Carta de amor ao Pantanal

Nascer do sol no Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 15 da série Pantanal: Terra das Águas

Essa parte da minha vida se chama Pantanal, e envolve abrir mão de coisas importantes como família e amigos. Mas também inclui sair da minha zona de conforto e experimentar o desconhecido, estar em contato com a natureza e aprender coisas novas a todo o momento, acordar sem saber como vai ser o dia, mas saber que o dia será fantástico e, de quebra, conhecer um dos lugares mais extraordinários do planeta.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 14 da série Pantanal: Terra das Águas]

Temporada de cheia no Pantanal – Fábio Paschoal

A grama alta dificulta a observação de animais na temporada de cheia. Alguns mamíferos procuram terras mais elevadas e deixam o Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

Viver no Pantanal é uma experiência única. É enfrentar o Sol forte da temporada de seca e os campos alagados da temporada de cheia. É andar a cavalo nos finais de tarde e ver o pôr do sol mais incrível da sua vida. É conviver com os pantaneiros, esse povo maravilhoso, e participar de muitas rodas de tereré. É comer chipa, sopa paraguaia, arroz carreteiro, macarrão tropeiro e churrasco feito com angico-vermelho.

É admirar a floração das piúvas e sentir-se em um conto de fadas. É olhar o reflexo das nuvens nas baías e pensar que existe céu aqui na Terra. É nadar no rio e, de vez em quando, fugir das ariranhas. É encontrar uma infinidade de olhos de jacarés brilhando em uma focagem noturna e comparar com as estrelas. É contemplar a Via Láctea e enxergar claramente as constelações.

A floração das piúvas é um dos eventos mais bonitos da temporada de seca – Foto: Fábio Paschoal

Passeio a cavalo com a equipe de guias da Caiman em 2009. Foi uma honra fazer parte desse time – Foto: Fábio Paschoal

É ouvir o grito dos bugios de manhã e dar risada com o canto do sapinho-fórmula-um à noite. É avistar um tuiuiú voando e se espantar com seu tamanho. É observar a arara-azul e se encantar com suas cores. É ficar contra o vento e chegar pertinho do tamanduá-bandeira. É olhar no olho da onça-pintada e ter a certeza de que algo mágico está acontecendo.

Mas acima de tudo, viver no Pantanal é perceber que nós, seres humanos, podemos conviver em harmonia com a natureza.

A maior arara do mundo (Anodorhynchus hyacinthinus) era extremamente rara. Em 1990 a população era de 1500 indivíduos, mas o Projeto Arara Azul mudou esse cenário. Hoje existem mais de 5000 araras colorindo o céu do Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

Onça-pintada, o terciro maior felino do mundo, avistada em um safári no Pantanal - Foto: Fábio Paschoal

Infelizmente, fazendeiros abatem a onça-pintada para proteger seus rebanhos. No Pantanal, o Projeto Onçafari tenta salvar a espécie através do ecoturismo, mostrando que o felino tem mais valor se permanecer vivo – Foto: Fábio Paschoal

Foi aqui que descobri meu amor pela vida selvagem e minha paixão pelo trabalho de guia. Também conheci pessoas incríveis, dispostas a sacrificar a vida pela conservação. Gente que me faz acreditar que ainda há esperança para a Terra. Mas sinto que está na hora de procurar novos caminhos.

Saio daqui com as esperanças renovadas e com a certeza de que voltarei. O Pantanal vai deixar saudades, mas estará sempre vivo na minha memória e no meu coração.

Pantanal, eu temo! Até a próxima.

Equipe de guias da Caiman em 2013. Foi uma honra fazer parte desse time – Foto: Fábio Paschoal

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Projeto Onçafari: no rastro da onça-pintada

Fantasma é o macho dominante no Refúgio Ecológico Caiman, pousada no Pantanal onde o Projeto Onçafari está realizando o processo de habituação das onças-pintadas (Panthera onca) aos carros de passeio - Foto: Lawrence Weitz

Onça-pintada no Refúgio Ecológico Caiman, Pantanal, onde o Projeto Onçafari faz a habituação dos felinos aos carros de passeio – Foto: Lawrence Weitz

Capítulo 14 da série Pantanal: Terra das Águas

O carro segue em alta velocidade. Nosso guia, Nego, vai no capô, olhando os rastros do animal enquanto indica o caminho que o motorista deve seguir. Os galhos passam rapidamente, próximos à nossas cabeças, e é preciso ser rápido para desviar de todos eles. O objetivo do safári é encontrar o maior felino das Américas. O veículo para em frente a uma lagoa. Nego faz sinal para todos permanecerem em silêncio. “Ela está aqui”. Uma movimentação nos arbustos anuncia a entrada de uma onça-pintada na clareira. Ela para em frente ao nosso carro, olha no olho de cada um e entra na água para matar a sede. Fica conosco por alguns minutos antes de desaparecer entre as árvores novamente.

Essa é uma das experiências mais marcantes da minha carreira de guia no Pantanal. É um desses momentos mágicos, que ficam guardados na memória e voltam à nossa mente de tempos em tempos para nos fazer sorrir. No entanto, fazendeiros abatem os felinos para proteger seus rebanhos e, após décadas de perseguição e caça, a onça se tornou um dos animais mais difíceis de avistar na natureza.

