Projeto Onçafari: no rastro da onça-pintada

Fantasma é o macho dominante no Refúgio Ecológico Caiman, pousada no Pantanal onde o Projeto Onçafari está realizando o processo de habituação das onças-pintadas (Panthera onca) aos carros de passeio - Foto: Lawrence Weitz

Onça-pintada no Refúgio Ecológico Caiman, Pantanal, onde o Projeto Onçafari faz a habituação dos felinos aos carros de passeio – Foto: Lawrence Weitz

Capítulo 14 da série Pantanal: Terra das Águas

O carro segue em alta velocidade. Nosso guia, Nego, vai no capô, olhando os rastros do animal enquanto indica o caminho que o motorista deve seguir. Os galhos passam rapidamente, próximos à nossas cabeças, e é preciso ser rápido para desviar de todos eles. O objetivo do safári é encontrar o maior felino das Américas. O veículo para em frente a uma lagoa. Nego faz sinal para todos permanecerem em silêncio. “Ela está aqui”. Uma movimentação nos arbustos anuncia a entrada de uma onça-pintada na clareira. Ela para em frente ao nosso carro, olha no olho de cada um e entra na água para matar a sede. Fica conosco por alguns minutos antes de desaparecer entre as árvores novamente.

Essa é uma das experiências mais marcantes da minha carreira de guia no Pantanal. É um desses momentos mágicos, que ficam guardados na memória e voltam à nossa mente de tempos em tempos para nos fazer sorrir. No entanto, fazendeiros abatem os felinos para proteger seus rebanhos e, após décadas de perseguição e caça, a onça se tornou um dos animais mais difíceis de avistar na natureza.

Esperança, uma das onças-pintadas selecionadas pelo Projeto Onçafari para o processo de habituação – Foto: Diogo Lucatelli

Esperança, uma das onças-pintadas selecionadas pelo Projeto Onçafari para o processo de habituação – Foto: Diogo Lucatelli

Para mudar essa história Mario Haberfeld fundou o Projeto Onçafari em 2011. A ideia é fazer a habituação das onças aos carros de passeio para que elas se comportem da mesma maneira que os felinos da África. O objetivo é atrair mais turistas, aumentar o interesse dos fazendeiros no turismo de observação de animais, gerar novas oportunidades de emprego para as pessoas da região, ajudar na conservação do felino, consequentemente, de seu habitat. “É necessário agregar valor à onça para que ela valha mais viva do que morta.” Afirma.

Uma técnica utilizada com leopardos e leões na África do Sul há 30 anos está sendo adaptada para a onça-pintada no Pantanal. Um animal selecionado é seguido por um rastreador, dia após dia, até que ele pare de considerar o carro como uma ameaça. O ideal é escolher uma fêmea. Quando ela tiver filhotes vai ensinar tudo para os pequenos. Assim, a habituação aos veículos será passada para a próxima geração. O processo não envolve métodos de domesticação (como o oferecimento de comida) e os felinos selecionados permanecem selvagens.

Carro do Projeto Onçafari usado para o processo de habituação das onças-pintadas – Foto: Adam Bannister

Haberfeld trouxe rastreadores da Tracker Academy da África do Sul com a missão de treinar a equipe do projeto na arte de rastrear animais selvagens para facilitar o encontro com o felino. Para Diogo Lucatelli, biólogo e rastreador do Projeto Onçafari, “Conhecer e perceber o ambiente – e o comportamento e as características dos vestígios do animal que será seu alvo – é fundamental”. As onças se movimentam em campos de gramíneas e matas densas com solo coberto por folhas secas, terrenos que dificultam a formação de pegadas. O rastreador pode perder o rastro. Para reencontrá-lo é preciso analisar o local, interpretar os sinais e se colocar na posição do animal que se está rastreando.

Disney Sousa (mais conhecido como Nego), rastreador do Projeto Onçafari (centro) em treinamento com os rastreadores da Tracker Academy da África do Sul – Foto: Projeto Onçafari

Diogo Lucatelli (direita) ensinando a rastrear onças - Foto: Disney Souza

Diogo Lucatelli (direita) ensinando a rastrear onças – Foto: Disney Souza

Todo o processo está sendo realizado no Refúgio Ecológico Caiman (REC), do empresário Roberto Klabin (fundador e presidente da SOS Mata Atlântica e da SOS Pantanal). Câmeras foram instaladas nas árvores para identificar as onças que habitam a fazenda e algumas fêmeas foram capturadas para a instalação de um colar com GPS, para a determinação do território de cada indivíduo. Os animais selecionados para a habituação têm o território dentro do REC. Essa é uma condição essencial, já que a caça – apesar de ilegal – ainda acontece no Pantanal. Fazer a habituação de um felino que pode entrar em outras fazendas seria um risco para o animal. Ele poderia se aproximar dos caçadores e seria um alvo fácil. Tudo está sendo acompanhado pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e pelo Cenap (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos e Carnívoros).

Mario Haberfeld colocando o colar com GPS em uma das onças do Projeto Onçafari- Foto: Divulgação

O objetivo do Projeto Onçafari é fazer com que as onças-pintadas fiquem tranquilas ao encontrar com um carro cheio de turistas – Foto: Projeto Onçafari

Segundo Lucatelli o número de encontros com a onça-pintada aumentou após o começo do projeto. Isso pode alavancar o ecoturismo no Pantanal, gerar novos empregos para os moradores locais, criar mais áreas de proteção para os animais e tornar a observação de fauna em uma atividade rentável que pode ser conciliada com a pecuária extensiva. “Quando se tem uma equipe em campo, que estuda continuamente a vida das onças, particularmente dos indivíduos que residem aqui [no REC], e constrói um relacionamento com elas – dando-lhes nomes e especializando-se cada vez mais em encontrá-las – as possibilidades são enormes”.

