Mergulho com lobos-marinhos: atividade obrigatória em Cape Town

Lobos-marinhos-do-cabo (Arctocephalus pusillus), os maiores lobos-marinhos do mundo em Duiker Island, África do Sul – Foto: Flashpacker Travelguide

Capítulo 9 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

Era o dia do passeio que eu mais queria fazer na Cidade do Cabo (Cape Town): mergulho com lobos-marinhos. Fechamos tudo com antecedência com a Cape Town Bucket List e nos dirigimos para Hout Bay.

[Veja a introdução da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

[Veja o capítulo 8 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

O lobo-marinho-do-cabo (Arctocephalus pusillus) é o maior lobo-marinho do mundo. O macho pode chegar a mais de 300 quilos e cerca de 2,30 metros de comprimento. A fêmea é bem menor. Em média, pesa cerca de 85 quilos e não passa de 1,65 metros – Foto: Tim Sheerman-Chase/ Creative Commons

Hout Bay. Vista de um dos mirantes da Chapman’s Peak Drive, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Encontramos com o pessoal da empresa, recebemos as instruções, vestimos as roupas de neoprene, pegamos máscaras, snorkels e pés de pato e embarcamos rumo à Duiker Island. O bote seguiu em alta velocidade até chegar à ilha. Todo mundo estava com as expectativas lá no alto, mas ninguém estava preparado para o que iríamos encontrar: cerca de 10 000 lobos-marinhos-do-cabo rodeavam a embarcação!

Enquanto alguns nadavam, outros descansavam nas pedras. Caímos no mar imediatamente. A água, extremamente gelada, entrou pela roupa de mergulho, escorreu pelas minhas costas e o calafrio se espalhou por todo o meu corpo. Naquele momento tinha a certeza de que não iria aguentar até o final do passeio (o mergulho tem duração de uma hora).

Quando consegui me controlar, comecei a curtir o passeio. Havia milhares de lobos-marinhos-do-cabo nadando conosco. Os filhotes eram os que mais interagiam com a gente (sem contato físico para respeitar os animais). Eles chegam bem próximos, olham no nosso olho e, as vezes, copiam nossos movimentos. Um dos pequenos chegou a morder minha nadadeira porque queria brincar. É uma sensação incrível!

A interação é tão intensa que você esquece do frio e não vê o tempo passar. Quando me dei conta a hora já tinha acabado e os guias já chamavam para voltar para o bote. O frio intenso foi curado com um chocolate quente servido no barco, mas o sorriso não saia do rosto de ninguém. Que experiência fantástica!

Foi uma ótima maneira de encerrar nossos dias na Cidade do Cabo. Era hora de conhecer outros lugares da África do Sul. A Garden Route e o Kruger National Park esperavam por nós.

Veja a série Rota Jardim / Garden Route: 5 dias pelo litoral da África do Sul

Veja a série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Veja o Roteiro: 20 dias na África do Sul de carro

DICAS

  • Faça o mergulho com leões-marinhos-do-cabo. Vanessa, minha namorada, não sabe nadar muito bem, mas  as roupas de mergulho ajudam na flutuação e uma das guias ficou com ela durante todo o mergulho.
  • Gostamos bastante da Cape Town Bucket List. Para fazer o passeio com eles é bom reservar com antecedência no site da empresa.
  • Leve ou alugue uma Go Pro. Fomos sem câmera e nos arrependemos muito.
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Projeto Onçafari: no rastro da onça-pintada

Fantasma é o macho dominante no Refúgio Ecológico Caiman, pousada no Pantanal onde o Projeto Onçafari está realizando o processo de habituação das onças-pintadas (Panthera onca) aos carros de passeio - Foto: Lawrence Weitz

Onça-pintada no Refúgio Ecológico Caiman, Pantanal, onde o Projeto Onçafari faz a habituação dos felinos aos carros de passeio – Foto: Lawrence Weitz

Capítulo 14 da série Pantanal: Terra das Águas

O carro segue em alta velocidade. Nosso guia, Nego, vai no capô, olhando os rastros do animal enquanto indica o caminho que o motorista deve seguir. Os galhos passam rapidamente, próximos à nossas cabeças, e é preciso ser rápido para desviar de todos eles. O objetivo do safári é encontrar o maior felino das Américas. O veículo para em frente a uma lagoa. Nego faz sinal para todos permanecerem em silêncio. “Ela está aqui”. Uma movimentação nos arbustos anuncia a entrada de uma onça-pintada na clareira. Ela para em frente ao nosso carro, olha no olho de cada um e entra na água para matar a sede. Fica conosco por alguns minutos antes de desaparecer entre as árvores novamente.

Essa é uma das experiências mais marcantes da minha carreira de guia no Pantanal. É um desses momentos mágicos, que ficam guardados na memória e voltam à nossa mente de tempos em tempos para nos fazer sorrir. No entanto, fazendeiros abatem os felinos para proteger seus rebanhos e, após décadas de perseguição e caça, a onça se tornou um dos animais mais difíceis de avistar na natureza.

Esperança, uma das onças-pintadas selecionadas pelo Projeto Onçafari para o processo de habituação – Foto: Diogo Lucatelli

Esperança, uma das onças-pintadas selecionadas pelo Projeto Onçafari para o processo de habituação – Foto: Diogo Lucatelli

Para mudar essa história Mario Haberfeld fundou o Projeto Onçafari em 2011. A ideia é fazer a habituação das onças aos carros de passeio para que elas se comportem da mesma maneira que os felinos da África. O objetivo é atrair mais turistas, aumentar o interesse dos fazendeiros no turismo de observação de animais, gerar novas oportunidades de emprego para as pessoas da região, ajudar na conservação do felino, consequentemente, de seu habitat. “É necessário agregar valor à onça para que ela valha mais viva do que morta.” Afirma.

