About Fábio Paschoal

Fábio Paschoal é apaixonado por animais desde criança e por isso decidiu estudar Biologia. Se formou pela USP em 2005, fez um curso técnico em Turismo no Senac e começou a trabalhar como guia bilíngue em 2008. Passou três anos conduzindo passeios de ecoturismo no Pantanal e na Amazônia. Tem reportagens e fotos publicadas no site de NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL e é um apaixonado pela vida selvagem

Kirstenbosch: o 1° jardim botânico considerado Patrimônio da Humanidade

Alfineteira, planta do gênero Leucospermum, típica do Fynbos, no Jardim Botânico Kirstenbosch, Cidade do Cabo, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 8 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

Estabelecido em 1913 para promover a conservação e demonstrar a rica e diversa flora da África do Sul, o Kirstenbosch foi o primeiro jardim botânico do mundo preocupado em preservar as plantas nativas de um país. É administrado pelo South African Biodiversity Institute, fica ao lado do Table Mountain National Park (TBNP) e, juntos, preservam parte do Reino Floral do Cabo, o menor e mais diverso dos seis reinos florais do mundo e o único confinado a um continente. 

[Veja a introdução da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

[Veja o capítulo 7 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

Essa não é a flor do abacaxi. A planta pertence ao gênero Eucomis e é chamada de flor abacaxi. Floresce no verão no Jardim Botânico Kirstenbosch, na Cidade do Cabo, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

O Reino Floral do Cabo é o menor e mais diverso dos seis reinos vegetais. Muitas espécies já foram extintas. O Kirstenbosch é de vital importância para a manutenção dessa flora única – Foto: Fábio Paschoal

Planta do gênero Kniphofia no Kirstenbosch. É nativa da África e muito atrativa para sunbirds – Foto: Fábio Paschoal

Lar de incríveis 9 000 espécies de plantas (a maioria endêmica) das quais cerca de 80% pertencem ao Fynbos, bioma adaptado tanto ao clima mediterrâneo quanto a incêndios periódicos, o Reino Floral do Cabo só é encontrado no Sul da África do Sul. Em 2004, a região foi reconhecida como Patrimônio da Humanidade e fez com que Kirstenbosch se tornasse o primeiro jardim botânico do mundo localizado dentro de uma área de diversidades biológica e paisagística excepcionais com valor inestimável para a Terra, segundo a UNESCO.

Existem trilhas para todos os gostos. Das curtas e planas, para quem quer curtir o jardim botânico; até as longas e íngremes, como a que leva até o topo da Table Mountain. Pagamos a entrada (veja os preços no site do Kirstenbosch) e começamos o passeio.

Uma das trilhas do Jardim Botânico Kirstenbosch, Cidade do Cabo, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Vanessa, Renata e Ralph na passarela suspensa do Jardim Botânico Kirstenbosch, Cidade do Cabo, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Andando por lá vimos os principais representantes do Fynbos. Passamos por plantas do gênero Leucospermum, que parecem com aquelas almofadas para espetar alfinetes e, por isso, são chamadas de alfineteiras. Também vimos ericas, conhecidas como urzes-do-cabo, um grupo em que 90% dos representantes são endêmicos da África do Sul.

Mas a flor que mais queríamos encontrar era a king protea (Protea cynaroides), a flor nacional da África do Sul. Ocorre em todas as cadeias montanhosas de leste a oeste do país (exceto nas áreas mais secas do interior) e em todas as elevações, do nível do mar a 1500 metros de altura. Tem uma das mais amplas faixas de distribuição da família Proteaceae no mundo.

As flores das urzes-do-cabo são muito atrativas para esse jovem double collared sunbird – Foto: Fábio Paschoal

King protea (Protea cynaroides), a maior de todas as proteas e a flor nacional da África do Sul no Jardim Botânico Kirstenbosch – Foto: Fábio Paschoal

Botão de king protea (Protea cynaroides) no Jardim Botânico Kirstenbosch, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

A combinação das diferentes condições climáticas com a grande variedade de localidades resultou em uma grande variedade de tamanhos de folhas e flores, assim como cores e épocas de floração. Por isso a floração da espécie ocorre em diferentes épocas do ano.

As proteas foram batizadas graças a Proteus, um deus grego que ajudou Netuno e recebeu como recompensa o poder de ver o futuro e o passado. Desde então, Proteus passou a ser reverenciado por seus dons proféticos e as pessoas passaram a procurá-lo para desvendar as artimanhas do destino.

Mas o deus era arredio, não gostava de revelar seus segredos e se transformava em monstros de aparência assustadora para afastar aqueles que se aproximavam dele. Como as flores das proteas assumem diferentes formatos durante o desenvolvimento, Lineu, criador da nomenclatura binomial das espécies (considerado o pai da taxonomia moderna), resolveu homenagear o deus grego dando seu nome ao gênero das plantas.

Casal de cape sugarbirds no Kirstenbosch. O macho, à direita, tem a cauda mais longa do que a da fêmea, à esquerda – Foto: Fábio Paschoal

Ganso-do-egito com filhotes no Kirstenbosch – Foto: Fábio Paschoal

Jovem double collared sunbird em alfineteira no  Kirstenbosch – Foto: Fábio Paschoal

O Kirstenbosch vai muito além do Fynbos. O jardim botânico possui representantes de todas as regiões da África, incluindo uma coleção de Encephalastos (as gimnospermas mais primitivas encontradas atualmente) e uma estufa com plantas de regiões áridas, que não conseguiriam sobreviver nas condições climáticas da região.

As aves também são um destaque: mais de 125 espécies são encontradas por aqui. Passamos momentos incríveis com o cape sugarbird, ave com uma cauda longa inconfundível, que é endêmica e se alimenta do néctar das flores do Fynbos. Sunbirds são comuns. Mas o ponto alto foram os gansos-do-egito, as galinhas-d’angola e os cape francolins. Como fomos em dezembro, vimos casais com filhotes bem pequenininhos.

Dependendo do ângulo, os frutos pretos da Ochna serrulata lembram as orelhas do Mickey Mouse, por isso a planta é chamada de Mickey Mouse bush. Ela floresce na primavera, mas seus frutos podem ser vistos até fevereiro – Foto: Fábio Paschoal

Flores coloridas no Kirstenbosch. Alfineteiras laranjas e flores azuis de Agapanthus africanus, planta ornamental que é comum no Brasil – Foto: Fábio Paschoal

O lugar é muito legal para fazer piquenique. Mas seguimos a recomendação de nossos amigos da Cidade do Cabo, Renata e Ralph, e almoçamos no Moyo, um restaurante africano que usa produtos locais. Foi a melhor refeição que fizemos na viagem pela África do Sul.

