Carta de amor ao Pantanal

Nascer do sol no Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 15 da série Pantanal: Terra das Águas

Essa parte da minha vida se chama Pantanal, e envolve abrir mão de coisas importantes como família e amigos. Mas também inclui sair da minha zona de conforto e experimentar o desconhecido, estar em contato com a natureza e aprender coisas novas a todo o momento, acordar sem saber como vai ser o dia, mas saber que o dia será fantástico e, de quebra, conhecer um dos lugares mais extraordinários do planeta.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 14 da série Pantanal: Terra das Águas]

Temporada de cheia no Pantanal – Fábio Paschoal

A grama alta dificulta a observação de animais na temporada de cheia. Alguns mamíferos procuram terras mais elevadas e deixam o Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

Viver no Pantanal é uma experiência única. É enfrentar o Sol forte da temporada de seca e os campos alagados da temporada de cheia. É andar a cavalo nos finais de tarde e ver o pôr do sol mais incrível da sua vida. É conviver com os pantaneiros, esse povo maravilhoso, e participar de muitas rodas de tereré. É comer chipa, sopa paraguaia, arroz carreteiro, macarrão tropeiro e churrasco feito com angico-vermelho.

É admirar a floração das piúvas e sentir-se em um conto de fadas. É olhar o reflexo das nuvens nas baías e pensar que existe céu aqui na Terra. É nadar no rio e, de vez em quando, fugir das ariranhas. É encontrar uma infinidade de olhos de jacarés brilhando em uma focagem noturna e comparar com as estrelas. É contemplar a Via Láctea e enxergar claramente as constelações.

A floração das piúvas é um dos eventos mais bonitos da temporada de seca – Foto: Fábio Paschoal

Passeio a cavalo com a equipe de guias da Caiman em 2009. Foi uma honra fazer parte desse time – Foto: Fábio Paschoal

É ouvir o grito dos bugios de manhã e dar risada com o canto do sapinho-fórmula-um à noite. É avistar um tuiuiú voando e se espantar com seu tamanho. É observar a arara-azul e se encantar com suas cores. É ficar contra o vento e chegar pertinho do tamanduá-bandeira. É olhar no olho da onça-pintada e ter a certeza de que algo mágico está acontecendo.

Mas acima de tudo, viver no Pantanal é perceber que nós, seres humanos, podemos conviver em harmonia com a natureza.

A maior arara do mundo (Anodorhynchus hyacinthinus) era extremamente rara. Em 1990 a população era de 1500 indivíduos, mas o Projeto Arara Azul mudou esse cenário. Hoje existem mais de 5000 araras colorindo o céu do Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

Onça-pintada, o terciro maior felino do mundo, avistada em um safári no Pantanal - Foto: Fábio Paschoal

Infelizmente, fazendeiros abatem a onça-pintada para proteger seus rebanhos. No Pantanal, o Projeto Onçafari tenta salvar a espécie através do ecoturismo, mostrando que o felino tem mais valor se permanecer vivo – Foto: Fábio Paschoal

Foi aqui que descobri meu amor pela vida selvagem e minha paixão pelo trabalho de guia. Também conheci pessoas incríveis, dispostas a sacrificar a vida pela conservação. Gente que me faz acreditar que ainda há esperança para a Terra. Mas sinto que está na hora de procurar novos caminhos.

Saio daqui com as esperanças renovadas e com a certeza de que voltarei. O Pantanal vai deixar saudades, mas estará sempre vivo na minha memória e no meu coração.

Pantanal, eu temo! Até a próxima.

Equipe de guias da Caiman em 2013. Foi uma honra fazer parte desse time – Foto: Fábio Paschoal

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Projeto Onçafari: no rastro da onça-pintada

Fantasma é o macho dominante no Refúgio Ecológico Caiman, pousada no Pantanal onde o Projeto Onçafari está realizando o processo de habituação das onças-pintadas (Panthera onca) aos carros de passeio - Foto: Lawrence Weitz

Onça-pintada no Refúgio Ecológico Caiman, Pantanal, onde o Projeto Onçafari faz a habituação dos felinos aos carros de passeio – Foto: Lawrence Weitz

Capítulo 14 da série Pantanal: Terra das Águas

O carro segue em alta velocidade. Nosso guia, Nego, vai no capô, olhando os rastros do animal enquanto indica o caminho que o motorista deve seguir. Os galhos passam rapidamente, próximos à nossas cabeças, e é preciso ser rápido para desviar de todos eles. O objetivo do safári é encontrar o maior felino das Américas. O veículo para em frente a uma lagoa. Nego faz sinal para todos permanecerem em silêncio. “Ela está aqui”. Uma movimentação nos arbustos anuncia a entrada de uma onça-pintada na clareira. Ela para em frente ao nosso carro, olha no olho de cada um e entra na água para matar a sede. Fica conosco por alguns minutos antes de desaparecer entre as árvores novamente.

Essa é uma das experiências mais marcantes da minha carreira de guia no Pantanal. É um desses momentos mágicos, que ficam guardados na memória e voltam à nossa mente de tempos em tempos para nos fazer sorrir. No entanto, fazendeiros abatem os felinos para proteger seus rebanhos e, após décadas de perseguição e caça, a onça se tornou um dos animais mais difíceis de avistar na natureza.