Uma técnica utilizada com leopardos e leões na África do Sul há 30 anos está sendo adaptada para a onça-pintada no Pantanal. Um animal selecionado é seguido por um rastreador, dia após dia, até que ele pare de considerar o carro como uma ameaça. O ideal é escolher uma fêmea. Quando ela tiver filhotes vai ensinar tudo para os pequenos. Assim, a habituação aos veículos será passada para a próxima geração. O processo não envolve métodos de domesticação (como o oferecimento de comida) e os felinos selecionados permanecem selvagens.

Carro do Projeto Onçafari usado para o processo de habituação das onças-pintadas – Foto: Adam Bannister

Haberfeld trouxe rastreadores da Tracker Academy da África do Sul com a missão de treinar a equipe do projeto na arte de rastrear animais selvagens para facilitar o encontro com o felino. Para Diogo Lucatelli, biólogo e rastreador do Projeto Onçafari, “Conhecer e perceber o ambiente – e o comportamento e as características dos vestígios do animal que será seu alvo – é fundamental”. As onças se movimentam em campos de gramíneas e matas densas com solo coberto por folhas secas, terrenos que dificultam a formação de pegadas. O rastreador pode perder o rastro. Para reencontrá-lo é preciso analisar o local, interpretar os sinais e se colocar na posição do animal que se está rastreando.

Disney Sousa (mais conhecido como Nego), rastreador do Projeto Onçafari (centro) em treinamento com os rastreadores da Tracker Academy da África do Sul – Foto: Projeto Onçafari

Diogo Lucatelli (direita) ensinando a rastrear onças - Foto: Disney Souza

Diogo Lucatelli (direita) ensinando a rastrear onças – Foto: Disney Souza

Todo o processo está sendo realizado no Refúgio Ecológico Caiman (REC), do empresário Roberto Klabin (fundador e presidente da SOS Mata Atlântica e da SOS Pantanal). Câmeras foram instaladas nas árvores para identificar as onças que habitam a fazenda e algumas fêmeas foram capturadas para a instalação de um colar com GPS, para a determinação do território de cada indivíduo. Os animais selecionados para a habituação têm o território dentro do REC. Essa é uma condição essencial, já que a caça – apesar de ilegal – ainda acontece no Pantanal. Fazer a habituação de um felino que pode entrar em outras fazendas seria um risco para o animal. Ele poderia se aproximar dos caçadores e seria um alvo fácil. Tudo está sendo acompanhado pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e pelo Cenap (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos e Carnívoros).

Mario Haberfeld colocando o colar com GPS em uma das onças do Projeto Onçafari- Foto: Divulgação

O objetivo do Projeto Onçafari é fazer com que as onças-pintadas fiquem tranquilas ao encontrar com um carro cheio de turistas – Foto: Projeto Onçafari

Segundo Lucatelli o número de encontros com a onça-pintada aumentou após o começo do projeto. Isso pode alavancar o ecoturismo no Pantanal, gerar novos empregos para os moradores locais, criar mais áreas de proteção para os animais e tornar a observação de fauna em uma atividade rentável que pode ser conciliada com a pecuária extensiva. “Quando se tem uma equipe em campo, que estuda continuamente a vida das onças, particularmente dos indivíduos que residem aqui [no REC], e constrói um relacionamento com elas – dando-lhes nomes e especializando-se cada vez mais em encontrá-las – as possibilidades são enormes”.

Para mim, que comecei a guiar na Caiman antes da existência do Onçafari, a diferença do antes e depois é gritante (no vídeo abaixo falo mais sobre isso). Não só o número de avistamento aumentou, mas a qualidade também cresceu muito. Antes nós comemorávamos quando uma onça passava na frente do caminhão. Hoje nós estamos descobrindo novos comportamentos, conhecendo a personalidade de cada felino e escolhendo nossas onças preferidas. É fantástico!

O documentário Onça-pintada: mais perto do que se pode imaginar (veja o trailer abaixo) registrou todo o processo de habituação e foi lançado em 2014. A ideia é replicar o processo em outras partes do país. “Quanto mais pessoas usarem a ideia mais áreas estarão sendo preservadas” diz Haberfeld.

Veja o capítulo 15 da série Pantanal: Terra das Águas

O Onçafari é um projeto sem fins lucrativos. Para fazer uma doação e ajudar a preservar o Pantanal e a onça-pintada acesse http://projetooncafari.com.br/pt-BR/envolva-se/ajude

Blog: https://projetooncafari.wordpress.com/

Canal no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=s9KZlj_JjMc

Facebook: https://www.facebook.com/Projetooncafari

Sites: http://projetooncafari.com.br/pt-BR/ ou http://www.wconservation.com/Salvar

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BIG 7: os sete animais mais desejados nos safáris do Kruger

De densas florestas até os desertos mais secos, de montanhas elevadas até as areias das praias. O elefante-africano (Loxodonta africana) é encontrado em 37 países diferentes na África. Porém, isso não significa que se encontra em boas condições. A perda e a fragmentação do habitat e os caçadores, que procuram o marfim para vender no mercado negro, são ameaças constantes ao maior animal terrestre do planeta. No entanto, as reservas e os parques nacionais oferecem refúgios para esses animais, e a população segue aumentando.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): espécie vulnerável – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 18 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Leopardo, elefante, rinoceronte, leão e búfalo. Eles são conhecidos como os cinco grandes (Big 5) e eram considerados os animais mais difíceis de serem caçados na África. Hoje, se transformaram nas estrelas mais desejadas e fotografadas pelos turistas nos safáris africanos e muitos dos passeios são direcionados para a observação dessas espécies (ainda é possível encontrar reservas de caça no país, mas isso é assunto para outro post). No Kruger National Park, na África do Sul, como o guepardo e o cachorro-selvagem também são muito desejados pelos turistas (e não são tão difíceis de encontrar), eles criaram os sete grandes (Big 7)

[Veja a introdução e o sumário da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

[Veja o capítulo 17 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

As operadoras de turismo se apropriaram do termo, usado somente por caçadores anteriormente, para campanhas de marketing. E o negócio deu certo. As pessoas ficam tão obcecadas pelos Big 7 que esquecem que o Kruger tem muito mais a oferecer.