Terminamos o dia ao lado do busto de Nelson Mandela, que teve uma crista-de-galo batizada com seu nome: Mandela’s Gold e plantou uma muda de Warburgia salutaris, árvore com propriedades medicinais muito popular para venda em mercados de rua. Infelizmente, a planta está ameaçada de extinção devido à colheita excessiva. Por isso, é uma espécie prioritária para conservação e cultivo em jardins.

Busto de Nelson Mandela o Jardim Botânico Kirstenbosch, Cidade do Cabo, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Mandela’s gold, crista de galo batizada em homenagem ao ex-presidente da África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Era hora de voltar pra casa e descansar. No dia seguinte iríamos nadar com lobos marinhos.

Não perca o próximo capítulo da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

Planta que floresce no verão em Kirstenbosch – Foto: Fábio Paschoal

Alfineteiras do gênero Leucospermum no Kirstenbosch – Foto: Fábio Paschoal

DICAS

  • Proteas, leucadendrons e serrurias florescem no inverno e primavera (maio a outubro).
  • A melhor época para ver as king proteas (Protea cynaroides) floridas no Kirstenbosch é entre junho e outubro, segundo o site do jardim botânico.
  • As alfineteiras, florescem no final do inverno, primavera e início do verão (agosto a novembro/ dezembro).
  • Para saber o que você irá encontrar em cada estação do ano, visite o site do Kirstenbosch.
  • Leve binóculos para observar os sunbirds e outras aves do lugar.
  • Almoce no restaurante Moyo, dentro do Jardim Botânico. É muito gostoso e nós recomendamos.
  • Não deixe de passar na Kirstenbosch Shop, a lojinha do jardim botânico tem muitas coisas bacanas para decoração da casa e lembrancinhas para família e amigos mais próximos.
Advertisements

Boulders: a colônia de pinguins mais próxima de Cape Town

Colônia de pinguins-africanos em Foxy Beach, parte da colônia de Boulders, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 7 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

Em 1982 dois casais de pinguins-africanos chegaram em Boulders buscando um lugar para reprodução. A praia fica em False Bay, entre Simon’s Town e Cape Point, onde grandes rochas de granito fornecem sombra e protegem a enseada de correntes, ventos fortes e ondas grandes. Nos anos seguintes, casais que costumavam se reproduzir em ilhas próximas começaram a se estabelecer no local. Em 2005 a população era de 3 900 aves.

[Veja a introdução da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

[Veja o capítulo 6 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

Pinguins-africanos (Spheniscus demersus) em na colônia de Boulders, África do Sul. Devido ao rápido declínio da população, a ave entrou para a Lista Vermelha da IUCN na categoria em perigo em 2010 – Foto: Fábio Paschoal

Porém, segundo o SANParks (South African National Parks), a destruição do habitat, derramamentos de petróleo e outros tipos de poluição marinha, impactos das mudanças climáticas nas populações e nas rotas usadas por peixes, pesca comercial predatória, atividades turísticas irresponsáveis e predação por animais domésticos fizeram com que a população chegasse a 2 200 em apenas 6 anos. O mais triste é que esse número segue caindo.

Apesar disso, Boulders, que faz parte do Parque Nacional da Table Montain (TMNP, na sigla em inglês), é um dos poucos lugares onde é possível ver pinguins-africanos de perto e é a colônia mais próxima à Cidade do Cabo (47 quilômetros aproximadamente).

Pinguim-africano na colônia de Boulders, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Pinguins-africanos na colônia de Boulders, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Pinguim com a muda de penas atrasada – Foto: Fábio Paschoal

Assim como em Stony Point, pagamos a taxa ambiental, que é investida na conservação da espécie, e entramos na reserva (veja o preço no site do TMNP), passarelas de madeira conduzem até a praia de Foxy Beach onde existe uma grande concentração de pinguins-africanos.

Ao contrário de muitas espécies de aves, os pinguins-africanos têm uma época de reprodução extensa. Na maioria das colônias, aves em algum estágio de reprodução podem ser encontradas durante o ano inteiro. Nós vimos um casal levando material para forrar o ninho, outros chocando os ovos e até pais com filhotes. Também havia um pinguim que não tinha sofrido a muda anual. Suas penas desgastadas estavam quase todas brancas. Ficamos ali por horas.

Pinguim-africano levando material para construir o ninho na colônia de Boulders, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Pinguim-africano com filhote na colônia de Boulders, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Depois seguimos para praia de Boulders, onde é possível colocar o pé na areia e entrar na água. Aqui é onde vimos problemas. Os turistas têm contato direto com os pinguins. Para voltar para a colônia, as aves precisam passar pela praia repleta de gente.

A maioria quer tirar selfie (o que já pode ser muito estressante para os bichos), mas nós vimos uma menina tacando areia e tentando pegar um pinguim. Renata saiu correndo e deu uma bronca no pai da criança, que deveria controlar e educar a filha. Notificamos os rangers, mas eles não pareciam interessados em fazer nada a respeito. O ideal seria proteger os pinguins nessa parte da praia também.

Praia de Boulders, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Por conta de todos esses motivos, preferimos a visita à colônia de Stony Point, mas se você não tiver tempo suficiente para ir até lá, Boulders vale a visita.

Era hora de ir pra, descansar e seguir para o Kirstenbosch National Botanical Garden no dia seguinte

Não perca o próximo capítulo da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

DICAS

  • Não alimente os pinguins-africanos ou qualquer outro animal. Eles são selvagens e conseguem arranjar seu próprio alimento.
  • Se estiver em Cape Town, pegue a Chapman’s Peak Drive para chegar ou voltar de Boulders. É uma das estradas mais bonitas da África do Sul.
  • Boulders é mais perto de Cape Town do que Stony Point, mas atrai bem mais turistas.
  • Ao contrário de muitas espécies de aves, os pinguins-africanos têm uma época de reprodução extensa. Na maioria das colônias, aves em algum estágio de reprodução podem ser encontradas durante o ano inteiro.

Table Mountain: uma das sete maravilhas naturais do mundo. Será?

