Pantanal: temporada de cheia

Espelho d'água na temporada de cheia - Foto: Fábio Paschoal

Espelho d’água na temporada de cheia – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 11 da série Pantanal: Terra das Águas

As chuvas começam no final de outubro/começo de novembro anunciando a temporada de cheia. O rio Paraguai e seus afluentes recebem mais água do que conseguem suportar, transbordam e transformam o Pantanal na maior planície inundável do planeta. As terras baixas são ocupadas completamente pela água e os campos de vegetação herbácea se transformam em leitos de lagos rasos e cristalinos.

Vazante sendo inundada – Foto: Fábio Paschoal

Vazante na cheia – Foto: Fábio Paschoal

Corixo na cheia – Foto: Fábio Paschoal

A volta das chuvas trás uma explosão de vida, as árvores, castigadas na estação da seca, voltam a produzir folhas e tudo volta a ser verde. Muitas aves começam a estação de acasalamento para aproveitar a abundância de frutos que serão produzidos aumentando a chance de sobrevivência dos filhotes. Os mamíferos procuram abrigo em partes mais elevadas onde podem dormir e procurar alimento ou saem do Pantanal em busca de terras secas. Já os répteis e anfíbios se sentem mais a vontade para sair.

Cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) – Foto: Fábio Paschoal

Capivara (Hydrochoerus hydrochaeris) – Foto: Fábio Paschoal

Víbora-do-pantanal (Dracaena paraguariensis) – Foto: Fábio Paschoal

Jararacussu-do-brejo (Hydronastes Gigas) – Foto: Fábio Paschoal

Sucuri-amarela (Eunectes notaeus) – Foto: Fábio Paschoal

Os campos abertos, antes habitados por veados campeiros, emas, tamanduás-bandeiras e outros animais terrestres, dão lugar aos patos, jacarés e inúmeras espécies de peixes que procuram por alimento e lugar para desova junto às plantas aquáticas multicoloridas que começam a se desenvolver.

Jacaré-do-pantanal (Caiman yacare) – Foto: Fábio Paschoal

Marreca-cabocla com filhotes (Dendrocygna autumnalis) – Foto: Fábio Paschoal

O Pantanal muda tanto que parece que estamos em um lugar completamente diferente. É difícil de descrever, mas quando o sol está brilhando e a água está calma, a paisagem é tão bonita que é possível ver o Céu aqui na Terra.

Não perca o capítulo 12 de série Pantanal: Terra das Águas na próxima quinta-feira (22 de dezembro)

O Céu aqui na Terra – Foto: Fábio Paschoal

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Advertisements

Urutau, ave que se parece com galho quebrado tem um grito horripilante

Mãe-da-lua ou urutau (Nyctibius griseus). Quando a luz da lanterna passa diretamente pela pupila da ave vemos dois olhos grandes e vermelhos. Isso acontece porque a luz bate nos vasos sanguíneos da retina e reflete a cor do sangue. Esse efeito amedrontador ajudou a criar a história do espírito da noite – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 10 da série Pantanal: Terra das Águas

Era tarde da noite, andávamos pela mata somente com lanternas, tentando fazer silêncio. Mas era impossível. As folhas secas no meio da trilha denunciavam nossa localização. Parecia que tudo estava perdido. Estávamos no Pantanal, procurando por corujas para fotografar. Andamos pra lá, voltamos pra cá, fomos até onde nosso cansaço nos permitia e nada. Era hora de voltar pra casa.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 9 da série Pantanal: Terra das Águas]

De repente ouvimos um grito horripilante! O som parecia sair de um filme de terror:

Gravação de Bradley Davis/ Creative Commons (Caso não consiga ouvir clique aqui)

Imediatamente os fachos de luz começaram a se movimentar rapidamente! Apontávamos em todas as direções, tentando descobrir qual era a fonte daquele barulho. Mas tudo que fazíamos era em vão.

Foi nesse momento que minha lanterna passou por Carlinhos, o guia local. Ele olhava para o chão e quando percebeu que havíamos parado de procurar disse: “É a Mãe da Lua. Um espírito que aparece no início da noite. Dizem que quando ela canta as crianças precisam entrar em casa e ir pra cama ou ela irá levá-las para o outro mundo. Vem aqui que eu vou te mostrar”.

Carlinhos começou a rastrear as copas das árvores balançando a lanterna de um lado para o outro. Parou em um ponto específico e pediu pra eu ficar logo atrás dele. No momento que me posicionei entendi o que ele queria dizer. Dois olhos gigantes, vermelhos como sangue, nos fitavam no meio da escuridão.

