Diário de bordo – Workshop de Fotografia na Amazônia com João Marcos Rosa

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Fui convidado para participar do Workshop de Fotografia na Amazônia com João Marcos Rosa no Hotel de Selva Cristalino. O lugar fica no norte do Mato Grosso, próximo da cidade de Alta Floresta, está inserido em uma RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) e faz parte de um grande corredor ecológico que, junto com o Parque Estadual Cristalino e a Reserva da Força Aérea, preserva mais de 2,3 milhões de hectares de floresta.

A oferta era irrecusável. O Cristalino foi minha casa durante um ano (entre 2010 e 2011). Meu trabalho era guiar grupos interessados em história natural e fazer passeios para a observação de animais da Amazônia. Era uma ótima oportunidade para rever os amigos que fiz por lá, aprender um pouco mais sobre fotografia e, de quebra, pegar umas dicas com um dos mais renomados fotógrafos de natureza do Brasil, com imagens publicadas em revistas como National Geographic, GEO, BBC Wildlife e Terra Mater.

Peguei minha câmera, pedi algumas lentes emprestadas, arrumei minha mala e parti para a viagem. O ponto de encontro com o João era o aeroporto de Alta Floresta. Saímos de lá com um grupo heterogêneo, unido graças à paixão pela fotografia e pelo meio ambiente, em direção ao Cristalino.

Chegamos na beira do rio Teles Pires, pegamos um barco, já com as câmeras na mão, e seguimos para o hotel. As árvores de mais de 50 metros fazem você se sentir pequeno e apresentam a grandeza do lugar. A Amazônia é uma terra de superlativos: é a maior floresta tropical do mundo, com mais de 40.000 espécies de plantas. Em nenhum outro lugar da Terra existem tantas aves, peixes de água doce ou borboletas diferentes. Essa é a casa de uma em cada dez espécies conhecidas pela ciência. Entre elas estão a onça-pintada e a harpia, o maior felino e a maior águia das Américas; a sucuri, a cobra mais pesada do planeta; a anta, o maior mamífero terrestre da América do Sul.

A lontra (Lontra longicaudis) é adaptada à vida aquática: possui corpo hidrodinâmico e membranas interdigitais que ajudam na natação, a pelagem tem duas camadas: a externa é impermeável e a interna funciona como isolante térmico. Os olhos as orelhas e o focinho se localizam no topo da cabeça e permitem submergir totalmente na água deixando pra fora só as partes essenciais para a vida. Se alimenta basicamente de peixes e répteis. Ocasionalmente pode comer aves e mamíferos - Foto: Fábio Paschoal

A lontra (Lontra longicaudis) é adaptada à vida aquática: possui corpo hidrodinâmico e membranas interdigitais que ajudam na natação, a pelagem tem duas camadas: a externa é impermeável e a interna funciona como isolante térmico. Os olhos as orelhas e o focinho se localizam no topo da cabeça e permitem submergir totalmente na água deixando pra fora só as partes essenciais para a vida. Se alimenta basicamente de peixes e répteis. Ocasionalmente pode comer aves e mamíferos – Foto: Fábio Paschoal

Logo que entramos no Rio Cristalino, uma lontra nos deu as boas vindas. Clique! Clique! Clique! Clique! Os fotógrafos não tiravam as lentes do animal. João, dizia as melhores configurações da câmera para fazer a foto naquele tipo de situação. Francisco, nosso guia, posicionava o barco para pegarmos a melhor luz enquanto a lontrinha, extremamente relaxada, tomava sol tranquilamente. Ela chegou até a fazer pose: ergueu o pescoço, abriu a mão apoiada no tronco e mostrou os dedos interligados por membranas que ajudam na natação. Ficamos ali até ela mergulhar no rio e sumir do nosso alcance. Não havia dúvida, o workshop seria fantástico.

Durante seis dias subimos em torres de 50 metros para ver o nascer do sol, observamos a névoa característica do amanhecer amazônico, tentamos congelar o movimento de aves em pleno voo, trabalhamos o desfoque do fundo para dar mais destaque ao assunto principal da foto, registramos o espelho d’água do rio Cristalino, vimos castanheiras gigantescas, corremos que nem louco para tentar fazer imagens de macacos (de dia e de noite), olhamos para insetos, fungos e flores em fotografias macro, subimos e descemos o  rio atrás de antas e lontras, vimos o pôr do sol no rio Teles Pires, pintamos objetos com a luz para fazer fotografias noturnas e caminhamos na floresta em busca de fotos que retratassem a Amazônia e a região do Cristalino. Tudo com a orientação do João, que estava sempre disposto a ajudar a encontrar a melhor forma de conseguir a imagem desejada por cada participante do workshop.

Na Amazônia, após uma noite de chuva, o dia amanhece com uma névoa misteriosa – Foto: Fábio Paschoal

Na Amazônia, após uma noite de chuva, o dia amanhece com uma névoa misteriosa – Foto: Fábio Paschoal

É claro que também pegamos chuva. Tivemos que descer da torre rapidamente para não pegar a tempestade lá do alto, nos protegemos na beira do rio para esperar a chuva mais forte passar, voltamos de barco rapidamente para tentar escapar de um pé d’água e, durante uma manhã e uma tarde ficamos ilhados no hotel. Mas esse tempo não foi perdido. Enquanto estávamos esperando a chuva passar aperfeiçoamos técnicas de fotografia macro com fungos e insetos nas áreas cobertas e discutimos tratamento de imagens.

Respiramos fotografia e vivenciamos a Amazônia até o ultimo segundo. Durante o nosso almoço em um hotel ao lado do aeroporto, antes de pegar nosso voo de volta pra casa, as araras-vermelhas e as canindés estavam em uma palmeira se alimentando e nos deixaram chegar bem perto. Não poderia ter sido melhor!

Um casal de araras-vermelhas apareceu para se despedir - Foto: Fábio Paschoal

Um casal de araras-vermelhas apareceu para se despedir – Foto: Fábio Paschoal

Para mim, esse workshop foi muito importante. Durante o meu tempo de guia no Cristalino, enfrentei o sol causticante nos dias de seca e as chuvas intermináveis na temporada da cheia, acompanhei a mudança no comportamento dos animais durante as diferentes estações, observei as aves migratórias chegando quando o alimento fica abundante e indo embora quando o mesmo fica escasso, presenciei o crescimento dos cogumelos que decompõem a matéria orgânica e são tão importantes para o desenvolvimento da floresta, vi a floração de diferentes plantas, experimentei os frutos, gostosos ou não, que se desenvolvem nas diferentes épocas do ano… Aprendi muito sobre o ecossistema e sobre as relações entre os seres vivos e o meio ambiente. É impressionante como tudo isso é perfeito e frágil ao mesmo tempo. A Amazônia me ensinou a ser uma pessoa melhor e eu aprendi a amar esse lugar.  Hoje, graças ao João, sinto que consigo passar esse sentimento de uma maneira muito mais intensa através das minhas fotos e sou muito grato por ter passado por essa experiência.