A Table Montain, na Cidade do Cabo, é uma das mais bonitas maravilhas da natureza da África do Sul. Seu topo plano característico é visível a 65 quilômetros de distância em alto mar  – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 6 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

A Table Mountain (Montanha da Mesa) é, indiscutivelmente, uma das montanhas mais conhecidas da África e o ícone mais imponente da paisagem de Cape Town. Faz parte do menor e mais diverso dos seis reinos florais do mundo (além de ser único dos seis confinado a um continente): o Reino Floral do Cabo. A região foi reconhecida como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO merecidamente.

[Veja a introdução da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

[Veja o capítulo 5 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

Do alto da Table Mountain vemos a Cidade do Cabo (Cape Town), África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Em 2011, a Table Mountain foi considerada uma das sete maravilhas naturais do mundo em uma votação organizada pela New7Wonders. “Especialistas” (esse foi o termo usado pela fundação) selecionaram 28 candidatos e os escolhidos foram eleitos pela Internet. Os sete mais votados (entre 500 milhões de participantes) receberam o título de maravilhas naturais do mundo.

Nosso planeta é repleto de maravilhas naturais, cada uma com sua particularidade. A África tem o Delta do Okavango, em Botsuana; o Deserto da Namíbia; o Serengeti, na Tanzânia; a savana africana. São tantos exemplos que, na minha opinião, escolher a Table Montain para representar o continente é menosprezar tudo o que a África tem para oferecer. Dito isso, a Table Mountain vale a visita!

Lions Head à esquerda e Robben Island à direita. Vista do alto da Table Mountain, Cidade do Cabo, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Os dassies também habitam o topo da Table Mountain, Cidade do Cabo, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Table Mountain Aerial Calbe Car ou bondinho da Montanha da Mesa – Foto: Fábio Paschoal

É possível subir por trilhas, mas achamos que não valia o esforço. Então, conferimos a previsão, escolhemos um dia ensolarado e sem vento, e compramos os ingressos pelo site do Table Mountain Aerial Cable Car (que nada mais é do que um bondinho) para evitar fila. O problema foi que todo mundo teve a mesma ideia. Então, esperamos duas horas antes de conseguir embarcar.

Lembra bastante o passeio do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. A diferença é que o bondinho vai rodando para que todos tenham a mesma vista. Ao chegar ao topo, temos uma visão panorâmica da cidade e suas praias. Devil’s Peak (o Pico do Diabo) está ao leste; Lion’s Head (Cabeça de Leão) a oeste; e a cadeia montanhosa, conhecida como Twelve Apostles (Os Doze Apóstolos), se estende ao sul da Península do Cabo a partir da Table Mountain.

Eu, Ralph, Vanessa e Renata no topo da Table Mountain, Cidade do Cabo, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Black girdled lizard (Cordylus niger) são encontrados em afloramentos rochosos na Table Montain. Sua cor preta ajuda a absorver calor suficiente do sol, em uma das partes menos ensolaradas da África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Robben Island, onde Nelson Mandela ficou preso durante muitos anos, também é visível lá do alto. É possível visitar a ilha, mas como não agendamos com antecedência, teremos que deixar para a próxima vez.

Andamos por ali durante umas duas/ três horas. Como o lugar é grande, a multidão se espalha e não parece lotado.O problema é a fila do bondinho na hora da volta. Mas, superamos isso tomando o  sorvete do Terrace Bar, localizado no Twelve Apostles Terrace. Foi o mais gostoso que experimentamos em Cape Town.

Camps Bay. Vista do alto da Table Mountain, Cidade do Cabo, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Camps Bay

Após a visita à Table Mountain, seguimos para Camps Bay. A praia mais badalada da Cidade do Cabo, com uma linda visão da cadeia de montanha dos 12 apóstolos. Victoria Road é a rua paralela à praia. Os melhores restaurantes da cidade, lojas, hotéis, casas e condomínios de luxo estão por aqui. Um calçadão cheio de grandes palmeiras acompanha a orla da praia por toda a sua extensão.

Mesmo no verão você irá encontrar poucas pessoas na água. Além do mar ser gelado, há uma grande concentração de tubarões no litoral sul-africano (os locais mais perigosos são indicados com placas). Mas em alguns lugares de Camps Bay, formações rochosas funcionam como piscinas naturais e permitem o banho em segurança para quem quiser encarar as águas geladas do Atlântico.

Camps Bay e os 12 Apóstolos no fundo – Foto: Fábio Paschoal

A ideia era ficar para ver o pôr do Sol. Mas o típico vento gelado de Cape Town nos fez voltar pra casa um pouco mais cedo para acender a churrasqueira, fazer o nosso braai (churrasco em africâner) e nos prepararmos para o dia seguinte. O destino: Kristenbosh National Botanical Garden.

Veja o capítulo 7 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

DICAS

  • Cheque a previsão do tempo antes de ir à Table Mountain. Em dias de muito vento, mesmo que esteja ensolarado, o Cable Car (bondinho) pode ser interditado.
  • Compre os ingressos para o bondinho da Table Mountain com antecedência, pelo site do Aerial Cable Car. Se você não fizer isso, terá que pegar a fila para comprar o ingresso e depois a fila para embarcar no bondinho.
  • Quando estiver no topo da Table Mountain, tome o sorvete do Terrace Bar, localizado no Twelve Apostles Terrace. Foi o mais gostoso que experimentamos na Cidade do Cabo.

Harold Porter: jardim botânico em Betty’s Bay

Brunia sp.  planta endêmica da região do Cabo e típica do Fynbos, no Harold Porter, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 5 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

O Harold Porter National Botanical Garden é um belo jardim botânico localizado em Betty’s Bay, na Áfica do Sul. Fica entre as montanhas e o mar e faz parte da Reserva da Biosfera Kogelberg. Possui 200 hectares de Fynbos (vegetção mais abundante do Reino Floral do Cabo, o menor e o mais diverso do mundo), sendo 10 de jardins cultivados e 190 de vegetação original e intocada.