Carlinhos continuou com a explicação: “Na verdade a Mãe da Lua é uma ave, mas ela é tão parecida com um galho quebrado que ninguém conseguia descobrir o que fazia o barulho. Pensaram que era um espírito. Até hoje as mães contam a história do espírito da noite para seus filhos, e as crianças saem correndo pra cama quando o ouvem cantar”.

O mãe-da-lua-grande (Nyctibius grandis) é o responsável pelo canto que vocês ouviram no início do post. Além dele existem mais quatro espécies de urutau no Brasil – Foto: iStockphoto/Thinkstock

Fomos chegando mais perto e conseguimos ver o animal, que é muito semelhante a uma coruja.

Também conhecido como urutau, ele precisa se parecer com um galho quebrado porque passa mais de um mês parado no mesmo lugar. A mãe coloca um ovo e fica sentada sobre ele até o filhote nascer. Se ela sair o ovo fica exposto e pode cair. Sua camuflagem é perfeita: dependendo do ângulo é quase impossível dizer onde o galho termina e a ave começa.

Quando se sente ameaçado, aumenta ainda mais sua semelhança com o tronco elevando a cabeça para cima e encostando a cauda no galho em que está pousado. Mesmo com os olhos fechados consegue ver o que está acontecendo. Duas pequenas janelas nas pálpebras funcionam como um olho mágico (aquele que você coloca na porta da sua casa pra saber quem é que está do outro lado). Graças a elas a Mãe da Lua pode ter grandes olhos – necessários para enxergar à noite quando sai para caçar insetos – sem chamar a atenção durante o dia.

Se algum dia você ouvir a mãe-da-lua cantar, não se assuste, apenas lembre-se de que é hora de colocar as crianças para dormir.

Não perca o capítulo 11 de série Pantanal: Terra das Águas na próxima quinta-feira (15 de dezembro)

Detalhe do “olho mágico” do urutau (Nyctibius griseus). As duas pequenas aberturas nas pálpebras permitem que a ave veja o que está acontecendo sem abrir os olhos totalmente. Com isso ele mantém o disfarce de galho quebrado e sabe se o predador está chegando perto demais. Em último caso, ele voa e deixa seu ovo para trás – Foto: Fábio Paschoal

Pantanal: a primeira vez a gente nunca esquece

Cabeças-secas voam com o nascer do sol - Foto: Fábio Paschoal

Cabeças-secas voam com o nascer do sol – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 9 da série Pantanal: Terra das Águas

Após um mês tentando decorar os nomes dos principais animais do Pantanal, em inglês e português, observando seus comportamentos e aprendendo muito com os guias locais, era a hora de guiar o meu primeiro pacote. O Éder, um guia mais experiente, estaria comigo para me avaliar.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 8 da série Pantanal: Terra das Águas]

Ainda estava escuro quando saímos, mas o canto dos pássaros-pretos anunciava que o dia estava para começar. Os anus-brancos se encolhiam um ao lado do outro procurando os primeiros raios de sol para se aquecer. Cegonhas, socós e garças começavam a chegar para procurar por peixes, caramujos, caranguejos e vermes nas partes rasas das baías. Um casal de corujas-buraqueiras cuidava de seu ninho na base de um cupinzeiro, os periquitinhos-da-serra procuravam por comida na entrada da mata enquanto os bugios iam para a parte mais alta das árvores para se esquentar. Por todos os lados era possível se observar jacarés que dividiam o espaço com capivaras e cervos-do-pantanal. O silêncio só era interrompido pelos chamados das araras-azuis que cruzavam o céu voando em círculos sobre nossas cabeças como se quisessem chamar a atenção.  A cada 5 metros nós parávamos para observar uma espécie nova e foi assim durante o dia inteiro.

Anus-brancos (Guira guira) - Foto: Fábio Paschoal

Anus-brancos (Guira guira) – Foto: Fábio Paschoal

 Tapicurus (Phimosus infuscatus) - Foto: Fábio Paschoal

Tapicurus (Phimosus infuscatus) – Foto: Fábio Paschoal

 Cabeças secas (Mycteria americana) - Foto: Fábio Paschoal

Cabeças secas (Mycteria americana) – Foto: Fábio Paschoal

Corujas Buraqueiras (Athene cunicularia) - Foto: Fábio Paschoal

Corujas Buraqueiras (Athene cunicularia) – Foto: Fábio Paschoal

Periquitinhos da Serra (Pyrrhura devillei) - Foto: Fábio Paschoal

Periquitinhos da Serra (Pyrrhura devillei) – Foto: Fábio Paschoal

Os bugios (Alouatta caraya) são conhecidos pelo chamado grave, que pode ser ouvido a quilômetros de distância. A espécie encontrada no Pantanal possui diferença entre os sexos: O macho é preto e a fêmea dourada. Quando um filhote do sexo masculino nasce, ele tem a coloração dourada e permanece agarrado à mãe, onde fica camuflado e fora de perigo. Quando começa a ficar independente, e consegue se defender sozinho, adquire a coloração preta - Foto: Fábio Paschoal