Valeu João!

Turma da primeira edição do Workshop de fotografia na Amazônia com João Marcos Rosa – Foto: João Marcos Rosa

Turma da primeira edição do Workshop de fotografia na Amazônia com João Marcos Rosa – Foto: João Marcos Rosa

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Fotos de 20 animais da Amazônia

A Amazônia é a maior área contínua de floresta tropical da Terra e serve como um dos últimos refúgios da vida selvagem. As estimativas do número total de espécies variam entre 800 mil e 30 milhões. Nenhum outro lugar do mundo chega a esse patamar. Essa grande biodiversidade está sujeita a variações climáticas e deve se adaptar a dois períodos bem definidos para sobreviver.

Durante a seca (junho a novembro) algumas árvores perdem as folhas para economizar água mostrando os macacos-aranhas que lutam para buscar frutos. O nível dos rios baixa expondo os barrancos onde o saí-andorinha irá construir seu ninho. Borboletas aproveitam os bancos de areia para pegar nutrientes necessários para a reprodução. A anta, desesperada por água, procura pequenas poças dentro da mata. Se não consegue encontrar nada, se arrisca na beira do rio, onde a onça-pintada está a espreita.

Mas quando tudo parece que vai arder em chamas, chega a temporada das chuvas (dezembro a maio) trazendo a água tão essencial para a vida. É a época das frutas: figo, caju, jaca, manga, açaí, ingá, mescla, cacao, cupuaçu… As saíras, tucanos, araras e macacos se fartam de tanta comida. Dentro da mata, os sapos venenosos tentam achar parceiros para acasalar enquanto as cobras procuram por lugares mais elevados para fugir da água que começa a inundar a floresta. É então que as borboletas surgem novamente, anunciando o final das chuvas e o recomeço de um novo ciclo na Amazônia.

Para mostrar um pouco dessa fantástica biodiversidade, selecionei imagens de alguns animais que podem ser encontrados na região do Cristalino Lodge, na Amazônia brasileira.

 

Anta: o maior mamífero terrestre da América do Sul

Anta-sul-americana (Tapirus terrestris) – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 6 da série Pantanal: Terra das águas

Existem 5 espécies de antas conhecidas pela ciência: a anta-da-montanha (Andes), a anta-centro-americana (América Central) e a anta-malaia (Indonésia) – que estão ameaçadas de extinção segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês). Em território brasileiro encontramos a anta-sul-americana, que é considera vulnerável, e a anta-pretinha, descoberta recentemente.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 5 da série Pantanal: Terra das Águas]

“A anta [Tapirus terrestris] é o maior mamífero terrestre da América do Sul. Além disso, é a jardineira de nossas florestas por ser uma excelente dispersora de sementes, contribuindo desta forma para a formação e manutenção da biodiversidade dos biomas brasileiros onde vive (Amazônia, Pantanal , Cerrado e Mata Atlântica). E tem mais: estudos recentes mostraram que a espécie tem uma quantidade imensa de neurônios, confirmando que ela é um animal extremamente inteligente. Portanto, a cultura brasileira de usar anta como xingamento, com conotação pejorativa, é completamente injusta e absolutamente infundada. Ser chamado de anta é um elogio!”. As palavras são de Patrícia Médici, Ph.D. em manejo de biodiversidade e coordenadora da Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira. O objetivo do projeto é estabelecer um programa de pesquisa e conservação da anta-sul-americana na região do Pantanal e depois expandir as ações para a Amazônia e o Cerrado.

Anta-centro-americana (Tapirus bairdii) – Foto: Santhosh Kumar/iStock/Thinkstock

Anta-centro-americana (Tapirus bairdii) – Foto: Santhosh Kumar/iStock/Thinkstock

Em agosto de 2013, a pesquisadora, em parceria com a jornalista ambiental Liana John, lançou a campanha Minha Amiga é uma Anta, desenvolvida para o público infanto-juvenil (veja o vídeo da campanha no final do post). A intenção era chamar a atenção sobre a importância da conservação da anta brasileira, despertar o orgulho pela ocorrência da espécie no Brasil e desmistificar o conceito de que “anta” é um ser desprovido de inteligência .

É possível baixar a cartilha educativa da anta brasileira, escrita por Liana John e Patrícia Medici e ilustrada pelo cartunista Luccas Longo, com informações sobre a espécie, materiais para estudo e trabalhos de escola, fotografias e ilustrações.

Tapirus kabomani é a primeira espécie de anta descoberta após Tapirus bairdii, descrita em 1865 - Foto: Divulgação

A anta-pretinha (Tapirus kabomani) é a primeira espécie de anta descoberta após Tapirus bairdii, descrita em 1865 – Foto: Divulgação

O trabalho de Patrícia é reconhecido internacionalmente. Ela foi escolhida em 2014 para o TED Fellows Program, que seleciona jovens inovadores, engajados e inspiradores e os treina para que façam palestras no TED Talks (Veja a palestra de Patrícia no final do post). O programa é uma iniciativa do movimento global TED (Technology, Entertainment and Design) – organização sem fins lucrativos dedicada ao conceito baseado em Ideas Worth Spreading (ideias que merecem ser espalhadas, na tradução literal do inglês).

Anta-da-montanha (Tapirus pinchaque) – Foto: Diego Lizcano/Creative Commons

Anta-da-montanha (Tapirus pinchaque) – Foto: Diego Lizcano/Creative Commons

Para chamar a atenção para a importância desses animais foi criado o Dia Mundial da Anta (27 de abril). Apesar de dar margem para inúmeros trocadilhos, a data tem um propósito sério: a conservação das cinco espécies de antas encontradas no planeta.

