Arara-azul: da beira da extinção aos céus do Pantanal

Arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus), a maior arara do mundo – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 7 da série Pantanal: Terra das águas

Pantanal, 1989. A bióloga Neiva Guedes acompanhava um curso de conservação da natureza quando se deparou com uma árvore repleta de aves. O bando era majestoso, composto por cerca de trinta indivíduos que coloriam a paisagem com um azul vibrante. Os olhos, negros, eram destacados por um anel amarelo de cor intensa e o bico era extremamente forte, capaz de quebrar a casca das mais duras sementes. Pela primeira vez na vida, Neiva se deparava com a maior arara do mundo, a arara-azul.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 6 da série Pantanal: Terra das Águas]

Mas aquela era uma cena rara. O desmatamento derrubava acuris e bocaiuvas, as palmeiras responsáveis pela produção das sementes que servem de alimento para arara-azul. O manduvi, árvore de cerne macio que abriga mais de 90% dos ninhos da espécie, dava lugar a pastos e plantações. Traficantes de animais escalavam as árvores que permaneciam de pé para pegar os filhotes e vendê-los, principalmente no exterior. Os animais eram transportados em caixas pequenas e superlotadas, sem água e sem comida. O estresse era grande e, na briga por espaço, as ararinhas acabavam mutiladas ou mortas. Algumas aves eram forçadas a consumir bebidas alcoólicas para se acalmar, enquanto outras recebiam um soco, para quebrar osso esterno e impossibilitá-las de cantar. A arara-azul estava à beira da extinção.

Traficantes colocam os filhotes de arara-azul em caixas superlotadas. O estresse é muito grande e muitos acabam morrendo. Segundo o 1º Relatório Nacional Sobre o Tráfico da Fauna Silvestre elaborado pela RENCTAS (Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais) de cada 10 animais capturado pelo tráfico 9 acabam morrendo – Foto Neiva Guedes

Em 1990 Neiva iniciou o Projeto Arara Azul. Com o objetivo de manter populações viáveis da espécie em vida livre no seu habitat natural e promover a conservação da biodiversidade do Pantanal, a bióloga começou a mudar a história da espécie.

A arara-azul passou a ser minuciosamente estudada. Dados sobre a biologia e reprodução eram coletados diariamente, a saúde dos filhotes era monitorada, ninhos artificiais foram instalados para aumentar a quantidade de locais disponíveis para a postura de ovos, tábuas foram colocadas em ninhos naturais que apresentavam uma abertura muito grande, deixando os filhotes mais protegidos contra predadores e as intempéries do tempo. Em paralelo um trabalho de educação ambiental era desenvolvido nas escolas, informando às crianças das ameaças do desmatamento e do tráfico de animais. As pessoas passaram a ter orgulho das aves e informavam o projeto da localização de novos ninhos. O tráfico passou a ser quase inexistente.

Em 22 anos a população, que era de 1.500 indivíduos, chegou a mais de 5000, a arara-azul saiu da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção e voltou a pintar os céus do Pantanal.

Neiva Guedes, bióloga fundadora do Projeto Arara Azul e pesquisadora da Uniderp, mostrando ovo e filhote de arara-azul com 10 dias – Foto: Eveline Guedes

Hoje, o monitoramento continua durante o ano inteiro. Na época de reprodução (julho a março) o trabalho é intensificado. O desenvolvimento dos filhotes é acompanhado por biólogos e veterinários que verificam os aspectos sanitários, anilham, colocam microchip e coletam amostras de material biológico e sangue para análise de DNA. O manejo dos ninhos, naturais e artificiais, é feito entre abril e junho. Todo o processo pode ser acompanhado pelos turistas que se hospedam no Refúgio Ecológico Caiman, onde está localizada a base do Projeto Arara Azul.

A bióloga Daphne Nardi checa as condições de saúde de um filhote de arara-azul – Foto: Fábio Paschoal

Kefany Ramalho, bióloga do Projeto Arara Azul, verifica as condições de um filhote que nasceu em um ninho artificial – Foto: Fábio Paschoal

Mas há muito trabalho pela frente. Neiva diz que é necessário que as populações da Amazônia (aproximadamente 500 indivíduos) e do Nordeste (aproximadamente 1000 indivíduos) sejam estudadas e que haja um monitoramento de longo prazo em todas as regiões do país onde a ave ocorre, para verificar se o crescimento da espécie é sustentável ou se está acontecendo somente pelas ações realizadas pelo projeto.

Segundo Neiva, a espécie ainda é classificada como ameaçada de extinção pela lista vermelha da IUCN (União Internacional pela Conservação da Natureza na sigla em inglês). Assim, os esforços do Projeto Arara Azul continuam para tentar mudar esse status.

A bióloga acha que é preciso uma fiscalização mais efetiva para controlar o tráfico no norte e nordeste do Brasil. Ela acredita que as regiões onde as araras-azuis se encontram podem ser beneficiadas pelo ecoturismo, que traz novas oportunidades de emprego para as pessoas da região, gera renda e ativa a economia local. “Creio que um dia a arara-azul sai da lista.”

(Veja o capítulo 8 da série Pantanal: Terra das Águas).

