Pantanal: terra das águas

Nascer do sol no Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

O Pantanal foi minha casa durante dois anos. Morava em uma pousada, no meio da maior planície alagável do mundo, isolado da civilização. Meu trabalho era guiar grupos interessados em história natural e conduzir passeios para a observação de animais selvagens. Acabei desenvolvendo uma relação especial com a planície pantaneira e me sentia em casa ao andar pelos campos abertos. Hoje, 12 de novembro, Dia do Pantanal, gostaria de fazer uma homenagem compartilhando um pouco da minha experiência nesse lugar extraordinário. Para isso recorri ao meu diário, que fazia ao final de todas as noites, e selecionei o texto que escrevi no meu último dia por lá:

“Foi no ano de 2008 que tudo começou. Estava formado e desesperado para arrumar um emprego. Mandei currículo para todos os lugares possíveis e imagináveis. Passei por entrevistas, dinâmicas de grupo e todo aquele blá blá blá que fazem você passar antes de arranjar um trabalho. Nada dava certo. Eu era um biólogo que não queria dar aula nem fazer pesquisa, e os departamentos de RH me achavam uma incógnita.

Então recebi um telefonema do Refúgio Ecológico Caiman dizendo que havia sido contratado! Uma semana depois estava no Pantanal, começando o treinamento para ser guia de ecoturismo. Esse trabalho revelou minha paixão pela vida selvagem e mudou minha maneira de encarar o mundo.

Tucano-toco bebendo água. Durante a seca os animais se concentram em lagos e na beira de rios – Foto: Fábio Paschoal

O Pantanal é uma terra de extremos, com duas estações bem definidas controladas pelo ciclo das águas. Em abril, com o final das chuvas, começa a estação da seca. A água que inundava a planície passa a ser cada vez mais escassa e se concentra em pequenas poças onde os animais se amontoam para matar a sede. As aves começam a estação de acasalamento e se encontram com a plumagem exuberante para tentar conquistar um companheiro. As árvores perdem as folhas para economizar água e o que antes era uma paisagem verde e exuberante se torna marrom e árida.

É quando um dos eventos mais marcantes do ano se inicia: a floração das piúvas (ipês). O Pantanal muda de cor e se torna rosa por uma semana. Depois é a vez do para-tudo colorir a planície de amarelo por sete dias. Em seguida, as flores roxas do tarumã fecham o espetáculo. Nessa época (meados de setembro) o capim fica esturricado e um raio pode começar um incêndio em um piscar de olhos.

A floração das piúvas é um dos eventos mais bonitos da temporada de seca – Foto: Fábio Paschoal

João-pinto no meio das flores do para-tudo – Foto: Fábio Paschoal

Nesse momento, quando tudo está prestes a arder em chamas, chegam as chuvas que renovam a vida. O rio Paraguai e seus afluentes transbordam, inundam e transformam o Pantanal na maior planície alagável do planeta. As terras baixas são ocupadas completamente pela água e os campos abertos viram leitos de rios.

As plantas, revigoradas, voltam a produzir folhas e tudo fica verde novamente. As aves, que se acasalaram durante a seca, aproveitam a época de fartura para alimentar seus filhotes. Os mamíferos vão para lugares mais elevados, deixando os campos alagados para cegonhas, patos, jacarés e peixes que procuram por alimento entre as plantas aquáticas multicoloridas que começam a se desenvolver. A paisagem muda completamente e tudo parece tranquilo. Quando o sol está brilhando e a água acalma fica difícil dizer onde a Terra acaba e o Céu começa.

A grama alta dificulta a observação de animais na temporada de cheia. Alguns mamíferos procuram terras mais elevadas e deixam o Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

Espelho d’água na temporada de cheia – Foto: Fábio Paschoal

O Pantanal também é a terra dos peões. Pessoas simples e muito contidas, mas com uma sabedoria espantosa construída pelo dia a dia da vida pantaneira. Eles cuidam do gado, o principal aliado do bioma para a conservação. Como os campos abertos são naturais, não é preciso desmatar para fazer pastos. Os bois são criados soltos e convivem em harmonia com os animais selvagens. Muitas fazendas trabalham com ecoturismo, aliando atividade econômica e conservação do ambiente.