Esperança, uma das onças-pintadas selecionadas pelo Projeto Onçafari para o processo de habituação – Foto: Diogo Lucatelli

Esperança, uma das onças-pintadas selecionadas pelo Projeto Onçafari para o processo de habituação – Foto: Diogo Lucatelli

Para mudar essa história Mario Haberfeld fundou o Projeto Onçafari em 2011. A ideia é fazer a habituação das onças aos carros de passeio para que elas se comportem da mesma maneira que os felinos da África. O objetivo é atrair mais turistas, aumentar o interesse dos fazendeiros no turismo de observação de animais, gerar novas oportunidades de emprego para as pessoas da região, ajudar na conservação do felino, consequentemente, de seu habitat. “É necessário agregar valor à onça para que ela valha mais viva do que morta.” Afirma.

Uma técnica utilizada com leopardos e leões na África do Sul há 30 anos está sendo adaptada para a onça-pintada no Pantanal. Um animal selecionado é seguido por um rastreador, dia após dia, até que ele pare de considerar o carro como uma ameaça. O ideal é escolher uma fêmea. Quando ela tiver filhotes vai ensinar tudo para os pequenos. Assim, a habituação aos veículos será passada para a próxima geração. O processo não envolve métodos de domesticação (como o oferecimento de comida) e os felinos selecionados permanecem selvagens.

Carro do Projeto Onçafari usado para o processo de habituação das onças-pintadas – Foto: Adam Bannister

Haberfeld trouxe rastreadores da Tracker Academy da África do Sul com a missão de treinar a equipe do projeto na arte de rastrear animais selvagens para facilitar o encontro com o felino. Para Diogo Lucatelli, biólogo e rastreador do Projeto Onçafari, “Conhecer e perceber o ambiente – e o comportamento e as características dos vestígios do animal que será seu alvo – é fundamental”. As onças se movimentam em campos de gramíneas e matas densas com solo coberto por folhas secas, terrenos que dificultam a formação de pegadas. O rastreador pode perder o rastro. Para reencontrá-lo é preciso analisar o local, interpretar os sinais e se colocar na posição do animal que se está rastreando.

Disney Sousa (mais conhecido como Nego), rastreador do Projeto Onçafari (centro) em treinamento com os rastreadores da Tracker Academy da África do Sul – Foto: Projeto Onçafari

Diogo Lucatelli (direita) ensinando a rastrear onças - Foto: Disney Souza

Diogo Lucatelli (direita) ensinando a rastrear onças – Foto: Disney Souza

Todo o processo está sendo realizado no Refúgio Ecológico Caiman (REC), do empresário Roberto Klabin (fundador e presidente da SOS Mata Atlântica e da SOS Pantanal). Câmeras foram instaladas nas árvores para identificar as onças que habitam a fazenda e algumas fêmeas foram capturadas para a instalação de um colar com GPS, para a determinação do território de cada indivíduo. Os animais selecionados para a habituação têm o território dentro do REC. Essa é uma condição essencial, já que a caça – apesar de ilegal – ainda acontece no Pantanal. Fazer a habituação de um felino que pode entrar em outras fazendas seria um risco para o animal. Ele poderia se aproximar dos caçadores e seria um alvo fácil. Tudo está sendo acompanhado pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e pelo Cenap (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos e Carnívoros).

Mario Haberfeld colocando o colar com GPS em uma das onças do Projeto Onçafari- Foto: Divulgação

O objetivo do Projeto Onçafari é fazer com que as onças-pintadas fiquem tranquilas ao encontrar com um carro cheio de turistas – Foto: Projeto Onçafari

Segundo Lucatelli o número de encontros com a onça-pintada aumentou após o começo do projeto. Isso pode alavancar o ecoturismo no Pantanal, gerar novos empregos para os moradores locais, criar mais áreas de proteção para os animais e tornar a observação de fauna em uma atividade rentável que pode ser conciliada com a pecuária extensiva. “Quando se tem uma equipe em campo, que estuda continuamente a vida das onças, particularmente dos indivíduos que residem aqui [no REC], e constrói um relacionamento com elas – dando-lhes nomes e especializando-se cada vez mais em encontrá-las – as possibilidades são enormes”.

Para mim, que comecei a guiar na Caiman antes da existência do Onçafari, a diferença do antes e depois é gritante (no vídeo abaixo falo mais sobre isso). Não só o número de avistamento aumentou, mas a qualidade também cresceu muito. Antes nós comemorávamos quando uma onça passava na frente do caminhão. Hoje nós estamos descobrindo novos comportamentos, conhecendo a personalidade de cada felino e escolhendo nossas onças preferidas. É fantástico!

O documentário Onça-pintada: mais perto do que se pode imaginar (veja o trailer abaixo) registrou todo o processo de habituação e foi lançado em 2014. A ideia é replicar o processo em outras partes do país. “Quanto mais pessoas usarem a ideia mais áreas estarão sendo preservadas” diz Haberfeld.

Veja o capítulo 15 da série Pantanal: Terra das Águas

O Onçafari é um projeto sem fins lucrativos. Para fazer uma doação e ajudar a preservar o Pantanal e a onça-pintada acesse http://projetooncafari.com.br/pt-BR/envolva-se/ajude

Blog: https://projetooncafari.wordpress.com/

Canal no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=s9KZlj_JjMc

Facebook: https://www.facebook.com/Projetooncafari

Sites: http://projetooncafari.com.br/pt-BR/ ou http://www.wconservation.com/Salvar

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Cachorro-selvagem: o predador mais eficiente entre os mamíferos

Cachorro-selvagem-africano, também conhecido como mabeco/ African wild dog (Lycaon pictus) no Kruger National Park, África do Sul. A espécie está ameaçada de extinção – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 4 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Após o incidente com o elefante (veja o post anterior), mudamos a rota e pegamos o asfalto até as proximidades do portão Malelane. Quando fizemos a curva para entrar na estrada H3 (uma das melhores rotas do Kruger), havia uma concentração de carros. Todos olhavam para a direita, mas a vegetação estava alta. Reposicionei o carro e conseguimos ver a grama se movimentando. Não sabíamos o que era, mas a expectativa era grande. Devagar, um por um, saíram na estrada: os cachorros-selvagens-africanos!