A fêmea do bugio (Alouatta caraya) – Foto: Fábio Paschoal

A arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus) é a maior arara do mundo - Foto: Fábio Paschoal

Araras-azuis (Anodorhynchus hyacinthinus) – Foto: Fábio Paschoal

Jacaré-do-pantanal (Caiman yacare): a mãe cuida de dezenas de filhotes

Jacaré-do-pantanal (Caiman yacare) cuidando dos filhotes – Foto: Fábio Paschoal

Capivara (Hydrochoerus hydrochaeris) - Foto: Fábio Paschoal

Capivara (Hydrochoerus hydrochaeris) – Foto: Fábio Paschoal

Maior espécie de cervídeo da América do Sul, o cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) vive em áreas alagadas com até meio metro de profundidade. Possui um casco característico com membranas interdigitais que é muito útil para distribuir o peso do animal sobre o solo lamacento e ainda ajuda na natação - Foto: Fábio Paschoal

Cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) – Foto: Fábio Paschoal

Então caiu a noite, e com ela veio uma garoa fina. Por mais que procurássemos, nenhum bicho queria aparecer. O tempo foi passando, a chuva apertando e a chance de vermos alguma coisa estava quase no fim. Ao chegarmos próximo à Ponte do Paizinho, onde sempre fica uma grande concentração de jacarés, o Éder sussurrou no meu ouvido: “Não mostra nada agora. A gente vai passar aqui de novo e se não vermos nenhum bicho você para aqui e fala dos jacarés.”
Nesse mesmo instante parei o caminhão! O Éder já estava quase tirando a lanterna da minha mão. Por alguns segundos fiquei paralisado, sem acreditar no que estava acontecendo. Estava frio, estava chovendo e nossas chances de ver alguma coisa eram realmente pequenas. Mas lá estava ela! Sentada na nossa frente! Foi então que recuperei o fôlego e as palavras saíram da minha boca: “Jaguatirica! Jaguatirica! Jaguatirica!” Todos ficaram em silêncio. A jaguatirica conosco por uns 4 minutos antes de entrar na mata.
 
Nascer da lua no Pantanal - Foto: Fábio Paschoal

Nascer da lua no Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

A jaguatirica (Leopardus pardalis) é um felino generalista. Pode ser encontrada em planícies alagáveis, como o Pantanal, em densas florestas, como a Amazônia ou ambientes mais secos, como o Cerrado. Em sua dieta estão pequenos mamíferos, répteis, anfíbios e peixes. Apesar de não estar ameaçada de extinção, são caçadas por sua pele e compradas como animais de estimação. O desmatamento é outro fator que contribui para o declínio da população da espécie - Foto: Fábio Paschoal

A jaguatirica (Leopardus pardalis) é um felino generalista. Pode ser encontrada em planícies alagáveis, como o Pantanal, em densas florestas, como a Amazônia ou ambientes mais secos, como o Cerrado. Em sua dieta estão pequenos mamíferos, répteis, anfíbios e peixes. Apesar de não estar ameaçada de extinção, são caçadas por sua pele e compradas como animais de estimação. O desmatamento é outro fator que contribui para o declínio da população da espécie – Foto: Fábio Paschoal

No momento em que ela saiu do nosso campo de visão todos se levantaram e começamos a comemorar! Foi fantástico! Meu primeiro passeio como guia não poderia ter sido melhor. É como dizem por aí: “A primeira vez a gente nunca esquece.”

Salvar

Salvar

Salvar

Fotos de 20 animais da Amazônia

A Amazônia é a maior área contínua de floresta tropical da Terra e serve como um dos últimos refúgios da vida selvagem. As estimativas do número total de espécies variam entre 800 mil e 30 milhões. Nenhum outro lugar do mundo chega a esse patamar. Essa grande biodiversidade está sujeita a variações climáticas e deve se adaptar a dois períodos bem definidos para sobreviver.