Os filhotes de arara-azul que estavam amontoados na caixa foram encaminhados para o Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS), onde receberam os devidos cuidados. Segundo Neiva Guedes essa foi a última apreensão de araras-azuis no Mato Grosso do Sul e ocorreu em 2004 – Foto: Neiva Guedes

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Anta: o maior mamífero terrestre da América do Sul

Anta-sul-americana (Tapirus terrestris) - Foto: Fábio Paschoal

Anta-sul-americana (Tapirus terrestris) – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 6 da série Pantanal: Terra das águas

Existem 5 espécies de antas conhecidas pela ciência: a anta-da-montanha (Andes), a anta-centro-americana (América Central) e a anta-malaia (Indonésia) – que estão ameaçadas de extinção segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês). Em território brasileiro encontramos a anta-sul-americana, que é considera vulnerável, e a anta-pretinha, descoberta recentemente.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 5 da série Pantanal: Terra das Águas]

“A anta [Tapirus terrestris] é o maior mamífero terrestre da América do Sul. Além disso, é a jardineira de nossas florestas por ser uma excelente dispersora de sementes, contribuindo desta forma para a formação e manutenção da biodiversidade dos biomas brasileiros onde vive (Amazônia, Pantanal , Cerrado e Mata Atlântica). E tem mais: estudos recentes mostraram que a espécie tem uma quantidade imensa de neurônios, confirmando que ela é um animal extremamente inteligente. Portanto, a cultura brasileira de usar anta como xingamento, com conotação pejorativa, é completamente injusta e absolutamente infundada. Ser chamado de anta é um elogio!”. As palavras são de Patrícia Médici, Ph.D. em manejo de biodiversidade e coordenadora da Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira. O objetivo do projeto é estabelecer um programa de pesquisa e conservação da anta-sul-americana na região do Pantanal e depois expandir as ações para a Amazônia e o Cerrado.

Anta-centro-americana (Tapirus bairdii) – Foto: Santhosh Kumar/iStock/Thinkstock

Anta-centro-americana (Tapirus bairdii) – Foto: Santhosh Kumar/iStock/Thinkstock

Em agosto de 2013, a pesquisadora, em parceria com a jornalista ambiental Liana John, lançou a campanha Minha Amiga é uma Anta, desenvolvida para o público infanto-juvenil (veja o vídeo da campanha no final do post). A intenção era chamar a atenção sobre a importância da conservação da anta brasileira, despertar o orgulho pela ocorrência da espécie no Brasil e desmistificar o conceito de que “anta” é um ser desprovido de inteligência .

É possível baixar a cartilha educativa da anta brasileira, escrita por Liana John e Patrícia Medici e ilustrada pelo cartunista Luccas Longo, com informações sobre a espécie, materiais para estudo e trabalhos de escola, fotografias e ilustrações.

Tapirus kabomani é a primeira espécie de anta descoberta após Tapirus bairdii, descrita em 1865 - Foto: Divulgação

A anta-pretinha (Tapirus kabomani) é a primeira espécie de anta descoberta após Tapirus bairdii, descrita em 1865 – Foto: Divulgação

O trabalho de Patrícia é reconhecido internacionalmente. Ela foi escolhida em 2014 para o TED Fellows Program, que seleciona jovens inovadores, engajados e inspiradores e os treina para que façam palestras no TED Talks (Veja a palestra de Patrícia no final do post). O programa é uma iniciativa do movimento global TED (Technology, Entertainment and Design) – organização sem fins lucrativos dedicada ao conceito baseado em Ideas Worth Spreading (ideias que merecem ser espalhadas, na tradução literal do inglês).

Anta-da-montanha (Tapirus pinchaque) – Foto: Diego Lizcano/Creative Commons

Anta-da-montanha (Tapirus pinchaque) – Foto: Diego Lizcano/Creative Commons

Para chamar a atenção para a importância desses animais foi criado o Dia Mundial da Anta (27 de abril). Apesar de dar margem para inúmeros trocadilhos, a data tem um propósito sério: a conservação das cinco espécies de antas encontradas no planeta.

O desmatamento, a fragmentação do habitat, a competição com animais domésticos, a caça ilegal e os atropelamentos em rodovias fazem com que a população das antas continue diminuindo. Nada mais justo do que um dia para lembrar a importância de cuidar bem desses simpáticos animais (Veja o capítulo 7 da série Pantanal: Terra das Águas).

Anta-malaia (Tapirus indicus) – Foto: wathanyu/iStock/Thinkstock

Anta-malaia (Tapirus indicus) – Foto: wathanyu/iStock/Thinkstock

Veja abaixo o vídeo da campanha Minha Amiga é uma Anta

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Tamanduá-bandeira: o abraço que pode matar uma onça-pintada

O tamanduá-bandeira é o maior de todos os tamanduás. Sua grande cauda, semelhante à uma bandeira, é responsável pelo seu nome. Quando se recolhe para dormir, o animal a dobra em direção ao corpo e a bandeira vira um cobertor – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 4 da série Pantanal: Terra das Águas