O leão (Phantera leo) é o mais social de todos os felinos. Fêmeas da mesma família formam bandos, enquanto os machos se unem em coalizações para tentar conquistar um bando. Caçam de forma cooperativa e podem derrubar presas grandes, como girafas, búfalos, hipopótamos e até elefantes. Mas também se alimentam de animais de pequeno porte e, em situações de desespero, podem comer carniça. São caçados em retaliação pela morte de pessoas e do gado na África. Seus ossos também podem ser vendidos para a fabricação de medicamentos. Eles entram como substitutos dos ossos de tigre que se tornam cada vez mais raros.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): vulnerável – Foto: Fábio Paschoal

O rinoceronte-branco (Ceratotherium simum) vive nas savanas africanas, onde se alimenta de quase que exclusivamente de grama. Os chifres dos animais – feitos de queratina (mesma substância encontrada em nossas unhas) – são utilizados na medicina chinesa para o tratamento de doenças, incluindo o câncer. A caça ilegal para abastecer esse mercado, mesmo sem estudos que comprovem a eficácia do tratamento, é a principal ameaça enfrentada pela espécie.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): espécie quase ameaçada- Foto: Fábio Paschoal

Um dos animais mais furtivos da África, o leopardo (Panthera pardus) anda em seu habitat como um fantasma. Sua população é maior que o dobro das populações de leões e guepardos juntas. No entanto, é muito mais difícil ver um leopardo em um safári do que qualquer outro grande felino. A conversão de seu habitat em plantações e pasto, a retaliação de fazendeiros que querem proteger seus rebanhos e a competição com humanos por presas fazem com que a população da espécie siga diminuindo. Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): espécie quase ameaçada - Foto: Fábio Paschoal

Um dos animais mais furtivos da África, o leopardo (Panthera pardus) anda em seu habitat como um fantasma. Sua população é maior que o dobro das populações de leões e guepardos juntas. No entanto, é muito mais difícil ver um leopardo em um safári do que qualquer outro grande felino. A conversão de seu habitat em plantações e pasto, a retaliação de fazendeiros que querem proteger seus rebanhos e a competição com humanos por presas fazem com que a população da espécie siga diminuindo.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): espécie quase ameaçada – Foto: Fábio Paschoal

Os búfalos-africanos (Syncerus caffer) machos (foto) podem pesar duas vezes mais do que as fêmeas, possuem chifres mais robustos e pescoços mais grossos. Quando há abundância de comida os animais formam grupos de até 2 mil indivíduos, mas quando chega a temporada de seca a manada se dispersa. Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): pouco preocupante - Foto: Fábio Paschoal

Os búfalos-africanos (Syncerus caffer) machos (foto) podem pesar duas vezes mais do que as fêmeas, possuem chifres mais robustos e pescoços mais grossos. Quando há abundância de comida os animais formam grupos de até 2 mil indivíduos, mas quando chega a temporada de seca a manada se dispersa.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): pouco preocupante – Foto: Fábio Paschoal

Durante a evolução o guepardo (Acinonyx jubatus), se tornou o mamífero terrestre mais rápido do planeta. Essa especialização trouxe desvantagens na hora de proteger o alimento e os filhotes. Frequentemente as presas caçadas por guepardos são roubadas por predadores maiores e, em algumas áreas da África, a mortalidade de filhotes chega a 95%. A maioria das perdas é causada por leões.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): vulnerável – Foto: Fábio Paschoal

Também conhecido como mabeco ou cão-selvagem-africano, o cachorro-selvagem (Lycaon pictus) é o predador mais eficiente entre os mamíferos da África. Em algumas regiões a taxa de sucesso em caçadas é de 90%. Nenhum outro grande predador africano é tão bem sucedido quanto os cachorros-selvagens. A fragmentação do habitat e conflitos com humanos são as principais ameaças enfrentadas pela espécie.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): espécie ameaçada- Foto: Fábio Paschoal

Apesar de não gostar do termo, os sete grandes são fantásticos, e observá-los na natureza é uma experiência inesquecível. Não foi difícil completar a lista. Mas lembre-se, o Kruger é muito mais do que os Big 7.

Não perca o capítulo 19 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Veja o Roteiro: 20 dias na África do Sul de carro

DICAS

  • Não gaste todo o seu tempo procurando os Big 7. Quando você foca em apenas sete espécies acaba perdendo tempo para rastreá-las. Animais, que podem ser muito mais interessantes do que as estrelas dos safáris africanos, acabam sendo deixados de lado. Não se esqueça: a África tem muito mais a oferecer.

PARA QUEM GOSTA DE COMPLETAR LISTAS

  • Menos explorados pelas operadoras de turismo, os cinco pequenos (Little 5) são animais com nomes em inglês que correspondem aos Big 5: Rhinoceros Beetle (besouro rinoceronte, na tradução literal), Buffalo Weaver (Búfalo tecelão, na tradução literal), Elephant Shrew (musaranho elefante, na tradução literal), Leopard Tortoise (jabuti leopardo, na tradução literal) e Ant Lion (formiga leão, na tradução literal).
  • Em minha primeira viagem à África, fui apresentado aos cinco feios: marabu, abutre, javali, hiena e gnu (Veja o post Ugly 5, os animais mais feios da África)
  • No Brasil, algumas operadoras de turismo criaram os Big 5 brasileiros para tentar promover o ecoturismo no país. Não existe consenso, mas os integrantes mais comuns são: onça-pintada, tamanduá-bandeira, anta, lobo-guará e ariranha.

Kruger: como se comportar em encontros com leões

Leões caçam de forma cooperativa e podem derrubar presas grandes, como girafas, búfalos, hipopótamos e até elefantes. Infelizmente, são caçados em retaliação pela morte de pessoas e do gado na África. Seus ossos também podem ser vendidos para a fabricação de medicamentos. Eles entram como substitutos dos ossos de tigre que se tornam cada vez mais raros.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): vulnerável – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 17 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Leão! Leão! Leão!” Walter, nosso guia, parou o caminhão e apontou para o leito do rio Sabie, que estava quase seco. Dois leões adultos descansavam na areia! O barulho dos cliques das câmeras fotográficas era contínuo e os celulares filmavam cada movimento dos felinos. Mas a verdade é que eles estavam muito longe para sair alguma coisa boa. De repente, o caminhão começou a se mover e os turistas começaram a gritar: “Para! Para! Para!” Walter respondeu: “Calma. vocês vão ver esses bichos de novo. Eles vão sair na estrada” (Veja o vídeo no final do post).