Durante a seca (junho a novembro) algumas árvores perdem as folhas para economizar água mostrando os macacos-aranhas que lutam para buscar frutos. O nível dos rios baixa expondo os barrancos onde o saí-andorinha irá construir seu ninho. Borboletas aproveitam os bancos de areia para pegar nutrientes necessários para a reprodução. A anta, desesperada por água, procura pequenas poças dentro da mata. Se não consegue encontrar nada, se arrisca na beira do rio, onde a onça-pintada está a espreita.

Mas quando tudo parece que vai arder em chamas, chega a temporada das chuvas (dezembro a maio) trazendo a água tão essencial para a vida. É a época das frutas: figo, caju, jaca, manga, açaí, ingá, mescla, cacao, cupuaçu… As saíras, tucanos, araras e macacos se fartam de tanta comida. Dentro da mata, os sapos venenosos tentam achar parceiros para acasalar enquanto as cobras procuram por lugares mais elevados para fugir da água que começa a inundar a floresta. É então que as borboletas surgem novamente, anunciando o final das chuvas e o recomeço de um novo ciclo na Amazônia.

Para mostrar um pouco dessa fantástica biodiversidade, selecionei imagens de alguns animais que podem ser encontrados na região do Cristalino Lodge, na Amazônia brasileira.

 

João-de-barro prende a parceira se descobre que foi traído. Verdade ou mito?

João e Maria em seu ninho de barro – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 8 da série Pantanal: Terra das Águas

O que você faria se descobrisse uma traição? O joão-de-barro fecharia a parceira dentro do ninho, aprisionando-a ali para sempre. Essa história, que ouvi durante uma roda de tereré no Pantanal, me deixou intrigado e resolvi investigar a origem da crença.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 7 da série Pantanal: Terra das Águas]

O joão-de-barro constrói seu ninho junto com a fêmea. Eles são excelentes arquitetos e utilizam lama para fazer uma estrutura complexa, semelhante a um forno de pizza. Para entrar na casa é preciso passar por um corredor em forma de “L”, que leva a uma câmara onde a fêmea irá colocar seus ovos. Lá eles estarão protegidos do bico do tucano, que não consegue fazer a curva.

Depois de muito tempo olhando para esses ninhos encontrei um exemplar fechado, o que dava sustentação à crença. Sentei na pedra mais próxima e comecei a observar. Reparei que havia insetos entrando e saindo por um pequeno orifício. Seriam moscas colocando seus ovos na carcaça da “maria-de-barro”? Resolvi chegar mais perto para averiguar.

Quando consegui identificar os animais tudo fez sentido. Eram abelhas.

Algumas espécies de abelhas utilizam ocos de árvore para construir a colmeia. Se a entrada for muito grande, as operárias irão diminuir a abertura com cera. Um ninho de joão-de-barro abandonado é uma ótima cavidade para os insetos, e eles irão aproveitá-la se não acharem um lugar melhor para se estabelecer.

Para mim, essa era uma explicação muito mais convincente do que a história da traição. Porém, já vi tanta coisa surpreendente na natureza que fico inseguro em afirmar que a crença não é verdadeira. Prefiro colocar de outra forma: até hoje não há registros confiáveis que sustentem essa teoria de crime passional do joão-de-barro.

(Veja o capítulo 9 da série Pantanal: Terra das Águas)

Salvar

Arara-azul: da beira da extinção aos céus do Pantanal

Arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus), a maior arara do mundo – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 7 da série Pantanal: Terra das águas

Pantanal, 1989. A bióloga Neiva Guedes acompanhava um curso de conservação da natureza quando se deparou com uma árvore repleta de aves. O bando era majestoso, composto por cerca de trinta indivíduos que coloriam a paisagem com um azul vibrante. Os olhos, negros, eram destacados por um anel amarelo de cor intensa e o bico era extremamente forte, capaz de quebrar a casca das mais duras sementes. Pela primeira vez na vida, Neiva se deparava com a maior arara do mundo, a arara-azul.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 6 da série Pantanal: Terra das Águas]

Mas aquela era uma cena rara. O desmatamento derrubava acuris e bocaiuvas, as palmeiras responsáveis pela produção das sementes que servem de alimento para arara-azul. O manduvi, árvore de cerne macio que abriga mais de 90% dos ninhos da espécie, dava lugar a pastos e plantações. Traficantes de animais escalavam as árvores que permaneciam de pé para pegar os filhotes e vendê-los, principalmente no exterior. Os animais eram transportados em caixas pequenas e superlotadas, sem água e sem comida. O estresse era grande e, na briga por espaço, as ararinhas acabavam mutiladas ou mortas. Algumas aves eram forçadas a consumir bebidas alcoólicas para se acalmar, enquanto outras recebiam um soco, para quebrar osso esterno e impossibilitá-las de cantar. A arara-azul estava à beira da extinção.