[Veja a introdução da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

[Veja o capítulo 4 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

Four striped mouse no Harold Porter, em Betty’s Bay, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Cape francolin (Pternistis capensis), ave endêmica do sudoeste da África do Sul no Harold Porter, em Betty’s Bay – Foto: Fábio Paschoal

Sunbird fêmea em uma flor de ericano Harold Porter, em Betty’s Bay, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Pagamos a entrada (veja os preços no site do Harold Porter) e saímos por uma trilha. Logo no começo um rato passou correndo e parou no meio do caminho. A princípio achei que era um roedor como outro qualquer. Mas, quando olhei atentamente, vi que ele tinha quatro linhas faixas nas costas. Era um  four striped mouse. Não é raro, mas é um bichinho bem simpático. Também vimos uma ave comum, mas que só pode ser encontrada no sudoeste da África do Sul: o cape francolin.

Passamos por ericas, proteas e outras flores típicas do Fymbos. Elas atraem muitas aves, especialmente os sunbirds, com cores metálicas que lembram nossos beija-flores. Eles não pairam no ar, mas certamente chamam a atenção. Cape Sugarbird e orange breasted sunbird foram alguns dos destaques. No final do caminho, chegamos à uma cachoeira bem bonita, com água cor de coca-cola.

Flores do Fynbos no Harold Porter, em Betty’s Bay, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Cachoeira no Harold Porter, em Betty’s Bay, África do Sul- Foto: Fábio Paschoal

Depois, como ainda tinha um pouco de luz, pegamos uma outra trilha. Estávamos andando e, de repente, uma ave com cauda longa e alaranjada passa voando na nossa frente. Era o african paradise flycatcher, um pássaro migratório que chega no verão para se reproduzir. Eu desejava ver esse bicho novamente desde minha viagem à Tanzânia. Continuo sem conseguir uma foto dele, mas é um animal fantástico!

Chegamos nos portões de entrada da Leopards Kloof Trail. Essa trilha segue por um canyon até uma cachoeira, mas é preciso pegar as chaves do portão antes das 13h00 para conseguir andar por ali. Como chegamos tarde, paramos por ali para observar aves e flores enquanto o Sol sumia no horizonte. Foi quando Ralph pediu meu binóculo emprestado. “Babuínos!” Como chegamos meio tarde, os macacos já estavam se recolhendo para dormir no alto das montanhas, onde é mais seguro. Sorte da Renata que havia garantido pra gente que veríamos os primatas por ali.

Renata, Ralph e Vanessa no Harold Porter, em Betty’s Bay, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Infelizmente tivemos pouco tempo no local porque ficamos muito entretidos na colônia de pinguins-africanos em Stony Point, mas o Harold Porter vale a visita. Especialmente se você gosta de flores e aves.

Como a noite estava chegando era hora de voltar para casa, jantar e nos prepararmos para o passeio do dia seguinte: Boulders, uma colônia de pinguins mais próxima de Cape Town.

Veja o capítulo 6 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

DICAS

  • O jardim botânico Harold Porter fica em Betty’s Bay, a mais ou menos 100 quilômetros de Cape Tow. É aconselhável combinar o passeio com a colônia de pinguins-africanos de Stony Poit, que fica na mesma cidade.
  • Leve binóculos para observar os sunbirds e outras aves do lugar.

Stony Point: a maior colônia de pinguins-africanos de Western Cape

Colônia de pinguins-africanos (Spheniscus demersus) em Stony Point, África do Sul. A parte branca é o guano que começa a se acumular, mas ainda está muito longe de ter o suficiente para as aves escavarem e fazerem ninhos – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 4 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

Localizada na cidade costeira de Betty’s Bay, a cerca de 91 quilômetros da Cidade do Cabo, a Reserva Natural de Stony Point é a maior das cinco principais colônias de pinguins-africanos de Western Cape e a única que mostra um aumento significativo no número de indivíduos, segundo o site da reserva. Atualmente a população de pinguins por aqui (aproximadamente 2 000 casais reprodutores) é maior do que a das três ilhas costeiras mais próximas combinadas. Esses locais eram colônias de reprodução tradicionais que comportavam muitos casais. Assim, Stony Point é muito importante para a conservação da espécie na África do Sul.

[Veja a introdução da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

[Veja o capítulo 3 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

Stony Point Nature Reserve, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Quando um macho de southern rock agama (Agama atra) na coloração azul intensa de reprodução sente uma ameaça, ele deita contra uma rocha e sua pele se torna um pouco mais camuflada – Foto: Fábio Paschoal

Logo que chegamos na reserva vimos uma placa que dizia que os paus de selfie eram proibidos (Ralph disse que as pessoas tentam tirar fotos com os pinguins-africanos e isso estressa muito as aves). Pagamos a taxa ambiental que é investida para a conservação da espécie e entramos na reserva (veja o preço no site de Stony Point) .

Passamos a catraca e começamos a caminhada em uma passarela de madeira elevada que delimita a área para turistas e serve como proteção para os animais. Quando alguém se aproxima dos ninhos, os adultos saem e deixam ovos e filhotes desprotegidos.

Pinguins-africanos no primeiro plano e biguás ao fundo em Stony Point, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Casal de bank cormorants (à esquerda, inteiramente pretos), cape cormorants (com corpo preto e base do bico amarelo) e white breasted cormorant (com pescoço e peito brancos). As duas espécies estão na categoria “Em Perigo” da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Fábio Paschoal

Cape cormorant (Phalacrocorax capensis) – Foto: Fábio Paschoal

O bank cormorant (Phalacrocorax neglectus) é uma espécie de biguá encontrada no local que é muito sensível à perturbação humana. Ele abandona o ninho quando alguém se aproxima e deixa ovos e filhotes sozinhos. Os pequenos não têm nenhuma chance. Viram presa fácil para as cape gulls (gaivotas do cabo na tradução literal) e qualquer outro predador que esteja por perto.

O distúrbio causado por nós resultou na perda de quatro colônias e em reduções populacionais em seis outras, entre 1978 e 1997 e colocou a espécie na categoria “Em Perigo” na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês).

O Bank Cormorant Project – uma iniciativa da SANCCOB, Living Coasts e Whitely Wildlife Foundation – foi criada para a garantir o futuro da espécie (a população da região Sul da África é de 2600 casais reprodutores) através da melhoria das taxas de reabilitação, construção de plataformas de reprodução e vigilância de doenças. Enquanto isso, o projeto desenvolve técnicas para reintroduzir as aves criadas em cativeiro em seu habitat natural.

