Expondo as selfies com tigres: relatório revela crueldade com os felinos usados na indústria do entretenimento

Encontrados em grande parte da Ásia, os tigres são os maiores felinos do mundo. Habitavam lugares tão diversificados (florestas tropicais, pântanos e savanas) que acabaram evoluindo em populações regionais com padrões e tamanhos distintos, a ponto de serem classificadas em subespécies diferentes. Hoje, a maioria está extinta. A perda de habitat, a caça de suas presas e o mercado negro chinês – que vende partes do corpo do felino para fazer remédios – estão dizimando um dos predadores mais formidáveis - Foto: iStock/Thinkstock

Encontrados em grande parte da Ásia, os tigres são os maiores felinos do mundo. Habitavam lugares tão diversificados (florestas tropicais, pântanos e savanas) que acabaram evoluindo em populações regionais com padrões e tamanhos distintos, a ponto de serem classificadas em subespécies diferentes. Hoje, a maioria está extinta. A perda de habitat, a caça de suas presas e o mercado negro chinês – que vende partes do corpo do felino para fazer remédios – estão dizimando um dos predadores mais formidáveis – Foto: iStock/Thinkstock

Tigres mantidos em cativeiro são vítimas de um turismo irresponsável. Esses felinos ameaçados de extinção são criados e usados para entreter viajantes e alavancar os lucros de estabelecimentos que oferecem atrações com a vida silvestre, agências de viagens, e até o tráfico de animais. É o que revela o relatório Expondo as selfies com tigres: um retrato da indústria do entretenimento com tigres na Tailândia, elaborado pela World Animal Protection (WAP).

Entre março de 2015 e junho de 2016, pesquisadores da ONG visitaram anonimamente 17 das maiores atrações com tigres na Tailândia. Eles descobriram que, dos 1500 tigres em cativeiro, 830 são utilizados na indústria do entretenimento (um aumento de 33% nos últimos cinco anos) e que 88% desses felinos vivem em condições miseráveis.

[Veja o post: A morte do leão Cecil inicia o debate: a caça esportiva pode ajudar na conservação?]

[Veja o post: Lóris: o único primata venenoso do mundo está ameaçado. Pelo tráfico de animais e por vídeos no YouTube]

Filhote de tigre em cativeiro no Sri Racha Tiger Zoo, Tailândia – Foto: World Animal Protection

Segundo o relatório, 13 dos estabelecimentos permitiam que turistas se aproximassem para tirar selfies, 12 estabelecimentos incentivavam os visitantes a tirar selfies com filhotes de tigres separados de suas mães no início de suas vidas, 3 atrações permitiam a alimentação de tigres adultos, 2 zoológicos ofereciam apresentações do tipo circense e todos os 17 pontos turísticos visitados ofereciam atividades que exigiam que os tigres agissem contra o instinto natural (saltando aros em chamas, por exemplo), causando angústia e estresse nos animais.

Os principais problemas encontrados nos estabelecimentos visitados foram:

  • Separação dos filhotes de suas mães, duas a três semanas após o nascimento. Os pequenos passam a ser alimentados por mamadeiras oferecidas por turistas. É provável que a separação prematura sirva a um segundo propósito: permitir que os estabelecimentos obtenham ninhadas com maior frequência;
  • Apresentação de filhotes, vistos e manuseados de forma incorreta centenas de vezes ao dia por turistas e funcionários, o que pode levar ao estresse e lesões;
  • Punição por meio da dor e do medo, para impedir comportamentos indesejados ou agressivos. A fome também é usada com a mesma finalidade;
  • Recintos impróprios, como jaulas de concreto pequenas ou locais áridos, com acesso limitado à água potável. 50% dos tigres observados estavam em gaiolas com menos de 20m² por animal, metragem muito distante dos 16 a 32 quilômetros que eles costumam caminhar em uma única noite na natureza;
  • 12% dos tigres observados mostraram problemas de comportamento, tais como andar de um lado para o outro repetitivamente ou morder a própria cauda. Estes comportamentos ocorrem frequentemente quando os animais estão em ambientes ou situações estressantes e nunca foram registrados em animais vivendo na natureza.

Tigres mantidos em cativeiro são acorrentados para que turistas possam posar em fotos com eles no Phuket Zoo, Tailândia – Foto: World Animal Protection

Turistas posam para fotos com tigres criados em cativeiro em Million Stone Park, na Tailândia – Foto: World Animal Protection

Outro grave problema é a possível associação da indústrias de entretenimento com o tráfico de animais. Oficiais do governo da Tailândia encontraram peles, amuletos feitos com os ossos e dentes de tigres, além de 70 filhotes mortos em potes e congeladores no Tiger Temple, um dos estabelecimentos visitados pela WAP. O estabelecimento também fracassou em prestar contas sobre o desaparecimento de três tigres registrados pelo governo. Em junho de 2016, todos os 147 tigres do Tiger Temple foram apreendidos pelas autoridades tailandesas e o estabelecimento está sendo acusado de ter ligações com o tráfico de partes do corpo de tigres.

Por enquanto, não há provas de que os outros estabelecimentos citados no relatório estejam envolvidos com o comércio ilegal de tigres ou de suas partes. Mas a pesquisa mostra que há discrepâncias significativas entre o número de tigres declarados por alguns estabelecimentos e os observados no local. O que levanta sérias preocupações, especialmente sobre a criação acelerada de tigres em cativeiro, uma prática aparentemente comum e sem benefício à preservação da espécie.