Traficantes colocam os filhotes de arara-azul em caixas superlotadas. O estresse é muito grande e muitos acabam morrendo. Segundo o 1º Relatório Nacional Sobre o Tráfico da Fauna Silvestre elaborado pela RENCTAS (Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais) de cada 10 animais capturado pelo tráfico 9 acabam morrendo – Foto Neiva Guedes

Em 1990 Neiva iniciou o Projeto Arara Azul. Com o objetivo de manter populações viáveis da espécie em vida livre no seu habitat natural e promover a conservação da biodiversidade do Pantanal, a bióloga começou a mudar a história da espécie.

A arara-azul passou a ser minuciosamente estudada. Dados sobre a biologia e reprodução eram coletados diariamente, a saúde dos filhotes era monitorada, ninhos artificiais foram instalados para aumentar a quantidade de locais disponíveis para a postura de ovos, tábuas foram colocadas em ninhos naturais que apresentavam uma abertura muito grande, deixando os filhotes mais protegidos contra predadores e as intempéries do tempo. Em paralelo um trabalho de educação ambiental era desenvolvido nas escolas, informando às crianças das ameaças do desmatamento e do tráfico de animais. As pessoas passaram a ter orgulho das aves e informavam o projeto da localização de novos ninhos. O tráfico passou a ser quase inexistente.

Em 22 anos a população, que era de 1.500 indivíduos, chegou a mais de 5000, a arara-azul saiu da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção e voltou a pintar os céus do Pantanal.

Neiva Guedes, bióloga fundadora do Projeto Arara Azul e pesquisadora da Uniderp, mostrando ovo e filhote de arara-azul com 10 dias – Foto: Eveline Guedes

Hoje, o monitoramento continua durante o ano inteiro. Na época de reprodução (julho a março) o trabalho é intensificado. O desenvolvimento dos filhotes é acompanhado por biólogos e veterinários que verificam os aspectos sanitários, anilham, colocam microchip e coletam amostras de material biológico e sangue para análise de DNA. O manejo dos ninhos, naturais e artificiais, é feito entre abril e junho. Todo o processo pode ser acompanhado pelos turistas que se hospedam no Refúgio Ecológico Caiman, onde está localizada a base do Projeto Arara Azul.

A bióloga Daphne Nardi checa as condições de saúde de um filhote de arara-azul – Foto: Fábio Paschoal

Kefany Ramalho, bióloga do Projeto Arara Azul, verifica as condições de um filhote que nasceu em um ninho artificial – Foto: Fábio Paschoal

Mas há muito trabalho pela frente. Neiva diz que é necessário que as populações da Amazônia (aproximadamente 500 indivíduos) e do Nordeste (aproximadamente 1000 indivíduos) sejam estudadas e que haja um monitoramento de longo prazo em todas as regiões do país onde a ave ocorre, para verificar se o crescimento da espécie é sustentável ou se está acontecendo somente pelas ações realizadas pelo projeto.

Segundo Neiva, a espécie ainda é classificada como ameaçada de extinção pela lista vermelha da IUCN (União Internacional pela Conservação da Natureza na sigla em inglês). Assim, os esforços do Projeto Arara Azul continuam para tentar mudar esse status.

A bióloga acha que é preciso uma fiscalização mais efetiva para controlar o tráfico no norte e nordeste do Brasil. Ela acredita que as regiões onde as araras-azuis se encontram podem ser beneficiadas pelo ecoturismo, que traz novas oportunidades de emprego para as pessoas da região, gera renda e ativa a economia local. “Creio que um dia a arara-azul sai da lista.”

(Veja o capítulo 8 da série Pantanal: Terra das Águas).

Os filhotes de arara-azul que estavam amontoados na caixa foram encaminhados para o Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS), onde receberam os devidos cuidados. Segundo Neiva Guedes essa foi a última apreensão de araras-azuis no Mato Grosso do Sul e ocorreu em 2004 – Foto: Neiva Guedes

Salvar

Salvar

Anta: o maior mamífero terrestre da América do Sul

Anta-sul-americana (Tapirus terrestris) - Foto: Fábio Paschoal

Anta-sul-americana (Tapirus terrestris) – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 6 da série Pantanal: Terra das águas

Existem 5 espécies de antas conhecidas pela ciência: a anta-da-montanha (Andes), a anta-centro-americana (América Central) e a anta-malaia (Indonésia) – que estão ameaçadas de extinção segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês). Em território brasileiro encontramos a anta-sul-americana, que é considera vulnerável, e a anta-pretinha, descoberta recentemente.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 5 da série Pantanal: Terra das Águas]

