SANCCOB: a luta para salvar o pinguim-africano da extinção

Pinguim-africano/ African penguin (Spheniscus demersus). Devido ao rápido declínio da população, a ave entrou para a Lista Vermelha da IUCN na categoria em perigo em 2010 – Foto: Fábio Paschoal

Capítulo 3 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

Com sua plumagem preta e branca e seu jeito desengonçado de andar em terra firme, não há como não se apaixonar pelos pinguins. Mas não se engane. Assim que entram no mar eles se transformam completamente. Parecem voar embaixo d’água, perseguindo peixes com uma velocidade impressionante.

[Veja a introdução da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

[Veja o capítulo 2 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza]

Os pinguis-africanos não são diferentes. Pescam quase que exclusivamente nas águas frias da Corrente de Benguela, podem se juntar em grupos de até 150 indivíduos e cooperam na pescaria. É a única espécie de pinguim que se reproduz no litoral da África, onde são encontrados da Namíbia até a África do Sul, em 28 colônias. Os adultos são residentes, mas alguns movimentos podem ocorrer em resposta a concentração de presas.

O pinguim-africano é a única espécie de pinguim que se reproduz na África. Esses daqui estão na colônia de Boulders Beach, África do Sul – Foto: Fábio Paschoal

No início do século 20 existiam mais de 1 milhão de casais reprodutores na África e a espécie ia bem. Como o número de aves defecando era gigantesco, havia uma grande quantidade de guano (nome dado às fezes das aves que começam a acumular) nas ilhas e no litoral e os pinguins-africanos construiam seus ninhos escavando seus próprios excrementos.

O guano contém altas concentrações de nitrogênio e é um excelente fertilizante. Por isso, começou a ser coletado e usado como adubo em plantações. Com a remoção desse substrato tão importante, os pinguins-africanos passaram a colocar seus ovos em áreas abertas onde eles são mais vulneráveis ​​ao estresse térmico, chuvas e predação. Nessa época a coleta de ovos também não era controlada e a população começou a cair rapidamente.

Sem o guano, muitos pinguins passaram a se reproduzir em local aberto – Foto: Fábio Paschoal

Em 1969 a coleta de ovos foi banida e a raspagem do guano parou em 1991 na África do Sul. Porém, os pinguins-africanos já enfrentavam (e enfrentam até hoje) outros problemas: competição por alimento com as indústria de pesca e derramamento de óleo continuam a causar o declínio da espécie.

Em 2010 a ave entrou para a categoria “Em Perigo” da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas de Extinção da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês). Hoje restam menos de 23.000 casais reprodutores e a população continua a diminuir.

Rocky, um rockhopper penguin que foi resgatado pela SANCCOB e não pôde ser reintroduzido em seu habitat natural. Hoje ele é uma das aves embaixadoras da Ong e ajuda no projeto de educação ambiental – Foto: Fábio Paschoal

SANCCOB

Nossos amigos que moram na Cidade do Cabo (Cape Town), Renata e Ralph, são muito ligados em conservação, especialmente de aves marinhas. Atualmente, Renata trabalha na Fundação Sul Africana para a Conservação de Aves Costeiras (Southern African Foundation for the Conservation of Coastal Birds – SANCCOB) e ela me convidou para conhecer o trabalho da Ong.

A SANCCOB foi criada em 1968 com o objetivo de reverter o declínio das populações de aves marinhas através do resgate, reabilitação e reintrodução de indivíduos doentes, feridos, abandonados e com complicações causadas por derramamento de óleo. O foco principal são espécies ameaçadas de extinção, como o pinguim-africano.

Algumas aves resgatas pelo SANCCOB não podem ser reintroduzidas na natureza. Esse pinguim-africano perdeu um pé e vive em um ninho artificial na Ong. Ninhos como esse foram instalados em algumas colônias para tentar suprir a falta do guano – Foto: Fábio Paschoal

O trabalho da Ong está fundamentado em seis pilares:

  • Resgate: o serviço funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana. Aves marinhas doentes e feridas, e filhotes abandonados são o principal foco. O SANCCOB também responde prontamente a derramamentos de óleo ao longo do litoral sul-africano.
  • Reabilitação e reintrodução: mais de 2400 aves marinhas feridas, doentes e com problemas relacionados a derramamento de óleo são tratadas por ano. Quando estão saldáveis, se tiverem condições, voltam para a natureza.
  • Criação de filhotes abandonados: existe uma unidade especializada que cuida do resgate e criação de ovos e filhotes de pinguins-africanos que foram abandonados pelos pais. Quando as aves estão saudáveis e prontas, são devolvidas para as colônias. Os estudos mostram que a sobrevivência dos filhotes criados pelo SANCCOB após a reintrodução é similar a dos filhotes criados em natureza.
  • Educação ambiental: aulas para crianças e adultos, incluindo visitas às instalações, apresentações e encontros com as aves embaixadoras da Ong podem ser agendados pelo site da SANCCOB
  • Treinamento: a Ong oferece estágios de 3 a 6 meses para adultos. Também há um programa de intercâmbio de tratores de zoológicos e aquários e cursos de veterinária.
  • Pesquisa: Estudos em andamento aumentam a compreensão dos pesquisadores sobre o comportamento, doenças e outros fatores que afetam a sobrevivência das espécies de aves marinhas a longo prazo.

A organização trabalha em estreita colaboração com os administradores das colônias. Quando uma ave precisa de cuidados, é levada para um dos três centros do SANCCOB na África do Sul: Cape Town, Cape St. Francis ou Port Elizabeth.

Num ano normal em que não ocorrem derrames de petróleo, a SANCCOB trata até 2 500 aves marinhas, das quais aproximadamente 1 500 são pinguins-africanos. O restante são diferentes espécies de biguás (incluindo os ameaçados bank cormorant e cape cormorant); várias espécies de trinta-réis; aves pelágicas, como albatrozes, atobás e petréis; piru-pirus, gaivotas, pelicanos e outras aves costeiras encontradas na região. Em média, 24 espécies diferentes de aves marinhas são reabilitadas todos os anos.

Desde sua criação, o SANCCOB já recebeu 95 000 aves marinhas de 54 espécies diferentes. Fica a torcida para que eles continuem com o excelente trabalho para melhorar a situação do simpático pinguim-africano.

Veja o capítulo 4 da série Cidade do Cabo: passeios para contemplar a natureza

Veja o Roteiro: 20 dias na África do Sul de carro

DICAS

  • Quer ajudar um pinguim-africano? Entre no site da SANCCOB
  • Quer ajudar um pinguim-de-magalhães (muito parecido com o pinguim-africano) no Brasil? veja o vídeo abaixo e entre no site do IPRAM (Instituto de Pesquisa e Reabilitação de Animais Marinhos)

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