Diário de bordo: Workshop Fotografia na Floresta, no Legado das Águas – Reserva Votorantim

Foto de abertura da exposição Floresta viva - Um Legado para a Humanidade - Foto: Luciano Candisani

Onça-parda olha para uma das câmeras de um Estúdio da Mata no Legado das Águas – Reserva Votorantim. A imagem estava no imaginário de Luciano Candisani desde a primeira visita ao local, quando o felino cruzou seu caminho rapidamente e desapareceu na mata – Foto: Luciano Candisani

Fui convidado pelo amigo e fotógrafo Luciano Candisani para participar da quarta edição do Workshop Fotografia na Floresta, no Legado das Águas – Reserva Votorantim. O lugar fica no Vale do Ribeira, a 120 quilômetros da cidade São Paulo, é cercado por Unidades de Conservação e faz parte do maior corredor ecológico de Mata Atlântica do país. A oferta era irrecusável. Não é todo dia que você tem a oportunidade de aprender um pouco mais sobre fotografia aliada à conservação e, de quebra, pegar umas dicas com um dos mais renomados fotógrafos de natureza do Brasil e do mundo.

Peguei minha câmera, pedi algumas lentes emprestadas, arrumei minha mala e parti para a viagem. O ônibus saiu de São Paulo em direção ao coração da Mata Atlântica levando um grupo bem heterogêneo, unido graças à paixão pela fotografia e pelo meio ambiente.

Após chegar na reserva e percorrer alguns quilômetros, avistamos uma usina hidrelétrica (UHE). Pode parecer uma ideia contraditória, mas o Legado das Águas foi criado por Antônio Ermírio de Moraes no início da década de 1950, quando a Votorantim decidiu começar a construção de UHEs na Bacia do Rio Juquiá para atender à demanda de energia da Companhia Brasileira de Alumínio. Com o passar dos anos, a empresa foi adquirindo as terras do entorno das usinas com o objetivo de proteger a floresta e as nascentes do Juquiá e, assim, garantir o suprimento de água para o funcionamento das UHEs instaladas na região.

A ideia deu certo. Segundo Frineia Rezende, gerente de sustentabilidade da Votorantim S.A. e responsável pelo Legado das Águas, cerca de 75% dos 31.000 hectares da reserva foram mantidos livres de incêndios e desmatamentos e surpreendem pesquisadores de fauna e flora  acostumados a estudar e frequentar outras áreas florestais do país  pelo bom estado de conservação. “A proteção que a gente vem exercendo aqui é efetiva e permite que esse status de conservação seja comprovado.”

Saíra-sete-cores (Tangara seledon) no Legado das Águas – Reserva Votorantim - Foto: Fábio Paschoal

Saíra-sete-cores (Tangara seledon) no Legado das Águas – Reserva Votorantim, a área tem um grande potencial para a observação de aves – Foto: Fábio Paschoal

O Legado das Águas une áreas de uso sustentável e áreas de proteção integral e gera recursos financeiros que são reinvestidos no próprio Legado. É um novo modelo de reserva, que não se enquadra em nenhuma categoria existente. “Essa é uma pauta que a gente vem trabalhando internamente e vem estruturando para levar aos órgãos competentes para ampliar essa discussão para que a gente seja legitimado”, afirma Frineia.

Não restava dúvida. Luciano havia escolhido um ótimo lugar para ministrar um workshop. E logo na palestra de abertura deixou claro sua ligação com a conservação “Eu sou um ambientalista com a câmera na mão.” E também explicou sua motivação criativa: “o que me move é a ligação dos seres vivos com o ambiente.”

Durante quatro dias visitamos cachoeiras, observamos aves emblemáticas, procuramos por anfíbios, passeamos de barco e caminhamos na floresta em busca de fotos que retratassem a Mata Atlântica e o Legado das Águas. Tudo com a orientação de Luciano, que estava sempre disposto a ajudar a encontrar a melhor forma de conseguir a imagem desejada por cada participante do workshop.

passeio de barco no Legado das Águas – Reserva Votorantim - Foto: Fábio Paschoal

Passeio de barco no Legado das Águas – Reserva Votorantim – Foto: Fábio Paschoal

Também tivemos o privilégio de conhecer os Estúdios da Mata: armadilhas fotográficas montadas por Luciano em pontos estratégicos da reserva, com equipamentos de última geração, que disparam o obturador da câmera quando o animal passa por um sensor de luz infravermelho. Flashes colocados em pontos estratégicos iluminam o ambiente e ajudam a compor o cenário.

As imagens registradas pelos Estúdios da Mata deixam uma mensagem clara: os animais não existem sem a floresta e a floresta não existe sem os animais. É impossível imaginar o Pantanal sem a onça-pintada, a Amazônia sem a harpia, a Caatinga sem a arara-azul-de-lear, o Cerrado sem o lobo-guará, os Pampas sem o gato-palheiro, a Mata-Atlântica sem o muriqui.

Luciano Candisani (à direita) mostra o equipamento necessário para montar os Estúdios na Mata durante o quarto Workshop Fotografia na Floresta, no Legado das Águas – Reserva Votorantim - Foto: Fábio Paschoal

Luciano Candisani (à direita) mostra o equipamento necessário para montar os Estúdios da Mata durante o quarto Workshop Fotografia na Floresta, no Legado das Águas – Reserva Votorantim – Foto: Fábio Paschoal

Hoje, graças a Candisani, é impossível imaginar o Legado das Águas sem a anta albina. Um dos Estúdios da Mata fez o primeiro registro fotográfico do animal na natureza em terras brasileiras. A foto teve repercussão internacional, abriu uma linha promissora para pesquisas científicas e mostrou a importância de um dos últimos refúgios de Mata Atlântica para o mundo. Mas, o maior legado dessa imagem é a mudança que ela provocou nos moradores da região. “As pessoas começaram a sentir orgulho da anta branca e passaram a valorizar mais a reserva,” conta o fotógrafo.

Anta albina, registrada por um dos Estúdios da Mata - Foto: Luciano Candisani

Anta albina, registrada por um dos Estúdios da Mata – Foto: Luciano Candisani

Segundo Garth Lenz, membro da iLCP (Liga Internacional de Fotógrafos Conservacionistas, na sigla em inglês), para a fotografia ajudar na conservação é necessário produzir imagens que provoquem mudanças e ter a certeza de que essas imagens cheguem aos olhos das pessoas que precisam vê-las. Certamente, Candisani está percorrendo esse caminho.

Saio do Legado das Águas com as esperanças renovadas e com a certeza de que a fotografia é uma importante aliada da conservação da natureza. Valeu Luciano!

Turma da quarta edição do workshop "Fotografia na Floresta", no Legado das Águas - Reserva Votorantim - Foto: Luciano Candisani

Os entusiastas da fotografia: turma da quarta edição do Workshop Fotografia na Floresta, no Legado das Águas – Reserva Votorantim – Foto: Luciano Candisani

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