Turistas visitam tigres mantidos em cativeiro no Tiger Temple, Tailândia – Foto: World Animal Protection

“O crescimento do número tigres em cativeiro na Tailândia é muito preocupante. É preciso que os turistas saibam que se podem tirar foto ou estar perto de animais como esses, há algo errado”, afirma Roberto Vieto, Gerente de Vida Silvestre da WAP.

Para cessar a demanda e, consequentemente, a oferta de atividades irresponsáveis de turismo com animais, a WAP criou a campanha internacional Silvestres. Não entretenimento. Os objetivos são:

  • Estimular os governos em todo o mundo a investigarem locais de entretenimento com tigres e fechar aqueles que mostram evidência de comércio ilegal, crueldade ou negligência;
  • Parar a venda e a promoção de locais de entretenimento que maltratam animais selvagens por agências de viagens (principalmente a Trip Advisor) ;
  • Alertar viajantes para que deixem de frequentar locais de entretenimento turístico que permitam a interação direta entre pessoas e animais, como abraços e selfies com tigres.

Consigo sentir a tristeza nos olhos de animais enjaulados. Já visitei o Pantanal, a Amazônia, a África e Galápagos, e posso afirmar que a experiência de ver animais selvagens em seu habitat natural é muito mais enriquecedora do que tirar uma foto abraçada com um bicho em cativeiro. Muito mais triste é saber que essa prática pode servir para alimentar o tráfico de animais. Por isso, fico com as esperanças renovadas ao ver que mais de 400 mil pessoas assinaram a petição da WAP e mais de 100 agências de viagens se comprometeram a parar de vender e promover atrações que utilizem animais silvestres.

Para saber mais acesse o site da campanha: http://www.worldanimalprotection.org.br/silvestres-nao-entretenimento

– Foto: World Animal Protection

– Foto: World Animal Protection

– Foto: World Animal Protection

– Foto: World Animal Protection

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Projeto Iauaretê: a luta para salvar as onças-pintadas das árvores da Amazônia

 Onça-pintada (Panthera onca) A onça-pintada é o maior felino das Américas. A perda e fragmentação de habitat associadas principalmente à expansão agrícola, mineração, implantação de hidrelétricas, ampliação da malha viária e a eliminação de indivíduos por caça ou retaliação por predação de animais domésticos são as principais ameaças enfrentadas pelo felino Status na Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção: espécie vulnerável

A onça-pintada (Panthera onca) é o maior felino das Américas. A perda e fragmentação do habitat associadas à expansão agrícola, mineração, implantação de hidrelétricas, ampliação da malha viária e a eliminação de indivíduos por caça ou retaliação por predação de animais domésticos são as principais ameaças enfrentadas pelo felino.
Status na Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção: espécie vulnerável – Foto: Emiliano Ramalho

Na Amazônia, durante o período da cheia, a onça-pintada deixa o solo e passa a viver na copa das árvores. Com incrível flexibilidade ecológica, o felino muda o comportamento para continuar em seu território, mesmo quando a água inunda a várzea da maior floresta tropical do mundo. Essa é uma das conclusões de uma pesquisa realizada pelo Projeto Iauaretê, do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

O estudo é realizado desde 2008 na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, a primeira reserva de desenvolvimento sustentável do Brasil, criada em 1996 a partir do sonho do primatólogo José Márcio Ayres de preservar o macaco uacari-branco. A área com mais de 1 milhão de hectares tem a função de proteger o ambiente de várzea amazônico, produzir ciência de qualidade e envolver as comunidades ribeirinhas locais na conservação do meio ambiente. “O que a gente tem observado é que temos, na Reserva Mamirauá, uma das mais altas densidades de onças encontrada no mundo. A gente estima mais de dez onças a cada 100 km².  E o que isso mostra é o potencial que as várzeas têm”, comentou o pesquisador Emiliano Ramalho, líder do GP Felinos, do Instituto Mamirauá.

Para Emiliano, a explicação para essa grande concentração de onças-pintadas se deve a grande quantidade de alimento disponível. Apesar de animais terrestres que são presas comuns do felino não serem encontrados com frequência, a densidade de preguiças e jacarés é altíssima. Esses duas espécies constituem a base da alimentação das onças-pintadas em Mamirauá. Segundo o pesquisador, existem cerca de 1000 onças-pintadas dentro da reserva.

A concentração de onças-pintadas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na Amazônia, é uma das maiores do mundo - Foto: Emiliano Ramalho

A concentração de onças-pintadas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na Amazônia, é uma das maiores do mundo – Foto: Emiliano Ramalho

A onça-preta e a onça-pintada são animais da mesma espécie. Indivíduos melânicos são mais comuns em florestas densas, como a Amazônia. Eles têm uma alta quantidade de melanina na pele e nos pelos - Foto: Projeto Iauaretê/Instituto Mamirauá

A onça-preta e a onça-pintada são animais da mesma espécie (Panthera onca). Indivíduos melânicos são mais comuns em florestas densas, como a Amazônia. Eles têm uma alta quantidade de melanina na pele e nos pelos – Foto: Projeto Iauaretê/Instituto Mamirauá

Como se movimentam as onças-pintadas da várzea Amazônica? Como a variação do nível da água, ao longo do ano, interfere na movimentação desses animais? Para responder a essas perguntas, os felinos recebem colares de GPS que armazenam e enviam informações da localização de cada animal para os pesquisadores via satélite. O colar também tem um sistema transmissor VHF, que emite uma frequência de rádio que é utilizada quando os pesquisadores querem encontrar o animal na floresta.