Dizem que a primeira vez a gente nunca esquece. Era meu primeiro dia de treinamento para me tornar guia no Pantanal. A ansiedade e o nervosismo se misturavam com a expectativa de saber qual seria o primeiro mamífero que iria ver na maior planície inundável do mundo. Estávamos fazendo uma trilha quando a grama alta começou a se mover. Imediatamente todos ficaram imóveis e fizeram silêncio. Era possível ouvir o barulho das folhas secas que se quebravam enquanto o animal se aproximava. Os olhares permaneciam fixos, acompanhando o movimento da grama. Mais a frente havia um campo aberto. Fomos andando lentamente e nos posicionamos de frente para o animal. Então, do meio do mato, apareceu o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla)! Era uma mãe, que carregava o filhote nas costas.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 3 da série Pantanal: Terra das Águas]

Ela vinha com um andar desajeitado. Isso acontece porque os tamanduás andam nos nódulos dos dedos, assim suas garras nunca tocam o solo e permanecem afiadas para cavar as fortalezas de barro construídas por cupins e formigas (as únicas presas que fazem parte de seu cardápio). O tamanduá é lento, praticamente cego e possui uma audição muito ruim. A primeira vista parece uma presa fácil.

Parece mas não é! Quando sente uma ameaça o bandeira muda completamente de postura: apoia-se nas patas traseiras, abre os braços, mostra as garras afiadas e espera pacientemente. Se o predador investir, recebe um abraço mortal. Dessa forma pode matar até uma onça-pintada. Por isso, quando você recebe um abraço de uma pessoa que não gosta de você, dizemos que essa pessoa está dando o famoso “abraço de tamanduá”.

O tamanduá-bandeira tem uma banda preta na lateral do corpo. Quando tem um filhote, a mãe o carrega nas costas e o posiciona de modo que as bandas se sobreponham, parecendo uma única banda e um único tamanduá. Assim, o filhote permanece camuflado e protegido contra predadores – Foto: Fábio Paschoal

A espécie é encontrada em todos os biomas brasileiros, mas é considerada vulnerável pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês). A destruição do habitat para a agricultura, as queimadas em regiões de plantação de cana e os atropelamentos nas estradas são as principais ameaças enfrentadas pelo tamanduá-bandeira.

O tamanduá-mirim, assim como todos os tamanduás, é capaz de se levantar e assumir uma postura bípede. Assim se parece maior e pode intimidar seu agressor. Se a ameaça persistir, o tamanduá abre os braços e mostra suas garras afiadas. Se isso não for suficiente, desfere o abraço mortal. Foto: Fábio Paschoal

Além do bandeira existe mais uma espécie de tamanduá no Pantanal. O tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla), que está na categoria pouco preocupante mas enfrenta as mesmas dificuldades de seu irmão maior. O Projeto Tamanduá é destaque no Brasil, e luta pela conservação de todos os xenarthras (grupo que inclui tamanduás, tatus e preguiças) na América Latina.

Durante a temporada de seca, principalmente nos meses de setembro e outubro,  tive muitos encontros com tamanduás. Como eles não escutam e nem enxergam muito bem, é possível chegar bem próximo deles se você se posicionar contra o vento. São animais formidáveis!

[Veja o capítulo 5 da série Pantanal: Terra das Águas]

Tartarugas marinhas: temporada de reprodução 2016/2017 ameaçada

A tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata) se encontra criticamente ameaçada de extinção segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Banco de imagens Tamar

A 36ª temporada reprodutiva das tartarugas marinhas sob a proteção do Tamar vai começar. De setembro a março o litoral brasileiro é visitado por quatro das cinco espécies de tartarugas marinhas que ocorrem no país (a tartaruga-verde se reproduz em ilhas oceânicas de dezembro a julho). As mães voltam às praias onde nasceram para cavar um buraco e deixar seus ovos. Assim que os filhotes nascem, começam uma jornada em direção ao oceano e à maturidade. Apenas uma pequena parcela, contudo, conseguirá chegar à idade adulta.

As ameaças às tartarugas marinhas começam antes mesmo delas nascerem. Muitos ninhos ficam em praias movimentadas e podem ser pisoteados ou atacados por animais domésticos. A iluminação artificial é outro problema: além de desorientar os filhotes, que podem morrer por desidratação, ela pode espantar as mães que estão prestes a desovar.

Ainda há o lixo: na areia, atrapalha as fêmeas que querem construir os ninhos e os filhotes que precisam chegar ao mar; no oceano, pode ser confundido como alimento e às vezes é engolido por engano, podendo matar o animal.

Mas, a maior ameaça é a captura incidental pela pesca. “Mesmo com resultados positivos e números crescentes indicando o início da recuperação de algumas espécies, principalmente da tartaruga-cabeçuda e da tartaruga-oliva, os registros de pescaria de espinhel e arrasto preocupam”, afirma Neca Marcovaldi, oceanógrafa do Tamar responsável pelas ações de pesquisa e conservação.