[Veja a introdução e o sumário da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

[Veja o capítulo 16 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

Leões descansam em praia areia no leito do rio Sabie, no Kruger, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

O guia posicionou o veículo em um local em que nossa visão ficou bloqueada e não era possível ver os animais. “Preparem as câmeras. Eles vão chegar por ali”, e apontou para o lado direito do caminhão. Os turistas estavam meio irritados. Preferiam ter ficado tirando fotos do local em que estávamos anteriormente. Mas as expressões mudaram quando os leões apareceram onde Walter previu que eles iriam aparecer, passaram do lado do caminhão e começaram a andar na estrada.

Estávamos próximos à Lower Sabie, e a hora do fechamento dos portões estava chegando. Nesse momento a estrada é tomada de carros voltando para o acampamento. Todos começaram a seguir os felinos. Os motoristas passavam os bichos, paravam logo em frente para tirar fotos, e não davam espaço para os leões.

Leão ao lado do caminhão de safári, no Kruger, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Leões na H4-1, estrada próxima à entrada de Lower Sabie camp, Kruger National Park, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Walter não teve dúvida, saiu da estrada, passou todos que estavam se aproximando demais dos leões, fechou todos os carros, deixou os animais andando na estrada tranquilamente e disse: “Vocês precisam respeitar os leões! Estão chegando muito perto e não estão dando passagem para eles. Assim eles vão se estressar e sair da estrada. Se querem tirar fotos, deixem uma abertura para eles passarem. Vocês precisam respeitá-los.”

Então, nosso guia saiu da estrada, deixou os carros passarem e voltou para o lugar em que estávamos na fila. Os leões ganharam espaço e continuaram na estrada. O relógio estava quase batendo 18h30 quando os carros de turistas começaram a sair para entrar em Lower Sabie antes do fechamento dos portões. Ficamos com os leões só para nós!

Leões demarcam o território com urina para avisar visitantes indesejados que essa parte da savana já tem dono – Foto: Fábio Paschoal

Leões saem da estrada no Kruger, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Walter posicionou o caminhão à frente e esperamos enquanto os felinos vinham em nossa direção. Nessa hora, o coração bate mais forte, os olhos se enchem de lágrimas e você entende que algo mágico está acontecendo. É como se a savana parasse, só para vê-los passar. Que sensação fantástica!

Vimos quando eles urinaram nas árvores para demarcar território, quando abriram a boca para bocejar, quando passaram tão próximo ao caminhão que tive que puxar a Vanessa para ficarmos escondidos atrás da caçamba e vimos quando eles saíram da estrada para seguir outro caminho. Foi um desses momentos inexplicáveis, que ficam guardados na memória e voltam à nossa mente de tempos em tempos para nos fazer sorrir.

Veja o capítulo 18 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Veja o Roteiro: 20 dias na África do Sul de carro

DICAS

  • A vida selvagem sempre tem prioridade: Procure não fazer nada que estresse os animais. Se eles se sentirem confortáveis com o carro de passeio, vão fazer suas atividades normalmente. Podem até passar a centímetros de você.
  • Nunca levante quando os leões se aproximarem do carro de safári: Os animais vêm o carro e as pessoas como uma única coisa. Quando você se levanta eles enxergam a forma humana e podem atacar. O mesmo vale para leopardos.

Sunset drive: a redenção dos passeios do Kruger

Leopardo/ Leopard (Panthera pardus), avistado na focagem do Kruger National Park, África do Sul – Fábio Paschoal

Capítulo 16 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Após nossa decepção com o night drive, decidimos dar uma outra chance aos passeios do Kruger National Park. Dessa vez escolhemos o sunset drive, um safári de três horas que termina com um night drive. Pensamos nessa opção porque você não depende de lanternas para achar os bichos durante o dia, fica uma hora rodando depois do fechamento dos portões (horário em que os predadores noturnos começam suas atividades) e volta com uma focagem. Foi a melhor coisa que fizemos.

[Veja a introdução e o sumário da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

[Veja o capítulo 15 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

Girafas-sul-africanas/ South african giraffes (Giraffa giraffa) no Kruger National Parque, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Walter, nosso guia, Começou cruzando a ponte para observar hipopótamos. Depois passamos por girafas. Um macho enorme expulsava os machos menores para acasalar com as fêmeas. Ele tentou por um bom tempo, com diferentes pretendentes, mas nenhuma deu bola pra ele.

Vimos búfalos machos e velhos. Após uma certa idade eles não conseguem suportar as brigas e se afastam da manada. Seguimos em frente para encontrar um grupo de leoas com filhotes. Estavam meio longe para fotos, mas deu para ver um dos pequenos se esfregar e lamber a mãe com os binóculos.

O guepardo é um felino que caça durante o dia, o que evita competição com outros felinos. Ele sobe em terrenos mais elevados e montes de cupins para localizar presas em potencial – Foto: Fábio Paschoal

Foi aí que um carro parou ao lado do caminhão e disse para nosso guia que tinha acabado de ver um guepardo mais à frente. Walter pisou no acelerador! Impalas, francolins e zebras corriam para sair da estrada e dar passagem para nosso caminhão de safári. Quando chegamos ao lugar encontramos o animal terrestre mais rápido do mundo com a maior preguiça do planeta. Ele estava deitado, com a barriga cheia de comida. Só levantou para mudar de lado e dormir de novo.

Então, fomos em direção à H4-1, estrada paralela ao rio Sabie e encontramos dois leões descansando na areia, no leito do rio (Veja o próximo capítulo para saber mais sobre esse encontro incrível).