Durante os meses de janeiro e março a equipe do projeto capturou e instalou colares em duas onças: Django, uma onça-preta e Fofa, que está grávida. Para Louise Maranhão, veterinária no Instituto Mamirauá, a gestação é um indicativo de que o ambiente é viável para a sobrevivência e para a reprodução da espécie. “O animal está bem, possui alimentação no ambiente e está se reproduzido bem. Demonstra que esse é um ambiente que está favorável para sua manutenção.” Com esses dois animais, o projeto monitora atualmente cinco onças-pintadas na região.

As onças-pintadas são anestesiadas e têm os sinais vitais monitorados durante todo o processo de captura. Os animais são pesados, medidos e fotografados. Amostras biológicas são coletadas para análise genética e de parasitas em laboratório. Tudo é por acompanhado por um médico veterinário - Foto: Amanda Lelis

As onças-pintadas são anestesiadas e têm os sinais vitais monitorados durante todo o processo de captura. Os animais são pesados, medidos e fotografados. Amostras biológicas são coletadas para análise genética e de parasitas em laboratório. Tudo é por acompanhado por um médico veterinário – Foto: Amanda Lelis

As onças são liberadas com os colares GPS, que possuem um sistema que permite que se desarmem sozinhos quando a bateria acaba, possibilitando que sejam encontrados e reutilizados posteriormente. A acompanhamento pode durar até dois anos - Foto: Amanda Lelis

As onças são liberadas com os colares GPS, que possuem um sistema que permite que se desarmem sozinhos quando a bateria acaba, possibilitando que sejam encontrados e reutilizados posteriormente. O acompanhamento pode durar até dois anos – Foto: Amanda Lelis

A pesquisa também analisa as fezes das onças para determinar as principais presas dos felinos dentro de Mamirauá. “A preguiça sempre é o prato principal das onças ao longo do ano todo. O que muda no período da cheia é que as onças não têm acesso aos jacarés, que estão dispersos na água, na floresta. Então ela complementa isso com outros animais que vivem em cima da árvore: macacos guariba, outros macacos e o tamanduá-mirim”, diz Emiliano.

As informações coletadas pelo Projeto Iauaretê servem de base para a manutenção do programa de turismo de observação de onças-pintadas, realizado somente durante o período da cheia (final de abril até meados de junho) e mantido em parceria com a Pousada Uacari. Parte da renda arrecada vai para as comunidades locais e permite a continuidade da pesquisa científica. Segundo Emiliano, é importante provar que a onça pode trazer benefícios financeiros para as pessoas que trabalham na região. “As onças, hoje, têm um valor negativo por parte das comunidades. Porque as pessoas se sentem ameaçadas por causa da onça. Perdem cachorro, criação, porco, gado. A ideia é que mais gente venha fazer a observação de onças e que o recurso extra vá para as comunidades e para manter essa atividade de pesquisa. As pessoas ficam mais interessadas com o bicho. E o mais importante é dar tempo para as pessoas se conscientizarem.”

Os filhotes também se adaptam à vida nas copas das árvores - Foto: Emiliano Ramalho

Os filhotes também se adaptam à vida nas copas das árvores – Foto: Emiliano Ramalho

Para Emiliano, é possível replicar o modelo de turismo de observação de onças em outros lugares da Amazônia, principalmente em áreas de várzea. Ele já está programando outras iniciativas para verificar a possibilidade de fazer algo semelhante em áreas de terra firme.

A pesquisa do Projeto Iauaretê mostra que é necessário aumentar as áreas protegidas de florestas de várzea para ajudar na conservação da onça-pintada na Amazônia. Iniciativas como essa são necessárias para retirar o felino da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção.

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Projeto Onçafari: no rastro da onça-pintada

Onça-pintada: a mordida mais poderosa entre os felinos

Onça-pintada: a mordida mais poderosa entre os felinos

A onça-pintada possui a mordida mais poderosa entre os felinos. Nem o tigre ou o leão superam a força da Panthera onca - Foto: João Sergio Barros Freitas De Souza/Sua Foto

A onça-pintada possui a mordida mais poderosa entre os felinos. Nem o tigre ou o leão superam a força da Panthera onca – Foto: João Sergio Barros Freitas De Souza/Sua Foto

Ver uma onça-pintada (Panthera onca) na natureza é algo difícil de explicar. Ela encara, olho no olho, até ter a certeza de que você a viu. Seu tamanho é impressionante, ela domina o local e parece que tudo gira em torno dela. É como se a floresta parasse, naquele momento, só para vê-la passar. Antes de sair, uma pausa, a onça olha para trás, e verifica se você ainda está ali. Seus músculos estão tensos, sua respiração está presa e seu coração acelerado. É nesse momento que vem a certeza de que algo mágico está acontecendo. É uma energia muito intensa, que ficará impressa na sua memória para sempre.

Segundo a Ong Pró-Carnívoros, a  onça-pintada, também conhecida como jaguar, possui a mordida mais poderosa entre os felinos e uma maneira única de caçar. Enquanto os outros gatos usam uma técnica de caça com mordida no pescoço seguida de sufocamento, a onça-pintada crava os caninos na cabeça da presa e quebra a espinha dorsal ou perfura o crânio da vítima até chegar ao cérebro. A força exercida é tão grande que chega a quebrar cascos de jabutis.

Seu padrão amarelo com rosetas pretas é a perfeita camuflagem para andar na floresta, onde os fachos de luz em meio à sombra das árvores tornam o felino praticamente invisível. Ela se aproxima da presa silenciosamente, utilizando áreas de vegetação densa para se esconder.  Almofadas na sola das patas ajudam a abafar o som e permitem que o predador ande sem fazer barulho. Quando está perto de seu alvo parte para o ataque.