Equipe do Tamar e pescadores locais fazendo medições em uma tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata) - Foto: Banco de imagens Tamar

Equipe do Tamar e pescadores locais fazendo medições em uma tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata) – Foto: Banco de imagens Tamar

Tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea) é monitorada pela equipe do Tamar – Foto: Banco de imagens Tamar

Tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea) é monitorada pela equipe do Tamar – Foto: Banco de imagens Tamar

Tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta) sendo monitorada pela equipe do Tamar – Foto: Banco de imagens Tamar

Tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta) sendo monitorada pela equipe do Tamar – Foto: Banco de imagens Tamar

Uma das funções da equipe do Tamar durante a temporada de desova das tartarugas marinhas é a coleta de amostras de pele para estudos genéticos - Foto: Banco de imagens Tamar

Uma das funções da equipe do Tamar durante a temporada de desova das tartarugas marinhas é a coleta de amostras de pele para estudos genéticos – Foto: Banco de imagens Tamar

Para garantir o sucesso reprodutivo das tartarugas marinhas, as bases do Tamar em áreas de reprodução no litoral (Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte, Espírito Santo e Rio de Janeiro) intensificam o trabalho nas praias e no mar durante esse período. A equipe do projeto monitora cerca de 1.100 quilômetros de praias e está presente em 25 localidades, em áreas de alimentação, desova, crescimento e descanso das tartarugas marinhas, no litoral e ilhas oceânicas dos estados da Bahia, Sergipe, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina.

As mães são identificadas assim que chegam às praias para desovar. A equipe também coleta amostras de pele para a realização de estudos genéticos. Os ninhos são escavados para coleta e análise de dados, como o tempo de incubação e a taxa de eclosão e espécie, entre outros.

Se algum ninho estiver em local perigoso, os ovos são transferidos para outros trechos da praia mais seguros ou são colocados em cercados de incubação nas bases do Tamar. O momento de abertura dos ninhos pode ser acompanhado nos centros de visitantes e acontece em maior intensidade entre novembro e fevereiro.

Tartaruga-verde (Chelonia mydas) desovando - Foto: Banco de imagens Tamar

Tartaruga-verde (Chelonia mydas) desovando – Foto: Banco de imagens Tamar

Equipe do Tamar monitora filhotes de tartarugas após a abertura de ninho. A atividade pode ser acompanhada nos centros de visitantes das bases localizadas em áreas de reprodução (Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte, Espírito Santo e Rio de Janeiro). A temporada de desova vai de setembro a março, mas o melhor período para ver os filhotes é entre novembro e fevereiro - Equipe do Tamar e pescadores locais fazendo medições em uma tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata) - Foto: Banco de imagens Tamar

Equipe do Tamar monitora filhotes de tartarugas após a abertura de ninho. A atividade pode ser acompanhada nos centros de visitantes das bases localizadas em áreas de reprodução (Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte, Espírito Santo e Rio de Janeiro) – Foto: Banco de imagens Tamar

O trabalho de educação ambiental e inclusão social, que já é feito junto às comunidades locais e aos turistas, continua e pode ser responsável pela manutenção de cerca de 80% dos ninhos no local original.

Nessa temporada, o projeto segue na luta pela conservação das cinco espécies de tartarugas marinhas encontradas no Brasil.

Na luta pela conservação das tartarugas-marinhas, o Tamar realiza um trabalho de educação ambiental junto às comunidades locais e aos turistas - Foto: Banco de imagens Tamar

Na luta pela conservação das tartarugas marinhas, o Tamar realiza um trabalho de educação ambiental junto às comunidades locais e aos turistas – Foto: Banco de imagens Tamar

Centro de Visitantes do Projeto Tamar na Praia do Forte, Bahia - Foto: Banco de imagens Tamar

Centro de Visitantes do Projeto Tamar na Praia do Forte, Bahia – Foto: Banco de imagens Tamar

A tartaruga-verde (Chelonia mydas) está ameaçada de extinção segundo a IUCN – Foto: Banco de imagens Tamar

A tartaruga-verde (Chelonia mydas) está ameaçada de extinção segundo a IUCN – Foto: Banco de imagens Tamar

A tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta) está ameaçada de extinção segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) - Foto: Marta Granville

A tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta) é considerada vulnerável segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Marta Granville

A tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea) é considerada criticamente ameaçada de extinção pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) - Foto: Banco de imagens Tamar

A tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea) é considerada vulnerável pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Banco de imagens Tamar

A tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea) é considerada vulnerável pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Banco de imagens Tamar

A tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea) é considerada vulnerável pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Banco de imagens Tamar

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Exposição Floresta Viva revela a biodiversidade da Mata Atlântica

Onça-parda olha para uma das câmeras de um Estúdio da Mata.A imagem abre a exposição Floresta Viva – Um Legado para a Humanidade – Foto: Luciano Candisani

Onça-parda olha para uma das câmeras de um Estúdio da Mata.A imagem abre a exposição Floresta Viva – Um Legado para a Humanidade – Foto: Luciano Candisani

A exposição Floresta Viva – Um Legado Para a Humanidade fica em cartaz na estação Santa Cecília do Metrô, em São Paulo, até 31 de agosto. A mostra gratuita reúne fotos que retratam a biodiversidade do Legado das Águas – Reserva Votorantim, uma área de 31 mil hectares de Mata Atlântica que protege as nascentes da bacia do rio Juquiá e fica a 120 quilômetros da capital paulista.

As imagens foram registradas por Luciano Candisani. O fotógrafo de National Geographic foi nomeado membro da Liga Internacional de Fotógrafos pela Conservação (iLCP, na sigla em inglês) devido à relevância de seu trabalho para a conservação da natureza. “A minha motivação criativa é buscar imagens capazes de mostrar a ligação entre as espécies e o ambiente.”