Leões descansam em praia no leito do rio Sabie, no Kruger National Park, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

O pôr do sol trouxe mais atividade para nosso grupo. No meio da estrada, iluminado pelo farol do caminhão, apareceu nosso primeiro bicho da noite: um outro guepardo. Eles são mais ativos de dia, assim evitam competição com leões e leopardos, que caçam mais durante a noite. Mas esse guepardo estava machucado. Não conseguia por a pata traseira no chão. “Como existem poucos guepardos no parque, vou avisar para os veterinários para que possam tratá-lo”, disse Walter.

A focagem prosseguiu, e deu para perceber uma diferença  muito grande com relação à night drive decepcionante que fizermos em Skukuza. Além de dar lanternas para turistas dos dois lados do caminhão, Walter tinha a própria lanterna, dirigia e focava ao mesmo tempo. Ele nos levou para áreas mais abertas em territórios de animais conhecidos no parque. Com isso nossas chances de ver algum bicho legal era muito maior.

O caminhão andava pela estrada a meia hora sem nenhum sinal de atividade. De repente um turista grita: “Para! Para! Para!” Walter pisou no freio e engatou a ré imediatamente. Voltamos para encontrar um leopardo na beira da estrada. Nosso guia teve o cuidado de não colocar a lanterna diretamente na cara do animal para que ele acostumasse com a luz e ficasse conosco por mais tempo. O felino permaneceu por alguns minutos. Depois se levantou e desapareceu nos arbustos. Que dia inesquecível! Que experiência incrível! Que lugar maravilhoso! O Kruger é fantástico!

Veja o capítulo 17 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Veja o Roteiro: 20 dias na África do Sul de carro

DICAS

  • Um bom passeio depende de um bom guia: Vale a pena dar uma chance para os safáris guiados do kruger. Sua experiência vai depender bastante do guia que estiver com você. Na primeira focagem o guia que pegamos era muito ruim. Já o guia do sunset drive, Walter, era excelente e nós tivemos um passeio que nos deixou extremamente felizes.
  • Só dê gorjeta para guias que merecem: Se você acha que o guia fez um bom trabalho é legal dar uma caixinha pra ele. Agora, se o guia fez um trabalho pífio nãio fique envergonhado: ele não merece o seu dinheiro.

Lower Sabie – Crocodile Bridge: duelo de rinocerontes no Kruger

Quando rinocerontes-brancos (Ceratotherium simum) se enfrentam, os duelos podem continuar até a morte – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 15 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

A rota entre Lower Sabie camp até Crocodile Brigde camp também é boa para os Big 7 (leão, leopardo, rinoceronte, elefante, búfalo, guepardo e cachorro-selvagem), segundo o Kruger Park – Map & Guide. Como já tínhamos visto todas as grandes estrelas do parque e estávamos interessados em tudo o que a reserva tem a oferecer, fomos devagar, parando para observar aves no caminho.

[Veja a introdução e o sumário da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

[Veja o capítulo 14 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

Pica-peixe-de-barrete-castanho / Brown hooded kingfisher (Halcyon albiventris) – Foto: Fábio Paschoal

Já tínhamos visto leões. Esta foi nossa primeira leoa/ Lioness (Panthera leo) no Kruger – Fábio Paschoal

Mas é impossível não parar para os Big 7. Logo no início da estrada de asfalto H4-2, achamos um leão na beira da estrada. Como ele estava dormindo e não dava sinais de que iria acordar, seguimos viagem. Mais a frente havia um carro parado. Estacionamos do lado e perguntamos o que eles estavam vendo ali: “Duas leoas entraram por aqui e outra seguiu pela estrada. Estão tentando caçar impalas”. Logo a seguir as duas leoas cruzaram a estrada, mas a vegetação era muito densa e elas logo desapareceram.

Seguimos em frente com ótimos encontros com girafas, elefantes, estorninho-de-dorso-violeta (uma ave maravilhosa, que não consegui fotografar) e pica-peixe-de-barrete-castanho. Chegamos em  Crocodile Bridge camp que fica ao lado do portão que leva o mesmo nome. Paramos ali, comemos um lanche, compramos algumas lembranças na lojinha e retornamos.

Quando rinocerontes-brancos (Ceratotherium simum) se enfrentam, o clima esquenta na savana – Foto: Fábio Paschoal

Rinocerontes-brancos (Ceratotherium simum) prontos para a batalha – Foto: Fábio Paschoal

Logo que saímos, encontramos dois rinocerontes pastando e um terceiro que dormia tranquilamente. De repente, o gigante adormecido acordou e começou a andar na direção dos outros dois. Os três se olharam e começou uma troca de “Insultos”. Barulhos estranhos, cabeças balançando, pés arrastando no chão.Dava pra sentir a tensão no ar.

Parecia que ia sair uma briga feia, e nós estávamos esperando por isso ansiosamente. Foi então que tivemos uma surpresa. O rinoceronte solitário decidiu recuar. Virou as costas, urinou e tudo voltou ao normal nas savanas da África.

Rinocerontes-brancos (Ceratotherium simum) marcam os seus territórios com urina e excrementos – Foto: Fábio Paschoal

Voltamos pela S28 e encontramos uma fila enorme de carros parados para outro grupo de leões. Claro, eles estavam dormindo novamente. Ainda passamos por impalas, zebras, elefantes, kudus, bateleur (uma águia muito bonita)  e búfalos. Ainda paramos em um hide.

Chegamos meio tarde. Foi o tempo de almoçar e correr para o passeio da tarde. Resolvemos dar mais uma chance aos guias do Kruger. Agendamos um sunset drive, um safári das 16h30 até às 19h30. Como em janeiro os portões fecham às 18h30 teríamos uma hora sem carros de turistas lotando as estradas.

Veja o capítulo 16 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Veja o Roteiro: 20 dias na África do Sul de carro

Rota Lower Sabie até Crocodile Bridge. Clique no mapa para aumentar

DICAS

  • Procure sempre deixar uma rota livre quando parar para ver bichos: Em estradas movimentadas, principalmente nas de asfalto, os carros se amontoam para chegar perto dos animais. Procure deixar sempre um espaço livre para o seu veículo sair caso algo saia errado.