O desmatamento, a fragmentação do habitat, a competição com animais domésticos, a caça ilegal e os atropelamentos em rodovias fazem com que a população das antas continue diminuindo. Nada mais justo do que um dia para lembrar a importância de cuidar bem desses simpáticos animais

Veja o capítulo 7 da série Pantanal: Terra das Águas

Anta-malaia (Tapirus indicus) – Foto: wathanyu/iStock/Thinkstock

Anta-malaia (Tapirus indicus) – Foto: wathanyu/iStock/Thinkstock

Veja abaixo o vídeo da campanha Minha Amiga é uma Anta

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Cuíca-de-colete é redescoberta na Amazônia brasileira após 50 anos

A cuíca-de-colete (Caluromysiops irrupta) está na categoria Criticamente Ameaçada da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, elaborada pelo ICMBio - Foto: Marcio Martins

A cuíca-de-colete (Caluromysiops irrupta) está na categoria Criticamente Ameaçada da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, elaborada pelo ICMBio – Foto: Marcio Martins

A cuíca-de-colete (Caluromysiops irrupta) é o único marsupial (grupo dos gambás, cangurus e coalas) classificado como criticamente ameaçado no Brasil. O único registro que existia da espécie no país era de uma pele depositada no Museu de Zoologia da USP datada de 1964. Porém, em dezembro de 2013, a bióloga da USP Júlia Laterza Barbosa encontrou um exemplar durante um resgate de fauna em Paranaíta, município localizado dentro da Amazônia Legal, no estado de Mato Grosso. A redescoberta foi publicada por Barbosa e outros dois pesquisadores no periódico científico De Gruyter no mês passado (maio de 2016).

Para Marcus Vinicius Brandão, biólogo graduado pela USP, com mestrado em mastofauna pela UFSCar e um dos autores do artigo, a redescoberta da espécie mostra a importância do licenciamento ambiental, processo que analisa os impactos socioambientais de um empreendimento para avaliar se a obra é viável ou não e que pode deixar de ser obrigatório com a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição 65/2012 em tramitação no Senado.

A cuíca-de-colete (Caluromysiops irrupta) foi redescoberta no Brasil após 50 anos. A espécie está na categoria Criticamente Ameaçada da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, elaborada pelo ICMBio. (O animal foi capturado durante um resgate de fauna e foi solto em um lugar seguro) - Foto: Júlia Laterza Barbosa

A cuíca-de-colete que foi redescoberta no Brasil após 50 anos. (O animal foi capturado durante um resgate de fauna e foi solto em um lugar seguro) – Foto: Júlia Laterza Barbosa

“Durante o processo de licenciamento ambiental busca-se avaliar o impacto ambiental e também social que grandes obras como rodovias, hidrelétricas, mineradoras, etc podem causar. Dessa forma, avaliamos se os benefícios que serão obtidos por esses empreendimentos compensam os impactos que serão gerados. Assim, através de estudos do meio social e ambiental, pode-se ter dimensão da realidade local e elaborar relatórios que poderão direcionar a minimização dos impactos. Além disso, é uma oportunidade de aumentarmos o conhecimento sobre a biodiversidade local. O registro da cuíca-de-colete é um exemplo disso”, diz Brandão. E completa: “Nós sabemos das atuais tragédias ambientais ocorridas no país. Agora imagine: se essas tragédias já aconteceram com a atual legislação, o que aconteceria se a PEC65 fosse aprovada? Imagine os desastres ambientais que poderiam ocorrer. Grande parte da nossa biodiversidade, que pouco conhecemos, estaria destinada a desaparecer sem termos ciência de sua existência.”

A cuíca-de-colete possui uma característica única entre os marsupiais sul-americanos: a faixa escura que se estende das mãos, passa pelos braços, ombros e chega até as costas - Foto: Júlia Laterza Barbosa

A cuíca-de-colete possui uma característica única entre os marsupiais sul-americanos: a faixa escura que se estende das mãos, passa pelos braços, ombros e chega até as costas – Foto: Júlia Laterza Barbosa

No início deste mês (junho), outro artigo científico, publicado no Check List, informou outro registro da espécie no Parque Estadual Guajará Mirim, em Rondônia. “Embora este novo registro refira-se ao avistamento da cuíca-de-colete em 1995, ou seja, mais de 20 anos atrás, é um registro bastante importante, pois foi feito em uma Unidade de Conservação, o que representa um grande passo na ajuda para a conservação de populações desta espécie no Brasil”, comenta Brandão.

Os registros publicados recentemente são importantes para provar que a espécie ainda vive na Amazônia brasileira. Porém, sua área de ocorrência sofre com o desmatamento para a agricultura e a pecuária. Para Brandão é preciso avaliar o atual estado das populações da cuíca-de-colete, obter mais amostras para estudos genéticos e estudar os dados ecológicos do animal para determinar se a espécie é rara e ameaçada realmente ou se é comum, mas com hábitos que dificultam a percepção de sua presença (como vida restrita à copa das árvores e hábito noturno, por exemplo). “Conhecendo melhor os dados biológicos de Caluromysiops irrupta, a comunidade científica pode direcionar melhor os esforços de conservação e quem sabe no futuro poderemos retirar esta espécie da lista de espécies ameaçadas.

Projeto Iauaretê: a luta para salvar as onças-pintadas das árvores da Amazônia

 Onça-pintada (Panthera onca) A onça-pintada é o maior felino das Américas. A perda e fragmentação de habitat associadas principalmente à expansão agrícola, mineração, implantação de hidrelétricas, ampliação da malha viária e a eliminação de indivíduos por caça ou retaliação por predação de animais domésticos são as principais ameaças enfrentadas pelo felino Status na Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção: espécie vulnerável

A onça-pintada (Panthera onca) é o maior felino das Américas. A perda e fragmentação do habitat associadas à expansão agrícola, mineração, implantação de hidrelétricas, ampliação da malha viária e a eliminação de indivíduos por caça ou retaliação por predação de animais domésticos são as principais ameaças enfrentadas pelo felino.
Status na Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção: espécie vulnerável – Foto: Emiliano Ramalho

Na Amazônia, durante o período da cheia, a onça-pintada deixa o solo e passa a viver na copa das árvores. Com incrível flexibilidade ecológica, o felino muda o comportamento para continuar em seu território, mesmo quando a água inunda a várzea da maior floresta tropical do mundo. Essa é uma das conclusões de uma pesquisa realizada pelo Projeto Iauaretê, do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

O estudo é realizado desde 2008 na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, a primeira reserva de desenvolvimento sustentável do Brasil, criada em 1996 a partir do sonho do primatólogo José Márcio Ayres de preservar o macaco uacari-branco. A área com mais de 1 milhão de hectares tem a função de proteger o ambiente de várzea amazônico, produzir ciência de qualidade e envolver as comunidades ribeirinhas locais na conservação do meio ambiente. “O que a gente tem observado é que temos, na Reserva Mamirauá, uma das mais altas densidades de onças encontrada no mundo. A gente estima mais de dez onças a cada 100 km².  E o que isso mostra é o potencial que as várzeas têm”, comentou o pesquisador Emiliano Ramalho, líder do GP Felinos, do Instituto Mamirauá.