[Veja a introdução e o sumário da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

[Veja o capítulo 3 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul]

Três deles seguiram na frente da alcateia, em direção a um grupo de impalas. Começaram a andar mais baixo, assumindo a postura de caçadores,  e desataram a correr! Os antílopes ficaram desesperados. Davam saltos gigantescos cruzando a estrada. Os dois grupos seguiram para uma área com vegetação densa e depois só ouvimos o silêncio. Não vimos o final da caçada, mas foi incrível ver o começo de uma perseguição.

Cachorros-selvagens observando um grupo de impalas – Foto: Fábio Paschoal

Também conhecido como mabeco ou cão-selvagem-africano, o cachorro-selvagem é o predador mais eficiente entre os mamíferos da África. Eles caçam em grupo e começam assustando manadas de antílopes para separar um indivíduo mais debilitado (impalas são as presas mais frequentes). Depois começam uma perseguição e se revezam mordendo a parte traseira da presa, até que ela fique exausta e desista. Eles vencem pelo cansaço.

Em algumas regiões a taxa de sucesso em caçadas é de 90%. Nenhum outro grande predador africano é tão bem sucedido quanto os cachorros-selvagens.

Mabecos jovens brincam com pedaços da presa – Foto: Fábio Paschoal

O cachorro-selvagem mais à direita segura a cabeça de um impala na região de Berg-en-Dal, no Kruger, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

Encontramos os mabecos em outra ocasião perto de Berg-en-Dal. Era um grupo grande de mais de 20. Haviam acabado de comer um impala. Os mais jovens brincavam com os restos de comida. Eles corriam de um lado para o outro segurando partes da presa e passavam por cima dos adultos, que só queriam saber de descanso.

Um fato interessante sobre os cachorros-selvagens é que eles dão prioridade para os filhotes na hora de comer. Caso eles não estejam no local do abate, os adultos regurgitam a comida quando voltam para a toca.

A hiena-malhada/ Spotted hyena (Crocuta crocuta) pode ser encontrada em clãs liderados por uma fêmea dominante. São caçadoras, mas podem brigar por carcaças com cachorros-selvagens e até leões – Foto: Fábio Paschoal

Foi então que apareceu uma hiena. Uma cleptoparasita dos cachorros, o que significa que rouba a comida deles. Se as hienas estão em grupo pode haver conflito, mas quando é uma hiena solitária ela só consegue roubar se os mabecos estiverem muito distraídos. Não foi o caso dessa vez. Parte da alcateia levantou e expulsou a visitante indesejada. Mas os jovens continuaram brincando como se nada estivesse acontecendo.

Mesmo depois do aparecimento da hiena, os jovens cachorros-selvagens continuaram brincando com a comida – Foto: Fábio Paschoal

Infelizmente, a fragmentação do habitat e conflitos com humanos colocam a espécie na categoria “em perigo” da lista vermelha da IUCN.

A Range Wide Program For Cheetah & Wild Dogs trabalha em todos os países onde são encontrados cachorros-selvagens e guepardos (espécies ameaçadas de extinção). O objetivo da Ong é melhorar a coexistência entre pessoas e cachorros-selvagens-africanos, incentivar o manejo de uso da terra para manter e expandir as populações de mabecos, criar capacidade para conservação de cães-selvagens dentro da área conhecida da espécie, melhorar a percepção pública com relação aos canídeos em todos os níveis da sociedade e garantir uma estrutura de políticas compatível com a conservação da espécie (o mesmo é feito para o guepardo).

Veja o capítulo 5 da série Kruger: guia prático para organizar seu safári na África do Sul

Veja o Roteiro: 20 dias na África do Sul de carro

As setas rosas indicam os locias onde observamos cachorros-selvagens no Kruger (Clique para expandir a imagem)

DICAS

  • Sempre que chegar em algum rest camp cheque e preencha o quadro de avistamentos (Sightings board): Lá os turistas indicam onde viram os chamados Big 7 do Kruger (cachorro-selvagem, leão, leopardo, búfalo, elefanterinoceronte e guepardo)

Projeto Arara Azul: da beira da extinção aos céus do Pantanal

Arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus), a maior arara do mundo – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 7 da série Pantanal: Terra das águas

Pantanal, 1989. A bióloga Neiva Guedes acompanhava um curso de conservação da natureza quando se deparou com uma árvore repleta de aves. O bando era majestoso, composto por cerca de trinta indivíduos que coloriam a paisagem com um azul vibrante. Os olhos, negros, eram destacados por um anel amarelo de cor intensa e o bico era extremamente forte, capaz de quebrar a casca das mais duras sementes. Pela primeira vez na vida, Neiva se deparava com a maior arara do mundo, a arara-azul.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 6 da série Pantanal: Terra das Águas]

Mas aquela era uma cena rara. O desmatamento derrubava acuris e bocaiuvas, as palmeiras responsáveis pela produção das sementes que servem de alimento para arara-azul. O manduvi, árvore de cerne macio que abriga mais de 90% dos ninhos da espécie, dava lugar a pastos e plantações.