O white brested cormorant (Phalacrocorax lucidus) também nidifica em Stony Point – Foto: Fábio Paschoal

Cape gulls (Larus dominicanus) sobrevoam colônia à espera de pais inexperientes que deixam ovos e filhotes sozinhos – Foto: Fábio Paschoal

Levamos nossos binóculos e, além do bank, vimos crested, white-breasted e cape cormorants. Cape e hartlaub’s gulls, ganso-do-egito e dassies são comuns na área. Assim como lagartos Durante a visita ocorreu um ataque de lobo-marinho-do-cabo a um pinguim africano. Além de todas as ameaças que a ave enfrenta, essa é outro problema que a espécie enfrenta. Como lobos e pinguins se alimentam das mesmas coisas, os lobos matam as aves para eliminar a competição.

De qualquer maneira, foi ótimo visitar o local. Stony Point é um dos motivos que faz com que ainda seja possível ver pinguins-africanos na natureza. A luta para salvar a espécie da extinção continua.

Pinguins-africanos. Como não amar? – Foto: Fábio Paschoal

Estava ficando tarde e era hora de sair. O destino: Harold Porter National Botanical Garden

Não perca o próximo capítulo da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

DICAS

  • Não alimente os pinguins-africanos ou qualquer outro animal. Eles são selvagens e conseguem arranjar seu próprio alimento.
  • Stony Point é mais longe de Cape Town do que Boulders, mas atrai bem menos turistase e você tem a possibilidade de ver espécies de biguá que não são encontradas em Boulders.
  • Ao contrário de muitas espécies de aves, os pinguins-africanos têm uma época de reprodução extensa. Na maioria das colônias, aves em algum estágio de reprodução podem ser encontradas durante o ano inteiro.
  • Leve binóculos. Os bank cormorants e os lobos-marinhos-do-cabo estavam na colônia, mas estavam longe. Sem os binóculos não conseguiríamos achá-los.
  •  Aproveite para fazer Stony Point e Harold Porter no mesmo dia. Eles ficam longe de Cape Town, mas próximos entre si.

SANCCOB: a luta para salvar o pinguim-africano da extinção

Pinguim-africano/ African penguin (Spheniscus demersus). Devido ao rápido declínio da população, a ave entrou para a Lista Vermelha da IUCN na categoria em perigo em 2010 – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 3 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

Com sua plumagem preta e branca e seu jeito desengonçado de andar em terra firme, não há como não se apaixonar pelos pinguins. Mas não se engane. Assim que entram no mar eles se transformam completamente. Parecem voar embaixo d’água, perseguindo peixes com uma velocidade impressionante.

[Veja a introdução da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

[Veja o capítulo 2 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

Os pinguis-africanos não são diferentes. Pescam quase que exclusivamente nas águas frias da Corrente de Benguela, podem se juntar em grupos de até 150 indivíduos e cooperam na pescaria. É a única espécie de pinguim que se reproduz no litoral da África, onde são encontrados da Namíbia até a África do Sul, em 28 colônias. Os adultos são residentes, mas alguns movimentos podem ocorrer em resposta a concentração de presas.

O pinguim-africano é a única espécie de pinguim que se reproduz na África. Esses daqui estão na colônia de Boulders Beach, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

No início do século 20 existiam mais de 1 milhão de casais reprodutores na África e a espécie ia bem. Havia muitas aves defecando nas ilhas e no litoral e os pinguins-africanos construiam seus ninhos escavando o guano (nome dado às fezes das aves que começam a acumular).

O guano contém altas concentrações de nitrogênio e é um excelente fertilizante. Por isso, começou a ser coletado e usado como adubo em plantações. Com a remoção desse substrato tão importante, os pinguins-africanos passaram a colocar seus ovos em áreas abertas onde eles são mais vulneráveis ​​ao estresse térmico, chuvas e predação. Nessa época a coleta de ovos também não era controlada e a população começou a cair rapidamente.

Sem o guano, muitos pinguins passaram a se reproduzir em local aberto – Foto: Fábio Paschoal

Em 1969 a coleta de ovos foi banida e a raspagem do guano parou em 1991 na África do Sul. Porém, os pinguins-africanos já enfrentavam (e enfrentam até hoje) outros problemas: competição por alimento com as indústria de pesca e derramamento de óleo continuam a causar o declínio da espécie.

Em 2010 a ave entrou para a categoria “Em Perigo” da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês). Hoje restam menos de 23.000 casais reprodutores e a população continua a diminuir.

Rocky, um rockhopper penguin que foi resgatado pelo SANCCOB e não pôde ser reintroduzido em seu habitat natural. Hoje ele é uma das aves embaixadoras da Ong e ajuda no projeto de educação ambiental – Foto: Fábio Paschoal

SANCCOB

Nossos amigos que moram em Cape Town, Renata e Ralph, são muito ligados em conservação, especialmente de aves marinhas. Atualmente, Renata trabalha na Fundação Sul Africana para a Conservação de Aves Costeiras (Southern African Foundation for the Conservation of Coastal Birds – SANCCOB) e ela me convidou para conhecer o trabalho da Ong.

A SANCCOB foi criada em 1968 com o objetivo de reverter o declínio das populações de aves marinhas através do resgate, reabilitação e reintrodução de indivíduos doentes, feridos, abandonados e com complicações causadas por derramamento de óleo. O foco principal são espécies ameaçadas de extinção, como o pinguim-africano.

Algumas aves resgatas pelo SANCCOB não podem ser reintroduzidas na natureza. Esse pinguim perdeu um pé e vive em um ninho artificial na Ong. Ninhos como esse foram instalados em algumas colônias para tentar suprir a falta do guano – Foto: Fábio Paschoal

O trabalho da Ong está fundamentado em seis pilares:

  • Resgate: o serviço funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana. Aves marinhas doentes e feridas, e filhotes abandonados são o principal foco.Também respondem prontamente a derramamentos de óleo ao longo do litoral sul-africano.
  • Reabilitação e reintrodução: mais de 2400 aves marinhas feridas, doentes e com problemas relacionados a derramamento de óleo são tratadas por ano. Quando estão saldáveis, se tiverem condições, voltam para a natureza.
  • Criação de filhotes abandonados: existe uma unidade especializada que cuida do resgate e criação de ovos e filhotes de pinguins-africanos que foram abandonados pelos pais. Quando as aves estão saudáveis e prontas, são devolvidas para as colônias. Os estudos mostram que a sobrevivência dos filhotes criados pelo SANCCOB após a reintrodução é similar a dos filhotes criados em natureza.
  • Educação ambiental: aulas para crianças e adultos, incluindo visitas às instalações, apresentações e encontros com as aves embaixadoras da Ong podem ser agendados pelo site da SANCCOB
  • Treinamento: a Ong oferece estágios de 3 e 6 meses para adultos. Também há um programa de intercâmbio de tratores de zoológicos e aquários e cursos de veterinária.
  • Pesquisa: Estudos em andamento aumentam a compreensão dos pesquisadores sobre o comportamento, doenças e outros fatores que afetam a sobrevivência das espécies de aves marinhas a longo prazo.