Esperança, uma das onças-pintadas selecionadas pelo Projeto Onçafari para o processo de habituação – Foto: Diogo Lucatelli

Esperança, uma das onças-pintadas selecionadas pelo Projeto Onçafari para o processo de habituação – Foto: Diogo Lucatelli

Para mudar essa história Mario Haberfeld fundou o Projeto Onçafari em 2011. A ideia é fazer a habituação das onças aos carros de passeio para que elas se comportem da mesma maneira que os felinos da África. O objetivo é atrair mais turistas, aumentar o interesse dos fazendeiros no turismo de observação de animais, gerar novas oportunidades de emprego para as pessoas da região, ajudar na conservação do felino, consequentemente, de seu habitat. “É necessário agregar valor à onça para que ela valha mais viva do que morta.” Afirma.

Uma técnica utilizada com leopardos e leões na África do Sul há 30 anos está sendo adaptada para a onça-pintada no Pantanal. Um animal selecionado é seguido por um rastreador, dia após dia, até que ele pare de considerar o carro como uma ameaça. O ideal é escolher uma fêmea. Quando ela tiver filhotes vai ensinar tudo para os pequenos. Assim, a habituação aos veículos será passada para a próxima geração. O processo não envolve métodos de domesticação (como o oferecimento de comida) e os felinos selecionados permanecem selvagens.

Carro do Projeto Onçafari usado para o processo de habituação das onças-pintadas – Foto: Adam Bannister

Haberfeld trouxe rastreadores da Tracker Academy da África do Sul com a missão de treinar a equipe do projeto na arte de rastrear animais selvagens para facilitar o encontro com o felino. Para Diogo Lucatelli, biólogo e rastreador do Projeto Onçafari, “Conhecer e perceber o ambiente – e o comportamento e as características dos vestígios do animal que será seu alvo – é fundamental”. As onças se movimentam em campos de gramíneas e matas densas com solo coberto por folhas secas, terrenos que dificultam a formação de pegadas. O rastreador pode perder o rastro. Para reencontrá-lo é preciso analisar o local, interpretar os sinais e se colocar na posição do animal que se está rastreando.

Disney Sousa (mais conhecido como Nego), rastreador do Projeto Onçafari (centro) em treinamento com os rastreadores da Tracker Academy da África do Sul – Foto: Projeto Onçafari

Diogo Lucatelli (direita) ensinando a rastrear onças - Foto: Disney Souza

Diogo Lucatelli (direita) ensinando a rastrear onças – Foto: Disney Souza

Todo o processo está sendo realizado no Refúgio Ecológico Caiman (REC), do empresário Roberto Klabin (fundador e presidente da SOS Mata Atlântica e da SOS Pantanal). Câmeras foram instaladas nas árvores para identificar as onças que habitam a fazenda e algumas fêmeas foram capturadas para a instalação de um colar com GPS, para a determinação do território de cada indivíduo. Os animais selecionados para a habituação têm o território dentro do REC. Essa é uma condição essencial, já que a caça – apesar de ilegal – ainda acontece no Pantanal. Fazer a habituação de um felino que pode entrar em outras fazendas seria um risco para o animal. Ele poderia se aproximar dos caçadores e seria um alvo fácil. Tudo está sendo acompanhado pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e pelo Cenap (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos e Carnívoros).

Mario Haberfeld colocando o colar com GPS em uma das onças do Projeto Onçafari- Foto: Divulgação

O objetivo do Projeto Onçafari é fazer com que as onças-pintadas fiquem tranquilas ao encontrar com um carro cheio de turistas – Foto: Projeto Onçafari

Segundo Lucatelli o número de encontros com a onça-pintada aumentou após o começo do projeto. Isso pode alavancar o ecoturismo no Pantanal, gerar novos empregos para os moradores locais, criar mais áreas de proteção para os animais e tornar a observação de fauna em uma atividade rentável que pode ser conciliada com a pecuária extensiva. “Quando se tem uma equipe em campo, que estuda continuamente a vida das onças, particularmente dos indivíduos que residem aqui [no REC], e constrói um relacionamento com elas – dando-lhes nomes e especializando-se cada vez mais em encontrá-las – as possibilidades são enormes”.

Para mim, que comecei a guiar na Caiman antes da existência do Onçafari, a diferença do antes e depois é gritante (no vídeo abaixo falo mais sobre isso). Não só o número de avistamento aumentou, mas a qualidade também cresceu muito. Antes nós comemorávamos quando uma onça passava na frente do caminhão. Hoje nós estamos descobrindo novos comportamentos, conhecendo a personalidade de cada felino e escolhendo nossas onças preferidas. É fantástico!

O documentário Onça-pintada: mais perto do que se pode imaginar (veja o trailer abaixo) registrou todo o processo de habituação e foi lançado em 2014. A ideia é replicar o processo em outras partes do país. “Quanto mais pessoas usarem a ideia mais áreas estarão sendo preservadas” diz Haberfeld.