H1-2/H4-1: a rota com maior concentração de leopardos do Kruger

Leopardo/ Leopard (Panthera pardus)  Um dos animais mais furtivos da África, o leopardo anda em seu habitat como um fantasma. Sua população é maior que o dobro das populações de leões e guepardos juntas. No entanto, é muito mais difícil ver um leopardo em um safári do que qualquer outro grande felino – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 8 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Camuflado, com garras afiadas e reflexos apurados. Move-se com cautela. Calcula cada passo. Mesmo no chão repleto de folhas secas nenhum barulho é perceptível. Ele está lá, mas é praticamente impossível avistá-lo. Anda pelo ambiente como se fosse um fantasma e, quando menos se espera, parte para o ataque. O leopardo é um especialista na arte da caça e fará qualquer coisa para matar sua presa.

[Veja a introdução e o sumário da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

[Veja o capítulo 7 da série Kruger: guia prático para organizar eu primeiro safári na África do Sul]

Um dos bichos que a Vanessa mais queria ver era o leopardo. Sabíamos que nossa melhor chance de encontrar o felino era no começo da manhã. Por isso, saímos assim que os portões do acampamento se abriram, às 4h30. O objetivo era fazer o triângulo formado pelas estradas H1-2, H12 e H4-1: a rota com maior concentração de leopardos do Kruger, segundo o guia Kruger Park – Map & Guide.

Não havia nem sinal do sol no horizonte quando comecei a dirigir. Fomos bem devagar olhando em cada arbusto, atento para qualquer movimento fora do comum. Como tudo estava tranquilo, paramos para ver algumas aves.

Abelharuco-carmim/ Carmine bee eater (Merops nubicoides). Persegue insetos e os apanha em pleno voo. As abelhas estão entre as principais presas. A ave agarra os insetos com o bico, pousa em um galho e começa a bater até que o ferrão se desprenda. Após se certificar que o veneno não entrará em sua corrente sanguínea, ele faz o seu almoço – Foto: Fábio Paschoal

Foi quando um carro passou por nós e parou mais à frente. No Kruger, a maioria dos turistas está em busca dos Big 7 e não se interessa por observação de aves. Olhei para Vanessa e não foi preciso dizer nada. Engatei a primeira e acelerei! Eles estavam vendo alguma coisa e nós não queríamos perder a oportunidade.

Antes mesmo de parar, vi a silhueta de um felino andando atrás da grama alta: “Leopardo! Leopardo! Leopardo!” posicionei o carro para ficar de frente para uma abertura no mato, pegamos os binóculos e esperamos. A adrenalina correndo nas veias, o coração batendo mais forte. Era uma emoção muito grande! Será que ele iria pro aberto?

Rota H1-2/ H4-1 em azul. A seta verde indica o local onde vimos o leopardo (clique no mapa para ampliar)

E ele apareceu, exibindo suas rosetas pretas e a pelagem amarela. Andou  pela abertura e desapareceu sem deixar rastro. Foi um momento tão breve, mas uma sensação tão intensa. É inexplicável. Você só consegue entender esse sentimento quando observa um animal selvagem na natureza. Que experiência fantástica!

Nessa rota ainda vimos cachorros-selvagens-africanos tentando caçar impalas, hiena, elefantes e muitos abelharucos (carmim, europeu e de testa branca).

Abelharuco-de-testa-branca/White fronted bee eater (Merops bullockoides), no Kruger, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Ainda era cedo quando terminamos a rota. Decidimos pegar outra estrada e continuar o safári da manhã.

Veja o capítulo 9 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Veja o Roteiro: 20 dias na África do Sul de carro

Para saber mais sobre leopardos acesse os posts:

DICAS

  • Faça a rota H1-2/H4-1: Como é um caminho curto pode ser feita tanto de manhã quanto à à tarde
  • Ande devagar para procurar bichos: Não se apresse, dirija com calma olhando para os dois lados. A chance de ver um leopardo é grande por aqui
  • Desconfie de carros parados: a maioria dos turistas só quer saber dos Big 7 do Kruger (leopardo, leão, rinoceronte, elefante, búfalo, guepardo e cachorro-selvagem) e de outros grandes mamíferos. Se estiver observando algum bicho que não é tão difícil de encontrar, não pense duas vezes: chegue próximo do carro para checar o que o pessoal está vendo.

Cuidado com os macacos de Skukuza, no Kruger

Macaco-vervet/ Vervet monkey (Chlorocebus pygerythrus). É um animal onívoro: frutas, flores, folhas e insetos constituem a maior parte de sua dieta na natureza – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 6 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Assim que descemos do carro em Skukuza camp, almoçamos, fizemos o check in e fomos para o nosso bangalô. Quando chegamos, havia um grupo de macacos-vervet na frente da nossa porta. Vanessa ligou o celular para filmar e eu agachei para tirar fotos. De repente, uma macaca veio na minha direção! Deveria ser a mãe protegendo o filhote (havia alguns macaquinhos bem pequenos por ali).

[Veja a introdução e o sumário da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

[Veja o capítulo 5 da série Kruger: guia prático para organizar eu primeiro safári na África do Sul]

Ela avançou mostrando os dentes e eu comecei a recuar. Como ela não retrocedia, resolvi avançar também. Ela recuou. Mas assim que eu andei para trás, ela veio em minha direção com os dentes a mostra de novo. Avancei novamente, e ela recuou novamente. Ficamos nessa dança por alguns segundos. Eu com medo de levar uma mordida, ela protegendo seu bebê. Até que a macaca pulou em uma árvore e foi embora.

Quando me virei para abrir o quarto havia um cartaz na porta dizendo que era preciso tomar cuidado com babuínos e macacos-vervet. Em Skukuza as pessoas passaram a alimentar os primatas e eles começaram a chegar cada vez mais perto de seres humanos para conseguir um almoço fácil. Os macacos passaram a entrar nos quartos em busca de comida. Agora as geladeiras ficam do lado de fora dos bangalôs e são protegidas por uma gaiola fechada com cadeado (Nos outros rest camps não encontramos nenhum cartaz dizendo para tomarmos cuidado com macacos e as geladeiras ficavam dentro dos quartos sem gaiola ou cadeado. Também não tivemos nenhum problema com eles).