“A anta [Tapirus terrestris] é o maior mamífero terrestre da América do Sul. Além disso, é a jardineira de nossas florestas por ser uma excelente dispersora de sementes, contribuindo desta forma para a formação e manutenção da biodiversidade dos biomas brasileiros onde vive (Amazônia, Pantanal , Cerrado e Mata Atlântica). E tem mais: estudos recentes mostraram que a espécie tem uma quantidade imensa de neurônios, confirmando que ela é um animal extremamente inteligente. Portanto, a cultura brasileira de usar anta como xingamento, com conotação pejorativa, é completamente injusta e absolutamente infundada. Ser chamado de anta é um elogio!”. As palavras são de Patrícia Médici, Ph.D. em manejo de biodiversidade e coordenadora da Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira. O objetivo do projeto é estabelecer um programa de pesquisa e conservação da anta-sul-americana na região do Pantanal e depois expandir as ações para a Amazônia e o Cerrado.

Anta-centro-americana (Tapirus bairdii) – Foto: Santhosh Kumar/iStock/Thinkstock

Anta-centro-americana (Tapirus bairdii) – Foto: Santhosh Kumar/iStock/Thinkstock

Em agosto de 2013, a pesquisadora, em parceria com a jornalista ambiental Liana John, lançou a campanha Minha Amiga é uma Anta, desenvolvida para o público infanto-juvenil (veja o vídeo da campanha no final do post). A intenção era chamar a atenção sobre a importância da conservação da anta brasileira, despertar o orgulho pela ocorrência da espécie no Brasil e desmistificar o conceito de que “anta” é um ser desprovido de inteligência .

É possível baixar a cartilha educativa da anta brasileira, escrita por Liana John e Patrícia Medici e ilustrada pelo cartunista Luccas Longo, com informações sobre a espécie, materiais para estudo e trabalhos de escola, fotografias e ilustrações.

Tapirus kabomani é a primeira espécie de anta descoberta após Tapirus bairdii, descrita em 1865 - Foto: Divulgação

A anta-pretinha (Tapirus kabomani) é a primeira espécie de anta descoberta após Tapirus bairdii, descrita em 1865 – Foto: Divulgação

O trabalho de Patrícia é reconhecido internacionalmente. Ela foi escolhida em 2014 para o TED Fellows Program, que seleciona jovens inovadores, engajados e inspiradores e os treina para que façam palestras no TED Talks (Veja a palestra de Patrícia no final do post). O programa é uma iniciativa do movimento global TED (Technology, Entertainment and Design) – organização sem fins lucrativos dedicada ao conceito baseado em Ideas Worth Spreading (ideias que merecem ser espalhadas, na tradução literal do inglês).

Anta-da-montanha (Tapirus pinchaque) – Foto: Diego Lizcano/Creative Commons

Anta-da-montanha (Tapirus pinchaque) – Foto: Diego Lizcano/Creative Commons

Para chamar a atenção para a importância desses animais foi criado o Dia Mundial da Anta (27 de abril). Apesar de dar margem para inúmeros trocadilhos, a data tem um propósito sério: a conservação das cinco espécies de antas encontradas no planeta.

O desmatamento, a fragmentação do habitat, a competição com animais domésticos, a caça ilegal e os atropelamentos em rodovias fazem com que a população das antas continue diminuindo. Nada mais justo do que um dia para lembrar a importância de cuidar bem desses simpáticos animais (Veja o capítulo 7 da série Pantanal: Terra das Águas).

Anta-malaia (Tapirus indicus) – Foto: wathanyu/iStock/Thinkstock

Anta-malaia (Tapirus indicus) – Foto: wathanyu/iStock/Thinkstock

Veja abaixo o vídeo da campanha Minha Amiga é uma Anta

Salvar

Salvar

Gavião-fumaça: a ave de rapina que se aproveita de incêndios para caçar

Gavião-fumaça (Heterospizias meridionalis) – Foto de Fábio Paschoal

Capítulo 5 da série Pantanal: Terra das Águas

Gavião-caboclo, gavião-casaca-de-couro, gavião-telha, gavião-tinga… Todos esses nomes pertencem ao mesmo bicho, o Heterospizias meridionalis. Como é encontrado em vários estados do Brasil, acabou recebendo várias denominações. Porém, estou mais interessado no nome utilizado no Pantanal: gavião-fumaça.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 4 da série Pantanal: Terra das Águas]

O fumaça é uma companhia constante durante os passeios pela planície pantaneira. Gosta de áreas abertas, e é avistado na beira da estrada com certa frequência. Procura por uma variedade grande de presas: pequenos mamíferos, aves, cobras, lagartos, rãs, sapos e grandes insetos.

