Expedição de National Geographic luta para salvar a maior planície inundável da África

O rio Okavango desagua no meio do deserto do Kalahari para formar a maior planície inundável da África. Suas águas nunca chegam ao oceano - Foto cortesia do Laboratório de Ciências e Análises do Centro Espacial Johnson da NASA/Domínio Público

O delta do Okavango pode ser visto do espaço. O rio nasce nas montanhas de Angola e desagua em Botswana, no meio do deserto do Kalahari, onde forma a maior planície inundável da África. Suas águas nunca chegam ao oceano – Foto: cortesia do Laboratório de Ciências e Análises do Centro Espacial Johnson da NASA/Domínio Público

O delta do Okavango é um dos últimos refúgios da África. Uma vez por ano as chuvas aumentam o volume do rio, que percorre um grande caminho antes de chegar à Botswana. Porém, ao contrário da maioria dos rios, o Okavango não chega ao oceano. Ele desagua no meio do Kalahari para formar a maior planície inundável do continente. O lugar se transforma em um paraíso para a vida selvagem. Peixes invadem as planícies, insetos saem de suas tocas subterrâneas e servem de banquete para as aves. Grandes herbívoros, como búfalos, zebras e elefantes, começam a chegar e são esperados por leões, leopardos, mabecos, guepardos e outros predadores. É uma época de fartura para todos os animais africanos.

Porém, esse santuário está ameaçado. Embora o delta esteja protegido, as nascentes, localizadas nas montanhas de Angola, estão vulneráveis. A região está cheia de minas terrestres, colocadas ali durante as quase três décadas de guerra civil no país.

Hipopóstamos no Okavango - foto: James Kydd

Hipopóstamos no Okavango – foto: James Kydd

Com o final dos conflitos em 2002, começou a remoção das minas, os antigos refugiados de guerra começaram a retornar a suas antigas casas e a floresta, que é essencial para a manutenção das nascentes do Okavango, passou a ser desmatada para dar lugar a plantações. Com a segurança oferecida pelas minas acabando gradualmente, surge uma questão: será possível substituir essa proteção acidental com soluções ambientais sustentáveis?

O Okavango Wilderness Project começou em 2011 com o objetivo de mostrar a importância das nascentes para a sobrevivência do delta, apoiar o desenvolvimento do turismo, a conservação da biodiversidade, fazer a gestão de áreas protegidas, preservar os ecossistemas em toda a Bacia do Rio Kubango-Okavango e expandir a área considerada Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO. O projeto realiza expedições anuais para coleta de dados importantes para a conservação da Joia do Kalahari. James Kydd, o fotógrafo das expedições, alerta “Se as nascentes não estão protegidas, as consequências para o delta do Okavango, o seu povo e a vida selvagem podem ser catastróficas.”

Steve Boys (esquerda), coordenador do projeto, e Chris Boys, líder da expedição percorrem canais com as mekoros , canoas tradicionais do povo Ba'Yei . Elas são pilotadas na parte de trás, com uma vara longa conhecida como um ngashi. Este é transporte escolhido pela equipe através dos cursos de água do Okavango. Elas percorrem os canais com muito pouca perturbação. Isso permite monitorar a vida selvagem sem o impacto de um barco a motor - Foto: James Kydd

Steve Boys (esquerda), coordenador do projeto, e Chris Boys, líder da expedição (direita) conduzem suas mekoros, canoas tradicionais do povo Ba’Yei . Elas são pilotadas na parte de trás, com uma vara longa conhecida como ngashi. Este é transporte escolhido pela equipe através dos cursos de água do Okavango. As mekoros percorrem os canais com muito pouca perturbação. Isso permite monitorar a vida selvagem sem o impacto de um barco a motor – Foto: James Kydd

Na semana passada (21 de maio) começou a expedição de 2015. Nomeada Into the Okavango e coordenada por National Geographic, a equipe partiu das montanhas de Angola e iniciou uma jornada para percorrer toda a extensão do rio Okavango em canoas mekoro.

Durante 90 dias, cientistas, documentaristas, fotógrafos, jornalistas e homens da tribo Ba’Yei, vão descer 1900 quilômetros rio abaixo enquanto coletam dados sobre insetos, peixes, aves, répteis, anfíbios e mamíferos e realizam avaliações de qualidade da água e exames topográficos da paisagem. Um painel solar, transmissores de satélite e outros equipamentos high tech permitem compartilhar essas informações em tempo real. Assim, pessoas de qualquer parte do mundo podem acompanhar a jornada enquanto ela se desenrola. É só acessar o site www.intotheokavango.org.