A organização trabalha em estreita colaboração com os administradores das colônias. Quando uma ave precisa de cuidados, é levada para um dos três centros do SANCCOB na África do Sul: Cape Town, Cape St. Francis ou Port Elizabeth.

Num ano normal em que não ocorrem derrames de petróleo, a SANCCOB trata até 2 500 aves marinhas, das quais aproximadamente 1 500 são pinguins-africanos. O restante são diferentes espécies de biguás (incluindo os ameaçados bank cormorant e cape cormorant); várias espécies de trinta-réis; aves pelágicas, como albatrozes, atobás e petréis; piru-pirus, gaivotas, pelicanos e outras aves costeiras encontradas na região. Em média, 24 espécies diferentes de aves marinhas são reabilitadas todos os anos.

Desde sua criação, o SANCCOB já recebeu 95 000 aves marinhas de 54 espécies diferentes. Fica a torcida para que eles continuem com o excelente trabalho para melhorar a situação do simpático pinguim-africano.

Veja o capítulo 4 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

DICAS

  • Quer ajudar um pinguim-africano? Entre no site da SANCCOB
  • Quer ajudar um pinguim-de-magalhães (muito parecido com o pinguim-africano) no Brasil? veja o vídeo abaixo e entre no site do IPRAM (Instituto de Pesquisa e Reabilitação de Animais Marinhos)

Cabo da Boa Esperança, Cape Point e o encontro dos oceanos

Cabo da Boa Esperança, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Capítúlo 2 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

Localizada na ponta da Península do Cabo, a 60 quilômetros da Cidade do Cabo, a Reserva Natural Cabo da Boa Esperança (Cape of Good Hope Nature Reserve) é uma área de 7750 hectares que faz parte da seção Sul do Parque Nacional Table Montain. É parte da Região Floral do Cabo, considerada Patrimônio da Humanidade em 2004 pela UNESCO, graças a extraordinária diversidade de fauna e flora endêmica da região.

[Veja a introdução da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

[Veja o capítulo 1 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

Vista de um dos mirantes da Chapman’s Peak Drive, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Renata e Ralph fizeram questão de nos levar pela Chapman’s Peak Drive (Chappies para os íntimos). Ela começa em Hout Bay e segue por 9 quilômetros com as paisagens mais lindas de Cape Town. Existe um único pedágio no caminho (Veja as tarifas no site da Chappies).

De um lado o paredão rochoso, do outro o litoral. No caminho há mirantes onde você pode parar, fazer piquenique, tirar uma foto ou simplesmente admirar a paisagem. É uma estrada imperdível para quem visita Cape Town (Veja o vídeo do canal Bastante Sotaque).

Cape Point

Cape Point, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Chegamos na entrada da Reserva, pagamos a taxa de conservação (veja os valores no site do SanParks), deixamos o carro no estacionamento e seguimos para o ponto mais alto do parque. Há duas opções para chegar lá. Você pode subir com o Flying Dutchman Funicular, uma espécie de bonde, ou você pode fazer a trilha (não é loga, mas é um pouco íngreme).

Decidimos andar. No caminho passamos por biguás, que estavam com ninhos no paredão rochoso e estavam com filhotes (fomos em dezembro). Os adultos voltavam com os papos cheios de comida para alimentarem os pequenos. Também vimos um elande-comum, o segundo maior antílope do mundo.

Cape cormorant (Phalacrocorax capensis), espécie ameaçada de extinção devido à escassez de alimentos de boa qualidade perto dos locais de reprodução, causada pela sobrepesca comercial e das mudanças climáticas – Foto: Fábio Paschoal

No ponto mais alto da trilha, 238 metros em relação ao nível do mar, fica o primeiro farol de Cape Point. Construído  em 1859, se encontra desativado porque fica constantemente coberto por nuvens e os navios não conseguem se orientar em dias nublados, o que causava muitos acidentes na região. Hoje é usado para monitorar outros faróis da costa da África do Sul e funciona como um mirante, que tem a vista mais bonita de Cape Point e do Cabo da Boa Esperança.

Cabo da Boa Esperança e Dias Beach, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Cabo da Boa Esperança

Situado na junção da corrente fria de Benguela, na costa oeste, com a corrente quente das Agulhas, na costa leste, o Cabo da Boa Esperança não é o ponto mais ao Sul da África. Esse título pertence ao Cabo das Agulhas, que também marca a divisão geográfica oficial entre o Atlântico e Índico.

Porém, a fronteira entre esses oceanos migra sazonalmente entre o Cabo das Agulhas, Cabo da Boa Esperança e Cape Point. Assim, como não há uma divisão perceptível ao olhar, podemos acreditar no fundo de nossos corações que estamos olhando para o encontro das águas quando estamos por aqui.

O simpático dassie (Procavia capensis) no Cabo da Boa Esperança, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Próximo ao estacionamento tem o começo da trilha que passa por Dias Beach e leva para a ponta do Cabo da Boa Esperança (você pode pegar a estrada e chegar lá de carro). Durante o caminho passamos por mais cormorões, gaivotas, lagartos se esquentando nas pedras e achamos um mamífero pequenino e muito simpático: o dassie! Eles são encontrados na África e no Oriente Médio e seus parentes mais próximos são elefantes, dugongos e peixes-bois. Também encontramos um casal de avestruzes.

É possível descer em Dias Beach, mas estávamos sem tempo e seguimos para o final da trilha onde havia uma fila de turistas que queriam tirar foto em frente a placa do Cabo da Boa Esperança. Claro que nós entramos na onda.

Paisagem no final da trilha do Cabo da Boa Esperança, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Nós (Eu, Vanessa, Ralph e Renata) no Cabo da Boa Esperança. Note que a placa diz que é o ponto mais a Sudoeste da África. O ponto mais ao Sul é Cabo das Agulhas – Foto: Fábio Paschoal

Estava ficando tarde e tivemos que deixar a visita à Boulders, uma colônia de pinguins-africanos para outro dia. Era hora de voltar pra casa e fazer mais um braai (churrasco em africâner).