Apesar de ser um animal comum, fascina os pantaneiros devido a um hábito interessante que lhe rendeu seu nome: quando há um incêndio, comum na época de seca, o gavião sobrevoa as labaredas e fica na fumaça. Espera pacientemente até observar um animal fugindo do fogo. A presa escapa das chamas, mas não escapa do gavião-fumaça.

Se a estratégia não der certo, o fumaça não desiste. Volta para a parte já consumida pelo fogo e procura um churrasquinho para fazer o seu almoço. Ele não é o único gavião com esse comportamento, mas acabou recebendo o título.

Os peões acreditam que o gavião-fumaça coleta galhos em brasa para alimentar o incêndio e continuar caçando, mas ainda não há nenhum estudo científico que comprove isso. Assim, a lenda continua, e é passada de geração em geração nos campos abertos do Pantanal (Veja o capítulo 6 da série Pantanal: Terra das Águas).

Salvar

Tamanduá-bandeira: o abraço que pode matar uma onça-pintada

O tamanduá-bandeira é o maior de todos os tamanduás. Sua grande cauda, semelhante à uma bandeira, é responsável pelo seu nome. Quando se recolhe para dormir, o animal a dobra em direção ao corpo e a bandeira vira um cobertor – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 4 da série Pantanal: Terra das Águas

Dizem que a primeira vez a gente nunca esquece. Era meu primeiro dia de treinamento para me tornar guia no Pantanal. A ansiedade e o nervosismo se misturavam com a expectativa de saber qual seria o primeiro mamífero que iria ver na maior planície inundável do mundo. Estávamos fazendo uma trilha quando a grama alta começou a se mover. Imediatamente todos ficaram imóveis e fizeram silêncio. Era possível ouvir o barulho das folhas secas que se quebravam enquanto o animal se aproximava. Os olhares permaneciam fixos, acompanhando o movimento da grama. Mais a frente havia um campo aberto. Fomos andando lentamente e nos posicionamos de frente para o animal. Então, do meio do mato, apareceu o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla)! Era uma mãe, que carregava o filhote nas costas.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 3 da série Pantanal: Terra das Águas]

Ela vinha com um andar desajeitado. Isso acontece porque os tamanduás andam nos nódulos dos dedos, assim suas garras nunca tocam o solo e permanecem afiadas para cavar as fortalezas de barro construídas por cupins e formigas (as únicas presas que fazem parte de seu cardápio). O tamanduá é lento, praticamente cego e possui uma audição muito ruim. A primeira vista parece uma presa fácil.

Parece mas não é! Quando sente uma ameaça o bandeira muda completamente de postura: apoia-se nas patas traseiras, abre os braços, mostra as garras afiadas e espera pacientemente. Se o predador investir, recebe um abraço mortal. Dessa forma pode matar até uma onça-pintada. Por isso, quando você recebe um abraço de uma pessoa que não gosta de você, dizemos que essa pessoa está dando o famoso “abraço de tamanduá”.

O tamanduá-bandeira tem uma banda preta na lateral do corpo. Quando tem um filhote, a mãe o carrega nas costas e o posiciona de modo que as bandas se sobreponham, parecendo uma única banda e um único tamanduá. Assim, o filhote permanece camuflado e protegido contra predadores – Foto: Fábio Paschoal

A espécie é encontrada em todos os biomas brasileiros, mas é considerada vulnerável pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês). A destruição do habitat para a agricultura, as queimadas em regiões de plantação de cana e os atropelamentos nas estradas são as principais ameaças enfrentadas pelo tamanduá-bandeira.

O tamanduá-mirim, assim como todos os tamanduás, é capaz de se levantar e assumir uma postura bípede. Assim se parece maior e pode intimidar seu agressor. Se a ameaça persistir, o tamanduá abre os braços e mostra suas garras afiadas. Se isso não for suficiente, desfere o abraço mortal. Foto: Fábio Paschoal

Além do bandeira existe mais uma espécie de tamanduá no Pantanal. O tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla), que está na categoria pouco preocupante mas enfrenta as mesmas dificuldades de seu irmão maior. O Projeto Tamanduá é destaque no Brasil, e luta pela conservação de todos os xenarthras (grupo que inclui tamanduás, tatus e preguiças) na América Latina.