Os exploradores emergentes de National Geographic Gregg Treinish (na frente) e Jer Thorp (atrás), juntamente com o Ba'Yei Lelamang Kgetho (centro), conduzem suas mekoros e seus suprimentos por pequenos canais. Quando a água se esgota, a equipe é forçado a sair das canoas, empurrá-las através de lodo e lama, retirar sanguessugas e plantas afiadas que podem cortar a pele - Foto: James Kydd

Os exploradores emergentes de National Geographic Gregg Treinish (na frente) e Jer Thorp (atrás), juntamente com o Ba’Yei Lelamang Kgetho (centro), conduzem suas mekoros e seus suprimentos por pequenos canais. Quando a água se esgota, a equipe é forçado a sair das canoas, empurrá-las através de lodo e lama, retirar sanguessugas e plantas afiadas que podem cortar a pele – Foto: James Kydd

As análises da equipe confirmaram que a água do Delta é limpa e potável. Ela passa por um sistema gigantesco de filtragem composto por areia e raízes de plantas - Foto: James Kydd

As análises da equipe confirmaram que a água do delta do Okavango é limpa e potável. Ela passa por um sistema gigantesco de filtragem composto por areia e raízes de plantas – Foto: James Kydd

Para Jer Thorp, data artist da expedição, o compartilhamento de dados em tempo real é uma inovação. “A razão pela qual cientistas fazem expedições é para coletar dados que nenhum outro cientista tem. Com o nosso projeto nós invertemos isso. No mesmo momento em que coletamos nossas informações em campo, elas ficam disponíveis, não apenas para a nossa equipe, mas para qualquer outra equipe de pesquisa que talvez não tenha verba para ir ao Okavango,” disse em palestra para a série National Geographic Live. Thorp complementa: “Nós queremos produzir uma base de dados para todos. Para professores, alunos, artistas, designers, pesquisadores, para qualquer pessoa que se interesse em usar essas informações. Nossas viagens para o delta são importantes, mas elas irão ter um impacto limitado se não conseguirmos divulgar os resultados para todo o mundo.”

Corujas, bacuraus, sapos e elefantes formam o coral enquanto os exploradores passam a noite ao redor do fogo . Muitos destes sons foram gravados e compartilhados no Twitter (@intotheokavango) - Foto: James Kydd

Corujas, bacuraus, sapos e elefantes formam o coral enquanto os exploradores passam a noite ao redor do fogo . Muitos destes sons foram gravados e compartilhados no Twitter (@intotheokavango) – Foto: James Kydd


Também é possível fazer perguntas via Twitter, ver imagens pelo Instagram (ambos @intotheokavango), seguir as coordenadas de GPS e até monitorar o batimento cardíaco dos integrantes do grupo enquanto eles passam por uma manada de elefantes ou um grupo de leões. Para Kydd as mídias sociais são importantes para que expedições como esta, geralmente só para cientistas, possam envolver a todos. “Qualquer pessoa que leia sobre a expedição vai ajudar na proteção do Okavango toda a vez que compartilhar as nossas novidades e posts. Através das mídias sociais, todos os apaixonados pela vida selvagem podem participar e ajudar a criar consciência sobre o problema enfrentado pelo Delta.” E completa “Envolver os brasileiros nessa jornada é maravilhoso. Em um futuro próximo, espero fazer algo parecido no Pantanal junto com o Mário Haberfeld.” [coordenador do Onçafari, projeto mencionado aqui no post No rastro da onça-pintada]

O fotógrafo segue otimista: “Imagino quantos de nós já teve o privilégio de vivenciar um lugar verdadeiramente selvagem… Esses lugares estão desaparecendo, isso é claro, mas não é nosso desespero que irá ajudar a preservá-los. É nossa esperança.”

Exploradores acampam no delta de Okavango ao lado de um antigo baobá com idade estimada em mais de 3 mil anos - Foto: James Kydd

Exploradores acampam no delta de Okavango ao lado de um antigo baobá com idade estimada em mais de 3 mil anos – Foto: James Kydd

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One thought on “Expedição de National Geographic luta para salvar a maior planície inundável da África

  1. PARABÉNS PELA EXPEDIÇÃO. É UM LUGAR LINDO E CHEIO DE VIDA. APESAR DE SER UM TRABALHO, VOCÊS ESTÃO AJUDANDO O NOSSO PLANETA A SOBREVIVER A TANTAS CRISES. SE UM DIA EU PUDESSE IRIA AJUDÁ-LOS E TAMBÉM ME DIVERTIRIA MUITO . CONTEMPLAR ESSA MARAVILHOSA NATUREZA. OBRIGADO PELA AJUDA E CONTINUE A NOS OFERECER INFORMAÇÕES E BELOS CENÁRIOS DA VIDA SELVAGEM. ESTOU MUITO FELIZ COM ESSA NOVA ETAPA DA NATIONAL GEOGRAPHIC.

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