Para Emiliano, a explicação para essa grande concentração de onças-pintadas se deve a grande quantidade de alimento disponível. Apesar de animais terrestres que são presas comuns do felino não serem encontrados com frequência, a densidade de preguiças e jacarés é altíssima. Esses duas espécies constituem a base da alimentação das onças-pintadas em Mamirauá. Segundo o pesquisador, existem cerca de 1000 onças-pintadas dentro da reserva.

A concentração de onças-pintadas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na Amazônia, é uma das maiores do mundo - Foto: Emiliano Ramalho

A concentração de onças-pintadas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na Amazônia, é uma das maiores do mundo – Foto: Emiliano Ramalho

A onça-preta e a onça-pintada são animais da mesma espécie. Indivíduos melânicos são mais comuns em florestas densas, como a Amazônia. Eles têm uma alta quantidade de melanina na pele e nos pelos - Foto: Projeto Iauaretê/Instituto Mamirauá

A onça-preta e a onça-pintada são animais da mesma espécie (Panthera onca). Indivíduos melânicos são mais comuns em florestas densas, como a Amazônia. Eles têm uma alta quantidade de melanina na pele e nos pelos – Foto: Projeto Iauaretê/Instituto Mamirauá

Como se movimentam as onças-pintadas da várzea Amazônica? Como a variação do nível da água, ao longo do ano, interfere na movimentação desses animais? Para responder a essas perguntas, os felinos recebem colares de GPS que armazenam e enviam informações da localização de cada animal para os pesquisadores via satélite. O colar também tem um sistema transmissor VHF, que emite uma frequência de rádio que é utilizada quando os pesquisadores querem encontrar o animal na floresta.

Durante os meses de janeiro e março a equipe do projeto capturou e instalou colares em duas onças: Django, uma onça-preta e Fofa, que está grávida. Para Louise Maranhão, veterinária no Instituto Mamirauá, a gestação é um indicativo de que o ambiente é viável para a sobrevivência e para a reprodução da espécie. “O animal está bem, possui alimentação no ambiente e está se reproduzido bem. Demonstra que esse é um ambiente que está favorável para sua manutenção.” Com esses dois animais, o projeto monitora atualmente cinco onças-pintadas na região.

As onças-pintadas são anestesiadas e têm os sinais vitais monitorados durante todo o processo de captura. Os animais são pesados, medidos e fotografados. Amostras biológicas são coletadas para análise genética e de parasitas em laboratório. Tudo é por acompanhado por um médico veterinário - Foto: Amanda Lelis

As onças-pintadas são anestesiadas e têm os sinais vitais monitorados durante todo o processo de captura. Os animais são pesados, medidos e fotografados. Amostras biológicas são coletadas para análise genética e de parasitas em laboratório. Tudo é por acompanhado por um médico veterinário – Foto: Amanda Lelis

As onças são liberadas com os colares GPS, que possuem um sistema que permite que se desarmem sozinhos quando a bateria acaba, possibilitando que sejam encontrados e reutilizados posteriormente. A acompanhamento pode durar até dois anos - Foto: Amanda Lelis

As onças são liberadas com os colares GPS, que possuem um sistema que permite que se desarmem sozinhos quando a bateria acaba, possibilitando que sejam encontrados e reutilizados posteriormente. O acompanhamento pode durar até dois anos – Foto: Amanda Lelis

A pesquisa também analisa as fezes das onças para determinar as principais presas dos felinos dentro de Mamirauá. “A preguiça sempre é o prato principal das onças ao longo do ano todo. O que muda no período da cheia é que as onças não têm acesso aos jacarés, que estão dispersos na água, na floresta. Então ela complementa isso com outros animais que vivem em cima da árvore: macacos guariba, outros macacos e o tamanduá-mirim”, diz Emiliano.

As informações coletadas pelo Projeto Iauaretê servem de base para a manutenção do programa de turismo de observação de onças-pintadas, realizado somente durante o período da cheia (final de abril até meados de junho) e mantido em parceria com a Pousada Uacari. Parte da renda arrecada vai para as comunidades locais e permite a continuidade da pesquisa científica. Segundo Emiliano, é importante provar que a onça pode trazer benefícios financeiros para as pessoas que trabalham na região. “As onças, hoje, têm um valor negativo por parte das comunidades. Porque as pessoas se sentem ameaçadas por causa da onça. Perdem cachorro, criação, porco, gado. A ideia é que mais gente venha fazer a observação de onças e que o recurso extra vá para as comunidades e para manter essa atividade de pesquisa. As pessoas ficam mais interessadas com o bicho. E o mais importante é dar tempo para as pessoas se conscientizarem.”

Os filhotes também se adaptam à vida nas copas das árvores - Foto: Emiliano Ramalho

Os filhotes também se adaptam à vida nas copas das árvores – Foto: Emiliano Ramalho

Para Emiliano, é possível replicar o modelo de turismo de observação de onças em outros lugares da Amazônia, principalmente em áreas de várzea. Ele já está programando outras iniciativas para verificar a possibilidade de fazer algo semelhante em áreas de terra firme.

A pesquisa do Projeto Iauaretê mostra que é necessário aumentar as áreas protegidas de florestas de várzea para ajudar na conservação da onça-pintada na Amazônia. Iniciativas como essa são necessárias para retirar o felino da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção.

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Peixe-boi-da-amazônia reabilitado pelo Instituto Mamirauá é devolvido ao ambiente natural

Quando chegou ao Centrinho, Cassi, um peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis), tinha 45 quilos e media 1,25 metros de comprimento. A espécie é considerada vulnerável pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) - Foto: Amanda Lelis

Quando chegou ao Centrinho, Cassi, um peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis), tinha 45 quilos e media 1,25 metros de comprimento. A espécie é considerada vulnerável pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Amanda Lelis

Cassi, um peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis) que há dois anos estava sob os cuidados do Centro de Reabilitação de Peixe-Boi Amazônico de Base Comunitária (conhecido como Centrinho), do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, foi devolvido a natureza na última semana. O evento aconteceu em um lago na Reserva Amanã, município de Maraã, Amazonas.

Cassi foi resgatada por moradores locais que fizeram contato com o Instituto. De acordo com os relatos dos moradores, ela foi capturada acidentalmente em uma rede de pesca. Chegou ao Centrinho com aproximadamente oito meses, 45 quilos e 1,25 metros de comprimento. Quando foi liberada, estava com 128 quilos e 1,86 metros – medidas que, segundo o Instituto Mamirauá, indicam um bom desenvolvimento do filhote durante a reabilitação.