Para mim, que comecei a guiar na Caiman antes da existência do Onçafari, a diferença do antes e depois é gritante (no vídeo abaixo falo mais sobre isso). Não só o número de avistamento aumentou, mas a qualidade também cresceu muito. Antes nós comemorávamos quando uma onça passava na frente do caminhão. Hoje nós estamos descobrindo novos comportamentos, conhecendo a personalidade de cada felino e escolhendo nossas onças preferidas. É fantástico!

O documentário Onça-pintada: mais perto do que se pode imaginar (veja o trailer abaixo) registrou todo o processo de habituação e foi lançado em 2014. A ideia é replicar o processo em outras partes do país. “Quanto mais pessoas usarem a ideia mais áreas estarão sendo preservadas” diz Haberfeld.

Veja o capítulo 15 da série Pantanal: Terra das Águas

O Onçafari é um projeto sem fins lucrativos. Para fazer uma doação e ajudar a preservar o Pantanal e a onça-pintada acesse http://projetooncafari.com.br/pt-BR/envolva-se/ajude

Blog: https://projetooncafari.wordpress.com/

Canal no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=s9KZlj_JjMc

Facebook: https://www.facebook.com/Projetooncafari

Sites: http://projetooncafari.com.br/pt-BR/ ou http://www.wconservation.com/Salvar

Salvar

Advertisements

Kruger: como se comportar em encontros com leões

Leões caçam de forma cooperativa e podem derrubar presas grandes, como girafas, búfalos, hipopótamos e até elefantes. Infelizmente, são caçados em retaliação pela morte de pessoas e do gado na África. Seus ossos também podem ser vendidos para a fabricação de medicamentos. Eles entram como substitutos dos ossos de tigre que se tornam cada vez mais raros.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): vulnerável – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 17 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Leão! Leão! Leão!” Walter, nosso guia, parou o caminhão e apontou para o leito do rio Sabi, que estava quase seco. Dois leões adultos descansavam na areia! O barulho dos cliques das câmeras fotográficas era contínuo e os celulares filmavam cada movimento dos felinos. Mas a verdade é que eles estavam muito longe para sair alguma coisa boa. De repente, o caminhão começou a se mover e os turistas começaram a gritar: “Para! Para! Para!” Walter respondeu: “Calma. vocês vão ver esses bichos de novo. Eles vão sair na estrada” (Veja o vídeo no final do post).

[Veja a introdução e o sumário da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

[Veja o capítulo 16 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

Leões descansam em praia areia no leito do rio Sabi, no Kruger, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

O guia posicionou o veículo em um local em que nossa visão ficou bloqueada e não era possível ver os animais. “Preparem as câmeras. Eles vão chegar por ali”, e apontou para o lado direito do caminhão. Os turistas estavam meio irritados. Preferiam ter ficado tirando fotos do local em que estávamos anteriormente. Mas as expressões mudaram quando os leões apareceram onde Walter previu que eles iriam aparecer, passaram do lado do caminhão e começaram a andar na estrada.

Estávamos próximos à Lower Sabi, e a hora do fechamento dos portões estava chegando. Nesse momento a estrada é tomada de carros voltando para o acampamento. Todos começaram a seguir os felinos. Os motoristas passavam os bichos, paravam logo em frente para tirar fotos, e não davam espaço para os leões.

Leão ao lado do caminhão de safári, no Kruger, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Leões na H4-1, estrada próxima à entrada de Lower Sabi camp, Kruger National Park, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Walter não teve dúvida, saiu da estrada, passou todos que estavam se aproximando demais dos leões, fechou todos os carros, deixou os animais andando na estrada tranquilamente e disse: “Vocês precisam respeitar os leões! Estão chegando muito perto e não estão dando passagem para eles. Assim eles vão se estressar e sair da estrada. Se querem tirar fotos, deixem uma abertura para eles passarem. Vocês precisam respeitá-los.”

Então, nosso guia saiu da estrada, deixou os carros passarem e voltou para o lugar em que estávamos na fila. Os leões ganharam espaço e continuaram na estrada. O relógio estava quase batendo 18h30 quando os carros de turistas começaram a sair para entrar em Lower Sabi antes do fechamento dos portões. Ficamos com os leões só para nós!

Leões demarcam o território com urina para avisar visitantes indesejados que essa parte da savana já tem dono – Foto: Fábio Paschoal

Leões saem da estrada no Kruger, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Walter posicionou o caminhão à frente e esperamos enquanto os felinos vinham em nossa direção. Nessa hora, o coração bate mais forte, os olhos se enchem de lágrimas e você entende que algo mágico está acontecendo. É como se a savana parasse, só para vê-los passar. Que sensação fantástica!

Vimos quando eles urinaram nas árvores para demarcar território, quando abriram a boca para bocejar, quando passaram tão próximo ao caminhão que tive que puxar a Vanessa para ficarmos escondidos atrás da caçamba e vimos quando eles saíram da estrada para seguir outro caminho. Foi um desses momentos inexplicáveis, que ficam guardados na memória e voltam à nossa mente de tempos em tempos para nos fazer sorrir.

Veja o capítulo 18 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Veja o Roteiro: 20 dias na África do Sul de carro

DICAS

  • A vida selvagem sempre tem prioridade: Procure não fazer nada que estresse os animais. Se eles se sentirem confortáveis com o carro de passeio, vão fazer suas atividades normalmente. Podem até passar a centímetros de você.
  • Nunca levante quando os leões se aproximarem do carro de safári: Os animais vêm o carro e as pessoas como uma única coisa. Quando você se levanta eles enxergam a forma humana e podem atacar. O mesmo vale para leopardos.

H1-2/H4-1: a rota com maior concentração de leopardos do Kruger

Leopardo/ Leopard (Panthera pardus )  Um dos animais mais furtivos da África, o leopardo anda em seu habitat como um fantasma. Sua população é maior que o dobro das populações de leões e guepardos juntas. No entanto, é muito mais difícil ver um leopardo em um safári do que qualquer outro grande felino – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 8 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Camuflado, com garras afiadas e reflexos apurados. Move-se com cautela. Calcula cada passo. Mesmo no chão repleto de folhas secas nenhum barulho é perceptível. Ele está lá, mas é praticamente impossível avistá-lo. Anda pelo ambiente como se fosse um fantasma e, quando menos se espera, parte para o ataque. O leopardo é um especialista na arte da caça e fará qualquer coisa para matar sua presa.