[Veja o post: Diário de bordo: Workshop Fotografia na Floresta, no Legado das Águas – Reserva Votorantim]

Desde 2012, Candisani realizou cerca de 40 expedições fotográficas ao Legado das Águas e registrou cerca de 60 espécies diferentes na reserva. A maior parte das fotografias foi feita da maneira convencional, quando o fotógrafo entra em silêncio na mata para registrar o comportamento dos animais.

Porém, as imagens mais marcantes da exposição foram clicadas pelos Estúdios da Mata: armadilhas fotográficas montadas por Candisani em pontos estratégicos da reserva, com equipamentos de última geração, que disparam o obturador da câmera quando o animal passa por um sensor de luz infravermelho. Flashes colocados em pontos estratégicos iluminam o ambiente e ajudam a compor o cenário.

Anta albina, registrada por um dos Estúdios da Mata - Foto: Luciano Candisani

Anta albina, registrada por um dos Estúdios da Mata – Foto: Luciano Candisani

As imagens registradas pelos Estúdios da Mata deixam uma mensagem clara: os animais não existem sem a floresta e a floresta não existe sem os animais. É impossível imaginar o Pantanal sem a onça-pintada, a Amazônia sem a harpia, a Caatinga sem a arara-azul-de-lear, o Cerrado sem o lobo-guará, os Pampas sem o gato-palheiro, a Mata-Atlântica sem o mico-leão-dourado.

Hoje, graças a Candisani, é impossível imaginar o Legado das Águas sem a anta albina. Um dos Estúdios da Mata fez o primeiro registro fotográfico do animal na natureza em terras brasileiras. A foto teve repercussão internacional, abriu uma linha promissora para pesquisas científicas e mostrou a importância de um dos últimos refúgios de Mata Atlântica para o mundo. Mas, o maior legado dessa imagem é a mudança que ela provocou nos moradores da região. “As pessoas começaram a sentir orgulho da anta branca e passaram a valorizar mais a reserva,” conta o fotógrafo.

Candisani buscava essa imagem desde sua primeira visita ao Legado das Águas, quando uma onça-parda cruzou a estrada diante de seus olhos e desapareceu. Mas em maio de 2015 o felino passou por um dos Estúdios da Mata e fez um autorretrato – Foto: Arquivo pessoal

Segundo Garth Lenz, membro da iLCP (veja o depoimento no vídeo abaixo), para a fotografia ajudar na conservação é necessário produzir imagens que provoquem mudanças e ter a certeza de que essas imagens cheguem aos olhos das pessoas que precisam vê-las. Certamente, Candisani está percorrendo esse caminho.

Projetos sediados na Paraíba lutam pela conservação de espécies marinhas ameaçadas de extinção

O tubarão-lixa (Ginglymostoma cirratum) está na categoria vulnerável da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, elaborada pelo ICMBio. O peixe é encontrado em três naufrágios e três recifes naturais na costa da Paraíba - Foto: National Oceanic and Atmospheric Administration dos EUA/Domínio Público

O tubarão-lixa (Ginglymostoma cirratum) está na categoria vulnerável da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, elaborada pelo ICMBio. O peixe é encontrado em três naufrágios e três recifes naturais na costa da Paraíba – Foto: National Oceanic and Atmospheric Administration dos EUA/Domínio Público

O Estado da Paraíba acaba de ganhar dois novos projetos que fazem parte do Programa Extremo Oriental das Américas (PEOA). A ideia é fomentar a relação entre o conhecimento científico, formular políticas públicas conservacionistas em escala regional, conservar espécies marinhas ameaçadas de extinção e mapear 100 mil hectares do fundo oceânico, que ajudarão no monitoramento das Áreas Protegidas no litoral. “O PEOA está orientado para a geração de conhecimento científico diretamente aplicado à conservação, onde são observados os marcos legais já existentes, como as Metas de Aichi  e o Decreto do Governo da Paraíba, que prevê a ampliação de áreas marinhas protegidas”, diz Orione Álvares da Silva, analista ambiental do ICMBio e um dos coordenadores do PEOA.  Para Bráulio Santos, professor do Departamento de Sistemática e Ecologia da UFPB e coordenador do PEOA, é importante aliar o conhecimento científico com ações de conservação “sem conhecimento técnico-científico sólido e atualizado, é pouco provável que nossas ações de conservação sejam efetivas e cumpram sua função socioeconômica”.

Pesquisador tira as medidas de tubarões: largura, comprimento e tamanho da nadadeira caudal - Foto: PEOA/Divulgação

Pesquisador tira as medidas de tubarões: largura, comprimento e tamanho da nadadeira caudal – Foto: PEOA/Divulgação

Projeto de Conservação do Tubarão-Lixa

Ricardo Rosa, professor da UFPB, realiza o monitoramento do tubarão-lixa (Ginglymostoma cirratum), espécie ameaçada de extinção, em três naufrágios e três recifes naturais. Todos os tubarões encontrados são identificados individualmente através de fotografias subaquáticas e marcas naturais. O objetivo é determinar como ocorre o deslocamento dos peixes, quais são os locais de descanso e alimentação, a quantidade de indivíduos e o sexo. Com base nos resultados, Rosa pretende elaborar recomendações para a conservação da espécie que sigam as ações do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Elasmobrânquios Marinhos (PAN­Tubarões). Pescadores artesanais e praticantes do mergulho recreativo foram incluídos em um programa para a popularização da ciência e ajudam o projeto no processo de construção do conhecimento.