Traficantes de animais escalavam as árvores que permaneciam de pé para pegar os filhotes e vendê-los, principalmente no exterior. Os animais eram transportados em caixas pequenas e superlotadas, sem água e sem comida. O estresse era grande e, na briga por espaço, as ararinhas acabavam mutiladas ou mortas. Algumas aves eram forçadas a consumir bebidas alcoólicas para se acalmar, enquanto outras recebiam um soco, para quebrar osso esterno e impossibilitá-las de cantar. A arara-azul estava à beira da extinção.

Traficantes colocam os filhotes de arara-azul em caixas superlotadas. O estresse é muito grande e muitos acabam morrendo. Segundo o 1º Relatório Nacional Sobre o Tráfico da Fauna Silvestre elaborado pela RENCTAS (Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais) de cada 10 animais capturado pelo tráfico 9 acabam morrendo – Foto Neiva Guedes

Em 1990 Neiva iniciou o Projeto Arara Azul. Com o objetivo de manter populações viáveis da espécie em vida livre no seu habitat natural e promover a conservação da biodiversidade do Pantanal, a bióloga começou a mudar a história da espécie.

A arara-azul passou a ser minuciosamente estudada. Dados sobre a biologia e reprodução eram coletados diariamente, a saúde dos filhotes era monitorada, ninhos artificiais foram instalados para aumentar a quantidade de locais disponíveis para a postura de ovos, tábuas foram colocadas em ninhos naturais que apresentavam uma abertura muito grande, deixando os filhotes mais protegidos contra predadores e as intempéries do tempo.

Em paralelo um trabalho de educação ambiental era desenvolvido nas escolas, informando às crianças das ameaças do desmatamento e do tráfico de animais. As pessoas passaram a ter orgulho das aves e informavam o projeto da localização de novos ninhos. O tráfico passou a ser quase inexistente.

Em 22 anos a população, que era de 1.500 indivíduos, chegou a mais de 5000, a arara-azul saiu da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção e voltou a pintar os céus do Pantanal.

Neiva Guedes, bióloga fundadora do Projeto Arara Azul e pesquisadora da Uniderp, mostrando ovo e filhote de arara-azul com 10 dias – Foto: Eveline Guedes

Hoje, o monitoramento continua durante o ano inteiro. Na época de reprodução (julho a março) o trabalho é intensificado. O desenvolvimento dos filhotes é acompanhado por biólogos e veterinários que verificam os aspectos sanitários, anilham, colocam microchip e coletam amostras de material biológico e sangue para análise de DNA. O manejo dos ninhos, naturais e artificiais, é feito entre abril e junho. Todo o processo pode ser acompanhado pelos turistas que se hospedam no Refúgio Ecológico Caiman, onde está localizada a base do Projeto Arara Azul.

A bióloga Daphne Nardi checa as condições de saúde de um filhote de arara-azul – Foto: Fábio Paschoal

Kefany Ramalho, bióloga do Projeto Arara Azul, verifica as condições de um filhote que nasceu em um ninho artificial – Foto: Fábio Paschoal

Mas há muito trabalho pela frente. Neiva diz que é necessário que as populações da Amazônia (aproximadamente 500 indivíduos) e do Nordeste (aproximadamente 1000 indivíduos) sejam estudadas e que haja um monitoramento de longo prazo em todas as regiões do país onde a ave ocorre, para verificar se o crescimento da espécie é sustentável ou se está acontecendo somente pelas ações realizadas pelo projeto.

Segundo Neiva, a espécie ainda é classificada vulnerável pela lista vermelha da IUCN (União Internacional pela Conservação da Natureza na sigla em inglês). Assim, os esforços do Projeto Arara Azul continuam para tentar mudar esse status.

A bióloga acha que é preciso uma fiscalização mais efetiva para controlar o tráfico no norte e nordeste do Brasil. Ela acredita que as regiões onde as araras-azuis se encontram podem ser beneficiadas pelo ecoturismo, que traz novas oportunidades de emprego para as pessoas da região, gera renda e ativa a economia local. “Creio que um dia a arara-azul sai da lista.”

Veja o capítulo 8 da série Pantanal: Terra das Águas

Os filhotes de arara-azul que estavam amontoados na caixa foram encaminhados para o Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS), onde receberam os devidos cuidados. Segundo Neiva Guedes essa foi a última apreensão de araras-azuis no Mato Grosso do Sul e ocorreu em 2004 – Foto: Neiva Guedes

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Anta: o maior mamífero terrestre da América do Sul

Anta-sul-americana (Tapirus terrestris) – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 6 da série Pantanal: Terra das águas

Existem 5 espécies de antas conhecidas pela ciência: a anta-da-montanha (Andes), a anta-centro-americana (América Central) e a anta-malaia (Indonésia) – que estão ameaçadas de extinção segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês). Em território brasileiro encontramos a anta-sul-americana, que é considera vulnerável, e a anta-pretinha, descoberta recentemente.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 5 da série Pantanal: Terra das Águas]

“A anta [Tapirus terrestris] é o maior mamífero terrestre da América do Sul. Além disso, é a jardineira de nossas florestas por ser uma excelente dispersora de sementes, contribuindo desta forma para a formação e manutenção da biodiversidade dos biomas brasileiros onde vive (Amazônia, Pantanal , Cerrado e Mata Atlântica). E tem mais: estudos recentes mostraram que a espécie tem uma quantidade imensa de neurônios, confirmando que ela é um animal extremamente inteligente. Portanto, a cultura brasileira de usar anta como xingamento, com conotação pejorativa, é completamente injusta e absolutamente infundada. Ser chamado de anta é um elogio!”. As palavras são de Patrícia Médici, Ph.D. em manejo de biodiversidade e coordenadora da Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira. O objetivo do projeto é estabelecer um programa de pesquisa e conservação da anta-sul-americana na região do Pantanal e depois expandir as ações para a Amazônia e o Cerrado.