Veja o capítulo 3 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

HISTÓRIA

No final do século 15, o navegador português Bartolomeu Dias zarpou do rio Tejo, em Lisboa, com dois pequenos navios e um cargueiro. Como a passagem pelo Mar Mediterrâneo estava sob comando dos turcos, a missão da frota era contornar a África, encontrar um novo caminho marítimo para a Índia e estabelecer uma nova rota comercial que ligasse Portugal com o Oriente.

Mas quando chegaram na região de Cape Point, uma tempestade forçou os navios a sair do curso. A frota ficou perdida por mais de uma semana sem encontrar a costa, e só conseguiu desembarcar em Mossel Bay. Foi quando o navegador percebeu que já haviam passado da ponta da África e descoberto a rota marítima para o leste (ele não conseguiu chegar muito mais longe porque a tripulação o forçou a voltar).

Graças a esse evento, Dias batizou o local de Cabo das Tormentas, que mais tarde foi renomeado Cabo da Boa Esperança, graças ao otimismo gerado pela abertura de uma possível rota para a Índia e o Oriente.

Na volta, sempre com o litoral visível, Dias passou pelo Cabo das Agulhas e descobriu o ponto mais ao Sul do continente africano. Também conseguiu contornar o Cabo da Boa Esperança, onde havia se perdido na viagem de ida.

DICAS

  • Vá até Cape Point passando pela Chapman’s Peak Drive. A estrada é linda e é um dos atrativos da cidade.
  • Se você quiser fazer as trilhas é bom chegar cedo e planejar o percurso. Não chegamos ao segundo farol nem descemos até Dias Beach porque não tínhamos tempo.
  • Cuidado com os babuínos, os macacos podem atacar em busca de comida, mas não vimos nenhum durante nossa visita.
  • Boulders fica no meio do caminho entre Cape Town e Cape Point e pode fazer parte do roteiro. Mas nós achamos que fazer isso é muito corrido e você acaba não aproveitando tudo que os dois locais têm a oferecer.
  • Entre junho e novembro Cape Point é um excelente local para observação de baleias. Os cetáceos usam Gostam das águas mais calmas de False Bay, especialmente as francas. Jubartes, golfinhos e focas também podem ser achadas no local. Durante esses meses fique de olho no mar na Chapman’s Peak Drive, baleias também podem ser vistas na estrada.

Chegada na Cidade do Cabo (Cape Town)

Table Montain, na Cidade do Cabo (Cape Town), África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Capítúlo 1 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

Vanessa e eu decidimos ir para África do Sul em nossa primeira viagem internacional para visitar o Ralph e a Renata, um casal de amigos que mora na Cidade do Cabo (Cape Town). Tivemos sorte de pegar uma promoção de passagens da TAAG e pagamos a metade do preço cobrado pela South African Airways.

[Veja a introdução da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

[Veja a série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

Pegamos o voo em São Paulo e tivemos que fazer escala em Luanda, Angola. O problema do aeroporto é que só tem um detector de metais, e todos precisam passar por ele. Então, tente sair o mais rápido possível do avião para não pegar tanta fila.

Após passar pelo detector seguimos direto para o avião. Quatro horas depois a Table Montain surgiu pela janela! Vanessa e eu estávamos chegando na Cidade do Cabo empolgadíssimos para conhecer a África do Sul.

Cidade do Cabo (Cape Town), África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Ralph estava lá para nos receber e nos levou ao shopping para trocarmos dinheiro (saiba mais na seção CÂMBIO, no final do post) e comprarmos chips de celular na Vodacon (boa cobertura na África do Sul. Funcionou até em alguns lugares do Kruger).

Durante o caminho passamos por lagos repletos de aves aquáticas: gaivotas, patos, gansos, maçaricos e até flamingos. Também vimos grupos de pelicanos-brancos, aves que chegam a três metros de envergadura, voando por cima do carro.

Cape sparrow (Passer melanurus) a primeira ave que consegui fotografar na África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Aproveitamos para passar no supermercado e comprar carne, cogumelos, queijo, cerveja e vinho sul-africanos para fazer um braai (palavra africâner para churrasco). Encontramos com a Renata e fomos para casa acender a churrasqueira.

Dormimos felizes e contentes por estarmos em Cape Town. O plano para o dia seguinte era ir para o Cabo da Boa Esperança e visitar uma colônia de pinguins.

Veja o capítulo 2 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

DICAS

  • Deserto da Namíbia – Foto: Fábio Paschoal

    Se fizer o trecho Luanda – Cidade do Cabo de dia, deixe a janela aberta. Você irá sobrevoar a Namíbia e a paisagem é muito diferente

  • A temporada de chuvas em Cape Town é no inverno. O verão é bastante seco, mas como venta muito é bom sair de casa com um casaco ou corta vento.
  • Agora (2018) a cidade vive uma crise hídrica forte. O governo decretou racionamento de 50 litros diários por pessoa. Alguns estabelecimentos cortaram a água das pias e oferecem gel higienizador para limpar as mãos. Todos economizam água em casa (reservando a água do banho para dar descarga, por exemplo). É o que vivemos em São Paulo durante o Governo Alckmin, mas em um nível mais preocupante.
  • Para saber sobre operações de câmbio veja as dicas abaixo

CÂMBIO

Operações de câmbio são complicadas porque alguém sempre lucra a cada troca de moeda que você faz. É necessário avaliar as opções e escolher a forma em que você irá perder menos dinheiro.

Troca de Dólar por Rand: Como sou guia de ecoturismo no Pantanal e na Amazônia, recebo muita gorjeta em dólar dos turistas. Por isso sabia que iria trocar Dólares por Rand quando chegasse na África do Sul. Porém faz diferença o lugar onde você troca. O aeroporto costuma ter a pior taxa. Em nossas pesquisas na internet a menor taxa que achamos foi a da Travelex. Mas recomendamos fazer a pesquisa em outras casas de câmbio na época da sua viagem.

Troca de Real por Rand: Para quem não ganha caixinha em dólar é preciso pesquisar (usamos o site da Melhor Câmbio para encontrar a melhor cotação para nossa viagem). Como o Rand é difícil de achar no Brasil, a troca por Reais não costuma ser muito favorável e, na maioria dos casos, você acaba pagando mais do que se comprar Dólar por aqui e trocar por Rand na África do Sul.