Veja o capítulo 15 da série Pantanal: Terra das Águas

O Onçafari é um projeto sem fins lucrativos. Para fazer uma doação e ajudar a preservar o Pantanal e a onça-pintada acesse http://projetooncafari.com.br/pt-BR/envolva-se/ajude

Blog: https://projetooncafari.wordpress.com/

Canal no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=s9KZlj_JjMc

Facebook: https://www.facebook.com/Projetooncafari

Sites: http://projetooncafari.com.br/pt-BR/ ou http://www.wconservation.com/Salvar

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Onça-pintada: a mordida mais forte entre os felinos

A onça-pintada possui a mordida mais poderosa entre os felinos. Nem o tigre ou o leão superam a força da Panthera onca - Foto: João Sergio Barros Freitas De Souza/Sua Foto

A onça-pintada possui a mordida mais poderosa entre os felinos. Nem o tigre ou o leão superam a força da Panthera onca – Foto: João Sergio Barros Freitas De Souza/Sua Foto

Capítulo 13 da série Pantanal: Terra das Águas

Ver uma onça-pintada (Panthera onca) na natureza é algo difícil de explicar. Ela encara, olho no olho, até ter a certeza de que você a viu. Seu tamanho é impressionante, ela domina o local e parece que tudo gira em torno dela. É como se a floresta parasse, naquele momento, só para vê-la passar. Antes de sair, uma pausa, a onça olha para trás, e verifica se você ainda está ali. Seus músculos estão tensos, sua respiração está presa e seu coração acelerado. É nesse momento que vem a certeza de que algo mágico está acontecendo. É uma energia muito intensa, que ficará impressa na sua memória para sempre.

Segundo a Ong Pró-Carnívoros, a onça-pintada, também conhecida como jaguar, possui a mordida mais poderosa entre os felinos e uma maneira única de caçar. Enquanto leões, tigres e outros gatos usam uma técnica de caça com mordida no pescoço seguida de sufocamento, a onça-pintada crava os caninos na cabeça da presa e quebra a espinha dorsal ou perfura o crânio da vítima até chegar ao cérebro. A força exercida é tão grande que chega a quebrar cascos de jabutis.

Seu padrão amarelo com rosetas pretas é a perfeita camuflagem para andar na floresta, onde os fachos de luz em meio à sombra das árvores tornam o felino praticamente invisível. Ela utiliza áreas de vegetação densa para se esconder e se aproxima da presa silenciosamente. Almofadas na sola das patas ajudam a abafar o som e permitem que o predador ande sem fazer muito barulho. Quando está perto de seu alvo parte para o ataque.

É um animal oportunista e se alimenta de qualquer presa que esteja disponível. No Pantanal prefere jacarés, queixadas e capivaras, que são maiores e mais abundantes. Na Amazônia come principalmente animais pequenos, como cotias, pacas e tatus. Ela seleciona indivíduos inexperientes, machucados, doentes ou mais velhos o que resulta em benefício para a própria população de presas e mantém o equilíbrio do ecossistema.

Segundo o Projeto Onçafari, estudos mostram que a predação de gado é menor em áreas com grande quantidade de presas naturais e maior onde há caça de animais selvagens. Infelizmente, a destruição do habitat, e a consequente redução no número de presas naturais, faz com que as onças-pintadas comecem a caçar animais domésticos e acabam sendo mortas por fazendeiros que querem proteger seus rebanhos. Após décadas de perseguição, o felino se tornou um dos animais mais difíceis de avistar na natureza e está na categoria vulnerável da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção.

Veja o capítulo 13 da série Pantanal: Terra das Águas

Pantanal: temporada de seca

Para-tudos floridos na temporada de seca no Pantanal- Foto: Fábio Paschoal

 Capítulo 12 da série Pantanal: Terra das Águas

Com o final das chuvas, em abril/ maio, começa a estação da seca no Pantanal. A água que inundava a planície passa a ser cada vez mais escassa e se concentra em pequenas poças onde os animais se amontoam para matar a sede.

Veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus) com filhote no capim seco – Foto: Fábio Paschoal

Tucano-toco bebendo água (Ramphastos toco) – Foto: Fábio Paschoal

Quati bebendo água (Nasua nasua) – Foto: Fábio Paschoal

Jabuti (Chelonoidis carbonaria) – Foto: Fábio Paschoal

As árvores perdem as folhas para economizar água e o que antes era uma paisagem verde e exuberante se torna marrom e árida.

Aves começam a se concentrar nas poças, onde peixes aprisionados são presas extremamente fáceis. Periquitos chegam aos bandos para recolherem as sementes deixadas pelas plantas aquáticas e os mamíferos voltam a povoar os campos. Alguns se arriscam fora das matas de cordilheira tentando matar a sede, enquanto outros espreitam as poças esperando por uma possível presa. 

Socó-dorminhoco (Nycticorax nycticorax) com peixe  – Foto: Fábio Paschoal

Príncipe-negro (Nandayus nenday) procurando por sementes – Foto: Fábio Paschoal

Lobinho (Cerdocyon thous) – Foto: Fábio Paschoal

No final de agosto/ começo de setembro, um dos eventos mais marcantes do ano se inicia: a floração das piúvas (ipês). O Pantanal fica cor de rosa por uma semana. Depois é a vez do para-tudo colorir a planície de amarelo por sete dias. Em seguida, as flores roxas do tarumã fecham o espetáculo.