Anta-centro-americana (Tapirus bairdii) – Foto: Santhosh Kumar/iStock/Thinkstock

Anta-centro-americana (Tapirus bairdii) – Foto: Santhosh Kumar/iStock/Thinkstock

Em agosto de 2013, a pesquisadora, em parceria com a jornalista ambiental Liana John, lançou a campanha Minha Amiga é uma Anta, desenvolvida para o público infanto-juvenil (veja o vídeo da campanha no final do post). A intenção era chamar a atenção sobre a importância da conservação da anta brasileira, despertar o orgulho pela ocorrência da espécie no Brasil e desmistificar o conceito de que “anta” é um ser desprovido de inteligência .

É possível baixar a cartilha educativa da anta brasileira, escrita por Liana John e Patrícia Medici e ilustrada pelo cartunista Luccas Longo, com informações sobre a espécie, materiais para estudo e trabalhos de escola, fotografias e ilustrações.

Tapirus kabomani é a primeira espécie de anta descoberta após Tapirus bairdii, descrita em 1865 - Foto: Divulgação

A anta-pretinha (Tapirus kabomani) é a primeira espécie de anta descoberta após Tapirus bairdii, descrita em 1865 – Foto: Divulgação

O trabalho de Patrícia é reconhecido internacionalmente. Ela foi escolhida em 2014 para o TED Fellows Program, que seleciona jovens inovadores, engajados e inspiradores e os treina para que façam palestras no TED Talks (Veja a palestra de Patrícia no final do post). O programa é uma iniciativa do movimento global TED (Technology, Entertainment and Design) – organização sem fins lucrativos dedicada ao conceito baseado em Ideas Worth Spreading (ideias que merecem ser espalhadas, na tradução literal do inglês).

Anta-da-montanha (Tapirus pinchaque) – Foto: Diego Lizcano/Creative Commons

Anta-da-montanha (Tapirus pinchaque) – Foto: Diego Lizcano/Creative Commons

Para chamar a atenção para a importância desses animais foi criado o Dia Mundial da Anta (27 de abril). Apesar de dar margem para inúmeros trocadilhos, a data tem um propósito sério: a conservação das cinco espécies de antas encontradas no planeta.

O desmatamento, a fragmentação do habitat, a competição com animais domésticos, a caça ilegal e os atropelamentos em rodovias fazem com que a população das antas continue diminuindo. Nada mais justo do que um dia para lembrar a importância de cuidar bem desses simpáticos animais

Veja o capítulo 7 da série Pantanal: Terra das Águas

Anta-malaia (Tapirus indicus) – Foto: wathanyu/iStock/Thinkstock

Anta-malaia (Tapirus indicus) – Foto: wathanyu/iStock/Thinkstock

Veja abaixo o vídeo da campanha Minha Amiga é uma Anta

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TripAdvisor para de vender ingressos de atrações turísticas que envolvem crueldade com animais

Elefantes usados para levar turistas em Ayutthaya, Tailândia - Foto: Diego Delso, Wikimedia Commons, License CC-BY-SA 3.0

Elefantes usados para levar turistas em Ayutthaya, Tailândia – Foto: Diego Delso, Wikimedia Commons, License CC-BY-SA 3.0

O TripAdvisor, um dos maiores portais de turismo do mundo, anunciou nesta semana que irá parar de vender ingressos para atrações turísticas que envolvem contato com animais selvagens ou espécies ameaçadas de extinção.

Ingressos para excursões montadas em elefantes, selfies com tigres e natação com golfinhos – atividades em que, na maioria das vezes, os animais sofrem maus tratos quando não estão sendo observados pelos turistas – irão desaparecer do site completamente em 2017.

Filhote de tigre em cativeiro no Sri Racha Tiger Zoo, Tailândia - Foto: World Animal Protection

Filhote de tigre em cativeiro no Sri Racha Tiger Zoo, Tailândia – Foto: World Animal Protection

[Veja o post Expondo as selfies com tigres: relatório revela crueldade com os felinos usados na indústria do entretenimento]

“Parabenizamos a TripAdvisor por dar esse importante passo pelo fim da indústria de entretenimento cruel com animais silvestres”, afirmou  Steve McIvor, CEO da Proteção Animal Mundial em nota da Ong responsável pela campanha Silvestres. Não entretenimento, que tem como objetivo parar a venda e a promoção de locais de entretenimento que maltratam animais selvagens por agências de viagens (principalmente a TripAdvisor).

Vamos parar de vender atrações que envolvam contacto com animais selvagens em cativeiro ou com espécies ameaçadas de extinção. Mais informações: https://t.co/rE2CyYbUaq (Twiiter da TripAdvisor@TripAdvisor)

“O TripAdvisor também se compromete a desenvolver e lançar um portal de educação ligado a cada atração animal listado no TripAdvisor. O portal irá fornecer links e informações sobre práticas de bem-estar animal, ajudando os viajantes a escrever comentários mais embasados sobre a experiência, além de fornecer opiniões  [de especialistas em animais selvagens] sobre as implicações  e benefícios de conservação de algumas atrações turísticas. Por sua vez, o TripAdvisor acredita que melhores comentários permitirão que os turistas tomem decisões mais embasadas na hora de reservar uma atração e irão melhorar os padrões de cuidados com animais no setor do turismo em todo o mundo”, diz o comunicado da TripAdvisor.

