, estava com 128 quilos e 1,86 metros – medidas que, segundo o Instituto Mamirauá, indicam um bom desenvolvimento do filhote durante a reabilitação.

Veterinários, biólogos, educadores ambientais e técnicos, além dos moradores da região, contribuíram e participaram da reabilitação de Cassi - Foto: Amanda Lelis

Veterinários, biólogos, educadores ambientais e técnicos, além dos moradores da região, contribuíram e participaram da reabilitação de Cassi – Foto: Amanda Lelis

“Todos os animais que soltamos passaram pelo processo de reabilitação e foram considerados aptos a serem soltos – e preparados para a vida em ambiente natural – baseado em tamanho, peso, comportamento e exames de saúde,” explica Miriam Marmontel, pesquisadora do Instituto Mamirauá.

Segundo Marmontel, a área para a soltura foi escolhida porque possui características favoráveis para a readaptação de peixes-boi ao ambiente natural.  “O lago apresenta grande quantidade de alimento disponível, muitas ressacas e recantos para o animal se esconder, e também a presença de outros peixes-boi. É um lago protegido, de preservação, e a soltura teve a concordância da comunidade.”

Cassi esteva sob os cuidados da equipe do Instituto Mamirauá desde 2014. Após dois anos foi considerada apta para a soltura - Foto: Amanda Lelis

Cassi estava sob os cuidados da equipe do Instituto Mamirauá desde 2014. Após dois anos foi considerada apta para a soltura – Foto: Amanda Lelis

No dia em que foi solta, Cassi estava com 128 quilos e media 1,86 metro, indicativos do bom desenvolvimento do filhote durante a reabilitação - Foto: Amanda Lelis

No dia em que foi solta, Cassi estava com 128 quilos e media 1,86 metro, indicativos do bom desenvolvimento do filhote durante a reabilitação – Foto: Amanda Lelis

Um cinto equipado com transmissor de sinais de rádio foi adaptado na cauda do animal e a equipe do Instituto acompanha o deslocamento de Cassi na região para saber quais os movimentos do peixe-boi de acordo com a variação do nível da água. “Cassi agora precisará se readaptar ao ambiente natural, explorar seu ambiente muito mais expandido, encontrar locais de abrigo e de alimentação. O monitoramento nos permite acompanhar remotamente estes deslocamentos e comportamentos, e avaliar sua readaptação”, disse Marmontel.

A pesquisadora e sua equipe querem saber se o animal aprenderá a fazer a rota migratória que o levaria de volta a seu local de origem, se permanecerá no lago da soltura ou se buscará outro local para se estabilizar. “Cada animal é diferente, faz suas próprias escolhas. Algumas podem ser equivocadas e nesse caso teríamos que intervir”, completou a pesquisadora.

Um cinto equipado com transmissor de sinais de rádio foi adaptado na cauda de Cassi para que a equipe do Instituto Mamirauá possa acompanhaer seu deslocamento - Foto: Amanda Lelis

Um cinto equipado com transmissor de sinais de rádio foi adaptado na cauda de Cassi para que a equipe do Instituto Mamirauá possa acompanhar seu deslocamento – Foto: Amanda Lelis

Histórico

A reabilitação de Cassi foi o quarto evento de soltura de peixes-boi amazônicos realizado pelo Instituto Mamirauá. A última vez que isso aconteceu foi em 2015, quando seis indivíduos foram devolvidos à natureza. Os animais também receberam cintos com radiotransmissores e continua sendo monitorados. “O Piti foi o grande caso de sucesso. Foi o primeiro animal a deixar o lago de pré-soltura depois que a água começou a subir e, com a subida da água, ele fez a rota migratória como um animal nativo, o que nos sugere que tenha sido acompanhado por outro animal. Além do Piti, um macho e duas fêmeas permanecem sendo monitorados nas imediações do lago Amanã”, comenta Marmontel

Com a soltura da Cassi, um animal ainda permanece em reabilitação no Centrinho, um criatório conservacionista autorizado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Ibama) que recebe peixes-boi órfãos que se perderam das mães por alguma razão (algumas vezes por episódios de caça).  A ação conta com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para o pagamento de bolsas.

Após a soltura, Cassi continua sendo acompanhada, por meio de radiotelemetria - Foto: Amanda Lelis

Após a soltura, Cassi continua sendo acompanhada, por meio de radiotelemetria – Foto: Amanda Lelis

Morre onça-pintada símbolo do Refúgio Biológico de Itaipu. Descanse em paz, Juma

Juma bebendo água, em 2007 - Foto: Daniel De Granville

Juma bebendo água, em 2007  – Foto: Daniel De Granville

Juma, a onça-pintada símbolo do Refúgio Biológico Bela Vista (RBV) de Itaipu, morreu no último domingo (17) às 14h30 no zoológico Roberto Ribas Lange, onde estava desde 2002. O felino foi fundamental para o trabalho de educação ambiental, incentivou o turismo local e contribuiu para pesquisas científicas da Panthera onca, que está na categoria vulnerável da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção.

“Foi a perda de um ícone, de um animal emblemático para todo o trabalho que fizemos aqui em termos de fauna. Ela é o símbolo dessa nossa luta pela conservação”, comenta Wanderlei de Moraes, veterinário da Divisão de Áreas Protegidas de Itaipu, que acompanhou toda a vida da onça no RBV e foi o responsável pela necropsia.

A morte foi causada por insuficiência renal severa, provocada por infecção nos rins. O problema é comum em felinos idosos como a Juma, que tinha a idade estimada em 24 anos.

Juma chegou no RBV quando tinha 10 anos, desnutrida e debilitada. Ela vivia na região do Parque Nacional do Iguaçu, mas estava sendo avistada fora dos limites da reserva, o que colocava sua vida em risco. Wanderlei acredita que ela estava perdendo uma disputa por território.

Se continuasse na natureza, Juma não teria sobrevivido muito tempo porque estava desnutrida, com dentes quebrados e havia começado a capturar animais em propriedades particulares. Devido a esses problemas, a equipe do RBV decidiu colocá-la em cativeiro.

Juma foi a primeira onça-pintada do RBV e também a primeira a ser exposta para os turistas no local. Ela era o animal mais fotografado e a maior celebridade do zoológico. Toda esta visibilidade foi importante para o trabalho de educação ambiental e a conservação da onça-pintada.

“Ela nos forneceu informação que era difícil se obter de onças como, por exemplo, amostras de sangue, e virou um ícone da relação entre o Parque Nacional do Iguaçu e a Itaipu”, afirmou Marina Xavier da Silva, coordenadora de campo do Projeto Carnívoros do Iguaçu. “Juma sempre foi muito comentada no nosso universo e teve grande contribuição para a consciência das pessoas”, completou.

Descanse em paz, Juma.

Segundo o último censo realizado pelo Projeto Carnívoros do Iguaçu, de 2014, a população de onças-pintadas é de 18 animais, no lado brasileiro do Parque Nacional do Iguaçu. Em todo o corredor verde, que abrange áreas na Argentina e no Brasil, até o Parque Estadual do Turvo, no Rio Grande do Sul, são estimados 80 animais.