Veterinários, biólogos, educadores ambientais e técnicos, além dos moradores da região, contribuíram e participaram da reabilitação de Cassi - Foto: Amanda Lelis

Veterinários, biólogos, educadores ambientais e técnicos, além dos moradores da região, contribuíram e participaram da reabilitação de Cassi – Foto: Amanda Lelis

“Todos os animais que soltamos passaram pelo processo de reabilitação e foram considerados aptos a serem soltos – e preparados para a vida em ambiente natural – baseado em tamanho, peso, comportamento e exames de saúde,” explica Miriam Marmontel, pesquisadora do Instituto Mamirauá.

Segundo Marmontel, a área para a soltura foi escolhida porque possui características favoráveis para a readaptação de peixes-boi ao ambiente natural.  “O lago apresenta grande quantidade de alimento disponível, muitas ressacas e recantos para o animal se esconder, e também a presença de outros peixes-boi. É um lago protegido, de preservação, e a soltura teve a concordância da comunidade.”

Cassi esteva sob os cuidados da equipe do Instituto Mamirauá desde 2014. Após dois anos foi considerada apta para a soltura - Foto: Amanda Lelis

Cassi estava sob os cuidados da equipe do Instituto Mamirauá desde 2014. Após dois anos foi considerada apta para a soltura – Foto: Amanda Lelis

No dia em que foi solta, Cassi estava com 128 quilos e media 1,86 metro, indicativos do bom desenvolvimento do filhote durante a reabilitação - Foto: Amanda Lelis

No dia em que foi solta, Cassi estava com 128 quilos e media 1,86 metro, indicativos do bom desenvolvimento do filhote durante a reabilitação – Foto: Amanda Lelis

Um cinto equipado com transmissor de sinais de rádio foi adaptado na cauda do animal e a equipe do Instituto acompanha o deslocamento de Cassi na região para saber quais os movimentos do peixe-boi de acordo com a variação do nível da água. “Cassi agora precisará se readaptar ao ambiente natural, explorar seu ambiente muito mais expandido, encontrar locais de abrigo e de alimentação. O monitoramento nos permite acompanhar remotamente estes deslocamentos e comportamentos, e avaliar sua readaptação”, disse Marmontel.

A pesquisadora e sua equipe querem saber se o animal aprenderá a fazer a rota migratória que o levaria de volta a seu local de origem, se permanecerá no lago da soltura ou se buscará outro local para se estabilizar. “Cada animal é diferente, faz suas próprias escolhas. Algumas podem ser equivocadas e nesse caso teríamos que intervir”, completou a pesquisadora.

Um cinto equipado com transmissor de sinais de rádio foi adaptado na cauda de Cassi para que a equipe do Instituto Mamirauá possa acompanhaer seu deslocamento - Foto: Amanda Lelis

Um cinto equipado com transmissor de sinais de rádio foi adaptado na cauda de Cassi para que a equipe do Instituto Mamirauá possa acompanhar seu deslocamento – Foto: Amanda Lelis

Histórico

A reabilitação de Cassi foi o quarto evento de soltura de peixes-boi amazônicos realizado pelo Instituto Mamirauá. A última vez que isso aconteceu foi em 2015, quando seis indivíduos foram devolvidos à natureza. Os animais também receberam cintos com radiotransmissores e continua sendo monitorados. “O Piti foi o grande caso de sucesso. Foi o primeiro animal a deixar o lago de pré-soltura depois que a água começou a subir e, com a subida da água, ele fez a rota migratória como um animal nativo, o que nos sugere que tenha sido acompanhado por outro animal. Além do Piti, um macho e duas fêmeas permanecem sendo monitorados nas imediações do lago Amanã”, comenta Marmontel

Com a soltura da Cassi, um animal ainda permanece em reabilitação no Centrinho, um criatório conservacionista autorizado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Ibama) que recebe peixes-boi órfãos que se perderam das mães por alguma razão (algumas vezes por episódios de caça).  A ação conta com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para o pagamento de bolsas.

Após a soltura, Cassi continua sendo acompanhada, por meio de radiotelemetria - Foto: Amanda Lelis

Após a soltura, Cassi continua sendo acompanhada, por meio de radiotelemetria – Foto: Amanda Lelis

Mais de mil filhotes de quelônios nascem na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na Amazônia

Filhotes de tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa) se dirigem para o rio - Foto: Vanielle Medeiros

Filhotes de tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa) se dirigem para o rio – Foto: Vanielle Medeiros

A temporada reprodutiva dos quelônios fluviais de 2015 na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na Amazônia, foi produtiva. Os pesquisadores do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, registraram o nascimento de 1.348 filhotes durante o período.

Três praias do Rio Solimões foram monitoradas. 80% dos filhotes eram de tartaruga-da-amazônia, 12% de iaçá e 7% de tracajá. Os dados contribuem para o entendimento da ecologia das espécies estudadas. “A primeira espécie de quelônio aquática que começa a desovar é Podocnemis sextuberculata (iaçá), as fêmeas iniciam a desova no final de agosto e terminam em outubro; P. unifilis (tracajá) desova entre agostos e setembro e P. expansa (tartaruga-da-Amazônia) desova principalmente em outubro.” Conta Vanielle Medeiros, pesquisadora do Instituto Mamirauá.

Pesquisadora mostra as três espécies de quelônios estudadas (de cima para baixo): tartaruga-da-Amazônia (Podocnemis expansa), tracajá (Podocnemis unifilis) e iaçá (Podocnemis sextuberculata) - Foto: Vanielle Medeiros

Pesquisadora mostra as três espécies de quelônios estudadas (de cima para baixo): tartaruga-da-Amazônia (Podocnemis expansa), tracajá (Podocnemis unifilis) e iaçá (Podocnemis sextuberculata) – Foto: Vanielle Medeiros

Segundo a pesquisadora, o monitoramento em campo contempla desde a desova até a eclosão. “Podemos ter uma base de quantos ninhos aquela praia está produzindo e mais ou menos quantos filhotes podem nascer dependendo disso. Por serem animais de vida longa, é importante fazer um acompanhamento ao longo do tempo para ter uma série histórica de dados que nos permite estudar a ecologia desses animais”, afirmou.

A primeira expedição foi realizada em outubro de 2015. O objetivo era identificar ninhos e observar a desova das fêmeas. 750 metros de praia foram mapeados para testar o grau de vulnerabilidade dos ninhos à inundação. Os locais dos ninhos foram marcados por GPS e a equipe fez a medição e a pesagem dos ovos.