A iniciativa da TripAdvisor não resolve o problema. Para que ocorra uma mudança significativa é necessário que as empresas parem de fornecer atrações que envolvam maus tratos com animais, que o governo fiscalize e multe as atrações turísticas que desrespeitam as normas e, sobretudo, depende de nós. Para viajar de forma responsável é preciso pesquisar e fazer sua reserva com operadoras que se importam com a conservação da natureza e o bem estar animal.

Tamanduá-bandeira: o abraço que pode matar uma onça-pintada

O tamanduá-bandeira é o maior de todos os tamanduás. Sua grande cauda, semelhante à uma bandeira, é responsável pelo seu nome. Quando se recolhe para dormir, o animal a dobra em direção ao corpo e a bandeira vira um cobertor – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 4 da série Pantanal: Terra das Águas

Dizem que a primeira vez a gente nunca esquece. Era meu primeiro dia de treinamento para me tornar guia no Pantanal. A ansiedade e o nervosismo se misturavam com a expectativa de saber qual seria o primeiro mamífero que iria ver na maior planície inundável do mundo. Estávamos fazendo uma trilha quando a grama alta começou a se mover. Imediatamente todos ficaram imóveis e fizeram silêncio. Era possível ouvir o barulho das folhas secas que se quebravam enquanto o animal se aproximava. Os olhares permaneciam fixos, acompanhando o movimento da grama. Mais a frente havia um campo aberto. Fomos andando lentamente e nos posicionamos de frente para o animal. Então, do meio do mato, apareceu o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla)! Era uma mãe, que carregava o filhote nas costas.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 3 da série Pantanal: Terra das Águas]

Ela vinha com um andar desajeitado. Isso acontece porque os tamanduás andam nos nódulos dos dedos, assim suas garras nunca tocam o solo e permanecem afiadas para cavar as fortalezas de barro construídas por cupins e formigas (as únicas presas que fazem parte de seu cardápio). O tamanduá é lento, praticamente cego e possui uma audição muito ruim. A primeira vista parece uma presa fácil.

Parece mas não é! Quando sente uma ameaça o bandeira muda completamente de postura: apoia-se nas patas traseiras, abre os braços, mostra as garras afiadas e espera pacientemente. Se o predador investir, recebe um abraço mortal. Dessa forma pode matar até uma onça-pintada. Por isso, quando você recebe um abraço de uma pessoa que não gosta de você, dizemos que essa pessoa está dando o famoso “abraço de tamanduá”.

O tamanduá-bandeira tem uma banda preta na lateral do corpo. Quando tem um filhote, a mãe o carrega nas costas e o posiciona de modo que as bandas se sobreponham, parecendo uma única banda e um único tamanduá. Assim, o filhote permanece camuflado e protegido contra predadores – Foto: Fábio Paschoal

A espécie é encontrada em todos os biomas brasileiros, mas é considerada vulnerável pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês). A destruição do habitat para a agricultura, as queimadas em regiões de plantação de cana e os atropelamentos nas estradas são as principais ameaças enfrentadas pelo tamanduá-bandeira.

O tamanduá-mirim, assim como todos os tamanduás, é capaz de se levantar e assumir uma postura bípede. Assim se parece maior e pode intimidar seu agressor. Se a ameaça persistir, o tamanduá abre os braços e mostra suas garras afiadas. Se isso não for suficiente, desfere o abraço mortal. Foto: Fábio Paschoal

Além do bandeira existe mais uma espécie de tamanduá no Pantanal. O tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla), que está na categoria pouco preocupante mas enfrenta as mesmas dificuldades de seu irmão maior. O Projeto Tamanduá é destaque no Brasil, e luta pela conservação de todos os xenarthras (grupo que inclui tamanduás, tatus e preguiças) na América Latina.

Durante a temporada de seca, principalmente nos meses de setembro e outubro,  tive muitos encontros com tamanduás. Como eles não escutam e nem enxergam muito bem, é possível chegar bem próximo deles se você se posicionar contra o vento. São animais formidáveis!

Veja o capítulo 5 da série Pantanal: Terra das Águas

Tartarugas marinhas: temporada de reprodução 2016/2017 ameaçada

A tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata) se encontra criticamente ameaçada de extinção segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Banco de imagens Tamar

A 36ª temporada reprodutiva das tartarugas marinhas sob a proteção do Tamar vai começar. De setembro a março o litoral brasileiro é visitado por quatro das cinco espécies de tartarugas marinhas que ocorrem no país (a tartaruga-verde se reproduz em ilhas oceânicas de dezembro a julho). As mães voltam às praias onde nasceram para cavar um buraco e deixar seus ovos. Assim que os filhotes nascem, começam uma jornada em direção ao oceano e à maturidade. Apenas uma pequena parcela, contudo, conseguirá chegar à idade adulta.

As ameaças às tartarugas marinhas começam antes mesmo delas nascerem. Muitos ninhos ficam em praias movimentadas e podem ser pisoteados ou atacados por animais domésticos. A iluminação artificial é outro problema: além de desorientar os filhotes, que podem morrer por desidratação, ela pode espantar as mães que estão prestes a desovar.

Ainda há o lixo: na areia, atrapalha as fêmeas que querem construir os ninhos e os filhotes que precisam chegar ao mar; no oceano, pode ser confundido como alimento e às vezes é engolido por engano, podendo matar o animal.

Mas, a maior ameaça é a captura incidental pela pesca. “Mesmo com resultados positivos e números crescentes indicando o início da recuperação de algumas espécies, principalmente da tartaruga-cabeçuda e da tartaruga-oliva, os registros de pescaria de espinhel e arrasto preocupam”, afirma Neca Marcovaldi, oceanógrafa do Tamar responsável pelas ações de pesquisa e conservação.