[Veja a introdução e o sumário da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

[Veja o capítulo 7 da série Kruger: guia prático para organizar eu primeiro safári na África do Sul]

Um dos bichos que a Vanessa mais queria ver era o leopardo. Sabíamos que nossa melhor chance de encontrar o felino era no começo da manhã. Por isso, saímos assim que os portões do acampamento se abriram, às 4h30. O objetivo era fazer o triângulo formado pelas estradas H1-2, H12 e H4-1: a rota com maior concentração de leopardos do Kruger, segundo o guia Kruger Park – Map & Guide.

Não havia nem sinal do sol no horizonte quando comecei a dirigir. Fomos bem devagar olhando em cada arbusto, atento para qualquer movimento fora do comum. Como tudo estava tranquilo, paramos para ver algumas aves.

Abelharuco-carmim/ Carmine bee eater (Merops nubicoides). Persegue insetos e os apanha em pleno voo. As abelhas estão entre as principais presas. A ave agarra os insetos com o bico, pousa em um galho e começa a bater até que o ferrão se desprenda. Após se certificar que o veneno não entrará em sua corrente sanguínea, ele faz o seu almoço – Foto: Fábio Paschoal

Foi quando um carro passou por nós e parou mais à frente. No Kruger, a maioria dos turistas está em busca dos Big 7 e não se interessa por observação de aves. Olhei para Vanessa e não foi preciso dizer nada. Engatei a primeira e acelerei! Eles estavam vendo alguma coisa e nós não queríamos perder a oportunidade.

Antes mesmo de parar, vi a silhueta de um felino andando atrás da grama alta: “Leopardo! Leopardo! Leopardo!” posicionei o carro para ficar de frente para uma abertura no mato, pegamos os binóculos e esperamos. A adrenalina correndo nas veias, o coração batendo mais forte. Era uma emoção muito grande! Será que ele iria pro aberto?

Rota H1-2/ H4-1 em azul. A seta verde indica o local onde vimos o leopardo (clique no mapa para ampliar)

E ele apareceu, exibindo suas rosetas pretas e a pelagem amarela. Andou  pela abertura e desapareceu sem deixar rastro. Foi um momento tão breve, mas uma sensação tão intensa. É inexplicável. Você só consegue entender esse sentimento quando observa um animal selvagem na natureza. Que experiência fantástica!

Nessa rota ainda vimos cachorros-selvagens-africanos tentando caçar impalas, hiena, elefantes e muitos abelharucos (carmim, europeu e de testa branca).

Abelharuco-de-testa-branca/White fronted bee eater (Merops bullockoides), no Kruger, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Ainda era cedo quando terminamos a rota. Decidimos pegar outra estrada e continuar o safári da manhã.

Veja o capítulo 9 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Veja o Roteiro: 20 dias na África do Sul de carro

Para saber mais sobre leopardos acesse os posts:

DICAS

  • Faça a rota H1-2/H4-1: Como é um caminho curto pode ser feita tanto de manhã quanto à à tarde
  • Ande devagar para procurar bichos: Não se apresse, dirija com calma olhando para os dois lados. A chance de ver um leopardo é grande por aqui
  • Desconfie de carros parados: a maioria dos turistas só quer saber dos Big 7 do Kruger (leopardo, leão, rinoceronte, elefante, búfalo, guepardo e cachorro-selvagem) e de outros grandes mamíferos. Se estiver observando algum bicho que não é tão difícil de encontrar, não pense duas vezes: chegue próximo do carro para checar o que o pessoal está vendo.

Expondo as selfies com tigres: relatório revela crueldade com os felinos usados na indústria do entretenimento

Encontrados em grande parte da Ásia, os tigres são os maiores felinos do mundo. Habitavam lugares tão diversificados (florestas tropicais, pântanos e savanas) que acabaram evoluindo em populações regionais com padrões e tamanhos distintos, a ponto de serem classificadas em subespécies diferentes. Hoje, a maioria está extinta. A perda de habitat, a caça de suas presas e o mercado negro chinês – que vende partes do corpo do felino para fazer remédios – estão dizimando um dos predadores mais formidáveis - Foto: iStock/Thinkstock

Encontrados em grande parte da Ásia, os tigres são os maiores felinos do mundo. Habitavam lugares tão diversificados (florestas tropicais, pântanos e savanas) que acabaram evoluindo em populações regionais com padrões e tamanhos distintos, a ponto de serem classificadas em subespécies diferentes. Hoje, a maioria está extinta. A perda de habitat, a caça de suas presas e o mercado negro chinês – que vende partes do corpo do felino para fazer remédios – estão dizimando um dos predadores mais formidáveis – Foto: iStock/Thinkstock

Tigres mantidos em cativeiro são vítimas de um turismo irresponsável. Esses felinos ameaçados de extinção são criados e usados para entreter viajantes e alavancar os lucros de estabelecimentos que oferecem atrações com a vida silvestre, agências de viagens, e até o tráfico de animais. É o que revela o relatório Expondo as selfies com tigres: um retrato da indústria do entretenimento com tigres na Tailândia, elaborado pela World Animal Protection (WAP).

Entre março de 2015 e junho de 2016, pesquisadores da ONG visitaram anonimamente 17 das maiores atrações com tigres na Tailândia. Eles descobriram que, dos 1500 tigres em cativeiro, 830 são utilizados na indústria do entretenimento (um aumento de 33% nos últimos cinco anos) e que 88% desses felinos vivem em condições miseráveis.

[Veja o post: A morte do leão Cecil inicia o debate: a caça esportiva pode ajudar na conservação?]