O pantaneiro e o gado são figuras muito típicas da região – Foto: Fábio Paschoal

Onça-pintada, o terciro maior felino do mundo, avistada em um safári no Pantanal - Foto: Fábio Paschoal

Infelizmente, fazendeiros abatem a onça-pintada para proteger seus rebanhos. No Pantanal, o Projeto Onçafari tenta salvar a espécie através do ecoturismo, mostrando que ela pode ter mais valor se permanecer viva – Foto: Fábio Paschoal

A vida pulsa por todos os lados, e é impossível não ficar emocionado com tanta beleza. É difícil sair daqui. Conheci pessoas incríveis (gente disposta a sacrificar a vida pela conservação de uma espécie) que me fazem acreditar que ainda há esperança para a Terra. O Pantanal me mostrou o que eu realmente gosto de fazer e, por isso, amo tanto esse lugar. Mas sinto que está na hora de procurar novos caminhos.

Saio daqui com a esperança revigorada e com o desejo de voltar. O Pantanal vai deixar saudades, mas estará sempre presente na minha memória e no meu coração.”

A maior arara do mundo (Anodorhynchus hyacinthinus) era extremamente rara. Em 1990 a população era de 1500 indivíduos, mas o Projeto Arara Azul mudou esse cenário. Hoje existem mais de 5000 araras colorindo o céu do Pantanal- Foto: Fábio Paschoal

Mais um dia acaba no Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

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33 thoughts on “Pantanal: terra das águas

  1. Lindíssimas fotos…
    Fazendeiros matam a onça pintada para que ela não ataque os seus rebanhos? ? Quem invadiu o habitat de quem? Parabéns ao Projeto Onçasafari e contem comigo!

  2. Espetacular essa matéria! Show de bola mesmo. Sou Sul-Mato-Grossense de coração e fiquei muito orgulhoso sobre a matéria! Parabéns…

  3. Belíssimas palavras! Se isso foi somente um dos textos de seu diário, fico imaginando todas as outras incríveis mensagens que você tem, parabéns!

  4. Lindas fotos, marcante experiencia registrada!!!
    Que muito mais pessoas compartilhassem desses sentimentos!
    Acompanho alguns dos seus trabalhos espetaculares que são enviadas por um grande fâ seu, seu pai! Aliás, que também desenvolve sua profissão com grande paixão! Tal pai, tal filho!
    Parabéns!!!

  5. Não sei que prejuízo os fazendeiros tem, eles são reembolsados pelo governo quando alguma cabeça de gado e atacado por onça… Isso quando não fazem safari com turistas estrangeiros para caçar e matar as onças… Safari esse que não sai de graça para esses turistas que pagam para vim exterminar a fauna pantaneira com ajuda dos que dizem que defender o nosso Pantanal, mas que só sabem explorar até a último respiro do Pantanal…isso já foi noticia em todo o MS e o caso foi abafado por se tratar de uma fazendeira muito famosa na região pantaneira… Ela faz parte dos fazendeiro que recebendo do governo dinheiro quando seu gado é atacado por onça… Agora eu pergunto “Quem é o animal em questão, quem mata para viver ou o que matar por dinheiro…”

    • Oi Moirha,

      Existem alguns projetos que trabalham pela conservação da onça-pintada que fazem o reembolso do gado morto pelo felino. Mas esse procedimento não diminui os ataques. A organização de safáris de caça é ilegal e deve ser combatido. O que o Projeto Onçafari faz é algo pioneiro. Eles agregam valor ao animal vivo. Assim os fazendeiros podem lucrar com o ecoturismo e começar a proteger a espécie

      Abraço

  6. BOA TARDE

    É A NATUREZA PERFEITA, QUERO RECEBER TODOS AS INFORMAÇÕES, SOU GEOGRAFA E A 40 ANOS JÁ PREVIA ESTÁ SECA E A POLUIÇÃO AMBIENTE.

    SOU DEFENSORA FERRENHA DO MEIO AMBIENTE.

    TÂNIA MARIA CHIEPPE

  7. Os alunos do segundo ano A e sua professora Alzira da EMEF Victor Padilha de Sud Mennucci estão desenvolvendo o projeto Animais do Pantanal, com o objetivo de conscientizá-los sobre a importância da preservação da fauna e flora brasileira. Agradecemos pelas fotos e informaçõea. Tenham todos um bom dia.

  8. Realmente o Pantanal é um paraíso exuberante, em breve retornarei neste lugar inesquecível. Não apenas o Pantanal, mais o Mato Grosso do Sul em si é inesquecível, amo esse estado, principalmente o tereré.

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