Equipe do Tamar e pescadores locais fazendo medições em uma tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata) - Foto: Banco de imagens Tamar

Equipe do Tamar e pescadores locais fazendo medições em uma tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata) – Foto: Banco de imagens Tamar

Tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea) é monitorada pela equipe do Tamar – Foto: Banco de imagens Tamar

Tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea) é monitorada pela equipe do Tamar – Foto: Banco de imagens Tamar

Tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta) sendo monitorada pela equipe do Tamar – Foto: Banco de imagens Tamar

Tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta) sendo monitorada pela equipe do Tamar – Foto: Banco de imagens Tamar

Uma das funções da equipe do Tamar durante a temporada de desova das tartarugas marinhas é a coleta de amostras de pele para estudos genéticos - Foto: Banco de imagens Tamar

Uma das funções da equipe do Tamar durante a temporada de desova das tartarugas marinhas é a coleta de amostras de pele para estudos genéticos – Foto: Banco de imagens Tamar

Para garantir o sucesso reprodutivo das tartarugas marinhas, as bases do Tamar em áreas de reprodução no litoral (Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte, Espírito Santo e Rio de Janeiro) intensificam o trabalho nas praias e no mar durante esse período. A equipe do projeto monitora cerca de 1.100 quilômetros de praias e está presente em 25 localidades, em áreas de alimentação, desova, crescimento e descanso das tartarugas marinhas, no litoral e ilhas oceânicas dos estados da Bahia, Sergipe, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina.

As mães são identificadas assim que chegam às praias para desovar. A equipe também coleta amostras de pele para a realização de estudos genéticos. Os ninhos são escavados para coleta e análise de dados, como o tempo de incubação e a taxa de eclosão e espécie, entre outros.

Se algum ninho estiver em local perigoso, os ovos são transferidos para outros trechos da praia mais seguros ou são colocados em cercados de incubação nas bases do Tamar. O momento de abertura dos ninhos pode ser acompanhado nos centros de visitantes e acontece em maior intensidade entre novembro e fevereiro.

Tartaruga-verde (Chelonia mydas) desovando - Foto: Banco de imagens Tamar

Tartaruga-verde (Chelonia mydas) desovando – Foto: Banco de imagens Tamar

Equipe do Tamar monitora filhotes de tartarugas após a abertura de ninho. A atividade pode ser acompanhada nos centros de visitantes das bases localizadas em áreas de reprodução (Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte, Espírito Santo e Rio de Janeiro). A temporada de desova vai de setembro a março, mas o melhor período para ver os filhotes é entre novembro e fevereiro - Equipe do Tamar e pescadores locais fazendo medições em uma tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata) - Foto: Banco de imagens Tamar

Equipe do Tamar monitora filhotes de tartarugas após a abertura de ninho. A atividade pode ser acompanhada nos centros de visitantes das bases localizadas em áreas de reprodução (Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte, Espírito Santo e Rio de Janeiro) – Foto: Banco de imagens Tamar

O trabalho de educação ambiental e inclusão social, que já é feito junto às comunidades locais e aos turistas, continua e pode ser responsável pela manutenção de cerca de 80% dos ninhos no local original.

Nessa temporada, o projeto segue na luta pela conservação das cinco espécies de tartarugas marinhas encontradas no Brasil.

Na luta pela conservação das tartarugas-marinhas, o Tamar realiza um trabalho de educação ambiental junto às comunidades locais e aos turistas - Foto: Banco de imagens Tamar

Na luta pela conservação das tartarugas marinhas, o Tamar realiza um trabalho de educação ambiental junto às comunidades locais e aos turistas – Foto: Banco de imagens Tamar

Centro de Visitantes do Projeto Tamar na Praia do Forte, Bahia - Foto: Banco de imagens Tamar

Centro de Visitantes do Projeto Tamar na Praia do Forte, Bahia – Foto: Banco de imagens Tamar

A tartaruga-verde (Chelonia mydas) está ameaçada de extinção segundo a IUCN – Foto: Banco de imagens Tamar

A tartaruga-verde (Chelonia mydas) está ameaçada de extinção segundo a IUCN – Foto: Banco de imagens Tamar

A tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta) está ameaçada de extinção segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) - Foto: Marta Granville

A tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta) é considerada vulnerável segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Marta Granville

A tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea) é considerada criticamente ameaçada de extinção pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) - Foto: Banco de imagens Tamar

A tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea) é considerada vulnerável pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Banco de imagens Tamar

A tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea) é considerada vulnerável pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Banco de imagens Tamar

A tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea) é considerada vulnerável pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) – Foto: Banco de imagens Tamar

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Projetos sediados na Paraíba lutam pela conservação de espécies marinhas ameaçadas de extinção

O tubarão-lixa (Ginglymostoma cirratum) está na categoria vulnerável da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, elaborada pelo ICMBio. O peixe é encontrado em três naufrágios e três recifes naturais na costa da Paraíba - Foto: National Oceanic and Atmospheric Administration dos EUA/Domínio Público

O tubarão-lixa (Ginglymostoma cirratum) está na categoria vulnerável da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, elaborada pelo ICMBio. O peixe é encontrado em três naufrágios e três recifes naturais na costa da Paraíba – Foto: National Oceanic and Atmospheric Administration dos EUA/Domínio Público