Após uma semana as árvores perdem as flores e a paisagem volta a ser monocromática. 

Garça Maguari (Ardea cocoi) e flores da piúva, também conhecida como ipê-rosa- Foto: Fábio Paschoal

Piúva florida – Foto: Fábio Paschoal

João-pinto (Icterus croconotus) e flores do para-tudo – Foto: Fábio Paschoal

No auge da seca (final de setembro/outubro) os jacarés passam a vagar pela planície procurando por uma poça maior, que ainda tenha alimento disponível. Em casos extremos, podem se enterrar na lama e passar até dois meses esperando pelas próximas chuvas. Mas a situação pode ficar tão dramática que as mães chegam a comer seus próprios filhotes. É uma época de fartura para os urubus, carcarás e outros animais que se alimentam das carcaças daqueles que não conseguiram suportar as condições severas trazidas pela seca.
O vento e a poeira se tornam companheiros constantes, o capim fica extremamente seco e um raio pode começar um incêndio a qualquer momento, espalhando o fogo rapidamente. Mas, quando parece que tudo está perdido, as chuvas começam, trazendo a água que renova a vida e inicia um novo ciclo no Pantanal.
 
 

Pôr do Sol no Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

 

Pantanal: temporada de cheia

Espelho d'água na temporada de cheia - Foto: Fábio Paschoal

Espelho d’água na temporada de cheia – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 11 da série Pantanal: Terra das Águas

As chuvas começam no final de outubro/começo de novembro anunciando a temporada de cheia. O rio Paraguai e seus afluentes recebem mais água do que conseguem suportar, transbordam e transformam o Pantanal na maior planície inundável do planeta. As terras baixas são ocupadas completamente pela água e os campos de vegetação herbácea se transformam em leitos de lagos rasos e cristalinos.

Vazante sendo inundada – Foto: Fábio Paschoal

Vazante na cheia – Foto: Fábio Paschoal

Corixo na cheia – Foto: Fábio Paschoal

A volta das chuvas trás uma explosão de vida, as árvores, castigadas na estação da seca, voltam a produzir folhas e tudo volta a ser verde. Muitas aves começam a estação de acasalamento para aproveitar a abundância de frutos que serão produzidos aumentando a chance de sobrevivência dos filhotes. Os mamíferos procuram abrigo em partes mais elevadas onde podem dormir e procurar alimento ou saem do Pantanal em busca de terras secas. Já os répteis e anfíbios se sentem mais a vontade para sair.

Cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) – Foto: Fábio Paschoal

Capivara (Hydrochoerus hydrochaeris) – Foto: Fábio Paschoal

Víbora-do-pantanal (Dracaena paraguariensis) – Foto: Fábio Paschoal

Jararacussu-do-brejo (Hydronastes Gigas) – Foto: Fábio Paschoal

Sucuri-amarela (Eunectes notaeus) – Foto: Fábio Paschoal

Os campos abertos, antes habitados por veados campeiros, emas, tamanduás-bandeiras e outros animais terrestres, dão lugar aos patos, jacarés e inúmeras espécies de peixes que procuram por alimento e lugar para desova junto às plantas aquáticas multicoloridas que começam a se desenvolver.

Jacaré-do-pantanal (Caiman yacare) – Foto: Fábio Paschoal

Marreca-cabocla com filhotes (Dendrocygna autumnalis) – Foto: Fábio Paschoal

O Pantanal muda tanto que parece que estamos em um lugar completamente diferente. É difícil de descrever, mas quando o sol está brilhando e a água está calma, a paisagem é tão bonita que é possível ver o Céu aqui na Terra.

Veja o capítulo 12 de série Pantanal: Terra das Águas

O Céu aqui na Terra – Foto: Fábio Paschoal

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Mãe-da-lua: o espírito da noite

Mãe-da-lua ou urutau (Nyctibius griseus). Quando a luz da lanterna passa diretamente pela pupila da ave vemos dois olhos grandes e vermelhos. Isso acontece porque a luz bate nos vasos sanguíneos da retina e reflete a cor do sangue. Esse efeito amedrontador ajudou a criar a história do espírito da noite – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 10 da série Pantanal: Terra das Águas

Era tarde da noite, andávamos pela mata somente com lanternas, tentando fazer silêncio. Mas era impossível. As folhas secas no meio da trilha denunciavam nossa localização. Parecia que tudo estava perdido. Estávamos no Pantanal, procurando por corujas para fotografar. Andamos pra lá, voltamos pra cá, fomos até onde nosso cansaço nos permitia e nada. Era hora de voltar pra casa.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 9 da série Pantanal: Terra das Águas]

De repente ouvimos um grito horripilante! O som parecia sair de um filme de terror:

Gravação de Bradley Davis/ Creative Commons (Caso não consiga ouvir clique aqui)

Imediatamente os fachos de luz começaram a se movimentar rapidamente! Apontávamos em todas as direções, tentando descobrir qual era a fonte daquele barulho. Mas tudo que fazíamos era em vão.

Foi nesse momento que minha lanterna passou por Carlinhos, o guia local. Ele olhava para o chão e quando percebeu que havíamos parado de procurar disse: “É a Mãe da Lua. Um espírito que aparece no início da noite. Dizem que quando ela canta as crianças precisam entrar em casa e ir pra cama ou ela irá levá-las para o outro mundo. Vem aqui que eu vou te mostrar”.