[Veja o post: Lóris: o único primata venenoso do mundo está ameaçado. Pelo tráfico de animais e por vídeos no YouTube]

Filhote de tigre em cativeiro no Sri Racha Tiger Zoo, Tailândia – Foto: World Animal Protection

Segundo o relatório, 13 dos estabelecimentos permitiam que turistas se aproximassem para tirar selfies, 12 estabelecimentos incentivavam os visitantes a tirar selfies com filhotes de tigres separados de suas mães no início de suas vidas, 3 atrações permitiam a alimentação de tigres adultos, 2 zoológicos ofereciam apresentações do tipo circense e todos os 17 pontos turísticos visitados ofereciam atividades que exigiam que os tigres agissem contra o instinto natural (saltando aros em chamas, por exemplo), causando angústia e estresse nos animais.

Os principais problemas encontrados nos estabelecimentos visitados foram:

  • Separação dos filhotes de suas mães, duas a três semanas após o nascimento. Os pequenos passam a ser alimentados por mamadeiras oferecidas por turistas. É provável que a separação prematura sirva a um segundo propósito: permitir que os estabelecimentos obtenham ninhadas com maior frequência;
  • Apresentação de filhotes, vistos e manuseados de forma incorreta centenas de vezes ao dia por turistas e funcionários, o que pode levar ao estresse e lesões;
  • Punição por meio da dor e do medo, para impedir comportamentos indesejados ou agressivos. A fome também é usada com a mesma finalidade;
  • Recintos impróprios, como jaulas de concreto pequenas ou locais áridos, com acesso limitado à água potável. 50% dos tigres observados estavam em gaiolas com menos de 20m² por animal, metragem muito distante dos 16 a 32 quilômetros que eles costumam caminhar em uma única noite na natureza;
  • 12% dos tigres observados mostraram problemas de comportamento, tais como andar de um lado para o outro repetitivamente ou morder a própria cauda. Estes comportamentos ocorrem frequentemente quando os animais estão em ambientes ou situações estressantes e nunca foram registrados em animais vivendo na natureza.

Tigres mantidos em cativeiro são acorrentados para que turistas possam posar em fotos com eles no Phuket Zoo, Tailândia – Foto: World Animal Protection

Turistas posam para fotos com tigres criados em cativeiro em Million Stone Park, na Tailândia – Foto: World Animal Protection

Outro grave problema é a possível associação da indústrias de entretenimento com o tráfico de animais. Oficiais do governo da Tailândia encontraram peles, amuletos feitos com os ossos e dentes de tigres, além de 70 filhotes mortos em potes e congeladores no Tiger Temple, um dos estabelecimentos visitados pela WAP. O estabelecimento também fracassou em prestar contas sobre o desaparecimento de três tigres registrados pelo governo. Em junho de 2016, todos os 147 tigres do Tiger Temple foram apreendidos pelas autoridades tailandesas e o estabelecimento está sendo acusado de ter ligações com o tráfico de partes do corpo de tigres.

Por enquanto, não há provas de que os outros estabelecimentos citados no relatório estejam envolvidos com o comércio ilegal de tigres ou de suas partes. Mas a pesquisa mostra que há discrepâncias significativas entre o número de tigres declarados por alguns estabelecimentos e os observados no local. O que levanta sérias preocupações, especialmente sobre a criação acelerada de tigres em cativeiro, uma prática aparentemente comum e sem benefício à preservação da espécie.

Turistas visitam tigres mantidos em cativeiro no Tiger Temple, Tailândia – Foto: World Animal Protection

“O crescimento do número tigres em cativeiro na Tailândia é muito preocupante. É preciso que os turistas saibam que se podem tirar foto ou estar perto de animais como esses, há algo errado”, afirma Roberto Vieto, Gerente de Vida Silvestre da WAP.

Para cessar a demanda e, consequentemente, a oferta de atividades irresponsáveis de turismo com animais, a WAP criou a campanha internacional Silvestres. Não entretenimento. Os objetivos são:

  • Estimular os governos em todo o mundo a investigarem locais de entretenimento com tigres e fechar aqueles que mostram evidência de comércio ilegal, crueldade ou negligência;
  • Parar a venda e a promoção de locais de entretenimento que maltratam animais selvagens por agências de viagens (principalmente a Trip Advisor) ;
  • Alertar viajantes para que deixem de frequentar locais de entretenimento turístico que permitam a interação direta entre pessoas e animais, como abraços e selfies com tigres.

Consigo sentir a tristeza nos olhos de animais enjaulados. Já visitei o Pantanal, a Amazônia, a África e Galápagos, e posso afirmar que a experiência de ver animais selvagens em seu habitat natural é muito mais enriquecedora do que tirar uma foto abraçada com um bicho em cativeiro. Muito mais triste é saber que essa prática pode servir para alimentar o tráfico de animais. Por isso, fico com as esperanças renovadas ao ver que mais de 400 mil pessoas assinaram a petição da WAP e mais de 100 agências de viagens se comprometeram a parar de vender e promover atrações que utilizem animais silvestres.

Para saber mais acesse o site da campanha: http://www.worldanimalprotection.org.br/silvestres-nao-entretenimento

– Foto: World Animal Protection

– Foto: World Animal Protection

– Foto: World Animal Protection

– Foto: World Animal Protection

Salvar

Projeto Iauaretê: a luta para salvar as onças-pintadas das árvores da Amazônia

 Onça-pintada (Panthera onca) A onça-pintada é o maior felino das Américas. A perda e fragmentação de habitat associadas principalmente à expansão agrícola, mineração, implantação de hidrelétricas, ampliação da malha viária e a eliminação de indivíduos por caça ou retaliação por predação de animais domésticos são as principais ameaças enfrentadas pelo felino Status na Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção: espécie vulnerável

A onça-pintada (Panthera onca) é o maior felino das Américas. A perda e fragmentação do habitat associadas à expansão agrícola, mineração, implantação de hidrelétricas, ampliação da malha viária e a eliminação de indivíduos por caça ou retaliação por predação de animais domésticos são as principais ameaças enfrentadas pelo felino.
Status na Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção: espécie vulnerável – Foto: Emiliano Ramalho