Durante pesquisa no naufrágio Alvarenga, pesquisadores utilizam sondas de última geração para monitoramento - Foto: PEOA/Divulgação

Durante pesquisa no naufrágio Alvarenga, pesquisadores utilizam sondas de última geração para monitoramento – Foto: PEOA/Divulgação

Projeto Caracterização de Ecossistemas Recifais Mesofóticos

Faz o mapeamento de ecossistemas recifais de até 90 metros de profundidade, pouco conhecidos pela ciência, com sonares de última geração, capazes de gerar imagens 3D com qualidade e realismo. A área mapeada pelo projeto, que pode superar 100 mil hectares, será útil para subsidiar a criação de Unidades de Conservação na costa da Paraíba. O trabalho conta com a colaboração do Programa de pós-graduação em Geodinâmica e Geofísica da UFRN e do Programa de pós-graduação em Oceanografia da UFPE.  A fauna marinha também é registrada por um ROV (Veiculo Operado Remotamente) capaz de gerar imagens ao vivo e em alta resolução dos seres vivos e do fundo do mar em profundidades de até 100 metros. Os pesquisadores esperam mapear todas as formações recifais que estão na faixa litorânea entre Cabedelo e João Pessoa em dois anos.

Os dois projetos são liderados por pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, e são financiados principalmente pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza com o apoio administrativo do CEPAN (Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste) e logístico da Mar Aberto Dive Center.

Ararinha-azul é avistada na natureza, após 16 anos desaparecida

A ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) está possivelmente extinta na natureza, segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês)

Uma ararinha-azul foi avistada na natureza pela primeira vez após 16 anos. O fato ocorreu no último sábado (18) e foi divulgado no blog de Herton Escobar, do Estadão. A espécie, considerada criticamente ameaçada e possivelmente extinta na natureza, é endêmica da Caatinga e foi encontrada por moradores locais de Curaçá, na Bahia, que participam dos esforços de conservação na região e alertaram as autoridades. Eles conseguiram registrar um vídeo da ave voando. Segundo a nota, as imagens não deixam dúvidas sobre a identidade da espécie, que tem um grito característico, que pode ser ouvido claramente.

Em entrevista para o blog de Escobar, Pedro Develey, diretor da Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil), disse que provavelmente a ararinha seja uma ave de cativeiro, não registrada, que foi solta pelo dono — talvez para evitar ser flagrado com ela, o que configuraria crime ambiental. Recentemente, o Ibama fez uma ação contra o tráfico de animais na região; e seria muito difícil uma ararinha-azul voando passar desapercebida.

Develey, que visitou Curaçá após a descoberta, relatou que as pessoas da comunidade estavam muito felizes, dizendo que a ararinha tinha voltado. Ele também ressaltou a importância da parceria com as comunidades locais para os esforços de conservação da biodiversidade.

A ave foi observada pela última vez no domingo (19) e seu paradeiro permanece desconhecido até o momento. Um grupo para vasculhar a região, localizar a ave e garantir a segurança do animal está sendo organizado pelo ICMBio e a SAVE Brasil.

Hoje, o centro de conservação e reprodução de espécies ameaçadas Al Wabra, no Catar, que possui a maior coleção de ararinhas-azuis em cativeiro do mundo, trabalha em parceria com o governo brasileiro para reintroduzir a espécie na natureza. Fica a torcida para que a ararinha-azul seja retirada da lista de animais possivelmente extintos na natureza e volte a voar pela Caatinga.

Biólogo brasileiro recebe prêmio Guerreiro da Vida Selvagem do Houston Zoo

Gabriel Massocato atua desde 2012 na equipe do Projeto Tatu Canastra - Foto: Divulgação

Gabriel Massocato atua desde 2012 na equipe do Projeto Tatu Canastra – Foto: Divulgação

O biólogo Gabriel Massocato foi um dos vencedores do Wildlife Warriors (Guerreiros da Vida Selvagem), promovido pelo Jardim Zoológico de Houston (Houston Zoo, EUA). O prêmio reconhece os pesquisadores de destaque dos projetos apoiados pelo zoo ao redor do mundo. O pesquisador atua desde 2012 no Projeto Tatu-Canastra, do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), realizado no Pantanal e Cerrado.

Gabriel Massocato um dos vencedores do prêmio Wildlife Warriors (Guerreiros da Vida Selvagem), promovido pelo Jardim Zoológico de Houston - Foto: Divulgação

Gabriel Massocato um dos vencedores do prêmio Wildlife Warriors (Guerreiros da Vida Selvagem), promovido pelo Jardim Zoológico de Houston – Foto: Divulgação

Gabriel é formado pela Universidade Federal da Grande Dourados (MS) e iniciou sua atuação em campo com um projeto de pesquisa sobre atropelamentos de vertebrados no Mato Grosso do Sul, em 2010. No projeto do Tatu Canastra, participa de ações de pesquisa no Pantanal e mais recentemente no Cerrado. O pesquisador é um dos responsáveis pelo trabalho de Ciência Cidadã, que levanta informações sobre a espécie com ajuda das comunidades locais. Como o tatu é uma espécie rara e difícil de ser encontrada, o apoio da população de pequenas cidades do estado é indispensável.