É um animal oportunista e se alimenta de qualquer presa que esteja disponível. No Pantanal prefere  jacarés, queixadas e capivaras, que são maiores e mais abundantes. Na Amazônia come principalmente animais pequenos, como cotias, pacas e tatus. Ela seleciona indivíduos inexperientes, machucados, doentes ou mais velhos o que resulta em benefício para a própria população de presas e mantém o equilíbrio do ecossistema.

Segundo o Projeto Onçafari, estudos mostram que a predação de gado é menor em áreas com grande quantidade de presas naturais e maior onde há caça de animais selvagens. Infelizmente, a destruição do habitat, e a consequente redução no número de presas naturais, faz com que as onças-pintadas comecem a caçar animais domésticos e acabam sendo mortas por fazendeiros que querem proteger seus rebanhos. Após décadas de perseguição, o felino se tornou um dos animais mais difíceis de avistar na natureza e está na categoria vulnerável da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção.

Para tentar mudar essa história o Onçafari quer fazer a habituação das onças-pintadas a carros de passeio para que elas se comportem da mesma maneira que os felinos da África se comportam em safáris fotográficos. O objetivo é atrair mais turistas, aumentar o interesse dos fazendeiros no turismo de observação de animais, gerar novas oportunidades de emprego para as pessoas da região, ajudar na conservação da onça-pintada e, consequentemente, de seu habitat.

Para saber mais sobre o Onçafari veja o post: Projeto Onçafari: no rastro da onça-pintada

Onça-pintada (Panthera onca), o maior felino das américas sofre com a perseguição de fazendeiros que querem proteger o gado. O Projeto Onçafari tenta salvar o felino através do ecoturismo – Foto: Fábio Paschoal

Morre onça-pintada símbolo do Refúgio Biológico de Itaipu. Descanse em paz, Juma

Juma bebendo água, em 2007 - Foto: Daniel De Granville

Juma bebendo água, em 2007  – Foto: Daniel De Granville

Juma, a onça-pintada símbolo do Refúgio Biológico Bela Vista (RBV) de Itaipu, morreu no último domingo (17) às 14h30 no zoológico Roberto Ribas Lange, onde estava desde 2002. O felino foi fundamental para o trabalho de educação ambiental, incentivou o turismo local e contribuiu para pesquisas científicas da Panthera onca, que está na categoria vulnerável da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção.

“Foi a perda de um ícone, de um animal emblemático para todo o trabalho que fizemos aqui em termos de fauna. Ela é o símbolo dessa nossa luta pela conservação”, comenta Wanderlei de Moraes, veterinário da Divisão de Áreas Protegidas de Itaipu, que acompanhou toda a vida da onça no RBV e foi o responsável pela necropsia.

A morte foi causada por insuficiência renal severa, provocada por infecção nos rins. O problema é comum em felinos idosos como a Juma, que tinha a idade estimada em 24 anos.

Juma chegou no RBV quando tinha 10 anos, desnutrida e debilitada. Ela vivia na região do Parque Nacional do Iguaçu, mas estava sendo avistada fora dos limites da reserva, o que colocava sua vida em risco. Wanderlei acredita que ela estava perdendo uma disputa por território.

Se continuasse na natureza, Juma não teria sobrevivido muito tempo porque estava desnutrida, com dentes quebrados e havia começado a capturar animais em propriedades particulares. Devido a esses problemas, a equipe do RBV decidiu colocá-la em cativeiro.

Juma foi a primeira onça-pintada do RBV e também a primeira a ser exposta para os turistas no local. Ela era o animal mais fotografado e a maior celebridade do zoológico. Toda esta visibilidade foi importante para o trabalho de educação ambiental e a conservação da onça-pintada.

“Ela nos forneceu informação que era difícil se obter de onças como, por exemplo, amostras de sangue, e virou um ícone da relação entre o Parque Nacional do Iguaçu e a Itaipu”, afirmou Marina Xavier da Silva, coordenadora de campo do Projeto Carnívoros do Iguaçu. “Juma sempre foi muito comentada no nosso universo e teve grande contribuição para a consciência das pessoas”, completou.

Descanse em paz, Juma.

Segundo o último censo realizado pelo Projeto Carnívoros do Iguaçu, de 2014, a população de onças-pintadas é de 18 animais, no lado brasileiro do Parque Nacional do Iguaçu. Em todo o corredor verde, que abrange áreas na Argentina e no Brasil, até o Parque Estadual do Turvo, no Rio Grande do Sul, são estimados 80 animais.

Projeto Onçafari lança campanha de financiamento coletivo pela conservação da onça-pintada

Esperança, uma das onças-pintadas selecionadas pelo Projeto Onçafari para o processo de habituação – Foto: Diogo Lucatelli

Esperança, uma das onças-pintadas selecionadas pelo Projeto Onçafari para o processo de habituação – Foto: Diogo Lucatelli

O Projeto Onçafari começou uma campanha de financiamento coletivo (crowdfunding) para continuar a luta para salvar a onça-pintada com o ecoturismo. O projeto foi fundado em 2011 por Mario Haberfeld, ex-piloto de F1 e F Indy que resolveu se dedicar integralmente a conservação da vida selvagem. O objetivo é aumentar o interesse dos fazendeiros no turismo de observação de animais, atrair turistas interessados em ver o animal, gerar novas oportunidades de emprego para as pessoas da região, ajudar na conservação do felino e, consequentemente, de seu habitat.