Carlinhos começou a rastrear as copas das árvores balançando a lanterna de um lado para o outro. Parou em um ponto específico e pediu pra eu ficar logo atrás dele. No momento que me posicionei entendi o que ele queria dizer. Dois olhos gigantes, vermelhos como sangue, nos fitavam no meio da escuridão.

Carlinhos continuou com a explicação: “Na verdade a Mãe da Lua é uma ave, mas ela é tão parecida com um galho quebrado que ninguém conseguia descobrir o que fazia o barulho. Pensaram que era um espírito. Até hoje as mães contam a história do espírito da noite para seus filhos, e as crianças saem correndo pra cama quando o ouvem cantar”.

O mãe-da-lua-grande (Nyctibius grandis) é o responsável pelo canto que vocês ouviram no início do post. Além dele existem mais quatro espécies de urutau no Brasil – Foto: iStockphoto/Thinkstock

Fomos chegando mais perto e conseguimos ver o animal, que é muito semelhante a uma coruja.

Também conhecido como urutau, ele precisa se parecer com um galho quebrado porque passa o dia dormindo em locais abertos. Sua camuflagem é perfeita: dependendo do ângulo é quase impossível dizer onde o galho termina e a ave começa.

Quando se sente ameaçado, aumenta ainda mais sua semelhança com o tronco elevando a cabeça para cima e encostando a cauda no galho em que está pousado. Mesmo com os olhos fechados consegue ver o que está acontecendo. Duas pequenas janelas nas pálpebras funcionam como um olho mágico (aquele que você coloca na porta da sua casa pra saber quem é que está do outro lado). Graças a elas a mãe-da-lua pode ter grandes olhos – necessários para enxergar à noite quando sai para caçar insetos – sem chamar a atenção durante o dia.

Se algum dia você ouvir a mãe-da-lua cantar, não se assuste, apenas lembre-se de que é hora de colocar as crianças para dormir.

Detalhe do “olho mágico” do urutau (Nyctibius griseus). As duas pequenas aberturas nas pálpebras permitem que a ave veja o que está acontecendo sem abrir os olhos totalmente. Com isso ele mantém o disfarce de galho quebrado e sabe se o predador está chegando perto demais. Em último caso, ele voa e deixa seu ovo para trás – Foto: Fábio Paschoal

Paixão pela Lua

Em uma de minhas viagens para o Pantanal, estava guiando com Wendel, um pantaneiro típico. Ele me contou outra lenda sobre a ave: o urutau estava apaixonado pela Lua. Todas as noites, quando ela surgia, a ave cantava alegremente para declarar o seu amor. A Lua ficou lisonjeada, mas disse que seu coração já tinha dono. Ela era casada com o Sol. O urutau ficou muito triste e passou a cantar todas as noites de forma melancólica para expressar a sua dor.

Veja o capítulo 11 de série Pantanal: Terra das Águas

Pantanal: a primeira vez a gente nunca esquece

 

Eu guiando um safári fotográfico no Pantanal – Foto: Ralph A. Clevenger

Capítulo 9 da série Pantanal: Terra das Águas

Após um mês tentando decorar os nomes dos principais animais do Pantanal, em inglês e português, observando seus comportamentos e aprendendo muito com os guias locais, era a hora de guiar o meu primeiro pacote. O Éder, um guia mais experiente, estaria comigo para me avaliar.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 8 da série Pantanal: Terra das Águas]

 

Anus-brancos (Guira guira) - Foto: Fábio Paschoal

Anus-brancos (Guira guira) – Foto: Fábio Paschoal

Cabeças-secas  (Mycteria americana) no Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

Tapicurus (Phimosus infuscatus) no Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ainda estava escuro quando saímos, mas o canto dos pássaros-pretos anunciava que o dia estava para começar. Os anus-brancos se encolhiam um ao lado do outro procurando os primeiros raios de sol para se aquecer.

Cegonhas, socós e garças começavam a chegar para pegar peixes, caramujos, caranguejos e vermes nas partes rasas das baías. Um casal de corujas-buraqueiras cuidava de seu ninho na base de um cupinzeiro, os periquitinhos-da-serra procuravam por comida na entrada da mata enquanto os bugios iam para a parte mais alta das árvores para se esquentar. 

Corujas Buraqueiras (Athene cunicularia) - Foto: Fábio Paschoal

Corujas-buraqueiras (Athene cunicularia) – Foto: Fábio Paschoal

Periquitinhos da Serra (Pyrrhura devillei) - Foto: Fábio Paschoal

Periquitinhos-da-serra (Pyrrhura devillei) – Foto: Fábio Paschoal

Os bugios (Alouatta caraya) são conhecidos pelo chamado grave, que pode ser ouvido a quilômetros de distância. A espécie encontrada no Pantanal possui diferença entre os sexos: O macho é preto e a fêmea dourada. Quando um filhote do sexo masculino nasce, ele tem a coloração dourada e permanece agarrado à mãe, onde fica camuflado e fora de perigo. Quando começa a ficar independente, e consegue se defender sozinho, adquire a coloração preta - Foto: Fábio Paschoal

A fêmea do bugio (Alouatta caraya) – Foto: Fábio Paschoal

Jacarés, por todos os lados, dividiam o espaço com capivaras e cervos-do-pantanal. O silêncio só era interrompido pelos chamados das araras-azuis que cruzavam o céu voando em círculos sobre nossas cabeças como se quisessem chamar a atenção.  A cada 5 metros nós parávamos para observar uma espécie nova e foi assim durante o dia inteiro.

A arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus) é a maior arara do mundo - Foto: Fábio Paschoal

Araras-azuis (Anodorhynchus hyacinthinus) – Foto: Fábio Paschoal

Jacaré-do-pantanal (Caiman yacare): a mãe cuida de dezenas de filhotes

Jacaré-do-pantanal (Caiman yacare) cuidando dos filhotes – Foto: Fábio Paschoal

Capivara (Hydrochoerus hydrochaeris) - Foto: Fábio Paschoal

Capivara (Hydrochoerus hydrochaeris) – Foto: Fábio Paschoal

Maior espécie de cervídeo da América do Sul, o cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) vive em áreas alagadas com até meio metro de profundidade. Possui um casco característico com membranas interdigitais que é muito útil para distribuir o peso do animal sobre o solo lamacento e ainda ajuda na natação - Foto: Fábio Paschoal

Cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) – Foto: Fábio Paschoal

Então caiu a noite, e com ela veio uma garoa fina. Por mais que procurássemos, nenhum bicho queria aparecer. O tempo foi passando, a chuva apertando e a chance de vermos alguma coisa estava quase no fim. Ao chegarmos próximo à Ponte do Paizinho, onde sempre fica uma grande concentração de jacarés, o Éder sussurrou no meu ouvido: “Não mostra nada agora. A gente vai passar aqui de novo e se não vermos nenhum bicho você para aqui e fala dos jacarés.”

 

Nascer da lua no Pantanal - Foto: Fábio Paschoal

Nascer da lua no Pantanal – Foto: Fábio Paschoal

Eu procurando animais durante a focagem noturna no Pantanal – Foto: Ralph A. Clevenger

Nesse mesmo instante parei o caminhão! O Éder já estava quase tirando a lanterna da minha mão. Por alguns segundos fiquei paralisado, sem acreditar no que estava acontecendo. Estava frio, estava chovendo e nossas chances de ver alguma coisa eram realmente pequenas.

Mas lá estava ela! Sentada na nossa frente! Foi então que recuperei o fôlego e as palavras saíram da minha boca: “Jaguatirica! Jaguatirica! Jaguatirica!” Todos ficaram em silêncio. A jaguatirica ficou deitada por um tempo, depois se levantou e entrou na mata.

A jaguatirica (Leopardus pardalis) é um felino generalista. Pode ser encontrada em planícies alagáveis, como o Pantanal, em densas florestas, como a Amazônia ou ambientes mais secos, como o Cerrado. Em sua dieta estão pequenos mamíferos, répteis, anfíbios e peixes. Apesar de não estar ameaçada de extinção, são caçadas por sua pele e compradas como animais de estimação. O desmatamento é outro fator que contribui para o declínio da população da espécie - Foto: Fábio Paschoal

A jaguatirica (Leopardus pardalis) é um felino generalista. Pode ser encontrada em planícies alagáveis, como o Pantanal, em densas florestas, como a Amazônia ou ambientes mais secos, como o Cerrado. Em sua dieta estão pequenos mamíferos, répteis, anfíbios e peixes. Apesar de não estar ameaçada de extinção, são caçadas por sua pele e compradas como animais de estimação. O desmatamento é outro fator que contribui para o declínio da população da espécie – Foto: Fábio Paschoal

No momento em que ela saiu do nosso campo de visão todos se levantaram e começamos a comemorar! Foi fantástico! Meu primeiro passeio como guia não poderia ter sido melhor. É como dizem por aí: “A primeira vez a gente nunca esquece.”

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Projeto Arara Azul: da beira da extinção aos céus do Pantanal

Arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus), a maior arara do mundo – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 7 da série Pantanal: Terra das águas

Pantanal, 1989. A bióloga Neiva Guedes acompanhava um curso de conservação da natureza quando se deparou com uma árvore repleta de aves. O bando era majestoso, composto por cerca de trinta indivíduos que coloriam a paisagem com um azul vibrante. Os olhos, negros, eram destacados por um anel amarelo de cor intensa e o bico era extremamente forte, capaz de quebrar a casca das mais duras sementes. Pela primeira vez na vida, Neiva se deparava com a maior arara do mundo, a arara-azul.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 6 da série Pantanal: Terra das Águas]

Mas aquela era uma cena rara. O desmatamento derrubava acuris e bocaiuvas, as palmeiras responsáveis pela produção das sementes que servem de alimento para arara-azul. O manduvi, árvore de cerne macio que abriga mais de 90% dos ninhos da espécie, dava lugar a pastos e plantações.