Babuínos-do-cabo/ Chacma Baboons (Papio ursinus). São onívoros. Na natureza preferem frutas, mas também comem insetos, sementes, capim, pequenos vertebrados. Geralmente é carniceiro, quando se trata de carne de caça e raramente se dedica à caça de animais grandes – Foto: Fábio Paschoal

Alimentar animais selvagens nunca é uma boa ideia. O excesso de açúcar e gordura encontrado em muitos alimentos que consumimos é extremamente prejudicial aos animais selvagens. Eles podem largar os alimentos que encontram na natureza para comer somente produtos que são entregues por seres humanos.

Outro problema é que os animais selvagens ficam cada vez mais confortáveis com a nossa presença e começam a chegar cada vez mais perto. Isso acontece porque associam a figura humana com comida. Os quatis de Foz do Iguaçu roubam a bolsa de quem quer ver as Cataratas. Também ocorreram ataques de onça-pintada no Mato Grosso, em locais onde pescadores oferecem peixes para os felinos. Essa prática faz com que as onças cheguem mais perto das embarcações e proporcionem melhores fotos para os turistas. Porém, quando animais selvagens chegam muito perto em busca de comida, podem ocorrer ataques.

Não tem problema se você já dividiu seu lanche com algum bichinho. Sei que você o fez com boas intenções. Mas a verdade é que essa prática não é benéfica. Nem para os bichos, nem para nós. Por tanto, a partir de agora, nunca alimente animais selvagens.

Veja o capítulo 7 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Veja o Roteiro: 20 dias na África do Sul de carro

DICAS

  • Se você ver alguma pessoa alimentando um animal, fale com ela: Explique educadamente que essa prática é ruim para o bichinho e vai causar problemas para as pessoas também.
  • Não deixe a porta do quarto aberta: macacos podem entrar para procurar comida
  • Não deixe alimento na barraca: macacos rasgam a lona para roubar a sua comida.

Berg-en-Dal – Skukusa: boa rota para cachorro-selvagem, guepardo e rinoceronte no Kruger

Rinoceronte-branco, cachorro-selvagem e guepardo – Fotos: Fábio Paschoal

Capítulo 5 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Após nosso encontro com os cachorros-selvagens-africanos no começo da H3 (veja o post anterior), seguimos um pouco pela estrada de asfalto até virarmos à esquerda na estrada de terra S114. Tanto H3 quanto a S114 são boas, mas estradas de terra costumam ser menos concorridas do que as de asfalto.

[Veja a introdução e o sumário da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

[Veja o capítulo 4 da série Kruger: guia prático para organizar eu primeiro safári na África do Sul]

Estávamos andando lentamente pela S114, não havia nenhum outro carro conosco e tudo estava tranquilo. A gente sabia que era uma rota boa para rinocerontes, então desafiei a Vanessa “Vamos ver quem vê o primeiro…” Não deu tempo de completar a frase. Atrás da grama alta avistamos três rinocerontes-brancos. Estavam pastando calmamente ao lado da estrada. Além de serem grandes e fortes, ainda vêm armados com chifres afiados. São animais impressionantes.

Rinocerontes-brancos/ White rhinos (Ceratotherium simum)no Kruger, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Ficamos sozinhos com eles por mais ou menos meia hora. Quando um carro parou atrás de nós, decidimos continuar o caminho. Porém, a vegetação naquela parte era densa e achamos melhor pegar a H2-2 e voltar para a H3.

Após meia hora pelo asfalto vimos mais dois rinocerontes-brancos atravessando a estrada. Ia parar para observar os bichos, mas logo à frente havia uma concentração de carros. Não pensei duas vezes: acelerei até o local. Porém, quando chegamos não dava pra ver nada além da grama alta.

Os cornos de rinocerantes – feitos de queratina (mesma substância encontrada em nossas unhas) – são utilizados na medicina chinesa para o tratamento de doenças, incluindo o câncer. Infelizmente, esses gigantes sofrem com à caça ilegal para abastecer esse mercado mesmo sem estudos que comprovem a eficácia do tratamento – Foto: Fábio Paschoal

Perguntei para um ranger que estava no carro ao lado “O que vocês estão vendo?” Ele respondeu “Era um guepardo, mas ele deitou faz um tempo.”

Mesmo assim, decidi reposicionar o carro e começamos a procurar com os binóculos na direção em que o ranger tinha apontado. Ficamos por lá alguns bons minutos e eu já estava desistindo, mas a Vanessa foi firme e forte e me fez ficar ali. Ela não abaixava o binóculo de jeito nenhum. Foi aí que uma cabeça apareceu entre os arbustos! Era nosso primeiro felino no Kruger!

Guepardo, o mamífero terrestre mais rápido do planeta – Foto: Fábio Paschoal

Logo ao lado, alguns impalas que – assim como eu – não haviam percebido que o felino estava ali, se aproximavam cada vez mais do predador. De repente, o guepardo saiu do esconderijo, partiu pra cima dos antílopes e, para a nossa surpresa, foi seguido por outro guepardo!

Os impalas correram por suas vidas, conseguiram se salvar e os felinos ficaram expostos para o delírio de todos nós! Logo depois, um terceiro guepardo chegou, mas os predadores haviam sido descobertos e abortaram a missão. Que experiência fantástica!

[para saber mais sobre guepardos, veja o post Guepardo: o felino especialista em velocidade da série África Selvagem: Em Busca da Grande Migração]

Como o sol já estava forte e a atividade começava a cair, era hora de seguir pra Skukuza.