Onça na árvore avistada pelo Projeto Onçafari - Foto: Projeto Onçafari

Onça-pintada avistada pelo Projeto Onçafari em uma árvore – Foto: Projeto Onçafari

Onça-pintada avistada pelo Projeto Onçafari - Foto: Projeto Onçafari

Onça-pintada avistada pelo Projeto Onçafari – Foto: Projeto Onçafari

Onça-pintada avistada pelo Projeto Onçafari - Foto: Projeto Onçafari

Onça-pintada avistada pelo Projeto Onçafari – Foto: Projeto Onçafari

História

No Pantanal, fazendeiros abatem as onças-pintadas para proteger seus rebanhos e, após décadas de perseguição e caça, o felino se tornou um dos animais mais difíceis de avistar na natureza. Para mudar essa história, o Projeto Onçafari começou a fazer a fazer a habituação das onças aos carros de passeio.

Uma técnica utilizada com leopardos e leões na África do Sul há 30 anos foi adaptada para a onça-pintada no Pantanal. Um animal selecionado é seguido por um rastreador, dia após dia, até que ele pare de considerar o carro como uma ameaça. O ideal é escolher uma fêmea. Quando ela tiver filhotes vai ensinar tudo para os pequenos. Assim, a habituação aos veículos será passada para a próxima geração. O processo não envolve métodos de domesticação (como o oferecimento de comida) e os felinos selecionados permanecem selvagens.

Mario Haberfeld colocando o colar com GPS em uma das onças do Projeto Onçafari- Foto: Divulgação

Mario Haberfeld colocando um colar com GPS para estudar o território de uma das onças-pintadas do Projeto Onçafari- Foto: Divulgação

Equipe do Projeto Onçafari - Foto: Projeto Onçafari

Equipe do Projeto Onçafari – Foto: Projeto Onçafari

O documentário Onça-pintada: mais perto do que se pode imaginar (veja o trailer abaixo) registrou todo o processo de habituação. A produção premiada no International Film Festival e escolhida para passar no Wildlife Conservation Film Festival 2015, é uma das recompensas da campanha de crowdfunding. A ideia é replicar o processo em outras partes do país. “Quanto mais pessoas usarem a ideia mais áreas estarão sendo preservadas” diz Haberfeld.

Para ajudar o Projeto Onçafari a preservar as onças-pintadas no Pantanal acesse o link da campanha: http://www.kickante.com.br/campanhas/oncafari-calendarios-que-salvam-animais-2

Leões africanos em perigo: população dos felinos caiu 42% nos últimos 21 anos

Leão (Panthera leo). São caçados em retaliação pela morte de pessoas e do gado na África. Seus ossos também podem ser vendidos para a fabricação de medicamentos. Eles entram como substitutos dos ossos de tigre que se tornam cada vez mais raros. Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): vulnerável - Foto: Fábio Paschoal

Leão (Panthera leo). São caçados em retaliação pela morte de pessoas e do gado na África. Seus ossos também podem ser vendidos para a fabricação de medicamentos. Eles entram como substitutos dos ossos de tigre que se tornam cada vez mais raros.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): vulnerável – Foto: Fábio Paschoal

O rei das savanas africanas está em apuros. A população de leões caiu 42% nos últimos 21 anos, segundo a última atualização da Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês).

A espécie continua na categoria vulnerável, principalmente porque esforços de conservação em Botsuana, Namíbia, África do Sul e Zimbábue resultaram em um aumento de 11% nas populações desses países. Porém, a maioria desses indivíduos vive em reservas fechadas que chegaram ao limite, e não conseguem abrigar mais leões.

O problema é maior em outras partes da África. Na maioria dos países a população de leões caiu 60%, em média. A pior situação é no oeste do continente, onde aproximadamente 400 leões restam em 17 nações, segundo estudo publicado no ano passado no periódico científico Plos One. Os felinos são classificados como criticamente ameaçados na região.

Os principais perigos são a perda de habitat, que faz as populações de leões e de suas presas diminuírem; e o crescimento da agricultura, responsável pelo aumento no número de conflitos entre felinos e humanos.

Os leões são os mais sociais de todos os felinos. Fêmeas da mesma família formam bandos, enquanto os machos se unem em coalizações para tentar conquistar um bando. Caçam de forma cooperativa e podem derrubar presas grandes, como girafas, búfalos, hipopótamos e até elefantes. Mas também se alimentam de animais de pequeno porte e, em situações de desespero, podem comer carniça. São caçados em retaliação pela morte de pessoas e do gado na África. Seus ossos também podem ser vendidos para a fabricação de medicamentos. Eles entram como substitutos dos ossos de tigre que se tornam cada vez mais raros - Foto: Fábio Paschoal

Os leões são os mais sociais de todos os felinos. Fêmeas da mesma família formam bandos, enquanto os machos se unem em coalizações para tentar conquistar um bando. Caçam de forma cooperativa e podem derrubar presas grandes, como girafas, búfalos, hipopótamos e até elefantes. Mas também se alimentam de animais de pequeno porte e, em situações de desespero, podem comer carniça – Foto: Fábio Paschoal

O tráfico internacional de ossos de leões também começa a crescer.  Eles começam a ser usados na medicina tradicional na Ásia (sem nenhuma comprovação científica) como substitutos para ossos de tigres que se tornam cada vez mais raros. Um dos problemas é que a Convenção sobre o Comércio de Espécies Ameaçadas (CITES) permite a exportação de leões e partes do felino, assim como o comércio sob determinadas autorizações.

Para a IUCN, as populações de leões que se encontram em áreas protegidas e vivem em importantes regiões de ecoturismo na África não devem sofrer alterações, pelo menos em um futuro próximo. No entanto, as populações que carecem de proteção devem continuar a diminuir e talvez desapareçam nos próximos anos.

Segundo a IUCN, muitas estratégias regionais de conservação foram estabelecidas e estão dando resultado. Porém, mais vontade política e financiamento são necessários para salvar leões em toda a África.