Traficantes de animais escalavam as árvores que permaneciam de pé para pegar os filhotes e vendê-los, principalmente no exterior. Os animais eram transportados em caixas pequenas e superlotadas, sem água e sem comida. O estresse era grande e, na briga por espaço, as ararinhas acabavam mutiladas ou mortas. Algumas aves eram forçadas a consumir bebidas alcoólicas para se acalmar, enquanto outras recebiam um soco, para quebrar osso esterno e impossibilitá-las de cantar. A arara-azul estava à beira da extinção.

Traficantes colocam os filhotes de arara-azul em caixas superlotadas. O estresse é muito grande e muitos acabam morrendo. Segundo o 1º Relatório Nacional Sobre o Tráfico da Fauna Silvestre elaborado pela RENCTAS (Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais) de cada 10 animais capturado pelo tráfico 9 acabam morrendo – Foto Neiva Guedes

Em 1990 Neiva iniciou o Projeto Arara Azul. Com o objetivo de manter populações viáveis da espécie em vida livre no seu habitat natural e promover a conservação da biodiversidade do Pantanal, a bióloga começou a mudar a história da espécie.

A arara-azul passou a ser minuciosamente estudada. Dados sobre a biologia e reprodução eram coletados diariamente, a saúde dos filhotes era monitorada, ninhos artificiais foram instalados para aumentar a quantidade de locais disponíveis para a postura de ovos, tábuas foram colocadas em ninhos naturais que apresentavam uma abertura muito grande, deixando os filhotes mais protegidos contra predadores e as intempéries do tempo.

Em paralelo um trabalho de educação ambiental era desenvolvido nas escolas, informando às crianças das ameaças do desmatamento e do tráfico de animais. As pessoas passaram a ter orgulho das aves e informavam o projeto da localização de novos ninhos. O tráfico passou a ser quase inexistente.

Em 22 anos a população, que era de 1.500 indivíduos, chegou a mais de 5000, a arara-azul saiu da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção e voltou a pintar os céus do Pantanal.

Neiva Guedes, bióloga fundadora do Projeto Arara Azul e pesquisadora da Uniderp, mostrando ovo e filhote de arara-azul com 10 dias – Foto: Eveline Guedes

Hoje, o monitoramento continua durante o ano inteiro. Na época de reprodução (julho a março) o trabalho é intensificado. O desenvolvimento dos filhotes é acompanhado por biólogos e veterinários que verificam os aspectos sanitários, anilham, colocam microchip e coletam amostras de material biológico e sangue para análise de DNA. O manejo dos ninhos, naturais e artificiais, é feito entre abril e junho. Todo o processo pode ser acompanhado pelos turistas que se hospedam no Refúgio Ecológico Caiman, onde está localizada a base do Projeto Arara Azul.

A bióloga Daphne Nardi checa as condições de saúde de um filhote de arara-azul – Foto: Fábio Paschoal

Kefany Ramalho, bióloga do Projeto Arara Azul, verifica as condições de um filhote que nasceu em um ninho artificial – Foto: Fábio Paschoal

Mas há muito trabalho pela frente. Neiva diz que é necessário que as populações da Amazônia (aproximadamente 500 indivíduos) e do Nordeste (aproximadamente 1000 indivíduos) sejam estudadas e que haja um monitoramento de longo prazo em todas as regiões do país onde a ave ocorre, para verificar se o crescimento da espécie é sustentável ou se está acontecendo somente pelas ações realizadas pelo projeto.

Segundo Neiva, a espécie ainda é classificada vulnerável pela lista vermelha da IUCN (União Internacional pela Conservação da Natureza na sigla em inglês). Assim, os esforços do Projeto Arara Azul continuam para tentar mudar esse status.

A bióloga acha que é preciso uma fiscalização mais efetiva para controlar o tráfico no norte e nordeste do Brasil. Ela acredita que as regiões onde as araras-azuis se encontram podem ser beneficiadas pelo ecoturismo, que traz novas oportunidades de emprego para as pessoas da região, gera renda e ativa a economia local. “Creio que um dia a arara-azul sai da lista.”

Veja o capítulo 8 da série Pantanal: Terra das Águas

Os filhotes de arara-azul que estavam amontoados na caixa foram encaminhados para o Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS), onde receberam os devidos cuidados. Segundo Neiva Guedes essa foi a última apreensão de araras-azuis no Mato Grosso do Sul e ocorreu em 2004 – Foto: Neiva Guedes

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Anta: o maior mamífero terrestre da América do Sul

Anta-sul-americana (Tapirus terrestris) – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 6 da série Pantanal: Terra das águas

Existem 5 espécies de antas conhecidas pela ciência: a anta-da-montanha (Andes), a anta-centro-americana (América Central) e a anta-malaia (Indonésia) – que estão ameaçadas de extinção segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês). Em território brasileiro encontramos a anta-sul-americana, que é considera vulnerável, e a anta-pretinha, descoberta recentemente.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 5 da série Pantanal: Terra das Águas]

“A anta [Tapirus terrestris] é o maior mamífero terrestre da América do Sul. Além disso, é a jardineira de nossas florestas por ser uma excelente dispersora de sementes, contribuindo desta forma para a formação e manutenção da biodiversidade dos biomas brasileiros onde vive (Amazônia, Pantanal , Cerrado e Mata Atlântica). E tem mais: estudos recentes mostraram que a espécie tem uma quantidade imensa de neurônios, confirmando que ela é um animal extremamente inteligente. Portanto, a cultura brasileira de usar anta como xingamento, com conotação pejorativa, é completamente injusta e absolutamente infundada. Ser chamado de anta é um elogio!”. As palavras são de Patrícia Médici, Ph.D. em manejo de biodiversidade e coordenadora da Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira. O objetivo do projeto é estabelecer um programa de pesquisa e conservação da anta-sul-americana na região do Pantanal e depois expandir as ações para a Amazônia e o Cerrado.