Na Amazônia, durante o período da cheia, a onça-pintada deixa o solo e passa a viver na copa das árvores. Com incrível flexibilidade ecológica, o felino muda o comportamento para continuar em seu território, mesmo quando a água inunda a várzea da maior floresta tropical do mundo. Essa é uma das conclusões de uma pesquisa realizada pelo Projeto Iauaretê, do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

O estudo é realizado desde 2008 na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, a primeira reserva de desenvolvimento sustentável do Brasil, criada em 1996 a partir do sonho do primatólogo José Márcio Ayres de preservar o macaco uacari-branco. A área com mais de 1 milhão de hectares tem a função de proteger o ambiente de várzea amazônico, produzir ciência de qualidade e envolver as comunidades ribeirinhas locais na conservação do meio ambiente. “O que a gente tem observado é que temos, na Reserva Mamirauá, uma das mais altas densidades de onças encontrada no mundo. A gente estima mais de dez onças a cada 100 km².  E o que isso mostra é o potencial que as várzeas têm”, comentou o pesquisador Emiliano Ramalho, líder do GP Felinos, do Instituto Mamirauá.

Para Emiliano, a explicação para essa grande concentração de onças-pintadas se deve a grande quantidade de alimento disponível. Apesar de animais terrestres que são presas comuns do felino não serem encontrados com frequência, a densidade de preguiças e jacarés é altíssima. Esses duas espécies constituem a base da alimentação das onças-pintadas em Mamirauá. Segundo o pesquisador, existem cerca de 1000 onças-pintadas dentro da reserva.

A concentração de onças-pintadas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na Amazônia, é uma das maiores do mundo - Foto: Emiliano Ramalho

A concentração de onças-pintadas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na Amazônia, é uma das maiores do mundo – Foto: Emiliano Ramalho

A onça-preta e a onça-pintada são animais da mesma espécie. Indivíduos melânicos são mais comuns em florestas densas, como a Amazônia. Eles têm uma alta quantidade de melanina na pele e nos pelos - Foto: Projeto Iauaretê/Instituto Mamirauá

A onça-preta e a onça-pintada são animais da mesma espécie (Panthera onca). Indivíduos melânicos são mais comuns em florestas densas, como a Amazônia. Eles têm uma alta quantidade de melanina na pele e nos pelos – Foto: Projeto Iauaretê/Instituto Mamirauá

Como se movimentam as onças-pintadas da várzea Amazônica? Como a variação do nível da água, ao longo do ano, interfere na movimentação desses animais? Para responder a essas perguntas, os felinos recebem colares de GPS que armazenam e enviam informações da localização de cada animal para os pesquisadores via satélite. O colar também tem um sistema transmissor VHF, que emite uma frequência de rádio que é utilizada quando os pesquisadores querem encontrar o animal na floresta.

Durante os meses de janeiro e março a equipe do projeto capturou e instalou colares em duas onças: Django, uma onça-preta e Fofa, que está grávida. Para Louise Maranhão, veterinária no Instituto Mamirauá, a gestação é um indicativo de que o ambiente é viável para a sobrevivência e para a reprodução da espécie. “O animal está bem, possui alimentação no ambiente e está se reproduzido bem. Demonstra que esse é um ambiente que está favorável para sua manutenção.” Com esses dois animais, o projeto monitora atualmente cinco onças-pintadas na região.

As onças-pintadas são anestesiadas e têm os sinais vitais monitorados durante todo o processo de captura. Os animais são pesados, medidos e fotografados. Amostras biológicas são coletadas para análise genética e de parasitas em laboratório. Tudo é por acompanhado por um médico veterinário - Foto: Amanda Lelis

As onças-pintadas são anestesiadas e têm os sinais vitais monitorados durante todo o processo de captura. Os animais são pesados, medidos e fotografados. Amostras biológicas são coletadas para análise genética e de parasitas em laboratório. Tudo é por acompanhado por um médico veterinário – Foto: Amanda Lelis

As onças são liberadas com os colares GPS, que possuem um sistema que permite que se desarmem sozinhos quando a bateria acaba, possibilitando que sejam encontrados e reutilizados posteriormente. A acompanhamento pode durar até dois anos - Foto: Amanda Lelis

As onças são liberadas com os colares GPS, que possuem um sistema que permite que se desarmem sozinhos quando a bateria acaba, possibilitando que sejam encontrados e reutilizados posteriormente. O acompanhamento pode durar até dois anos – Foto: Amanda Lelis

A pesquisa também analisa as fezes das onças para determinar as principais presas dos felinos dentro de Mamirauá. “A preguiça sempre é o prato principal das onças ao longo do ano todo. O que muda no período da cheia é que as onças não têm acesso aos jacarés, que estão dispersos na água, na floresta. Então ela complementa isso com outros animais que vivem em cima da árvore: macacos guariba, outros macacos e o tamanduá-mirim”, diz Emiliano.

As informações coletadas pelo Projeto Iauaretê servem de base para a manutenção do programa de turismo de observação de onças-pintadas, realizado somente durante o período da cheia (final de abril até meados de junho) e mantido em parceria com a Pousada Uacari. Parte da renda arrecada vai para as comunidades locais e permite a continuidade da pesquisa científica. Segundo Emiliano, é importante provar que a onça pode trazer benefícios financeiros para as pessoas que trabalham na região. “As onças, hoje, têm um valor negativo por parte das comunidades. Porque as pessoas se sentem ameaçadas por causa da onça. Perdem cachorro, criação, porco, gado. A ideia é que mais gente venha fazer a observação de onças e que o recurso extra vá para as comunidades e para manter essa atividade de pesquisa. As pessoas ficam mais interessadas com o bicho. E o mais importante é dar tempo para as pessoas se conscientizarem.”