Fêmea de tartaruga-da-Amazônia desovando em uma praia na Reserva Mamirauá. Status na IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês): Pouco preocupante - Foto: Ana Júlia Lenz

Fêmea de tartaruga-da-Amazônia desovando em uma praia na Reserva Mamirauá – Foto: Ana Júlia Lenz

Pesquisadores realizam biometria de ovos de tracajá - Foto: Amanda Lelis

Pesquisadores realizam biometria de ovos de tracajá – Foto: Amanda Lelis

As expedições de novembro e dezembro foram realizadas para acompanhar a eclosão dos ovos e a emergência dos filhotes. Os pequenos foram marcados e a equipe coletou dados de cada indivíduo para poder acompanhar o desenvolvimento dos animais em posteriores recapturas.

Vanielle diz que os dados serão analisados e servirão para comparar a produção das praias monitoradas, o sucesso de eclosão dos ninhos e servirá como indicador para verificar se existe relação entre o tamanho da fêmea e o tamanho dos filhotes.

Fêmea de iaçá marcada para estudos populacionais - Foto: Amanda Lelis

Fêmea de iaçá marcada para estudos populacionais – Foto: Amanda Lelis

Macho de tracajá, conhecido popularmente como Zé Prego, capturado para biometria e marcação - Foto: Ana Júlia Lenz

Macho de tracajá, conhecido popularmente como Zé Prego, capturado para biometria e marcação – Foto: Ana Júlia Lenz

O monitoramento da temporada reprodutiva dessas três espécies é feito desde 1998 pelo Instituto Mamirauá. A atividade é realizada no período da seca, quando as praias se formam na região. “É importante ressaltar que essas espécies aquáticas têm o período reprodutivo sincronizado com o rio. O rio Solimões é marcado por dois grandes períodos anuais de cheia e seca. Quando o rio demora para secar, os bancos de areia, nos quais os quelônios desovam, também demoram para emergir e o início da temporada reprodutiva depende dos locais disponíveis para desova”, alerta a pesquisadora.

Vanielle e a equipe também se esforçam para monitorar os quelônios fluviais amazônicos durante o período em que as águas do rio sobem e encobrem as praias. “Queremos saber quais são as áreas em que eles estão na cheia. Geralmente os animais migram para outras áreas para alimentação e crescimento. É importante acompanhar essas outras áreas que também são usadas por essas espécies, e que talvez não sejam tão protegidas quanto as praias de desova.”

Moradores de comunidade tradicional realizam a soltura dos filhotes de quelônios nascidos na praia protegida - Foto: Vanielle Medeiros

Moradores de comunidade tradicional realizam a soltura dos filhotes de quelônios nascidos na praia protegida – Foto: Vanielle Medeiros

Uma grande ajuda para a conservação da espécie vem das comunidades ribeirinhas da região. Os moradores acampam nas praias e se revezam para monitorar e proteger as áreas de desova e evitar invasões para a coleta de ovos ou fêmeas (utilizados para consumo na região).

O projeto também conta com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Prêmio IGUi Ambiental.

Imagens inéditas revelam macacos-prego usando ferramentas para roubar ovos de jacarés

Primeiro registro de uso de ferramentas por macaco-prego (Sapajus macrocephalus ) na abertura de ninho de jacaré-açu na Amazônia - Foto: Instituto Mamirauá

Primeiro registro de uso de ferramentas por macaco-prego (Sapajus macrocephalus) para a abertura de ninho de jacaré-açu na Amazônia – Foto: Instituto Mamirauá

Armadilhas fotográficas instaladas em pontos da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na Amazônia, para monitoramento dos ninhos de jacaré-açu registraram imagens inéditas: dois macacos-prego roubando ovos com o auxílio de ferramentas.

Os resultados da pesquisa foram divulgados ontem (10), durante o 16° Congresso Brasileiro de Primatologia. “O registro do uso de ferramentas por macacos-prego na abertura de ninho de jacaré-açu na Amazônia é inédito na literatura. Isso sugere que macacos-prego de vida livre que ocorrem em habitats fechados, tal como os da Floresta Amazônica, também possuem capacidade cognitiva para resolver problemas durante a busca por alimentos”, afirmou Kelly Torralvo, pesquisadora associada do Instituto Mamirauá e uma das autoras do estudo.

63 ninhos foram monitorados entre outubro e dezembro de 2014. Houve apenas um evento de predação com uso de ferramentas durante esse período. Na ocasião, um macho adulto utilizou um graveto para abrir o ninho e acessar a câmara onde estavam os ovos. Ele retirou o alimento com a ajuda de um comparsa.

após a abertura do ninho, um comparsa ajudou o primeiro macaco-prego a retirar os ovos - Foto: Instituto Mamirauá

Após a abertura do ninho, um comparsa ajudou o primeiro macaco-prego a retirar os ovos – Foto: Instituto Mamirauá

Os ninhos de jacaré-açu são construídos pelas fêmeas. Os ovos são cobertos por gravetos e folhas que formam montes compactos de cerca de 70 centímetros de altura e 1,5 metros de diâmetro. Onças, lagartos, macacos e seres humanos são os principais predadores.

Segundo os pesquisadores, outros estudos descrevem o uso de ferramentas por macacos-pregos encontrados em ambientes abertos (como o Cerrado ou a Caatinga). Porém, o estudo revelado ontem apresenta o primeiro registro de uso de ferramenta da espécie Sapajus macrocephalus em uma floresta de várzea na Amazônia Central.

Veja as imagens da predação no vídeo abaixo:

Lentes voltadas para a Amazônia – Portfólio Jorge Lopes

A primeira onça-pintada (Panthera onca) fotografada por Jorge Lopes na Amazônia – Foto: Jorge Lopes

A primeira onça-pintada (Panthera onca) fotografada por Jorge Lopes na Amazônia – Foto: Jorge Lopes

A Amazônia foi minha casa durante um ano (entre 2010 e 2011). Morava no Cristalino Lodge, um hotel de selva no meio da floresta, isolado da civilização. Meu trabalho era guiar grupos interessados em história natural e fazer passeios para a observação de animais selvagens. Foi lá que conheci Jorge Lopes, guia de birdwatching e fotógrafo, que me ensinou muito sobre a maior floresta tropical do mundo.

Jorge nasceu no Paraná, mas foi para Alta Floresta ainda criança, quando seus pais decidiram trabalhar como produtores rurais no norte do Mato Grosso. Terminou os estudos e começou a trabalhar no comércio. Depois se aventurou no garimpo por 7 anos, antes de voltar para ajudar o pai na atividade rural. Ele não se acertava em nenhum lugar, até que chegou ao Cristalino em 1997.