Durante a temporada de seca, principalmente nos meses de setembro e outubro,  tive muitos encontros com tamanduás. Como eles não escutam e nem enxergam muito bem, é possível chegar bem próximo deles se você se posicionar contra o vento. São animais formidáveis!

[Veja o capítulo 5 da série Pantanal: Terra das Águas]

Pantanal: a maior planície inundável do mundo

Os animais precisam se adaptar ao ciclo das águas para sobreviver no Pantanal - Foto: Fábio Paschoal

Os animais precisam se adaptar ao ciclo das águas para sobreviver no Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 1 da série Pantanal: Terra das Águas

O Pantanal é a maior planície inundável do mundo, reconhecido pela Unesco como Patrimônio Natural da Humanidade e Reserva da Biosfera. Localizado na bacia do Alto Paraguai, entre Brasil (nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul), Bolívia e Paraguai, funciona como elo de ligação entre Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Chaco e Bosque Seco Chiquitano.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

Essas características criam um ambiente com uma biodiversidade extremamente rica. Só para se ter uma ideia, segundo a ONG SOS Pantanal, o bioma possui pelo menos 3.500 espécies de plantas, 550 de aves, 124 de mamíferos, 80 de répteis, 60 de anfíbios e 260 espécies de peixes de água doce. O Pantanal é a casa da arara-azul, das piúvas, do tamanduá-bandeira, dos caraguatás, da onça-pintada e de muitas outras espécies.

A arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus) é a maior arara do mundo - Foto: Fábio Paschoal

A arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus) é a maior arara do mundo – Foto: Fábio Paschoal

Onça-pintada (Panthera onca), o maio felino das Américas - Foto: Fábio Paschoal

Onça-pintada (Panthera onca), o maior felino das Américas e a grande estrela dos safáris fotográficos do Pantanal- Foto: Fábio Paschoal

Outra peculiaridade do Pantanal é a distribuição das terras. 95% de seu território se encontra em propriedades privadas dedicadas à pecuária. Mesmo assim, aproximadamente 85% do bioma continua preservado. Isso pode parecer contraditório, mas os campos abertos por aqui são obras da natureza e não do homem. Não é preciso desmatar para iniciar a criação de gado e as águas que inundam a planície durante meses dificultam o desenvolvimento da agricultura.

Planície cortada por capões e florestas de cordilheira no Pantanal - Foto: Fábio Paschoal

Planície cortada por capões e florestas de cordilheira no Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

Os lagos são chamados da baías no Pantanal - Foto: Fábio Paschoal

No Pantanal, os lagos são chamados da baías – Foto: Fábio Paschoal

O regime das águas também impede o estabelecimento de árvores em áreas alagadas no período da cheia. As florestas ficam restritas às partes mais altas. Quando são pequenas e circulares são chamadas de capões, quando são estreitas e compridas são chamadas florestas de cordilheira. Independente do formato, fornecem abrigo para animais e plantas.

Os lagos, aqui chamados de baías, compõem o cenário perfeito. Quando a água está parada e o vento para de soprar, fica difícil dizer onde a terra acaba e o céu começa. O povo é muito contido, mas não deixa de te convidar para uma roda de tereré (o chá mate servido na guampa, um copo feito com o corno do boi) mesmo que nunca tenham trocado uma palavra com você anteriormente.

Peões manejam o gado e são presença constante no Pantanal - Foto: Fábio Paschoal

Peões manejam o gado e são presença constante no Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

Os pantaneiros fazem a roda de tereré pelo menos duas vezes por dia - Foto: Fábio Paschoal

Os pantaneiros fazem a roda de tereré pelo menos duas vezes por dia – Foto: Fábio Paschoal

É claro que existem problemas. O desenvolvimento econômico no Pantanal, baseado na pecuária extensiva e agricultura, geram queimadas, desmatamento, assoreamento e poluição dos rios. A mineração e siderurgia estão se instalando na região e representam mais um problema para o ecossistema.

Porém, a principal ameaça vem de fora, de áreas mais elevadas. As alterações nas florestas nativas (como Cerrado e Chaco) causam a aceleração do processo de assoreamento em praticamente todos os principais rios da região. Isso pode alterar o clico das águas, essencial para a manutenção do bioma.

Esse é o Pantanal que estou prestes a explorar. Vamos nessa!(Veja o capítulo 2 da série Pantanal: Terra das Águas).

Espelho d'água no pôr do sol pantaneiro - Foto: Fábio Paschoal

Espelho d’água no pôr do sol pantaneiro – Foto: Fábio Paschoal