Os filhotes também se adaptam à vida nas copas das árvores - Foto: Emiliano Ramalho

Os filhotes também se adaptam à vida nas copas das árvores – Foto: Emiliano Ramalho

Para Emiliano, é possível replicar o modelo de turismo de observação de onças em outros lugares da Amazônia, principalmente em áreas de várzea. Ele já está programando outras iniciativas para verificar a possibilidade de fazer algo semelhante em áreas de terra firme.

A pesquisa do Projeto Iauaretê mostra que é necessário aumentar as áreas protegidas de florestas de várzea para ajudar na conservação da onça-pintada na Amazônia. Iniciativas como essa são necessárias para retirar o felino da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção.

LEIA MAIS

Projeto Onçafari: no rastro da onça-pintada

Onça-pintada: a mordida mais poderosa entre os felinos

Onça-pintada: a mordida mais poderosa entre os felinos

A onça-pintada possui a mordida mais poderosa entre os felinos. Nem o tigre ou o leão superam a força da Panthera onca - Foto: João Sergio Barros Freitas De Souza/Sua Foto

A onça-pintada possui a mordida mais poderosa entre os felinos. Nem o tigre ou o leão superam a força da Panthera onca – Foto: João Sergio Barros Freitas De Souza/Sua Foto

Ver uma onça-pintada (Panthera onca) na natureza é algo difícil de explicar. Ela encara, olho no olho, até ter a certeza de que você a viu. Seu tamanho é impressionante, ela domina o local e parece que tudo gira em torno dela. É como se a floresta parasse, naquele momento, só para vê-la passar. Antes de sair, uma pausa, a onça olha para trás, e verifica se você ainda está ali. Seus músculos estão tensos, sua respiração está presa e seu coração acelerado. É nesse momento que vem a certeza de que algo mágico está acontecendo. É uma energia muito intensa, que ficará impressa na sua memória para sempre.

Segundo a Ong Pró-Carnívoros, a  onça-pintada, também conhecida como jaguar, possui a mordida mais poderosa entre os felinos e uma maneira única de caçar. Enquanto os outros gatos usam uma técnica de caça com mordida no pescoço seguida de sufocamento, a onça-pintada crava os caninos na cabeça da presa e quebra a espinha dorsal ou perfura o crânio da vítima até chegar ao cérebro. A força exercida é tão grande que chega a quebrar cascos de jabutis.

Seu padrão amarelo com rosetas pretas é a perfeita camuflagem para andar na floresta, onde os fachos de luz em meio à sombra das árvores tornam o felino praticamente invisível. Ela se aproxima da presa silenciosamente, utilizando áreas de vegetação densa para se esconder.  Almofadas na sola das patas ajudam a abafar o som e permitem que o predador ande sem fazer barulho. Quando está perto de seu alvo parte para o ataque.

É um animal oportunista e se alimenta de qualquer presa que esteja disponível. No Pantanal prefere  jacarés, queixadas e capivaras, que são maiores e mais abundantes. Na Amazônia come principalmente animais pequenos, como cotias, pacas e tatus. Ela seleciona indivíduos inexperientes, machucados, doentes ou mais velhos o que resulta em benefício para a própria população de presas e mantém o equilíbrio do ecossistema.

Segundo o Projeto Onçafari, estudos mostram que a predação de gado é menor em áreas com grande quantidade de presas naturais e maior onde há caça de animais selvagens. Infelizmente, a destruição do habitat, e a consequente redução no número de presas naturais, faz com que as onças-pintadas comecem a caçar animais domésticos e acabam sendo mortas por fazendeiros que querem proteger seus rebanhos. Após décadas de perseguição, o felino se tornou um dos animais mais difíceis de avistar na natureza e está na categoria vulnerável da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção.

Para tentar mudar essa história o Onçafari quer fazer a habituação das onças-pintadas a carros de passeio para que elas se comportem da mesma maneira que os felinos da África se comportam em safáris fotográficos. O objetivo é atrair mais turistas, aumentar o interesse dos fazendeiros no turismo de observação de animais, gerar novas oportunidades de emprego para as pessoas da região, ajudar na conservação da onça-pintada e, consequentemente, de seu habitat.

Para saber mais sobre o Onçafari veja o post: Projeto Onçafari: no rastro da onça-pintada

Onça-pintada (Panthera onca), o maior felino das américas sofre com a perseguição de fazendeiros que querem proteger o gado. O Projeto Onçafari tenta salvar o felino através do ecoturismo – Foto: Fábio Paschoal

Morre onça-pintada símbolo do Refúgio Biológico de Itaipu. Descanse em paz, Juma

Juma bebendo água, em 2007 - Foto: Daniel De Granville

Juma bebendo água, em 2007  – Foto: Daniel De Granville

Juma, a onça-pintada símbolo do Refúgio Biológico Bela Vista (RBV) de Itaipu, morreu no último domingo (17) às 14h30 no zoológico Roberto Ribas Lange, onde estava desde 2002. O felino foi fundamental para o trabalho de educação ambiental, incentivou o turismo local e contribuiu para pesquisas científicas da Panthera onca, que está na categoria vulnerável da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção.

“Foi a perda de um ícone, de um animal emblemático para todo o trabalho que fizemos aqui em termos de fauna. Ela é o símbolo dessa nossa luta pela conservação”, comenta Wanderlei de Moraes, veterinário da Divisão de Áreas Protegidas de Itaipu, que acompanhou toda a vida da onça no RBV e foi o responsável pela necropsia.

A morte foi causada por insuficiência renal severa, provocada por infecção nos rins. O problema é comum em felinos idosos como a Juma, que tinha a idade estimada em 24 anos.

Juma chegou no RBV quando tinha 10 anos, desnutrida e debilitada. Ela vivia na região do Parque Nacional do Iguaçu, mas estava sendo avistada fora dos limites da reserva, o que colocava sua vida em risco. Wanderlei acredita que ela estava perdendo uma disputa por território.