Jorge Lopes começou como piloteiro de barco no Cristalino Lodge, na Amazônia - Foto: Fábio Paschoal

Jorge Lopes começou como piloteiro de barco no Cristalino Lodge, na Amazônia – Foto: Fábio Paschoal

Seu primeiro trabalho foi de piloteiro de barco, acompanhando guias estrangeiros que traziam grupos de observadores de aves para o Brasil. Com o tempo aprendeu o nome dos animais em inglês, conseguiu um binóculo e passou a sair em seus dias de folga para “passarinhar”. Aprendeu os cantos, o comportamento das aves e os melhores lugares para encontrar cada espécie. Com muito esforço ele se tornou um dos guias de birdwatching mais conhecidos da região.

As habilidades de Jorge são impressionantes! Em maio de 2011, quando eu estava prestes a sair do Cristalino, já havia observado mais de 400 espécies de aves na região, mas nunca havia visto uma coruja. Jorge virou pra mim e disse: “Vamos sair e achar uma coruja pra você.”

Na mesma noite estávamos na floresta. “Ela vai pousar naquele cipó. Quando eu acender a luz de novo, você coloca o binóculo ali.” Jorge apagou a lanterna e tocou o canto da ave. Um vulto se aproximou voando e pousou. Coloquei meu binóculo na direção do cipó e, quando a luz acendeu novamente, lá estava a corujinha-relógio (Megascops usta)!

Corujinha-relógio (Megascops usta) - Foto: Jorge Lopes

Corujinha-relógio (Megascops usta) – Foto: Jorge Lopes

Quando reencontrei Jorge, 4 anos depois, a primeira ave que ele me mostrou foi a coruja-de-crista (Lophostrix cristata). Ele fez o registro com a técnica de digiscoping - Foto: Jorge Lopes

Quando reencontrei Jorge, 4 anos depois da minha saída do Cristalino, a primeira ave que ele me mostrou foi a coruja-de-crista (Lophostrix cristata). Ele fez o registro com o celular da minha namorada, utilizando a técnica de digiscoping – Foto: Jorge Lopes

O interesse pela fotografia surgiu quando Jorge conheceu guias voluntários que fizeram o primeiro CD de fotos de aves do Cristalino. A técnica utilizada foi o digiscoping (fotografia com celulares ou câmeras compactas, sem teleobjetivas, acopladas à lente do telescópio). “Comecei a ver o trabalho deles e comecei a me interessar por fotografia.”

A partir daí o guia de birdwatching começou a registrar os animais da Amazônia com um telescópio e uma câmera pequena. Também pegava o celular dos turistas para tirar fotos utilizando a técnica que havia acabado de aprender.

Percebendo o interesse de Jorge, Alex da Riva, gerente do Cristalino e apaixonado por fotografia, começou a emprestar a câmera e as lentes para o novo fotógrafo. Com o equipamento profissional, as fotos do guia de birdwatching começaram a aparecer no site e no Facebook do hotel.

Após fotografar os animais mais fáceis, mais bonitos e mais interessantes, Jorge começou a procurar aves difíceis, que ninguém conhecia muito bem e que nunca haviam sido fotografadas na região. “Tem uma ave que anda pelo chão, que todo mundo ouvia, mas não via… Na época tinha um ou dois registros de avistamento, mas não tinha fotografia. Eu decidi fotografar essa ave: o jacu-estalo-escamoso.” A partir daí, a fotografia se tornou uma obsessão.

Na época não havia informações sobre a espécie, os outros guias não conheciam muita coisa sobre a ave e diziam que era quase impossível de ser observada na região. Mas o novo fotógrafo estava determinado: “Eu vou fazer meu próprio estudo, vou procurar esse bicho e ver o que eu encontro.”

Um dia, após o almoço, Jorge estava na mata para tentar fazer uma gravação do canto de uma ave, o dançarino-de-chapéu-branco, quando viu um bicho voar do chão e pousar num cipó. “Eu coloquei o binóculo… Era o jacu-estalo! Levantando a crista e balançando o rabo.” Jorge pegou o telescópio e a câmera. Ele tentou focar o animal e a imagem continuava embaçada. Olhou no telescópio e viu o jacu, tentou focar novamente. A câmera fazia barulho e nada. Tentou a terceira vez. Sem sucesso. A ave acabou saindo. Na emoção do momento, Jorge não conseguiu perceber que a câmera estava na função macro (usada para tirar fotos de objetos próximos). “O bicho me deu a chance, tava na minha frente e eu não consegui fazer a foto. Mas paciência. É assim mesmo.”

De repente o jacu começou a cantar. “Até então a voz dele não era nem conhecida no Brasil. Já tinham a voz em outros países. Aqui, a única gravação que tinha dele era o estalo do bico.” Como estava com o gravador, Jorge gravou o canto e tocou a fita, o bicho respondeu. Mas era hora de voltar ao trabalho e a foto teria que ficar para depois.

Jorge e sua câmera se tornaram inseparáveis - Foto: Fábio Paschoal

Quando está cansado demais para levar a teleobjetiva, Jorge faz fotos de paisagem e utiliza uma lente mais leve – Foto: Fábio Paschoal

No mesmo dia, Jorge voltou com outro guia e um grupo de birdwatchers para o mesmo local. Tocou a gravação e nada. Tocou de novo e nada. Após duas horas eles desistiram e começaram a voltar para o hotel. Foi aí que a ave cantou. “O bicho cantava pertinho, mas a gente não conseguiu ver.” Ficaram até escurecer, mas nada aconteceu.

Jorge voltou de madrugada. Levantou às 3 horas da manhã, pegou sua lanterna e sentou debaixo da árvore onde ouviu a ave pela última vez e esperou. “O bicho tá empoleirado. Uma hora ele vai ter que descer.” A cada 20 minutos ele tocava o canto e nada. Às 8 horas o jacu respondeu. Ficou uma hora e meia “conversando” com o fotógrafo, mas não apareceu. Era hora de voltar ao trabalho e, novamente, a foto ficou pra depois.

Desse dia em diante, quando tinha tempo livre, Jorge ia ao mesmo local e tocava o canto. As vezes a ave respondia, mas nunca se mostrava. Passaram 6 anos e o jacu-estalo continuava sem aparecer. Era hora de mudar de tática.

Durante a época de seca, os animais do interior da floresta se concentram em lugares mais úmidos, próximos a lagos e lagoas. Jorge procurou por uma poça prestes a secar em um dos lugares em que havia ouvido o jacu-estalo, colocou uma lona, cobriu de areia e folhas e colocou água. Jorge e Francisco Souza, que também é guia do Cristalino, ficavam se revezando para manter a poça artificial cheia e sempre que tinham um tempo livre eles iam checar o lugar. Um ano se passou e nada do jacu.

Um dia, quando Jorge voltou de um passeio com turistas, Francisco o esperava com um sorriso no rosto: “Rapaz, você não acredita,” disse Francisco. “O cuco foi lá na poça! E não foi só um. Foram dois! E o cuco empoleirou e dormiu em cima da poça. A gente conseguiu!”.