O Estado da Paraíba acaba de ganhar dois novos projetos que fazem parte do Programa Extremo Oriental das Américas (PEOA). A ideia é fomentar a relação entre o conhecimento científico, formular políticas públicas conservacionistas em escala regional, conservar espécies marinhas ameaçadas de extinção e mapear 100 mil hectares do fundo oceânico, que ajudarão no monitoramento das Áreas Protegidas no litoral. “O PEOA está orientado para a geração de conhecimento científico diretamente aplicado à conservação, onde são observados os marcos legais já existentes, como as Metas de Aichi  e o Decreto do Governo da Paraíba, que prevê a ampliação de áreas marinhas protegidas”, diz Orione Álvares da Silva, analista ambiental do ICMBio e um dos coordenadores do PEOA.  Para Bráulio Santos, professor do Departamento de Sistemática e Ecologia da UFPB e coordenador do PEOA, é importante aliar o conhecimento científico com ações de conservação “sem conhecimento técnico-científico sólido e atualizado, é pouco provável que nossas ações de conservação sejam efetivas e cumpram sua função socioeconômica”.

Pesquisador tira as medidas de tubarões: largura, comprimento e tamanho da nadadeira caudal - Foto: PEOA/Divulgação

Pesquisador tira as medidas de tubarões: largura, comprimento e tamanho da nadadeira caudal – Foto: PEOA/Divulgação

Projeto de Conservação do Tubarão-Lixa

Ricardo Rosa, professor da UFPB, realiza o monitoramento do tubarão-lixa (Ginglymostoma cirratum), espécie ameaçada de extinção, em três naufrágios e três recifes naturais. Todos os tubarões encontrados são identificados individualmente através de fotografias subaquáticas e marcas naturais. O objetivo é determinar como ocorre o deslocamento dos peixes, quais são os locais de descanso e alimentação, a quantidade de indivíduos e o sexo. Com base nos resultados, Rosa pretende elaborar recomendações para a conservação da espécie que sigam as ações do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Elasmobrânquios Marinhos (PAN­Tubarões). Pescadores artesanais e praticantes do mergulho recreativo foram incluídos em um programa para a popularização da ciência e ajudam o projeto no processo de construção do conhecimento.

Durante pesquisa no naufrágio Alvarenga, pesquisadores utilizam sondas de última geração para monitoramento - Foto: PEOA/Divulgação

Durante pesquisa no naufrágio Alvarenga, pesquisadores utilizam sondas de última geração para monitoramento – Foto: PEOA/Divulgação

Projeto Caracterização de Ecossistemas Recifais Mesofóticos

Faz o mapeamento de ecossistemas recifais de até 90 metros de profundidade, pouco conhecidos pela ciência, com sonares de última geração, capazes de gerar imagens 3D com qualidade e realismo. A área mapeada pelo projeto, que pode superar 100 mil hectares, será útil para subsidiar a criação de Unidades de Conservação na costa da Paraíba. O trabalho conta com a colaboração do Programa de pós-graduação em Geodinâmica e Geofísica da UFRN e do Programa de pós-graduação em Oceanografia da UFPE.  A fauna marinha também é registrada por um ROV (Veiculo Operado Remotamente) capaz de gerar imagens ao vivo e em alta resolução dos seres vivos e do fundo do mar em profundidades de até 100 metros. Os pesquisadores esperam mapear todas as formações recifais que estão na faixa litorânea entre Cabedelo e João Pessoa em dois anos.

Os dois projetos são liderados por pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, e são financiados principalmente pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza com o apoio administrativo do CEPAN (Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste) e logístico da Mar Aberto Dive Center.

Ararinha-azul é avistada na natureza, após 16 anos desaparecida

A ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) está possivelmente extinta na natureza, segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês)

Uma ararinha-azul foi avistada na natureza pela primeira vez após 16 anos. O fato ocorreu no último sábado (18) e foi divulgado no blog de Herton Escobar, do Estadão. A espécie, considerada criticamente ameaçada e possivelmente extinta na natureza, é endêmica da Caatinga e foi encontrada por moradores locais de Curaçá, na Bahia, que participam dos esforços de conservação na região e alertaram as autoridades. Eles conseguiram registrar um vídeo da ave voando. Segundo a nota, as imagens não deixam dúvidas sobre a identidade da espécie, que tem um grito característico, que pode ser ouvido claramente.

Em entrevista para o blog de Escobar, Pedro Develey, diretor da Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil), disse que provavelmente a ararinha seja uma ave de cativeiro, não registrada, que foi solta pelo dono — talvez para evitar ser flagrado com ela, o que configuraria crime ambiental. Recentemente, o Ibama fez uma ação contra o tráfico de animais na região; e seria muito difícil uma ararinha-azul voando passar desapercebida.

Develey, que visitou Curaçá após a descoberta, relatou que as pessoas da comunidade estavam muito felizes, dizendo que a ararinha tinha voltado. Ele também ressaltou a importância da parceria com as comunidades locais para os esforços de conservação da biodiversidade.

A ave foi observada pela última vez no domingo (19) e seu paradeiro permanece desconhecido até o momento. Um grupo para vasculhar a região, localizar a ave e garantir a segurança do animal está sendo organizado pelo ICMBio e a SAVE Brasil.

Hoje, o centro de conservação e reprodução de espécies ameaçadas Al Wabra, no Catar, que possui a maior coleção de ararinhas-azuis em cativeiro do mundo, trabalha em parceria com o governo brasileiro para reintroduzir a espécie na natureza. Fica a torcida para que a ararinha-azul seja retirada da lista de animais possivelmente extintos na natureza e volte a voar pela Caatinga.