Map of Life: o aplicativo que mostra a biodiversidade que está próxima de você

Map of life: o aplicativo que coloca a biodiversidade do mundo na palma da sua mão - Foto: Divulgação

Map of Life: o aplicativo que coloca a biodiversidade do mundo na palma da sua mão – Foto: Divulgação

Não importa onde você esteja, o Map of Life (MOL), Mapa da Vida em tradução literal, pode dizer quais espécies de animais e plantas vivem próximas a você com base na localização do seu celular. Em vez de procurar por centenas de páginas em um guia impresso, naturalistas podem ter um guia de campo digital feito sob medida para a sua localização através de um aplicativo.

O MOL, projeto da Universidade de Yale em parceria com a Nasa, eBird, Google, entre outros, acabou de lançar um aplicativo que integra fontes diferentes de dados de distribuição das espécies pelo mundo. Mapas de área de distribuição, pontos de ocorrência e áreas de proteção são fornecidos pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês), WWF (Fundo Mundial para a Natureza, na sigla em inglês), GBIF (Sistema Global de Informação sobre a Biodiversidade, na sigla em inglês) entre outras instituições.

Ao acessar o aplicativo, você fornece sua localização e uma lista de espécies com área de ocorrência próxima ao lugar onde você se encontra aparece na tela do celular. Todos os dados são gerenciados, checados, armazenados e podem ser acessados via cloud hosting (sistema baseado na tecnologia de computação em nuvem que permite que um número ilimitado de máquinas funcionem como um sistema).

Com o aplicativo Map of Life, o usuário pode ajudar pesquisas científicas e projetos de conservação enviando o local onde avistou uma espécie. Este tucano-toco foi observado no Paltanal de Miranda - Foto: Fábio Paschoal

Com o aplicativo Map of Life, o usuário pode ajudar pesquisas científicas e projetos de conservação enviando o local onde avistou uma espécie. Este tucano-toco foi observado no Pantanal de Miranda – Foto: Fábio Paschoal

Fotos ajudam a identificar o animal ou planta e textos fornecem informações sobre as espécies. O usuário também pode criar listas pessoais de observação, contribuir com pesquisas científicas e projetos de conservação e ajudar a atualizar informações sobre a biodiversidade local.

“O aplicativo coloca uma parte significativa do nosso conhecimento global sobre a biodiversidade na palma da sua mão, e permite que você descubra e se conecte com a biodiversidade em um lugar, onde quer que esteja”, disse Walter Jetz, professor de ecologia e biologia evolutiva da Universidade de Yale e coordenador do MOL, em entrevista para o site YaleNews. Segundo Jetz, os guias de campo em forma de livros estão ultrapassados. O MOL é uma ferramenta que permite se conectar com a biodiversidade de uma forma mais eficiente e emocionante. “Esta vasta informação, personalizada para o lugar onde estamos, pode mudar a forma como identificamos e aprendemos sobre as coisas que vemos quando viajamos, caminhamos na mata, ou pisamos no nosso próprio quintal.”

O MOL está disponível em cinco idiomas (ainda não existe em português, mas as espécies da nossa fauna podem ser encontradas) para smartphones iPhone e Android. Para obter mais informações e baixar o aplicativo visite o site do Map of Life.

As borboleta do gênero Callicore apresentam um padrão gráfico na parte de baixo das asas que lembram números ou letras do alfabeto. Infelizmente, devido à sua beleza, essas borboletas são mortas para serem utilizadas na confecção de bijuterias - Foto: Fábio Paschoal

Invertebrados também são encontrados no aplicativo Map of Life. Essa borboleta do gênero Callicore foi avistada na Amazônia, próximo à Alta Floresta – Foto: Fábio Paschoal

Leões: caçadores solidários, predadores egoístas

Leão observando gazela - Foto: Fábio Paschoal

Leão observa gazela – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 13 da série África Selvagem: Em Busca da Grande Migração

10h da manhã. O sol é intenso e o calor insuportável no Serengeti. Os animais começam a se concentrar próximos aos últimos refúgios onde ainda é possível encontrar água. Esse recurso, tão necessário à vida, pode significar a morte para alguns que estão ali.

[Veja a introdução e o sumário da série África Selvagem: Em Busca da Grande Migração]

[Veja o capítulo 12 da série África Selvagem: Em Busca da Grande Migração]

Leoa observando gazela - Foto: Fábio Paschoal

Leoa observa gazela – Foto: Fábio Paschoal

Uma gazela dá os primeiros passos em direção à lagoa. Olha para um lado. Olha para o outro. Recua. A tensão é visível. A grama alta pode esconder predadores e ninguém quer ser o primeiro a virar presa.

A temperatura aumenta e, quando a sede vence o medo, a primeira gazela chega na beira do lago e dá o primeiro gole. Ela é seguida por algumas companheiras. Mas o tempo é curto e elas ficam pouco tempo por ali. A voz de nosso guia George interrompe o silêncio: “Tem um leão do outro lado da lagoa. Vamos até lá.”

O predador não estava sozinho. Uma fêmea observava a movimentação um pouco mais próxima da lagoa. Uma gazela pastava calmamente. Parecia se sentir segura em meio ao capim alto. Mas, quando cruzou a estrada os leões colocaram os olhos nela. A presa havia sido escolhida. Os felinos trocaram olhares e entraram em modo de caça. Olhos fixos na presa, orelhas abaixadas e andar cauteloso.

Leão se aproximando da presa - Foto: Fábio Paschoal

Leão se aproximando da presa – Foto: Fábio Paschoal

Leão partindo para o ataque - Foto: Fábio Paschoal

Leão partindo para o ataque – Foto: Fábio Paschoal

O macho vinha pela estrada, a fêmea seguia pelo outro flanco, escondendo-se no capim alto. Sem fazer barulho eles se aproximavam um pouco e paravam logo em seguida. De vez em quando levantavam a cabeça, lentamente, para checar a posição da presa e o lugar onde o parceiro estava.