Se continuasse na natureza, Juma não teria sobrevivido muito tempo porque estava desnutrida, com dentes quebrados e havia começado a capturar animais em propriedades particulares. Devido a esses problemas, a equipe do RBV decidiu colocá-la em cativeiro.

Juma foi a primeira onça-pintada do RBV e também a primeira a ser exposta para os turistas no local. Ela era o animal mais fotografado e a maior celebridade do zoológico. Toda esta visibilidade foi importante para o trabalho de educação ambiental e a conservação da onça-pintada.

“Ela nos forneceu informação que era difícil se obter de onças como, por exemplo, amostras de sangue, e virou um ícone da relação entre o Parque Nacional do Iguaçu e a Itaipu”, afirmou Marina Xavier da Silva, coordenadora de campo do Projeto Carnívoros do Iguaçu. “Juma sempre foi muito comentada no nosso universo e teve grande contribuição para a consciência das pessoas”, completou.

Descanse em paz, Juma.

Segundo o último censo realizado pelo Projeto Carnívoros do Iguaçu, de 2014, a população de onças-pintadas é de 18 animais, no lado brasileiro do Parque Nacional do Iguaçu. Em todo o corredor verde, que abrange áreas na Argentina e no Brasil, até o Parque Estadual do Turvo, no Rio Grande do Sul, são estimados 80 animais.

Projeto Onçafari lança campanha de financiamento coletivo pela conservação da onça-pintada

Esperança, uma das onças-pintadas selecionadas pelo Projeto Onçafari para o processo de habituação – Foto: Diogo Lucatelli

Esperança, uma das onças-pintadas selecionadas pelo Projeto Onçafari para o processo de habituação – Foto: Diogo Lucatelli

O Projeto Onçafari começou uma campanha de financiamento coletivo (crowdfunding) para continuar a luta para salvar a onça-pintada com o ecoturismo. O projeto foi fundado em 2011 por Mario Haberfeld, ex-piloto de F1 e F Indy que resolveu se dedicar integralmente a conservação da vida selvagem. O objetivo é aumentar o interesse dos fazendeiros no turismo de observação de animais, atrair turistas interessados em ver o animal, gerar novas oportunidades de emprego para as pessoas da região, ajudar na conservação do felino e, consequentemente, de seu habitat.

Onça na árvore avistada pelo Projeto Onçafari - Foto: Projeto Onçafari

Onça-pintada avistada pelo Projeto Onçafari em uma árvore – Foto: Projeto Onçafari

Onça-pintada avistada pelo Projeto Onçafari - Foto: Projeto Onçafari

Onça-pintada avistada pelo Projeto Onçafari – Foto: Projeto Onçafari

Onça-pintada avistada pelo Projeto Onçafari - Foto: Projeto Onçafari

Onça-pintada avistada pelo Projeto Onçafari – Foto: Projeto Onçafari

História

No Pantanal, fazendeiros abatem as onças-pintadas para proteger seus rebanhos e, após décadas de perseguição e caça, o felino se tornou um dos animais mais difíceis de avistar na natureza. Para mudar essa história, o Projeto Onçafari começou a fazer a fazer a habituação das onças aos carros de passeio.

Uma técnica utilizada com leopardos e leões na África do Sul há 30 anos foi adaptada para a onça-pintada no Pantanal. Um animal selecionado é seguido por um rastreador, dia após dia, até que ele pare de considerar o carro como uma ameaça. O ideal é escolher uma fêmea. Quando ela tiver filhotes vai ensinar tudo para os pequenos. Assim, a habituação aos veículos será passada para a próxima geração. O processo não envolve métodos de domesticação (como o oferecimento de comida) e os felinos selecionados permanecem selvagens.

Mario Haberfeld colocando o colar com GPS em uma das onças do Projeto Onçafari- Foto: Divulgação

Mario Haberfeld colocando um colar com GPS para estudar o território de uma das onças-pintadas do Projeto Onçafari- Foto: Divulgação

Equipe do Projeto Onçafari - Foto: Projeto Onçafari

Equipe do Projeto Onçafari – Foto: Projeto Onçafari

O documentário Onça-pintada: mais perto do que se pode imaginar (veja o trailer abaixo) registrou todo o processo de habituação. A produção premiada no International Film Festival e escolhida para passar no Wildlife Conservation Film Festival 2015, é uma das recompensas da campanha de crowdfunding. A ideia é replicar o processo em outras partes do país. “Quanto mais pessoas usarem a ideia mais áreas estarão sendo preservadas” diz Haberfeld.

Para ajudar o Projeto Onçafari a preservar as onças-pintadas no Pantanal acesse o link da campanha: http://www.kickante.com.br/campanhas/oncafari-calendarios-que-salvam-animais-2

Leões africanos em perigo: população dos felinos caiu 42% nos últimos 21 anos

Leão (Panthera leo). São caçados em retaliação pela morte de pessoas e do gado na África. Seus ossos também podem ser vendidos para a fabricação de medicamentos. Eles entram como substitutos dos ossos de tigre que se tornam cada vez mais raros. Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): vulnerável - Foto: Fábio Paschoal

Leão (Panthera leo). São caçados em retaliação pela morte de pessoas e do gado na África. Seus ossos também podem ser vendidos para a fabricação de medicamentos. Eles entram como substitutos dos ossos de tigre que se tornam cada vez mais raros.
Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): vulnerável – Foto: Fábio Paschoal

O rei das savanas africanas está em apuros. A população de leões caiu 42% nos últimos 21 anos, segundo a última atualização da Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês).

A espécie continua na categoria vulnerável, principalmente porque esforços de conservação em Botsuana, Namíbia, África do Sul e Zimbábue resultaram em um aumento de 11% nas populações desses países. Porém, a maioria desses indivíduos vive em reservas fechadas que chegaram ao limite, e não conseguem abrigar mais leões.