No Cerrado, um bioma amplamente fragmentado, com menos de 20% da vegetação nativa, os tatus-canastra correm reais riscos de extinção. Assim, o projeto vem mapeando a distribuição das últimas populações da espécie para criar áreas protegidas e corredores de conservação. Além disso, busca parcerias com órgãos governamentais e instituições para o desenvolvimento de atividades de educação ambiental a alunos de escolas estaduais.

“Esse é um prêmio em equipe, inspirado em todas as pessoas com quem eu trabalho e compartilho minha vida na cidade e no campo, a todas as pessoas que ficam encantadas em conhecer o raro e surpreendente Priodontes Maximus, o tatu-canastra. Hoje eu posso dizer que o tatu-canastra se tornou o meu projeto de vida, esse é o trabalho na qual eu escolhi e sou realizado profissionalmente. O prêmio, certamente, me dá ainda mais força e inspiração na luta diária por essa causa”, afirma Gabriel.

Com o prêmio, o pesquisador irá se especializar e passar uma temporada no zoológico, atuando no departamento de Educação e Conservação, e participar de um curso intensivo em inglês.

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Cuíca-de-colete é redescoberta na Amazônia brasileira após 50 anos

A cuíca-de-colete (Caluromysiops irrupta) está na categoria Criticamente Ameaçada da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, elaborada pelo ICMBio - Foto: Marcio Martins

A cuíca-de-colete (Caluromysiops irrupta) está na categoria Criticamente Ameaçada da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, elaborada pelo ICMBio – Foto: Marcio Martins

A cuíca-de-colete (Caluromysiops irrupta) é o único marsupial (grupo dos gambás, cangurus e coalas) classificado como criticamente ameaçado no Brasil. O único registro que existia da espécie no país era de uma pele depositada no Museu de Zoologia da USP datada de 1964. Porém, em dezembro de 2013, a bióloga da USP Júlia Laterza Barbosa encontrou um exemplar durante um resgate de fauna em Paranaíta, município localizado dentro da Amazônia Legal, no estado de Mato Grosso. A redescoberta foi publicada por Barbosa e outros dois pesquisadores no periódico científico De Gruyter no mês passado (maio de 2016).

Para Marcus Vinicius Brandão, biólogo graduado pela USP, com mestrado em mastofauna pela UFSCar e um dos autores do artigo, a redescoberta da espécie mostra a importância do licenciamento ambiental, processo que analisa os impactos socioambientais de um empreendimento para avaliar se a obra é viável ou não e que pode deixar de ser obrigatório com a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição 65/2012 em tramitação no Senado.

A cuíca-de-colete (Caluromysiops irrupta) foi redescoberta no Brasil após 50 anos. A espécie está na categoria Criticamente Ameaçada da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, elaborada pelo ICMBio. (O animal foi capturado durante um resgate de fauna e foi solto em um lugar seguro) - Foto: Júlia Laterza Barbosa

A cuíca-de-colete que foi redescoberta no Brasil após 50 anos. (O animal foi capturado durante um resgate de fauna e foi solto em um lugar seguro) – Foto: Júlia Laterza Barbosa

“Durante o processo de licenciamento ambiental busca-se avaliar o impacto ambiental e também social que grandes obras como rodovias, hidrelétricas, mineradoras, etc podem causar. Dessa forma, avaliamos se os benefícios que serão obtidos por esses empreendimentos compensam os impactos que serão gerados. Assim, através de estudos do meio social e ambiental, pode-se ter dimensão da realidade local e elaborar relatórios que poderão direcionar a minimização dos impactos. Além disso, é uma oportunidade de aumentarmos o conhecimento sobre a biodiversidade local. O registro da cuíca-de-colete é um exemplo disso”, diz Brandão. E completa: “Nós sabemos das atuais tragédias ambientais ocorridas no país. Agora imagine: se essas tragédias já aconteceram com a atual legislação, o que aconteceria se a PEC65 fosse aprovada? Imagine os desastres ambientais que poderiam ocorrer. Grande parte da nossa biodiversidade, que pouco conhecemos, estaria destinada a desaparecer sem termos ciência de sua existência.”

A cuíca-de-colete possui uma característica única entre os marsupiais sul-americanos: a faixa escura que se estende das mãos, passa pelos braços, ombros e chega até as costas - Foto: Júlia Laterza Barbosa

A cuíca-de-colete possui uma característica única entre os marsupiais sul-americanos: a faixa escura que se estende das mãos, passa pelos braços, ombros e chega até as costas – Foto: Júlia Laterza Barbosa

No início deste mês (junho), outro artigo científico, publicado no Check List, informou outro registro da espécie no Parque Estadual Guajará Mirim, em Rondônia. “Embora este novo registro refira-se ao avistamento da cuíca-de-colete em 1995, ou seja, mais de 20 anos atrás, é um registro bastante importante, pois foi feito em uma Unidade de Conservação, o que representa um grande passo na ajuda para a conservação de populações desta espécie no Brasil”, comenta Brandão.

Os registros publicados recentemente são importantes para provar que a espécie ainda vive na Amazônia brasileira. Porém, sua área de ocorrência sofre com o desmatamento para a agricultura e a pecuária. Para Brandão é preciso avaliar o atual estado das populações da cuíca-de-colete, obter mais amostras para estudos genéticos e estudar os dados ecológicos do animal para determinar se a espécie é rara e ameaçada realmente ou se é comum, mas com hábitos que dificultam a percepção de sua presença (como vida restrita à copa das árvores e hábito noturno, por exemplo). “Conhecendo melhor os dados biológicos de Caluromysiops irrupta, a comunidade científica pode direcionar melhor os esforços de conservação e quem sabe no futuro poderemos retirar esta espécie da lista de espécies ameaçadas.

Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira completa 20 anos

 A anta-brasileira (Tapirus terrestris) é o maior mamífero terrestre da América do Sul. Considerada a "jardineira da floresta" por ser uma excelente dispersora de sementes, contribuiu para a formação e manutenção da biodiversidade das matas onde vive. A espécie é considerada vulnerável pela Lista Vermelha da UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) - Foto: INCAB/IPÊ


A anta-brasileira (Tapirus terrestris) é o maior mamífero terrestre da América do Sul. Considerada a jardineira da floresta por ser uma excelente dispersora de sementes e contribuir para a formação e manutenção da biodiversidade das matas onde vive. O animal da foto está com um rádio-colar que ajuda na obtenção de dados sobre a área de vida e ajuda a localizar cada indivíduo. A espécie é considerada vulnerável pela Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: INCAB/IPÊ

A Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB), do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), celebra 20 anos em 2016. O projeto, coordenado pela pesquisadora Patrícia Medici, preparou diversos eventos comemorativos para celebrar esse marco para a conservação da espécie.

As duas décadas de estudos resultaram no mais completo e detalhado banco de dados do mundo sobre a anta-brasileira, também conhecida como anta-sul-americana. As informações geradas são fundamentais para planejar ações efetivas para a conservação da espécie nos âmbitos regional e nacional.

Equipe da INCAB coleta dados de uma anta que serão utilizados para ajudar na conservação da espécie (o animal foi liberado após o procedimento) - Foto: INCAB/IPÊ

Equipe da INCAB coleta dados de uma anta que serão utilizados para ajudar na conservação da espécie (o animal foi liberado após o procedimento) – Foto: INCAB/IPÊ

O status de conservação da anta-brasileira é acompanhado de perto por Patrícia Medici desde 1996. A engenheira florestal iniciou os estudos na região do Pontal do Paranapanema, extremo oeste do estado de São Paulo, com o Programa Anta Mata Atlântica. O projeto foi realizado até 2007 e levantou dados sobre o impacto da fragmentação florestal e da paisagem fragmentada na sobrevivência dos indivíduos e sobre sua ecologia espacial, genética e saúde.

Em 2008 o projeto foi ampliado, mudou o nome para Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira e ganhou um novo objetivo: mapear as principais ameaças e o status de conservação das antas em todos os biomas em que a espécie ocorre no Brasil. Atualmente o projeto se encontra no Pantanal e no Cerrado. Futuramente, a Amazônia também fará parte dos estudos da INCAB.

Pesquisadores da INCAB rastreiam uma anta que recebeu um rádio-colar - Foto: INCAB/IPÊ

Pesquisadores da INCAB rastreiam uma anta que recebeu um rádio-colar – Foto: INCAB/IPÊ

“O nosso grande diferencial é a pesquisa científica de longa duração, que é de extrema importância no processo de gerar informações para alimentar e subsidiar o desenvolvimento de ações de conservação realistas e efetivas. Grande parte das informações que utilizávamos anteriormente para avaliar o risco de extinção das antas na natureza provinha de estudos em cativeiro. Atualmente, depois de trabalhos de pesquisa rigorosos na Mata Atlântica, Pantanal e Cerrado, contamos com um banco de dados consolidado com informações de antas em vida selvagem. Podemos, por exemplo, calcular alguns parâmetros reprodutivos da espécie tais como índices de mortalidade de filhotes, intervalos entre nascimentos, com base em nossos resultados de pesquisa”, diz Patrícia, coordenadora da INCAB.

Patricia Medici, coordenadora da INCAB, checa uma armadilha fotográfica. o equipamento é utilizado para registrar quais espécies são encontradas em um local - Foto: NCAB/IPÊ

Patricia Medici, coordenadora da INCAB, checa uma armadilha fotográfica. O equipamento registra as espécies encontradas em um local – Foto: INCAB/IPÊ

O suporte financeiro e institucional para a realização das atividades da INCAB vem de diversas organizações, incluindo fundos de conservação de zoológicos nos Estados Unidos e Europa, fundações e ONGs conservacionistas internacionais, zoológicos e universidades brasileiros. A INCAB conta também com o suporte de doadores privados no Brasil, Estados Unidos e Europa.

Atualmente, a INCAB conta com uma equipe de sete pessoas incluindo cinco profissionais em tempo integral – Patrícia Medici (Coordenadora), Renata Carolina Fernandes Santos (Veterinária), Caroline Testa José (Veterinária), Gabriel Denipoti (Biólogo) e José Maria de Aragão (Assistente de Campo) – e dois profissionais que atuam através de consultorias – Rafael Ruas Martins (Sistemas de Informações Geográficas) e Gabriela Pinho (Geneticista). A base da INCAB fica em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul.

Anta liberada pela equipe do INCAB após receber o rádio-colar - Foto: INCAB/IPÊ

Anta liberada pela equipe do INCAB após receber o rádio-colar – Foto: INCAB/IPÊ