Em certo momento a leoa abaixou. O leão começou a andar cada vez mais rápido, armou o bote e partiu em direção a presa. A gazela percebeu a aproximação do predador e disparou em direção à lagoa. Parecia que a tentativa havia falhado. Mas o leão havia cumprido o seu papel.

Leão correndo em direção da gazela - Foto: Fábio Paschoal

Leão correndo em direção da gazela – Foto: Fábio Paschoal

A gazela viu o leão e parecia que conseguiria escapar - Foto: Fábio Paschoal

A gazela (à direita, próxima ao lago) viu o leão e parecia que conseguiria escapar – Foto: Fábio Paschoal

Quando a gazela se aproximava da água, a leoa surgiu do meio da grama e saltou para agarrar a presa. Os três animais desapareceram na vegetação. Urros, grunhidos, rugidos. A leoa emerge com a presa na boca e o leão em seu encalço. Ela para, atrás de um pequeno monte, e ameaça o macho. A gazela era pequena demais para os dois. Derrotado, ele fez meia volta e desistiu.

O leão direcionou a gazela direto para as garras da leoa - Foto: Fábio Paschoal

O leão direcionou a gazela direto para as garras da leoa – Foto: Fábio Paschoal

Após agarrar a presa, a leoa tenta fugir do leão - Foto: Fábio Paschoal

Após agarrar a presa, a leoa tenta fugir do leão – Foto: Fábio Paschoal

A leoa afugentou o macho e comeu a refeição sozinha - Foto Fábio Paschoal

A leoa afugentou o macho e comeu a refeição sozinha – Foto Fábio Paschoal

Durante a caçada os leões cooperam com os outros membros do bando, mas na hora de comer é cada um por si.

Aquela manhã foi fantástica. Porém, nosso tempo estava se esgotando. Só havia mais um dia no Serengeti e a Grande Migração estava longe de nosso alcance. Naquela noite, George sentou conosco para discutir quais eram nossas opções. (Veja o capítulo 14 da série África Selvagem: Em Busca da Grande Migração)

Leopardo: o predador egoísta

A visão do alto das árvores é vital para o leopardo (Panthera pardus). Do topo, o felino consegue localizar presas e água, recursos essenciais para a sobrevivência. Ele também lava suas vítimas para as copas para não dividir o almoço com outros predadores - Foto: Fábio Paschoal

A visão do alto das árvores é vital para o leopardo (Panthera pardus). Do topo, o felino consegue localizar presas e água, recursos essenciais para a sobrevivência. Ele também leva suas vítimas para as copas para não dividir o almoço com outros predadores – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 10 da série África Selvagem: Em Busca da Grande Migração

Saímos do acampamento em direção a uma área com árvores. George, nosso guia, parava de vez em quando para observar as copas mais densas, lugares ideais para leopardos se esconderem. As horas estavam passando e não encontrávamos muita coisa. Foi quando vi uma algo no chão que parecia ser um animal grande. Não parecia muito promissor, mas pedi para George parar o carro.

[Veja a introdução e o sumário da série África Selvagem: Em Busca da Grande Migração]

[Veja o capítulo 9 da série África Selvagem: Em Busca da Grande Migração]

Peguei meu binóculo, mas antes de conseguir identificar o que estava ali, o bicho abaixou. A grama alta impossibilitava uma identificação. Permaneci com o binóculo na mesma posição, certo de que poderia ser um felino. A persistência valeu a pena. Após alguns minutos, uma cauda surgiu. Não restava a menor dúvida. Um leopardo estava ali!

Não havia como se aproximar porque nenhuma estrada chegava até o local.  Estávamos certos de que o predador não iria aparecer. Mas a sorte estava a nosso favor. Uma hiena passou com um pedaço de uma presa na boca. O leopardo se levantou e saiu para checar o que estava acontecendo. No entanto ele se dirigiu para mais longe e desapareceu na planície infinita. “Ele vai voltar.” Disse George em tom profético. “Tem uma gazela-de-thompson que pertence ao leopardo naquela árvore. Ele vai voltar.”

Hienas (Crocuta crocuta) competem por comida com leões, guepardos e leopardos. As vezes roubam a presa, ou parte dela, de algum rival - Foto: Fábio Paschoal

Leopardos competem com grupos de hienas e leões por comida. Como são felinos solitários, na maioria das vezes perdem o conflito e, em casos extremos, até a própria vida – Foto: Fábio Paschoal

Quando estão no alto, os leopardos não precisam se preocupar com os outros predadores. Este aqui tirava uma soneca após uma refeição. Uma gazela-de-thompson (acima à direita) - Foto: Fábio Paschoal

Quando estão no alto, os leopardos não precisam se preocupar com outros predadores. Este aqui tirava uma soneca após a refeição: uma gazela-de-thomson (acima à direita) – Foto: Fábio Paschoal

George estava certo. Não demorou muito e o capim alto começou a remexer. O leopardo estava de volta! Parou na base da árvore. Olhou para um lado, olhou para o outro e subiu para tomar seu café da manhã. “O leopardo é conhecido como predador egoísta.” Disse George. “Quando pega uma presa, sobe com ela em uma árvore para não dividir com ninguém.”