O problema é maior em outras partes da África. Na maioria dos países a população de leões caiu 60%, em média. A pior situação é no oeste do continente, onde aproximadamente 400 leões restam em 17 nações, segundo estudo publicado no ano passado no periódico científico Plos One. Os felinos são classificados como criticamente ameaçados na região.

Os principais perigos são a perda de habitat, que faz as populações de leões e de suas presas diminuírem; e o crescimento da agricultura, responsável pelo aumento no número de conflitos entre felinos e humanos.

Os leões são os mais sociais de todos os felinos. Fêmeas da mesma família formam bandos, enquanto os machos se unem em coalizações para tentar conquistar um bando. Caçam de forma cooperativa e podem derrubar presas grandes, como girafas, búfalos, hipopótamos e até elefantes. Mas também se alimentam de animais de pequeno porte e, em situações de desespero, podem comer carniça. São caçados em retaliação pela morte de pessoas e do gado na África. Seus ossos também podem ser vendidos para a fabricação de medicamentos. Eles entram como substitutos dos ossos de tigre que se tornam cada vez mais raros - Foto: Fábio Paschoal

Os leões são os mais sociais de todos os felinos. Fêmeas da mesma família formam bandos, enquanto os machos se unem em coalizações para tentar conquistar um bando. Caçam de forma cooperativa e podem derrubar presas grandes, como girafas, búfalos, hipopótamos e até elefantes. Mas também se alimentam de animais de pequeno porte e, em situações de desespero, podem comer carniça – Foto: Fábio Paschoal

O tráfico internacional de ossos de leões também começa a crescer.  Eles começam a ser usados na medicina tradicional na Ásia (sem nenhuma comprovação científica) como substitutos para ossos de tigres que se tornam cada vez mais raros. Um dos problemas é que a Convenção sobre o Comércio de Espécies Ameaçadas (CITES) permite a exportação de leões e partes do felino, assim como o comércio sob determinadas autorizações.

Para a IUCN, as populações de leões que se encontram em áreas protegidas e vivem em importantes regiões de ecoturismo na África não devem sofrer alterações, pelo menos em um futuro próximo. No entanto, as populações que carecem de proteção devem continuar a diminuir e talvez desapareçam nos próximos anos.

Segundo a IUCN, muitas estratégias regionais de conservação foram estabelecidas e estão dando resultado. Porém, mais vontade política e financiamento são necessários para salvar leões em toda a África.

Map of Life: o aplicativo que mostra a biodiversidade que está próxima de você

Map of life: o aplicativo que coloca a biodiversidade do mundo na palma da sua mão - Foto: Divulgação

Map of Life: o aplicativo que coloca a biodiversidade do mundo na palma da sua mão – Foto: Divulgação

Não importa onde você esteja, o Map of Life (MOL), Mapa da Vida em tradução literal, pode dizer quais espécies de animais e plantas vivem próximas a você com base na localização do seu celular. Em vez de procurar por centenas de páginas em um guia impresso, naturalistas podem ter um guia de campo digital feito sob medida para a sua localização através de um aplicativo.

O MOL, projeto da Universidade de Yale em parceria com a Nasa, eBird, Google, entre outros, acabou de lançar um aplicativo que integra fontes diferentes de dados de distribuição das espécies pelo mundo. Mapas de área de distribuição, pontos de ocorrência e áreas de proteção são fornecidos pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês), WWF (Fundo Mundial para a Natureza, na sigla em inglês), GBIF (Sistema Global de Informação sobre a Biodiversidade, na sigla em inglês) entre outras instituições.

Ao acessar o aplicativo, você fornece sua localização e uma lista de espécies com área de ocorrência próxima ao lugar onde você se encontra aparece na tela do celular. Todos os dados são gerenciados, checados, armazenados e podem ser acessados via cloud hosting (sistema baseado na tecnologia de computação em nuvem que permite que um número ilimitado de máquinas funcionem como um sistema).

Com o aplicativo Map of Life, o usuário pode ajudar pesquisas científicas e projetos de conservação enviando o local onde avistou uma espécie. Este tucano-toco foi observado no Paltanal de Miranda - Foto: Fábio Paschoal

Com o aplicativo Map of Life, o usuário pode ajudar pesquisas científicas e projetos de conservação enviando o local onde avistou uma espécie. Este tucano-toco foi observado no Pantanal de Miranda – Foto: Fábio Paschoal

Fotos ajudam a identificar o animal ou planta e textos fornecem informações sobre as espécies. O usuário também pode criar listas pessoais de observação, contribuir com pesquisas científicas e projetos de conservação e ajudar a atualizar informações sobre a biodiversidade local.

“O aplicativo coloca uma parte significativa do nosso conhecimento global sobre a biodiversidade na palma da sua mão, e permite que você descubra e se conecte com a biodiversidade em um lugar, onde quer que esteja”, disse Walter Jetz, professor de ecologia e biologia evolutiva da Universidade de Yale e coordenador do MOL, em entrevista para o site YaleNews. Segundo Jetz, os guias de campo em forma de livros estão ultrapassados. O MOL é uma ferramenta que permite se conectar com a biodiversidade de uma forma mais eficiente e emocionante. “Esta vasta informação, personalizada para o lugar onde estamos, pode mudar a forma como identificamos e aprendemos sobre as coisas que vemos quando viajamos, caminhamos na mata, ou pisamos no nosso próprio quintal.”

O MOL está disponível em cinco idiomas (ainda não existe em português, mas as espécies da nossa fauna podem ser encontradas) para smartphones iPhone e Android. Para obter mais informações e baixar o aplicativo visite o site do Map of Life.

As borboleta do gênero Callicore apresentam um padrão gráfico na parte de baixo das asas que lembram números ou letras do alfabeto. Infelizmente, devido à sua beleza, essas borboletas são mortas para serem utilizadas na confecção de bijuterias - Foto: Fábio Paschoal

Invertebrados também são encontrados no aplicativo Map of Life. Essa borboleta do gênero Callicore foi avistada na Amazônia, próximo à Alta Floresta – Foto: Fábio Paschoal