No dia seguinte, Jorge pegou a câmera e foi para poça. Se escondeu em um lugar, sentou e esperou. Esperou 1 hora, 2 horas, 3 horas, 4 horas, 5 horas. Quando estava quase desistindo, Jorge ouviu um barulho atrás dele. Ao virar a cabeça o fotógrafo se deparou com o jacu-estalo! “Ele veio tão quietinho, parou atrás de mim e ficou me olhando.” A tensão era grande, qualquer movimento poderia espantar o bicho e o jacu poderia nunca mais voltar. “Ele levantava aquela crista, abaixava e eu ali. Nem respirava. Ele ficou. Ficou. Ficou… Eu não me mexi, não fiz nada. Se ele for lá na poça eu tiro a foto dele.”

Depois de cinco minutos a ave passou pelo fotógrafo, foi em direção à poça e começou a beber água. Clique! Após sete anos de busca, Jorge conseguiu fotografar uma das aves mais raras e desconhecidas da Amazônia.

Após sete anos de muita determinação, Jorge conseguiu tirar a foto do jacu-estalo-escamoso (Neomorphus squamiger) - Foto: Jorge Lopes

Após sete anos de muita determinação, Jorge conseguiu tirar a foto do jacu-estalo-escamoso (Neomorphus squamiger) – Foto: Jorge Lopes

O feito virou notícia (Brasileiros registram o jacu-estalo-escamoso, ave rara da Amazônia) e foi classificado como importante pela comunidade científica porque ofereceu dados valiosos para o trabalho de conservação do jacu-estalo-escamoso, espécie considera vulnerável pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês).

Jorge diz que já fotografou cerca de 400 espécies e continua em busca dos animais mais difíceis da região. Agora está atrás da coruja-preta. Mas o fotógrafo é paciente “Quero que chegue a hora e sei que vai chegar. A natureza vai colaborar comigo e me dar esse presente. Eu tenho certeza disso.” Não tenho nenhuma dúvida de que ele vai conseguir o que quer.

Abaixo segue uma pequena amostra do trabalho de Jorge como fotógrafo:

Arara-canindé (Ara ararauna) - Foto: Jorge Lopes

Arara-canindé (Ara ararauna) – Foto: Jorge Lopes

Tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla) - Foto: Jorge Lopes

Tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla) – Foto: Jorge Lopes

Anambé-azul (Cotinga cayana) - Foto: Jorge Lopes

Anambé-azul (Cotinga cayana) – Foto: Jorge Lopes

Irara (Eira barbara) - Foto: Jorge Lopes

Irara (Eira barbara) – Foto: Jorge Lopes

Garça-real (Pilherodius pileatus ) - Foto: Jorge Lopes

Garça-real (Pilherodius pileatus) – Foto: Jorge Lopes

Anambé-pompadora (Xipholena punicea) - Foto: Jorge Lopes

Anambé-pompadora (Xipholena punicea) – Foto: Jorge Lopes

Curica-de-bochecha-laranja (Pyrilia barrabandi) - Foto: Jorge Lopes

Curica-de-bochecha-laranja (Pyrilia barrabandi) – Foto: Jorge Lopes

Anambé-preto (Cephalopterus ornatus) - Foto: Jorge Lopes

Anambé-preto (Cephalopterus ornatus) – Foto: Jorge Lopes

Araçari-de-pescoço-vermelho (Pteroglossus bitorquatus) - Foto: Jorge Lopes

Araçari-de-pescoço-vermelho (Pteroglossus bitorquatus) – Foto: Jorge Lopes

Ariranha (Pteronura brasiliensis) - Foto: Jorge Lopes

Ariranha (Pteronura brasiliensis) – Foto: Jorge Lopes

Harpia, também conhecida como gavião-real (Harpia harpyja) - Foto: Jorge Lopes

Harpia, também conhecida como gavião-real (Harpia harpyja) – Foto: Jorge Lopes

Livro Vermelho das Crianças estimula a conservação de animais ameaçados no Brasil

Lobo-guará, ilustração do Livro Vermelho das Crianças - Reprodução

Lobo-guará, ilustração do Livro Vermelho das Crianças – Reprodução

Você sabe o que é o Livro Vermelho? O que é uma espécie ameaçada? Quais são os principais perigos enfrentados pelos animais silvestres no Brasil e o que podemos fazer para salvá-los da extinção? Para responder a essas perguntas de forma simples e interessante, o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) lançou, em cooperação com a Unesco, o Livro Vermelho das Crianças.

O objetivo é popularizar a ciência como ferramenta para a conservação da natureza, promover as espécies da fauna brasileira, familiarizar as crianças com temas como a proteção dos animais ameaçados de extinção no Brasil e inspirar atitudes em favor do meio ambiente.

Capa do Livro Vermelho das Crianças - Reprodução - Reprodução

Capa do Livro Vermelho das Crianças – Reprodução – Reprodução

Ilustrado com desenhos feitos por 76 crianças de diversas regiões do Brasil, o Livro Vermelho das Crianças, de autoria de Otávio Maia e Tino Freitas, apresenta os animais brasileiros como protagonistas de histórias capazes de despertar a afetividade no leitor. São 50 contos divididos em sete temas:

  • Bichos da Amazônia
  • Bichos do Pantanal
  • Bichos do Cerrado
  • Bichos da Mata Atlântica
  • Bichos da Caatinga
  • Bichos do Pampa
  • Bichos do mar e ilhas oceânicas
Montagem com ilustrações do Livro Vermelho das Crianças - Reprodução

Montagem com ilustrações do Livro Vermelho das Crianças – Reprodução

O leitor vai se divertir com as tentativas de cortejo do pato-mergulhão, a caçada frustrada dos cachorros-vinagre, a conversa de Neymar e Messi no ninho da ararajuba e as reflexões filosóficas do peixe-boi-da-amazônia. Irá se comover com as indagações do soldadinho-do-araripe, com o tamanduá-bandeira que sofria bullying por ser banguela e a crise de identidade do tatu-bola. Entenderá a razão para o tatu-canastra ser considerado um engenheiro da mata e os araçaris e os sauins-de-coleira grandes dispersores de sementes. E sentirá a esperança renovada com a possibilidade da ararinha-azul, espécie extinta na natureza, voltar a colorir o céu da Caatinga.

O Livro Vermelho das Crianças não será comercializado, mas a versão eletrônica gratuita está disponível no site: livroaberto.ibict.br/handle/1/1056.

lustração do Livro Vermelho das Crianças - Reprodução

lustração do Livro Vermelho das Crianças – Reprodução