Jovens leopardos, com este aqui, exploram o ambiente brincando - Foto: Fábio Paschoal

Jovens leopardos, com este aqui, exploram o ambiente brincando – Foto: Fábio Paschoal

É possível chegar bem próximo aos predadores no Serengeti. Os animais agem como se os turistas não estivessem ali - Foto: Fábio Paschoal

É possível chegar bem próximo aos predadores no Serengeti. Os animais agem como se os turistas não estivessem ali – Foto: Fábio Paschoal

Durante nossa estada no Serengeti tivemos cinco encontros com leopardos. Em algumas ocasiões conseguimos chegar bem próximo dos felinos. São predadores formidáveis. (Veja o capítulo 11 da série África Selvagem: Em Busca da Grande Migração)

Os leopardos aproveitam a grama alta do Serengeti para se aproximarem das presas - Foto: Fábio Paschoal

Os leopardos aproveitam a grama alta do Serengeti para se aproximarem das presas – Foto: Fábio Paschoal

Um dos animais mais furtivos da África, o leopardo anda em seu habitat como um fantasma. Sua população é maior que o dobro das populações de leões e guepardos juntas. No entanto, é muito mais difícil ver um leopardo em um safári do que qualquer outro grande felino - Foto: Fábio Paschoal

Um dos animais mais furtivos da África, o leopardo anda em seu habitat como um fantasma. Sua população é maior que o dobro das populações de leões e guepardos juntas. No entanto, é muito mais difícil ver um leopardo em um safári do que qualquer outro grande felino – Foto: Fábio Paschoal

A conversão do habitat do leopardo em plantações e pasto, a retaliação de fazendeiros que querem proteger seus rebanhos e a competição com humanos por presas fazem com que a população da espécie siga diminuindo. A espécie é considerada quase ameaçada pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) - Foto: Fábio Paschoal

A conversão do habitat do leopardo em plantações e pasto, a retaliação de fazendeiros que querem proteger seus rebanhos e a competição com humanos por presas fazem com que a população da espécie siga diminuindo. O felino é considerado quase ameaçado de extinção pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Fábio Paschoal

Guepardo: o felino especialista em velocidade

Guepardo (Acinonyx jubatus), o mamífero terrestre mais rápido do planeta - Foto: Fábio Paschoal

Guepardo (Acinonyx jubatus), o mamífero terrestre mais rápido do planeta – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 9 da série África Selvagem: Em Busca da Grande Migração

Havíamos chegado ao sul do Serengeti após a passagem das chuvas. A grama estava alta e seca. Durante esse período fica mais difícil de encontrar predadores, que conseguem se esconder das presas e, consequentemente, dos turistas.

[Veja a introdução e o sumário da série África Selvagem: Em Busca da Grande Migração]

[Veja o capítulo 8 da série África Selvagem: Em Busca da Grande Migração]

O guepardo é um felino que caça durante o dia, o que evita competição com outros felinos. Ele sobe em terrenos mais elevados e montes de cupins para localizar presas em potencial - Foto: Fábio Paschoal

O guepardo caça durante o dia, o que evita competição com outros felinos. Ele sobe em terrenos mais elevados e montes de cupins para localizar presas em potencial – Foto: Fábio Paschoal

Nosso guia George dirigia rapidamente. Precisávamos chegar ao acampamento antes do anoitecer e não era possível ficar parando muito porque o sol baixava cada vez mais rápido. De vez em quando parávamos para checar montes de cupins e afloramentos rochosos (lugares onde predadores sobem para acharem possíveis presas). Em uma dessas paradas George avistou um carro e decidiu investigar. As pessoas estavam animadas e tentavam ver algo no topo de uma pequena elevação do terreno.

De repente, um guepardo surge do meio da vegetação e começa a correr morro abaixo. Quando chegou à base ele parou e começou a miar. Então, uma pequena bola de pelo começou a descer a ladeira e parou ao lado do felino. Mãe e filhote estavam reunidos novamente. Eles tentavam achar um lugar para passar a noite.

Durante o primeiro ano de vida o filhote aprende técnicas de caça em brincadeiras com a mãe - Foto: Fábio Paschoal

Durante o primeiro ano de vida o filhote aprende técnicas de caça em brincadeiras com a mãe – Foto: Fábio Paschoal

O guepardo é o mamífero terrestre mais veloz do planeta. Pode atingir até 110 quilômetros por hora e consegue perseguir e capturar gazelas como nenhum outro predador. Durante a evolução, o felino sofreu modificações para ficar cada vez mais rápido e se tornou um especialista em velocidade. Possui uma grande caixa torácica, coluna extremamente flexível e pernas longas. As garras não são retráteis e ajudam na tração enquanto a longa cauda serve para dar estabilidade nas curvas.

O filhote de guepardo permanece com a mãe por até 2 anos - Foto: Fábio Paschoal

O filhote de guepardo permanece com a mãe por até 2 anos – Foto: Fábio Paschoal

No entanto, essa especialização traz desvantagens na hora de proteger o alimento e os filhotes. Frequentemente as presas caçadas por guepardos são roubadas por predadores maiores e, em algumas áreas da África, a mortalidade de filhotes chega a 95%. A maioria das perdas é causada por leões.

O futuro dos guepardos depende de mães dedicadas como a que encontramos no Serengeti. Se ela conseguir criar seu filhote até ele se tornar independente será uma vitória para a espécie.

A mãe guepardo deve ficar sempre atenta. Outros felinos podem matar o filhote - Foto: Fábio Paschoal

A mãe guepardo deve ficar sempre atenta. Outros felinos podem matar o filhote. A espécie é considerada vulnerável pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Fábio Paschoal

Ficamos com os dois até o último momento. Mas estava escurecendo e precisávamos chegar ao acampamento. (Veja o capítulo 10 da série África Selvagem: Em Busca da Grande Migração)