Anta-centro-americana (Tapirus bairdii) – Foto: Santhosh Kumar/iStock/Thinkstock

Anta-centro-americana (Tapirus bairdii) – Foto: Santhosh Kumar/iStock/Thinkstock

Em agosto de 2013, a pesquisadora, em parceria com a jornalista ambiental Liana John, lançou a campanha Minha Amiga é uma Anta, desenvolvida para o público infanto-juvenil (veja o vídeo da campanha no final do post). A intenção era chamar a atenção sobre a importância da conservação da anta brasileira, despertar o orgulho pela ocorrência da espécie no Brasil e desmistificar o conceito de que “anta” é um ser desprovido de inteligência .

É possível baixar a cartilha educativa da anta brasileira, escrita por Liana John e Patrícia Medici e ilustrada pelo cartunista Luccas Longo, com informações sobre a espécie, materiais para estudo e trabalhos de escola, fotografias e ilustrações.

Tapirus kabomani é a primeira espécie de anta descoberta após Tapirus bairdii, descrita em 1865 - Foto: Divulgação

A anta-pretinha (Tapirus kabomani) é a primeira espécie de anta descoberta após Tapirus bairdii, descrita em 1865 – Foto: Divulgação

O trabalho de Patrícia é reconhecido internacionalmente. Ela foi escolhida em 2014 para o TED Fellows Program, que seleciona jovens inovadores, engajados e inspiradores e os treina para que façam palestras no TED Talks (Veja a palestra de Patrícia no final do post). O programa é uma iniciativa do movimento global TED (Technology, Entertainment and Design) – organização sem fins lucrativos dedicada ao conceito baseado em Ideas Worth Spreading (ideias que merecem ser espalhadas, na tradução literal do inglês).

Anta-da-montanha (Tapirus pinchaque) – Foto: Diego Lizcano/Creative Commons

Anta-da-montanha (Tapirus pinchaque) – Foto: Diego Lizcano/Creative Commons

Para chamar a atenção para a importância desses animais foi criado o Dia Mundial da Anta (27 de abril). Apesar de dar margem para inúmeros trocadilhos, a data tem um propósito sério: a conservação das cinco espécies de antas encontradas no planeta.

O desmatamento, a fragmentação do habitat, a competição com animais domésticos, a caça ilegal e os atropelamentos em rodovias fazem com que a população das antas continue diminuindo. Nada mais justo do que um dia para lembrar a importância de cuidar bem desses simpáticos animais

Veja o capítulo 7 da série Pantanal: Terra das Águas

Anta-malaia (Tapirus indicus) – Foto: wathanyu/iStock/Thinkstock

Anta-malaia (Tapirus indicus) – Foto: wathanyu/iStock/Thinkstock

Veja abaixo o vídeo da campanha Minha Amiga é uma Anta

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Gavião-fumaça: a ave de rapina que se aproveita de incêndios para caçar

Gavião-fumaça (Heterospizias meridionalis) – Foto de Fábio Paschoal

Capítulo 5 da série Pantanal: Terra das Águas

Gavião-caboclo, gavião-casaca-de-couro, gavião-telha, gavião-tinga… Todos esses nomes pertencem ao mesmo bicho, o Heterospizias meridionalis. Como é encontrado em vários estados do Brasil, acabou recebendo várias denominações. Porém, estou mais interessado no nome utilizado no Pantanal: gavião-fumaça.

[Veja a introdução e o sumário da série Pantanal: Terra das Águas]

[Veja o capítulo 4 da série Pantanal: Terra das Águas]

O fumaça é uma companhia constante durante os passeios pela planície pantaneira. Gosta de áreas abertas, e é avistado na beira da estrada com certa frequência. Procura por uma variedade grande de presas: pequenos mamíferos, aves, cobras, lagartos, rãs, sapos e grandes insetos.

Apesar de ser um animal comum, fascina os pantaneiros devido a um hábito interessante que lhe rendeu seu nome: quando há um incêndio, comum na época de seca, o gavião sobrevoa as labaredas e fica na fumaça. Espera pacientemente até observar um animal fugindo do fogo. A presa escapa das chamas, mas não escapa do gavião-fumaça.

Se a estratégia não der certo, o fumaça não desiste. Volta para a parte já consumida pelo fogo e procura um churrasquinho para fazer o seu almoço. Ele não é o único gavião com esse comportamento, mas acabou recebendo o título.

Os peões acreditam que o gavião-fumaça coleta galhos em brasa para alimentar o incêndio e continuar caçando, mas ainda não há nenhum estudo científico que comprove isso. Assim, a lenda continua, e é passada de geração em geração nos campos abertos do Pantanal

Veja o capítulo 6 da série Pantanal: Terra das Águas

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