Veja o capítulo 6 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Veja o Roteiro: 20 dias na África do Sul de carro

Rota entre Berg-en-Dal e Skukuza. Seta preta: local em que vimos o guepardo. Setas laranjas: locais em que vimos rinocerontes-brancos (clique para aumentar o mapa)

DICAS

  • Estradas de terra são menos concorridas do que estradas de asfalto: Você pode ir de Berg-en-Dal para Skukuza  pela estrada de asfalto H3. Caso esteja muito lotada, pegue a estrada de terra paralela S114.
  • Se tiver um dia para visitar o Kruger e seu portão de entrada é o Malelane: você pode pegar a S114, ir até Skukuza para almoçar no restaurante do rest camp. Se tiver tempo, explore estradas próximas e depois volte pela H3 até Malelane.
  • Existem pontos de parada nas estradas asfaltadas: com local para piquenique sombreado, lojinha (com poucas opções de souvenirs comparada com a loja de Skukuza), fast-food e churrasqueira. O único problema é que essas paradas não são cercadas como os rest camps. O ponto de parada da H3 é Asfaal, um dos melhores lugares para ver leões no Sul de Kruger.
  • Examine os afloramentos rochosos na H3: Procure pelas pedras mais planas. Os leões às vezes são vistos de pé nas rochas procurando por presas.
  • A estrada H3 é uma das melhores estradas do Kruger: A rota entre o portão Malelane e Skukuza pela H3 está entre as 10 melhores rotas do Kruger, eleitas pelo site do parque.

Cachorro-selvagem: o predador mais eficiente entre os mamíferos

Cachorro-selvagem-africano, também conhecido como mabeco/ African wild dog (Lycaon pictus) no Kruger National Park, África do Sul. A espécie está ameaçada de extinção – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 4 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Após o incidente com o elefante (veja o post anterior), mudamos a rota e pegamos o asfalto até as proximidades do portão Malelane. Quando fizemos a curva para entrar na estrada H3 (uma das melhores rotas do Kruger), havia uma concentração de carros. Todos olhavam para a direita, mas a vegetação estava alta. Reposicionei o carro e conseguimos ver a grama se movimentando. Não sabíamos o que era, mas a expectativa era grande. Devagar, um por um, saíram na estrada: os cachorros-selvagens-africanos!

[Veja a introdução e o sumário da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

[Veja o capítulo 3 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

Três deles seguiram na frente da alcateia, em direção a um grupo de impalas. Começaram a andar mais baixo, assumindo a postura de caçadores,  e desataram a correr! Os antílopes ficaram desesperados. Davam saltos gigantescos cruzando a estrada. Os dois grupos seguiram para uma área com vegetação densa e depois só ouvimos o silêncio. Não vimos o final da caçada, mas foi incrível ver o começo de uma perseguição.

Cachorros-selvagens observando um grupo de impalas – Foto: Fábio Paschoal

Também conhecido como mabeco ou cão-selvagem-africano, o cachorro-selvagem é o predador mais eficiente entre os mamíferos da África. Eles caçam em grupo e começam assustando manadas de antílopes para separar um indivíduo mais debilitado (impalas são as presas mais frequentes). Depois começam uma perseguição e se revezam mordendo a parte traseira da presa, até que ela fique exausta e desista. Eles vencem pelo cansaço.

Em algumas regiões a taxa de sucesso em caçadas é de 90%. Nenhum outro grande predador africano é tão bem sucedido quanto os cachorros-selvagens.

Mabecos jovens brincam com pedaços da presa – Foto: Fábio Paschoal

O cachorro-selvagem mais à direita segura a cabeça de um impala na região de Berg-en-Dal, no Kruger, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Encontramos os mabecos em outra ocasião perto de Berg-en-Dal. Era um grupo grande de mais de 20. Haviam acabado de comer um impala. Os mais jovens brincavam com os restos de comida. Eles corriam de um lado para o outro segurando partes da presa e passavam por cima dos adultos, que só queriam saber de descanso.

Um fato interessante sobre os cachorros-selvagens é que eles dão prioridade para os filhotes na hora de comer. Caso eles não estejam no local do abate, os adultos regurgitam a comida quando voltam para a toca.

A hiena-malhada/ Spotted hyena (Crocuta crocuta) pode ser encontrada em clãs liderados por uma fêmea dominante. São caçadoras, mas podem brigar por carcaças com cachorros-selvagens e até leões – Foto: Fábio Paschoal

Foi então que apareceu uma hiena. Uma cleptoparasita dos cachorros, o que significa que rouba a comida deles. Se as hienas estão em grupo pode haver conflito, mas quando é uma hiena solitária ela só consegue roubar se os mabecos estiverem muito distraídos. Não foi o caso dessa vez. Parte da alcateia levantou e expulsou a visitante indesejada. Mas os jovens continuaram brincando como se nada estivesse acontecendo.

Mesmo depois do aparecimento da hiena, os jovens cachorros-selvagens continuaram brincando com a comida – Foto: Fábio Paschoal

Infelizmente, a fragmentação do habitat e conflitos com humanos colocam a espécie na categoria “em perigo” da lista vermelha da IUCN.

A Range Wide Program For Cheetah & Wild Dogs trabalha em todos os países onde são encontrados cachorros-selvagens e guepardos (espécies ameaçadas de extinção). O objetivo da Ong é melhorar a coexistência entre pessoas e cachorros-selvagens-africanos, incentivar o manejo de uso da terra para manter e expandir as populações de mabecos, criar capacidade para conservação de cães-selvagens dentro da área conhecida da espécie, melhorar a percepção pública com relação aos canídeos em todos os níveis da sociedade e garantir uma estrutura de políticas compatível com a conservação da espécie (o mesmo é feito para o guepardo).

Veja o capítulo 5 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Veja o Roteiro: 20 dias na África do Sul de carro

As setas rosas indicam os locais onde observamos cachorros-selvagens no Kruger (Clique para expandir a imagem)

DICAS

  • Sempre que chegar em algum rest camp cheque e preencha o quadro de avistamentos (Sightings board): Lá os turistas indicam onde viram os chamados Big 7 do Kruger (cachorro-selvagem, leão, leopardo, búfalo, elefanterinoceronte e guepardo)