Cartões: A vantagem dos cartões é que você não precisa ficar carregando grandes quantidades de dinheiro. Você pode fazer cartões de viagem pré-pagos da Visa ou Mastercard, que são aceitos no mundo inteiro ou pedir pro banco autorizar o cartão de crédito internacional (lembre que o IOF é de 6,38%%).

Saque em moeda local: Normalmente é cobrada uma taxa para cada saque além do IOF. Cheque com o seu banco para ver se vale a pena.

Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

Table Montain, em Cape Town, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

A Cidade do Cabo (Cape Town) é uma das cidades mais bonitas do mundo. Localizada no litoral Sul da África do Sul, lembra muito o nosso Rio de Janeiro. A Table Montain, ícone local, é presença constante e decora as praias com paisagens que ficarão marcadas na sua memória para sempre.

[Veja a série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

[Veja a série África Selvagem: Em Busca da Grande Migração]

Vanessa, minha namorada, tem um casal de amigos (Renata e Ralph) que moram na Cidade do Cabo e, assim que surgiu uma passagem barata, não tivemos dúvidas: resolvemos fazer uma visita e conhecer a capital legislativa da África do Sul. Aproveitamos para esticar a viagem e fizemos a Garden Route e depois visitamos o Kruger National Park.

Nosso interesse era natureza, então demos prioridade para parques nacionais, jardins botânicos e trilhas. Fomos a praias repletas de pinguins-africanos, fizemos trilhas para observação de aves, conhecemos o Reino Floral do Cabo (o menor e mais diverso Reino Floral do mundo), localizado no Sul da África do Sul e muitas outras coisas legais.

Não tivemos tempo para visitar vinícolas e, infelizmente, não conseguimos ir à Robben Island (onde Nelson Mandela ficou preso durante 27 anos) porque não compramos o ingresso com antecedência.

Decidimos compartilhar nosso roteiro e dividir todos os perrengues dessa viagem por aqui. Qualquer dúvida é só perguntar nos comentários.

Eu, Vanessa na Cidade do Cabo, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 1 – Chegada na Cidade do Cabo (Cape Town)

Capítulo 2 – Cabo da Boa Esperança, Cape Point e o encontro dos oceanos

Capítulo 3 – SANCCOB: a luta para salvar o pinguim-africano da extinção

Capítulo 4 – Stony Point a maior colônia de pinguins-africanos de Western Cape

Capítulo 5 –  Harold Porter: jardim botânico em Betty’s Bay

Capítulo 6 – Table Mountain: uma das sete maravilhas naturais do mundo. Será?

Capítulo 7 – Boulders: a colônia de pinguins mais próxima de Cape Town

Carta de amor ao Pantanal

Nascer do sol no Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 15 da série Pantanal: Terra das Águas

Essa parte da minha vida se chama Pantanal, e envolve abrir mão de coisas importantes como família e amigos. Mas também inclui sair da minha zona de conforto e experimentar o desconhecido, estar em contato com a natureza e aprender coisas novas a todo o momento, acordar sem saber como vai ser o dia, mas saber que o dia será fantástico e, de quebra, conhecer um dos lugares mais extraordinários do planeta.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 14 da série Pantanal: Terra das Águas]

Temporada de cheia no Pantanal – Fábio Paschoal

A grama alta dificulta a observação de animais na temporada de cheia. Alguns mamíferos procuram terras mais elevadas e deixam o Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

Viver no Pantanal é uma experiência única. É enfrentar o Sol forte da temporada de seca e os campos alagados da temporada de cheia. É andar a cavalo nos finais de tarde e ver o pôr do sol mais incrível da sua vida. É conviver com os pantaneiros, esse povo maravilhoso, e participar de muitas rodas de tereré. É comer chipa, sopa paraguaia, arroz carreteiro, macarrão tropeiro e churrasco feito com angico-vermelho.

É admirar a floração das piúvas e sentir-se em um conto de fadas. É olhar o reflexo das nuvens nas baías e pensar que existe céu aqui na Terra. É nadar no rio e, de vez em quando, fugir das ariranhas. É encontrar uma infinidade de olhos de jacarés brilhando em uma focagem noturna e comparar com as estrelas. É contemplar a Via Láctea e enxergar claramente as constelações.

A floração das piúvas é um dos eventos mais bonitos da temporada de seca – Foto: Fábio Paschoal

Passeio a cavalo com a equipe de guias da Caiman em 2009. Foi uma honra fazer parte desse time – Foto: Fábio Paschoal

É ouvir o grito dos bugios de manhã e dar risada com o canto do sapinho-fórmula-um à noite. É avistar um tuiuiú voando e se espantar com seu tamanho. É observar a arara-azul e se encantar com suas cores. É ficar contra o vento e chegar pertinho do tamanduá-bandeira. É olhar no olho da onça-pintada e ter a certeza de que algo mágico está acontecendo.

Mas acima de tudo, viver no Pantanal é perceber que nós, seres humanos, podemos conviver em harmonia com a natureza.

A maior arara do mundo (Anodorhynchus hyacinthinus) era extremamente rara. Em 1990 a população era de 1500 indivíduos, mas o Projeto Arara Azul mudou esse cenário. Hoje existem mais de 5000 araras colorindo o céu do Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

Onça-pintada, o terciro maior felino do mundo, avistada em um safári no Pantanal - Foto: Fábio Paschoal

Infelizmente, fazendeiros abatem a onça-pintada para proteger seus rebanhos. No Pantanal, o Projeto Onçafari tenta salvar a espécie através do ecoturismo, mostrando que o felino tem mais valor se permanecer vivo – Foto: Fábio Paschoal

Foi aqui que descobri meu amor pela vida selvagem e minha paixão pelo trabalho de guia. Também conheci pessoas incríveis, dispostas a sacrificar a vida pela conservação. Gente que me faz acreditar que ainda há esperança para a Terra. Mas sinto que está na hora de procurar novos caminhos.

Saio daqui com as esperanças renovadas e com a certeza de que voltarei. O Pantanal vai deixar saudades, mas estará sempre vivo na minha memória e no meu coração.

Pantanal, eu temo! Até a próxima.

Equipe de guias da Caiman em 2013. Foi uma honra fazer parte desse time – Foto: Fábio Paschoal